“A Península das Casas
Vazias”, David Uclés, 2017
Um livro que tem de ser lido
devagar. Tem tanta informação, tantas referências, é tão denso e tão excessivo,
que precisei de tempo para o ler, para pesquisar, para ouvir as referências
musicais que são sugeridas ao longo das cerca de setecentas páginas e cento e
vinte capítulos divididos pelas quatro partes do livro: Semente/ Madeira/ Brasa
e Cinza. Li também as entrevistas e artigos publicados em Abril deste ano nos
jornais Público, Diário de Notícias e Expresso, numa altura em que David Uclés
esteve em Portugal. “A Península das Casas Vazias” é um livro de ficção que
conta a história da Guerra Civil, a epopeia duma família da Andaluzia cujo
patriarca é Odisto. Na dedicatória, David Uclés escreve: “Todos os membros
da minha família, sem exceção, provêm da mesma vila, Quesada, neste romance
chamada Jándula. Viveram a Guerra Civil e é a eles que dedico o livro”
Logo ao ler as primeiras páginas
me lembrei de “Cem Anos de Solidão” lido há muitos anos, pelas inúmeras personagens
que vão aparecendo, pelo realismo mágico, pela profusão de recursos literários
e imagens que nem sempre consegui entender. Daí ter achado dispensáveis algumas
descrições ou situações e só as compreender pela intenção do autor de querer
ser excessivo para falar dum período trágico e traumático da história do Estado
Espanhol que deixou uma ferida aberta e insanável, mas que sendo hoje em dia um
tempo de que ninguém quer falar, que é praticamente apagado na escola e ignorado
pelos jovens espanhóis, a extrema direita procura resgatar. Passados cinquenta
anos da morte de Franco e noventa anos do início do conflito que dividiu irmãos
e os pôs em campos opostos e a matarem-se, David Uclés quis com este livro
quebrar o pacto de silêncio e ignorância sobre a história da guerra civil. Já
bem próximo do final do romance, aquando da morte dos últimos dois membros da
família de Odisto, o narrador refere-se ao perigo do esquecimento: “…fazia-me
pena que, daí a quatro décadas, os miúdos acordassem numa sociedade que, em
lugar de tratar a guerra com uma firme memória histórica, firmará um pacto de
silêncio e dedicará apenas um par de páginas nos livros de texto ao conflito.”
(pág. 622)
Para além da lembrança do grande
romance de Gabriel Garcia Márquez a que fiz referência, a influência de José
Saramago neste romance é também evidente e não só pela escolha deliberada da
Ibéria para se referir aos dois países da Península Ibérica, mas também pela
referência à jangada de pedra “o istmo que unia a península ao resto do
continente se ter fraturado completamente. Receavam que a Ibéria se separasse
ainda mais de França.” (…) “Diante da incomensurável greta no istmo, que fez da
península uma ilha… impedissem que a Ibéria se afastasse a flutuar.” (pág.
539) Para escrever “A Península das Casas Vazias” e descrever algumas das
regiões onde se desenrolaram algumas das mais cruentas batalhas em que se
confrontaram republicanos e nacionalistas, o autor teve de correr todo o país,
como Saramago fez no seu “Viagem a Portugal”. Investigou sobre os costumes
daquele tempo, desenterrou algumas das superstições que dominavam o quotidiano
das populações dos meios rurais, precisou de fazer muitas leituras e investigação
para poder produzir um livro que reflecte uma profunda erudição. David Uclés
sintetiza bem este livro quando numa das entrevistas diz que “quis meter o
mundo no meu livro.”
Não é fácil escrever sobre este
romance, por isso, darei apenas alguns traços gerais que retiro desta leitura. O
narrador é uma importante personagem neste livro. Profundamente interventivo,
crítico, opinativo, cáustico, nunca se furta a mostrar as suas convicções e a
dialogar abertamente com quem o está a ler. “Volto a repeti-lo: não leiais este livro como fonte, mas sim
como ficção histórica.” (pág. 278)
David Uclés afirma convictamente
que a guerra civil não terminou em 1939, mas sim em 1975 com a morte de Franco.
“A escuridão duraria 40 anos.” Quando a guerra eclodiu em 1936, o
fascismo já estava latente e o povo estava dividido: “Entretanto, o povo… Os
dois povos! Ou os quatro! Ou os tantos! Não havia maneira de se porem de
acordo, nem o fariam nos anos vindouros: os anarquistas, os falangistas, os
fascistas, os direitistas, os esquerdistas, os republicanos, os socialistas, os
caballeristas, os araquistainistas, os monárquicos, os carlistas, os comunistas,
os marxistas, os negristas, os poumistas, os sindicalistas, os cenetistas, os
africanistas, os refenhos, os religiosos, os cedistas, os faístas, os
tradicionalistas, os reformistas…”(pág. 43) As divisões, a desconfiança, os
ajustes de conta, o medo de dizer o que se pensa mesmo no seio da própria
família, em suma, uma divisão insanável. E para piorar tudo “A esquerda está
fragmentadíssima, ao passo que a direita cada vez tem mais força. E assim não
só vamos perder a guerra, como vamos regar o campo com mais sangue do que seria
preciso.” (pág. 107) No meio do caos, como sempre acontece, há os que tomam
convictamente partido, os que não se querem identificar com clareza com nenhum
dos lados, os que andam ao sabor das conveniências seguindo os que têm mais
força, para ver se se salvam, mas há também, como Odisto, os que não gostam de
política, mas também não gostam dos poderosos, nem de guerra, nem de facções. Transcrevo
o diálogo de Odisto com a jovem Leticia, à chegada de Odisto a Cuenca:
“- É republicano ou
nacional?
- Eu não me meto em
política.
- Faz muito bem! Aqui pode
ser o que se quiser, porque nós somos as duas coisas. Aparentemente,
republicanos, mas estamos a antecipar-nos ao que por aí vem. O futuro é
franquista, sabe? Vá-se habituando à ideia.” (pág. 385)
A escrita de David Uclés é
riquíssima, permite-nos visualizar o horror e sentir o cheiro da morte, como
acontece no capítulo 89 (Os restos que encaixaram) em que Ander leva a Picasso
numa furgoneta, “todos os restos que conseguira do bombardeamento de Gernika.”
“Picasso sentiu o cheiro a podridão mal pôs o pé na rua. Tapou o nariz com
os dedos gordos e seguiu o euscaro com curiosidade e incerteza, num misto de
excitação e medo. Sentia que aquele euscaro tinha trazido o próprio cheiro da
guerra. (…) Picasso sorriu ao saber que
acabava de sair do bloqueio artístico e, ato contínuo, escondeu a sua alegria
num rosto entristecido.” (págs. 497 e 498) O massacre de Badajoz, liderado
pelo coronel que ficou conhecido como “o carniceiro de Badajoz” tendo o
chão da praça de touros ficou empapado em sangue (capítulo 44); a “estrada
da morte” em Málaga, juncada de corpos “destroçados, desmembrados e
vazios de vida” mortos por projéteis que caíram sobre eles, lançados pelos
italianos (pág. 296); “o ataque aéreo, largando vinte toneladas de
explosivos” em que “morreram entre duzentas e duas mil pessoas – depende
do historiador – e quase toda a povoação
ardeu.” “Até o próprio Goring, nos julgamentos posteriores de Nuremberga,
confessaria a autoria por parte do lado nacional e dos nazis, e em menor medida
das forças aéreas italianas.” (capítulo 71 – A árvore de Gernika); a
batalha do Ebro, a mais longa e mais sangrenta, desastrosa para a 2ª República
com dezenas de milhares de mortos e feridos e decisiva para a vitória
nacionalista. Pouco se fala de Granollers, a Gernika da Catalunha, ocorrida a
31 de Maio de 1938, quando a aviação italiana em apoio a Franco atacou cirurgicamente
o povo no centro histórico. A Guerra Civil serviu como antecâmara da 2ª Guerra
Mundial, tendo muito armamento e técnicas de guerra sido experimentados e
usados primeiro em Espanha pelos fascistas alemães e italianos.
A fome é outra presença forte no
livro e “impôs-se como a maior preocupação do povo.” “A fome continuou,
piorou e não pararia até passada a guerra.” (pág. 380). Apesar do horror da
guerra “O companheirismo em época de guerra atingiu um grau que não voltaria
depois do conflito.” (pág. 374)
Da leitura de “A Península das
Casas Vazias” considerei o capítulo A virgem dos viscos (79), em que Martina,
uma das três filhas de Odisto é violada por três rapazes, um dos mais duros e
impressionantes, provavelmente o que foca mais intensamente a desprotecção das
meninas e mulheres em tempos de guerra e de caos. “As mulheres, como disse antes, sofreram
mais do que os homens, uma vez que não se podiam defender. E homens maus,
viciados e desgraçados havia em ambos os lados, de todas as nacionalidades,
credos e simpatias políticas. Prova disso foi o destino que a própria Irma
encontraria: sobreviveria à guerra, mas seria fuzilada pelo lado vencedor por
ter exercido a prostituição.” (pág. 448)
Mas o livro consegue também ter
momentos muito divertidos, como é todo o capítulo em que estão reunidos vários
escritores para o II Congresso Internacional de Escritores para a Defesa da
Cultura. Para além da crítica ao facto de as mulheres serem esquecidas e
preteridas no meio literário, realço a firmeza de Maria Zambrano, a misoginia
de Neruda um dos participantes na reunião, sendo muito divertido o diálogo de
vários escritores. “Uma mulher pode sentir a vocação artística e dedicar-se
a ela, mas obrigam-nos a sermos nós a trabalhar em casa. Quem tem a mesa posta
e a cama feita dispõe de mais tempo para escrever, não é? Ao passo que nós…”
(Maria Teresa Léon) E a rematar aquela conversa, António Machado que é
nomeado presidente honorário do Congresso propõe para o discurso de
encerramento do Congresso, o seguinte verso: “Ou escrevemos sem esquecer o
povo, ou só escreveremos parvoíces.” (pág. 490)
De entre alguns números
relevantes que aqui poderia trazer, refiro 100 mil crianças que abandonaram a
Ibéria (pág. 426) e à volta de 1 milhão e 300 mil casas que ficaram vazias.
(pág. 430)
Termino com as citações de dois
escritores, num dos separadores dos capítulos de “A Península das Casas
Vazias”. Miguel Delibes (1920- 2010) escritor e jornalista: “Nas guerras
ninguém ganha, todos perdem; aprendi isso.” E a escritora Ana Maria Matute
(1925-2014): “O pior neste mundo é sobreviver.”
2 de Outubro de 2026






