sábado, 18 de julho de 2026

"Salvar o Fogo", Itamar Vieira Junior

 


“Salvar o Fogo”, Itamar Vieira Junior, 2023

Antes de me lançar neste “Salvar o Fogo” e a seguir no “Coração sem Medo”, voltei à leitura de “Torto Arado” que tinha lido há quatro anos. Queria recordar um livro que tinha amado, para melhor me preparar para a abordagem da trilogia de Itamar Vieira Junior. “Salvar o Fogo” é soberbo, uma escrita mágica que nos leva ao Brasil sofrido da Tapera do Paraguaçu.

O centro da narrativa é a história de uma mulher que rejeita a sua maternidade, que decide entregar o fruto da violação às águas do Paraguaçu.  Um parto em noite de lua cheia, assim começa “Salvar o Fogo”.

A Tapera, onde Mundinho e Alzira criaram os seus filhos – Raimundo, Humberto, Joaquim, Zazau, Mariinha e Luzia – é um lugar marcado pela pobreza, sem futuro, de onde os rapazes partem para a cidade em busca do futuro, ou as meninas partem para casar. “O destino das meninas era o de serem levadas de suas famílias para cuidarem de homem e de casa, antes mesmo de se tornarem mulheres.” (pág. 201) Muitas vezes para nunca mais voltarem, ou apenas para a despedida do pai ou da mãe moribundos. Luzia é a única que não parte, a que está marcada com o anátema de ter poderes mágicos, de ser feiticeira e de transportar consigo o Mal.

O povo pobre que trabalha a terra recebida dos seus antepassados é espoliado e desapossado das suas roças por gente sem escrúpulos a mando dos que querem constituir grandes propriedades. “Os pobres não tinham direito sequer à própria cova. A terra jamais seria dos pobres, nem mesmo depois de mortos.” (pág. 230) Para além dos senhores da terra, é a Igreja que manda na Tapera. O símbolo material do seu poder é o Mosteiro, a escola do Mosteiro, o abade Tomás e os cobradores a mando da Igreja, implacáveis a cobrar ao povo um imposto indevido. Além disso, é todo um sistema de opressão, de violação de direitos, de abuso, de apagamento das crenças e da cultura ancestral - “tudo coisa de gente índia e preta” (pág.142) - que faz com que a Igreja tenha as mãos manchadas de sangue, servindo-se da ignorância e do temor do povo para o virar contra si próprio, em vez de se rebelar contra quem o oprime.

As vidas dos “despossuídos” (pág. 239) da Tapera são vidas marcadas pela violência, sofrimento e resistência. Na Tapera há mulheres que morrem de melancolia, mulheres que engolem a raiva e se submetem para dar um futuro melhor aos filhos, mulheres que só têm possibilidade de viajar quando se tornem viúvas, mulheres que tapam a boca porque não têm dinheiro para pôr os dentes que lhes faltam, mulheres que são apedrejadas porque são apontadas como o símbolo do Mal, mulheres que enfrentam os homens que lhes roubam as terras, mulheres solidárias, mulheres que perdem o medo e se libertam. São sobreviventes e guerreiras.

A última parte do romance – A alma selvagem – entrelaça de forma magistral a história do Brasil, a colonização, a escravização, o passado e o presente, o antes e o agora, as narrativas dos diferentes narradores e protagonistas e em tempos diferentes. Ao ler as histórias destas mulheres e destes homens não consegui deixar de recordar a fantástica exposição Complexo Brasil acolhida na Fundação Calouste Gulbenkian neste ano e de recordar o manto de penas com que Luzia se cobre no final do romance, quando se dirige ao local da terra que era do pai: “Seu nome é coragem, e já não teme a morte.” (pág. 334)

17 de Julho de 2026

 

 

 

 

 


sábado, 11 de julho de 2026

"Perdeu-se Relógio de Senhora", Alice Brito

 




“Perdeu-se Relógio de Senhora”, Alice Brito, 2026

 

Este é o mais recente livro de Alice Brito e, para quem já leu os outros livros desta autora, vai reconhecer em pleno o seu estilo, a linguagem, os temas, a personalidade da escrita e também a frescura e novidade que os seus livros sempre trazem. Frases curtas, incisivas, certeiras. Como não podiam faltar, a cidade de Setúbal e José Afonso fazem parte integrante deste quarto romance de Alice Brito. E a voz da narradora, sem papas na língua, a pôr o dedo na ferida num tempo de retrocesso, de negação, de saudosismo é, certamente, uma marca de água da escrita de Alice Brito.

“Perdeu-se Relógio de Senhora” começa assim: “Tinha-se muita sede por esses tempos” (pág. 11). O romance traz-nos as vidas de três mulheres nascidas em tempos diferentes do século passado e em terras diferentes, as quais, por mero acaso, vão partilhar um apartamento na Duque d’Ávila em Lisboa. As múltiplas referências ligadas às suas vivências e percursos ao longo dos anos ajudam-nos a contextualizar aquele(s) tempo(s) e reflectem um cuidadoso trabalho de investigação que nos permite recordar o Portugal da segunda metade do século passado, como também as importantes lutas operárias e as transformações sociais anteriores. Um Portugal com “muita sede” que subalternizou as mulheres, sujeitou o povo a uma feroz repressão, onde o medo e a hipocrisia medraram - “um país trágico” (pág. 132) - mas em que a luta de classes nunca deixou de existir e que acabou por desembocar na “década de espanto” (pág. 221) quando finalmente Beatriz, Benvinda e Bia, tão diferentes, se encontraram e partilharam uma casa em comum.

Finalmente o 25 de Abril. “Há dias e dias. E aquele dia, um dia líquido em que se matou a sede, por muita tropelia e análise variada e avariada que se lhe faça, resgatou do pesadelo todo um povo que só queria ser gente. Gente a sério.” (pág. 315)

Este livro é uma necessidade num tempo em que comemoramos os 50 anos da liberdade e nos confrontamos com a falta de vergonha, com o desaforo da mentira e todos os tiques da subserviência à extrema direita saudosa do fascismo. Mas é também um grito de esperança e de amor a esse “dia de ouro na memória de quem penou o viver antes.” (…) “Falar de Abril, sem lhe juntar a palavra liberdade, ou alegria, ou coragem é o mesmo que trair um amigo pelo esquecimento, pela omissão ou pelo desprezo.” (pág. 316)

Ler este livro é continuar a dialogar com a acutilância e clareza da escrita de Alice Brito. Para quem ainda não conhece a obra desta autora defensora da causa feminista, é o incentivo para a descobrir, começando por “As Mulheres da Fonte Nova”, “Um romance histórico arrebatador sobre a dor e a sobrevivência das mulheres de todos os tempos”, transcrevendo as palavras de Cristina Carvalho num artigo no Jornal de Letras.

27 de Junho de 2026

Almerinda Bento

 

 

 

 

domingo, 28 de junho de 2026

"O Quarto de Giovanni" , James Baldwin

 


“O Quarto de Giovanni”, James Baldwin, 1956

Há muito que tinha o nome de James Baldwin como referência da literatura americana do século passado e voz forte na luta pelos direitos cívicos, contra o racismo e a homofobia. Acontece que foi através de “O Quarto de Giovanni” que me estreei na leitura deste autor negro e homossexual e, embora neste livro as suas personagens não sejam negras, ele versa a homossexualidade e a homofobia. Se nos dias de hoje os direitos da comunidade homossexual já fizeram um grande caminho, em meados do século passado, quando James Baldwin escreveu este livro, a homossexualidade ainda era criminalizada e patologizada em muitos países do mundo, nomeadamente nos Estados Unidos da América.

David, o narrador, teve em jovem uma relação ocasional homossexual que quis esquecer. Vergonha, medo, a impossibilidade de esquecer essa experiência levam-no a decidir deixar os EUA e partir para França, numa tentativa de fugir do seu próprio eu. Tentativa vã. É com desconforto e amargura que vive a sua condição homossexual, incapaz de resistir, numa postura ambivalente de culpa e ódio, sonhando por libertar-se e seguir uma vida heteronormativa, ao mesmo tempo que reconhece que toda a vida não mais fez que mentir a si próprio. Esta condição de homofobia internalizada está muito bem retratada neste narrador contraditório que tenta sobreviver, ajustando-se a uma sociedade hipócrita, preconceituosa, homofóbica e profundamente misógina.

O próprio quarto de Giovanni, com o qual David tem uma relação breve, pode ser considerado uma personagem que ajuda a caracterizar o desconforto homofóbico do narrador - sujo, desarrumado e sem privacidade – mesmo que Giovanni o tente “melhorar”, criando um espaço na parede para arrumar livros…

Não posso deixar de referir o final do livro, a condenação de Giovanni apenas aflorada e não explicitada na primeira parte, episodicamente referida ao longo do livro, que é descrita pelos olhos de David, enquanto faz as malas e se prepara para partir: os últimos momentos de Giovanni prestes a ser executado pela guilhotina. Brutal e magistral. Pensar que a pena de morte pela guilhotina só foi abolida em França em 1981!


“… Talvez não goste muito de mulheres, na verdade. Mas isso não me impediu de fazer amor com muitas e de amar uma ou duas. Mas a maior parte do tempo… a maior parte do tempo fiz amor apenas com o corpo.

- Isto parece-me muito solitário – disse. Não tinha de todo previsto dizer isto.

E ele não esperava ouvi-lo. Olhou para mim, ergueu a mão e acariciou-me o rosto.

- Sim, e não estou a querer ser méchant quando falo de mulheres. Respeito, e muito, as mulheres, pela sua vida interior, que não é como a de um homem.

- As mulheres não parecem gostar dessa ideia.

- Oh, essas mulheres absurdas que andam agora por aí, cheias de ideias e de disparates julgando-se iguais aos homens, quelle rigolade!, precisam se ser copiosamente espancadas para perceberem quem manda no mundo.

Ri.

- As mulheres que conheceste gostavam de ser espancadas?

Ele sorriu.

- Não sei se gostavam. Mas uma sova nunca as fez fugir. – Rimo-nos ambos. “(pág. 94)

 

10 de Junho de 2026

 


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Persépolis, Marjane Satrapi

 


“Persépolis”, Marjane Satrapi, 2007

 

Marjane Satrapi (1969-2026). Falou-se e escreveu-se muito sobre ela há duas semanas, aquando da sua morte, com 56 anos. Avessa que sou a “histórias aos quadradinhos”, foi preciso ser incentivada por um dos clubes de leitura que sigo, que escolhera a leitura da novela gráfica “Persépolis” e ter recebido finalmente o aviso da Biblioteca Municipal de que já tinha o livro disponível para o poder levantar, que finalmente me lancei na leitura da famosa novela gráfica da ilustradora, cineasta e escritora iraniana. E que assombro. O meu preconceito impedira-me de apreciar há mais tempo esta maravilhosa autobiografia que é a “história de uma infância e a história de um regresso.”

Além de a mancha gráfica ser muito forte, expressiva e apelativa, a história é corajosa, muito divertida e dá-nos um retrato de uma sociedade e de um povo sobre o qual a informação que é veiculada é, regra geral, deturpada e enviesada. Na Introdução que é uma breve resenha da história do Irão, sobre o qual geralmente só temos a imagem do xá, da sua queda em 1979, aquando da Revolução Islâmica, escreve-nos a autora: “Desde então, esta antiga e grandiosa civilização tem sido quase sempre associada ao fundamentalismo, ao fanatismo e ao terrorismo. Como iraniana que viveu mais de metade da sua vida no Irão, sei que esta imagem está muito longe da verdade. É por isso que escrever «Persépolis» foi tão importante para mim. Acredito que uma nação inteira não deve ser julgada pelos crimes de uns quantos extremistas. Também não quero que aqueles iranianos que perderam a vida nas prisões defendendo a liberdade, que morreram na guerra contra o Iraque, que sofreram às mãos de vários regimes repressivos ou que foram forçados a abandonar as suas famílias e a fugir da sua pátria sejam esquecidos. Podemos perdoar, mas não devemos nunca esquecer.” (pág. 8)

Como escrevi acima, fiquei rendida a esta novela gráfica. A autora começa por nos falar sobre o momento em que ela e todas as meninas da sua idade foram obrigadas ao absurdo do uso do véu, quando viu a escola que era mista passar a ser segregada por sexo, o encerramento das universidades, a resistência através de manifestações contra o fundamentalismo e a repressão. Marjane teve a sorte de nascer e ser educada numa família com tradições de resistência ao regime opressivo do Xá, do pai que sempre a esclareceu nas suas dúvidas, desmontando as narrativas falsas dos livros escolares e sobretudo tendo a preocupação de que a memória da família não se perdesse, nomeadamente a memória do tio assassinado pelo regime. Numa fase de crescimento, confronta o que lê nos livros com a realidade, inclusivamente a situação de privilégio social da família detentora de um Cadillac e com uma criada que foi trabalhar para casa dos pais, aos 8 anos. O livro consegue ser muito divertido, porque traz a ingenuidade da criança influenciada pela religião e com o sonho de ser profeta…

Com a guerra com o Iraque, todo o ambiente se degrada rapidamente e a repressão intensifica-se. Os jovens mortos na guerra são transformados em mártires pelo regime, a vida do povo iraniano degrada-se profundamente e assiste-se ao apertar da vida social com restrições e proibições que vão fomentar não só as denúncias e a repressão, mas também a corrupção dos guardas da revolução. Os sinais de rebeldia da autora levam à sua expulsão da escola que frequenta e os pais tomam a difícil decisão de enviar a jovem Marjane de 14 anos para a Áustria.

A autora é bastante exaustiva na caracterização do que é a vida de uma jovem numa fase tão delicada do seu crescimento, sendo estrangeira, refugiada, sem suporte familiar, com problemas de afirmação da sua identidade iraniana, num país em que a extrema direita está a crescer e em que a xenofobia é uma realidade.  É a lembrança da avó e os seus ensinamentos que a salvam, nos momentos mais difíceis.

No regresso a Teerão vai confrontar-se com a opressão que a obriga a voltar a pôr o véu, e por toda a parte, na rua, os murais omnipresentes trazem-lhe a culpa e fazem-na sentir-se “rodeada pelas vítimas de uma guerra a que tinha fugido” (pág. 261) quatro anos antes. Mas ela é rebelde, insubmissa e corajosa e consegue ultrapassar o choque e a depressão face a uma sociedade profundamente esquizofrénica que sobrevive dividida entre aquilo que é obrigada a exibir em público e o que vive entre as quatro paredes da casa, nomeadamente no que os guardiões da revolução consideram imoral e decadente do ponto de vista dos costumes e dos relacionamentos entre sexos.

Após um casamento em que não foi feliz nem se sentiu realizada enquanto pessoa, pede o divórcio e, desta vez, é Marjane que decide partir para França. Estava-se em 1994. Era a despedida definitiva do seu amado país que, apesar da sua beleza, das memórias de infância, dos locais ligados à sua família e à sua história pessoal, era uma prisão para as mulheres, retirando-lhes quaisquer direitos.

Fiquei fascinada pelo livro e quero ver o filme que também foi realizado pela autora, o qual foi nomeado na categoria de Melhor Filme de Animação aos Óscares de 2008, tendo também recebido em 2007 o prémio do júri do festival de Cannes.

Uma pena a morte tão prematura duma mulher tão inspiradora e talentosa.

16 de Junho de 2026


terça-feira, 26 de maio de 2026

"Galveias", José Luís Peixoto


 (Republico aqui o texto que escrevi sobre este livro, quando o li em 2015)

“Galveias”, José Luís Peixoto, 2014

Mais um excelente livro de um jovem escritor português. “Galveias” teve um pré-lançamento em Setembro de 2014, no dia dos 40 anos do autor e é uma homenagem à sua terra natal e ao imaginário rural que marca profundamente a sua escrita.

A acção está balizada entre Janeiro e Setembro de 1984. Precisamente nove meses, o tempo de uma gestação. “Uma coisa sem nome” chega durante a noite a Galveias e vai impregnar o ar da terra, tornando-se omnipresente na vida dos galveenses. O cheiro permanente a enxofre, o sabor amargo no pão são presenças inexplicáveis, sendo o pano de fundo das diversas histórias das personagens retratadas neste livro. “A coisa sem nome” traz uma chuva repentina e inclemente durante sete dias seguidos, a que se seguem nove meses de seca. Para fazer face à imensa seca, o padre Daniel acaba por aceder a um ritual considerado milagroso de fazer uma missa, seguida da distribuição de papas de milho a todos os habitantes, aguardando que se concretize o milagre tão necessário. 

“Galveias” é um ciclo de vida, um ciclo que começa com um acto de amor protagonizado pelos Sem Medo e termina com o nascimento de uma menina filha do casal, que restitui aos habitantes a memória do tempo sem o cheiro pestilento a enxofre. “Galveias” é um painel muito vasto de personagens que vivem naquela terra, mas que podem viver em qualquer aldeia ou vila do país. 

As personagens e as suas vidas entrelaçam-se ao longo da narrativa, vão desvendando segredos, partilham com o leitor os seus rancores, sonhos, fantasias, fragilidades. Há um tom de dureza nas relações que se estabelecem, os ciúmes, a maledicência própria dos lugares pequenos, a violência física, a tragédia e a morte que pairam sobre Galveias, mas também há lugar para a reconciliação e para o amor improvável, como acontece com Justino e o irmão o senhor Cordato, desavindos durante cinquenta anos ou Rosa Cabeça e Joana Barreta. O carteiro Joaquim Janeiro ligado às memórias da guerra na Guiné, que ciclicamente volta a Bissau onde deixou mulher e filhos, a quem desfia as histórias dos seus conterrâneos, deixando-os presos às suas palavras e para quem Galveias “era um lugar imenso”. A professora, uma estranha vinda de fora, cujo voluntarismo é considerado sobranceria e que é “castigada” e violentada. As mulheres que querem o melhor para os seus filhos, mesmo opondo-se aos maridos, ou aquelas que tudo fazem para dar um sentido e uma vida digna aos filhos com incapacidades físicas ou mentais. As prostitutas, seres humanos com emoções, com sentimentos, ignoradas e discriminadas, mas a quem todos recorrem para comprar o pão, o único que consegue não ter o terrível sabor a enxofre que contaminou tudo e todos. Isabella, desejosa de regressar ao Brasil natal, mas irremediavelmente presa a Galveias por amor a um homem. O padre Daniel dominado pelo alcoól e cujas homilias são verdadeiros sermões para si próprio. 

E depois há os cães, leais aos seus donos, escorraçados e maltratados, que vagueiam pela terra à procura de uma sombra, de um degrau para descansar, de algum petisco que pode ser a sua morte. Podem ser o único amigo de alguém que vive só, surgem como os únicos que conhecem segredos inconfessáveis e povoam Galveias como verdadeiras personagens. 

O nascimento da menina no final do livro é o sinal de esperança na vida de Galveias. “Tinha o cheiro normal das crianças acabadas de nascer. Não cheirava a enxofre”. … “Há muitas formas de estar morto”. … “A coisa sem nome conservava ainda o seu mistério, talvez nunca viesse a perdê-lo, mas as ruas estavam já cheias de gente a caminhar na sua direcção. Galveias não pode morrer.”

5 de junho de 2015


quarta-feira, 20 de maio de 2026

Viver com Homens, Manon Garcia



“Viver com Homens: Reflexões sobre o Caso Pelicot” – Manon Garcia, 2025

“Viver com Homens: Reflexões sobre o Caso Pelicot” é um importante trabalho etnográfico de extrema actualidade, num tempo em que impera o ódio às mulheres e a impunidade dos discursos misóginos ampliada livremente pelas redes sociais. A autora, Manon Garcia é uma filósofa e pensadora feminista com estudo e reflexão sobre questões feministas e sobre “submissão” e “consentimento”, que sentiu a urgência de escrever sobre este caso que abalou a sociedade e que ela acompanhou ao longo dos cerca de quatro meses que demorou o julgamento de Dominique Pelicot e dos cinquenta arguidos que violaram Gisele, com a conivência do marido.

Antes do mais, quero referir a coragem de Gisele Pelicot, ao decidir que o seu caso não seria julgado à porta fechada, dado o melindre da situação. Foi ela que, depois de visionar os vídeos que o marido fizera ao longo de anos, organizados metodicamente e que identificara com o nome “Abusos”, decidiu que o julgamento tinha de ser público. Claro que a isso não é alheia a existência do movimento #Me Too e dos movimentos feministas que permitiram uma atitude que seria altamente improvável num contexto em que a força das organizações e dos movimentos feministas não existisse. “Desde o início do processo, Gisèle Pelicot é descrita às portas do tribunal como uma heroína, um ícone, uma mulher de uma rectidão sem igual.” (pág. 119) Se Gisèle Pelicot pode ser considerada “uma boa vítima” – é uma mulher de idade, educada e sabe falar a linguagem das instituições policial e judicial – a verdade é que houve momentos em que a justiça a tratou mal, insinuando que ela teria consentido, para além da “vitimização secundária” a que foi sujeita e que a levou a fazer esta afirmação: “Tenho a impressão de que a culpada sou eu, e que atrás de mim estão as cinquenta vítimas.” (pág. 122)

Provavelmente este caso de violações colectivas não teria sido descoberto, se Dominique Pelicot não tivesse sido “detido quando filmava por baixo das saias de mulheres no Intermarché de Carpentras. O vídeo do segurança que o interpelou nesse dia tornou-se viral: sem ele o caso Mazan não existiria, sem ele Gisèle Pelicot talvez tivesse acabado por morrer em consequência das enormes doses medicamentosas que o marido lhe ministrava.” (pág. 105) E isto leva-nos a pensar no que fica no silêncio, no que nunca se vem a saber, para além do que nunca é denunciado, do que nunca é punido. Este caso de violação colectiva com inúmeras provas concretas, que foi julgado e punido, veio ligado à suspeita de incesto que ficou por apurar relativamente à filha e às noras de Dominique, por falta de provas.

O caso Pelicot altamente mediatizado é um problema social e não um mero episódio. O ódio às mulheres passou a ser explícito e largamente difundido a partir de influenciadores com milhares de seguidores em várias plataformas e redes sociais.  Refutamos a culpabilização das mulheres na sua luta pela igualdade, na não aceitação da submissão como comportamento expectável, normalizado e banalizado. No capítulo “Masculinidade(s)”, Manon Garcia faz referência a um jovem neonazi trumpista que escreveu na plataforma X, no próprio dia da eleição de Trump, o slogan Your body, my choice”, num claro ataque ao direito ao aborto, o qual teve cem milhões de visualizações. Num artigo de opinião de Luísa Semedo, investigadora, doutorada em Filosofia Política e Ética, de 14 de Maio no jornal “Público” – O que “eles fazem entre quatro paredes” (não me) interessa? – a cronista escreve: “É o caso dos grupos de Whatsapp e Telegram em que homens como Dominique Pelicot drogam, violam, filmam as companheiras, mas também partilham as imagens. Em março de 2026, uma investigação da CNN revelou o que ficou conhecido como a «online rape academy», um espaço em que homens de vários países trocavam conselhos sobre sedativos e dosagens, partilhavam vídeos de mulheres inconscientes e vendiam o acesso a esses conteúdos. Em Portugal, o PÚBLICO documentou um grupo de Telegram, com perto de 70 mil membros, em que circulavam imagens de mulheres fotografadas sem o seu consentimento, muitas vezes enquanto dormiam, num dos tópicos mais ativos chamado “Esposas” ou ainda “Família” ou “Espiar em Casa”. Assustadoramente, confirma-se que o lugar mais inseguro é mesmo dentro de casa e que “saber e ver-se como violável de um momento para o outro é uma experiência específica da feminilidade. As raparigas e as mulheres são criadas com a ideia de que a ameaça está sempre lá, que têm de se adaptar, não podem andar sozinhas na rua, não podem ser demasiado sexy, têm de andar depressa, baixar os olhos, curvar o peito, não sorrir. Ter cuidado com o número de copos que bebem quando saem, não deixar sozinha a amiga alcoolizada, verificar a matrícula do Uber. «Mandas-me mensagem quando chegares?»” (pág. 139) pode ler-se no capítulo “Violável”.

O livro é perturbador e bastante completo na caracterização da personalidade perversa, doentia de Dominique Pelicot. Se na mensagem enviada para angariar violadores “Procuro cúmplice perverso para abusar da minha mulher adormecida, em violação colectiva, em minha casa. Ela toma todos os dias um comprimido para dormir, nem sequer te verá. Bela puta pudica que não quer trios” (pág. 63) Dominique mostra absolutamente ao que vai, colaborando activamente com os violadores, igualmente se mostra colaborador com a justiça em todo o processo, referindo-se a Gisèle como “o seu amor, a sua santa, que não ama outra mulher senão ela, que a deveria ter protegido…” (pág. 132), mantendo ao longo dos quatro meses do processo sempre o mesmo discurso “Sou um violador como estes que estão presentes nesta sala.” (pág. 131) e uma postura firme e destacada qual “rei Pelicot.” (pág. 134)

Termino valorizando o interesse e importância política da publicação deste livro de Manon Garcia pela Zigurate. Deveria fazer parte da bibliografia de qualquer pessoa que se interesse pelas questões do feminismo e do patriarcado. É um livro profundamente honesto em que a própria autora, com toda a sua formação teórica se mostra frágil,  abalada e exausta, enquanto observadora atenta deste processo, em que sentiu dúvidas, em que por vezes tomou partido contra a sua própria vontade, movida pela emoção e caindo na armadilha da cultura machista em que vivemos desde que nascemos.

Um livro que recomendo muitíssimo e que agradeço à minha amiga insubmissa que mo ofereceu. Obrigada Manu.

18 de Maio de 2026

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

A Filha Obscura, Elena Ferrante

 


“A Filha Obscura” – Elena Ferrante, 2006

 

Depois de ter lido há alguns anos a famosa tetralogia “A Amiga Genial” e posteriormente “Escombros”, chega agora a vez de “A Filha Obscura”, integrado na colectânea “Crónicas do Mal de Amor” da Relógio D’Água.

Esta leitura insere-se na reflexão iniciada na sequência do curso “Subversão: a maternidade na literatura e na cultura” ministrado por Rosa Azevedo e Joana Neves na livraria Snob. Curso que, sem dúvida, me pôs a pensar sobre um conceito que foi desconstruído, analisado e olhado sob vários ângulos e perspectivas e o qual nunca mais se conseguirá ver duma forma tão plana e singela como a sociedade patriarcal e capitalista quer que seja percepcionado.

Digamos que “A Filha Obscura” me recordou alguns trechos de “A Amiga Genial” e consegue ser bastante perturbador. Até nos nomes que Elena Ferrante escolhe para as suas personagens, é impossível deixarmos de nos lembrar da famosa tetralogia. Leda é a narradora em “A Filha Obscura”. Tem 47 anos, é professora universitária e, pela primeira vez, vive uma sensação de leveza, sente-se “livre e sem culpas por sê-lo” e “milagrosamente desobrigada” (pág. 293) quando as duas filhas decidem ir viver com o pai em Toronto. Aproveita o final do ano lectivo para fazer umas férias diferentes das que fazia em família, carrega os seus livros e prepara-se para uma quebra da rotina que sempre fora a sua enquanto mãe disponível e sempre receosa de ser considerada ausente ou distraída. Agora, na praia, já não tinha “de estar atenta a horários nem de enfrentar pressas. Já ninguém dependia dos meus cuidados e eu própria, finalmente, já não era um peso para mim.” (pág. 297)

Este romance tem poucas personagens. Para além de Giovanni, que guarda o apartamento que Leda alugou na praia, temos Gino, o banheiro e uma numerosa e ruidosa família napolitana, de que se destacam Nina, uma jovem mãe, a sua filha Elena e a boneca Nani, com a qual as duas brincam e interagem. São estas três personagens que verdadeiramente interessam a narradora, que lhe chamam a atenção e que a fazem recordar a sua vida, a sua mãe, as filhas e também a boneca Mina que tivera quando criança. Afinal, querendo sentir-se livre, não consegue deixar de estar permanentemente a recordar o passado, a mãe, as filhas, o marido e as escolhas ou caminhos que fizera ao longo da vida.

As descrições dos locais são minuciosas e muito vívidas e há uma carga dramática que antecipa uma tensão que está presente desde o início do romance. O cesto da fruta tão apetecível a desejar as boas vindas à locatária, é afinal fruta retardada ou podre, incomestível; a luz intermitente do farol que inunda o quarto do apartamento; o pinhal cerrado que há que percorrer até chegar à praia; a menina que se perde na praia; a boneca que desaparece; o ataque com uma pinha no pinhal sem que Leda perceba de onde veio; os miúdos “gang” napolitanos que ela sente como uma ameaça e lhe provocam medo.

Quando chegamos ao final, recuamos ao princípio do romance, ao acidente que a levara ao hospital, sobre cujas causas ela não quis falar. “As coisas mais difíceis de contar são aquelas que nós próprios não conseguimos compreender.” (pág. 292)

No final pergunto-me: quem é afinal a filha obscura? Tanto pode ser Leda, como Nina, como Elena, como Nani a boneca, ou a filha da boneca... É este o enigma que Elena Ferrante nos deixa e nem sequer acho que ela queira que o resolvamos, antes que nos deixe a pensar sobre ele.

6 de Maio de 2026


"Salvar o Fogo", Itamar Vieira Junior

  “Salvar o Fogo”, Itamar Vieira Junior, 2023 Antes de me lançar neste “Salvar o Fogo” e a seguir no “Coração sem Medo”, voltei à leitura ...