terça-feira, 20 de outubro de 2026

A Península das Casas Vazias, David Uclés

 


“A Península das Casas Vazias”, David Uclés, 2017

Um livro que tem de ser lido devagar. Tem tanta informação, tantas referências, é tão denso e tão excessivo, que precisei de tempo para o ler, para pesquisar, para ouvir as referências musicais que são sugeridas ao longo das cerca de setecentas páginas e cento e vinte capítulos divididos pelas quatro partes do livro: Semente/ Madeira/ Brasa e Cinza. Li também as entrevistas e artigos publicados em Abril deste ano nos jornais Público, Diário de Notícias e Expresso, numa altura em que David Uclés esteve em Portugal. “A Península das Casas Vazias” é um livro de ficção que conta a história da Guerra Civil, a epopeia duma família da Andaluzia cujo patriarca é Odisto. Na dedicatória, David Uclés escreve: “Todos os membros da minha família, sem exceção, provêm da mesma vila, Quesada, neste romance chamada Jándula. Viveram a Guerra Civil e é a eles que dedico o livro”

Logo ao ler as primeiras páginas me lembrei de “Cem Anos de Solidão” lido há muitos anos, pelas inúmeras personagens que vão aparecendo, pelo realismo mágico, pela profusão de recursos literários e imagens que nem sempre consegui entender. Daí ter achado dispensáveis algumas descrições ou situações e só as compreender pela intenção do autor de querer ser excessivo para falar dum período trágico e traumático da história do Estado Espanhol que deixou uma ferida aberta e insanável, mas que sendo hoje em dia um tempo de que ninguém quer falar, que é praticamente apagado na escola e ignorado pelos jovens espanhóis, a extrema direita procura resgatar. Passados cinquenta anos da morte de Franco e noventa anos do início do conflito que dividiu irmãos e os pôs em campos opostos e a matarem-se, David Uclés quis com este livro quebrar o pacto de silêncio e ignorância sobre a história da guerra civil. Já bem próximo do final do romance, aquando da morte dos últimos dois membros da família de Odisto, o narrador refere-se ao perigo do esquecimento: “…fazia-me pena que, daí a quatro décadas, os miúdos acordassem numa sociedade que, em lugar de tratar a guerra com uma firme memória histórica, firmará um pacto de silêncio e dedicará apenas um par de páginas nos livros de texto ao conflito.” (pág. 622)

Para além da lembrança do grande romance de Gabriel Garcia Márquez a que fiz referência, a influência de José Saramago neste romance é também evidente e não só pela escolha deliberada da Ibéria para se referir aos dois países da Península Ibérica, mas também pela referência à jangada de pedra “o istmo que unia a península ao resto do continente se ter fraturado completamente. Receavam que a Ibéria se separasse ainda mais de França.” (…) “Diante da incomensurável greta no istmo, que fez da península uma ilha… impedissem que a Ibéria se afastasse a flutuar.” (pág. 539) Para escrever “A Península das Casas Vazias” e descrever algumas das regiões onde se desenrolaram algumas das mais cruentas batalhas em que se confrontaram republicanos e nacionalistas, o autor teve de correr todo o país, como Saramago fez no seu “Viagem a Portugal”. Investigou sobre os costumes daquele tempo, desenterrou algumas das superstições que dominavam o quotidiano das populações dos meios rurais, precisou de fazer muitas leituras e investigação para poder produzir um livro que reflecte uma profunda erudição. David Uclés sintetiza bem este livro quando numa das entrevistas diz que “quis meter o mundo no meu livro.”

Não é fácil escrever sobre este romance, por isso, darei apenas alguns traços gerais que retiro desta leitura. O narrador é uma importante personagem neste livro. Profundamente interventivo, crítico, opinativo, cáustico, nunca se furta a mostrar as suas convicções e a dialogar abertamente com quem o está a ler. “Volto a repeti-lo:  não leiais este livro como fonte, mas sim como ficção histórica.” (pág. 278)

 

David Uclés afirma convictamente que a guerra civil não terminou em 1939, mas sim em 1975 com a morte de Franco. “A escuridão duraria 40 anos.” Quando a guerra eclodiu em 1936, o fascismo já estava latente e o povo estava dividido: “Entretanto, o povo… Os dois povos! Ou os quatro! Ou os tantos! Não havia maneira de se porem de acordo, nem o fariam nos anos vindouros: os anarquistas, os falangistas, os fascistas, os direitistas, os esquerdistas, os republicanos, os socialistas, os caballeristas, os araquistainistas, os monárquicos, os carlistas, os comunistas, os marxistas, os negristas, os poumistas, os sindicalistas, os cenetistas, os africanistas, os refenhos, os religiosos, os cedistas, os faístas, os tradicionalistas, os reformistas…”(pág. 43) As divisões, a desconfiança, os ajustes de conta, o medo de dizer o que se pensa mesmo no seio da própria família, em suma, uma divisão insanável. E para piorar tudo “A esquerda está fragmentadíssima, ao passo que a direita cada vez tem mais força. E assim não só vamos perder a guerra, como vamos regar o campo com mais sangue do que seria preciso.” (pág. 107) No meio do caos, como sempre acontece, há os que tomam convictamente partido, os que não se querem identificar com clareza com nenhum dos lados, os que andam ao sabor das conveniências seguindo os que têm mais força, para ver se se salvam, mas há também, como Odisto, os que não gostam de política, mas também não gostam dos poderosos, nem de guerra, nem de facções. Transcrevo o diálogo de Odisto com a jovem Leticia, à chegada de Odisto a Cuenca:

“- É republicano ou nacional?

- Eu não me meto em política.

- Faz muito bem! Aqui pode ser o que se quiser, porque nós somos as duas coisas. Aparentemente, republicanos, mas estamos a antecipar-nos ao que por aí vem. O futuro é franquista, sabe? Vá-se habituando à ideia.” (pág. 385)

 

A escrita de David Uclés é riquíssima, permite-nos visualizar o horror e sentir o cheiro da morte, como acontece no capítulo 89 (Os restos que encaixaram) em que Ander leva a Picasso numa furgoneta, “todos os restos que conseguira do bombardeamento de Gernika.” “Picasso sentiu o cheiro a podridão mal pôs o pé na rua. Tapou o nariz com os dedos gordos e seguiu o euscaro com curiosidade e incerteza, num misto de excitação e medo. Sentia que aquele euscaro tinha trazido o próprio cheiro da guerra.  (…) Picasso sorriu ao saber que acabava de sair do bloqueio artístico e, ato contínuo, escondeu a sua alegria num rosto entristecido.” (págs. 497 e 498) O massacre de Badajoz, liderado pelo coronel que ficou conhecido como “o carniceiro de Badajoz” tendo o chão da praça de touros ficou empapado em sangue (capítulo 44); a “estrada da morte” em Málaga, juncada de corpos “destroçados, desmembrados e vazios de vida” mortos por projéteis que caíram sobre eles, lançados pelos italianos (pág. 296); “o ataque aéreo, largando vinte toneladas de explosivos” em que “morreram entre duzentas e duas mil pessoas – depende do historiador –  e quase toda a povoação ardeu.” “Até o próprio Goring, nos julgamentos posteriores de Nuremberga, confessaria a autoria por parte do lado nacional e dos nazis, e em menor medida das forças aéreas italianas.” (capítulo 71 – A árvore de Gernika); a batalha do Ebro, a mais longa e mais sangrenta, desastrosa para a 2ª República com dezenas de milhares de mortos e feridos e decisiva para a vitória nacionalista. Pouco se fala de Granollers, a Gernika da Catalunha, ocorrida a 31 de Maio de 1938, quando a aviação italiana em apoio a Franco atacou cirurgicamente o povo no centro histórico. A Guerra Civil serviu como antecâmara da 2ª Guerra Mundial, tendo muito armamento e técnicas de guerra sido experimentados e usados primeiro em Espanha pelos fascistas alemães e italianos.

A fome é outra presença forte no livro e “impôs-se como a maior preocupação do povo.” “A fome continuou, piorou e não pararia até passada a guerra.” (pág. 380). Apesar do horror da guerra “O companheirismo em época de guerra atingiu um grau que não voltaria depois do conflito.” (pág. 374)

Da leitura de “A Península das Casas Vazias” considerei o capítulo A virgem dos viscos (79), em que Martina, uma das três filhas de Odisto é violada por três rapazes, um dos mais duros e impressionantes, provavelmente o que foca mais intensamente a desprotecção das meninas e mulheres em tempos de guerra e de caos.  “As mulheres, como disse antes, sofreram mais do que os homens, uma vez que não se podiam defender. E homens maus, viciados e desgraçados havia em ambos os lados, de todas as nacionalidades, credos e simpatias políticas. Prova disso foi o destino que a própria Irma encontraria: sobreviveria à guerra, mas seria fuzilada pelo lado vencedor por ter exercido a prostituição.” (pág. 448)

Mas o livro consegue também ter momentos muito divertidos, como é todo o capítulo em que estão reunidos vários escritores para o II Congresso Internacional de Escritores para a Defesa da Cultura. Para além da crítica ao facto de as mulheres serem esquecidas e preteridas no meio literário, realço a firmeza de Maria Zambrano, a misoginia de Neruda um dos participantes na reunião, sendo muito divertido o diálogo de vários escritores. “Uma mulher pode sentir a vocação artística e dedicar-se a ela, mas obrigam-nos a sermos nós a trabalhar em casa. Quem tem a mesa posta e a cama feita dispõe de mais tempo para escrever, não é? Ao passo que nós…” (Maria Teresa Léon) E a rematar aquela conversa, António Machado que é nomeado presidente honorário do Congresso propõe para o discurso de encerramento do Congresso, o seguinte verso: “Ou escrevemos sem esquecer o povo, ou só escreveremos parvoíces.” (pág. 490)

De entre alguns números relevantes que aqui poderia trazer, refiro 100 mil crianças que abandonaram a Ibéria (pág. 426) e à volta de 1 milhão e 300 mil casas que ficaram vazias. (pág. 430)

 

Termino com as citações de dois escritores, num dos separadores dos capítulos de “A Península das Casas Vazias”. Miguel Delibes (1920- 2010) escritor e jornalista: “Nas guerras ninguém ganha, todos perdem; aprendi isso.” E a escritora Ana Maria Matute (1925-2014): “O pior neste mundo é sobreviver.”

 

2 de Outubro de 2026

 

 

domingo, 27 de setembro de 2026

Os Nomes, Florence Knapp

 


“Os Nomes”, Florence Knapp, 2025
Um livro excelente que apetece ler com calma, pelo cuidado e profundidade da escrita, pela singularidade da estrutura, pela atenção dada aos detalhes e pela relevância dos temas que aborda. É um livro consistente, sério, quando podia ser mais um que aborda de forma superficial e ligeira um problema social de enorme relevância. Foi o segundo livro que li neste mês de Agosto e penso que a sua memória vai permanecer pelo impacto que causou em mim.
São três histórias autónomas com alguns traços comuns, mas com desenvolvimentos diferentes. Decorrendo entre 1987 e 2022, com saltos temporais de sete anos, a questão colocada é até que ponto o nome com que somos registados nos pode conduzir a percursos diferentes de vida? Esta ideia é sugerida pela capa do livro a partir de um acrílico da artista espanhola Eva Navarro, a que a autora faz referência na nota final. Bear, Julian e Gordon três nomes, três vidas.
O tema central de “Os Nomes” é a violência doméstica e o impacto que tem nas vítimas, nomeadamente nas mulheres e nos filhos e filhas que acabam por viver diariamente o ambiente de violência e agressão dentro de casa. Que marcas ficam? Conseguem ser superadas? Que impactos deixam em relacionamentos futuros? Como lida a sociedade com uma situação que nem sempre é perceptível ou que sendo, é frequentemente ignorada porque incómoda? Sobretudo se o agressor for uma pessoa bem vista na sociedade, alguém com uma actividade social relevante que, à partida, a sociedade não vai imaginar como é em casa. Qual o papel dos vizinhos, dos familiares mais próximos, quando a solidariedade e a sensibilidade são determinantes para as vítimas não ficarem à mercê dos agressores? Estão as instituições de apoio – polícia, saúde, educação, assistência social – suficientemente preparadas para responder, para acompanhar, para cuidar, quando aqui não basta ser-se um bom profissional, cumprindo os protocolos que já estão perfeitamente definidos e interiorizados. Quando se chegou a um ponto de perda de autonomia, de despersonalização, de incapacidade de resposta, de medo permanente, de ausência de defesas, como aconteceu com Cora, se não há um apoio efectivo por parte do Estado e uma penalização de quem humilha, maltrata, agride, mata, a sociedade vai continuar a banalizar uma chaga social que é um crime público.
Durante muito tempo só as mulheres eram percepcionadas como vítimas, apesar de as casas de abrigo terem sempre mais crianças que mulheres. “Havia tantas outras famílias, mulheres e crianças, amontoadas. Tínhamos algumas coisas em comum com algumas delas. Para além daquilo, quer dizer. Mas com outras tentávamos apenas coexistir. Não eram necessariamente quem teríamos escolhido para partilhar uma cozinha. E as pessoas nem sempre estavam no seu melhor. Todos tinham passado por maus bocados. A minha mãe tinha alguém com quem falar sobre as coisas enquanto lá estivemos, uma assistente social ou algo do género, mas connosco ela era apenas mãe. No entanto, acho que ela também devia estar apavorada.” (pág. 104) As crianças também são vítimas, vivem num terror contínuo, na vergonha de falar, auto censuram-se, são manipuladas, adaptam-se a um ambiente que as não deixa respirar nem crescer e irão carregar ao longo da vida um passado de que dificilmente se conseguem libertar. “Porque, sempre que pensa na mãe, todo o seu ser se enche de culpa. Por não ser suficiente. Por não ser uma filha com quem Cora desabafa. Por não desafiar o pai agora que é adulta, porque, quando está na presença dele, volta a ter 9 anos, a estar oca e assustada, o vento a soprar diretamente através dela. A Medicina é a única coisa que têm em comum, o único tema seguro entre eles, o que ela sente como um alívio, mas também como uma traição.” (pág. 222)
A última parte do livro passa-se no período dos confinamentos devidos à pandemia global de 2020. Como anteriormente escrevi, são três histórias diferentes, mas trago aqui um excerto interessante de como Cora, mãe de Gordon, divorciada e a viver sozinha, enfrentou o confinamento. “Ela ainda se assusta quando a porta de um carro bate lá fora ou se baterem inesperadamente à porta. Ainda carrega as cicatrizes e rangidos de um corpo que não foi bem cuidado. Tenta atenuá-los com ioga e pilates, mas não há como escapar à artrite que se instalou em ossos partidos que nunca sararam corretamente. Cora sente o peso da preocupação dos seus filhos e da responsabilidade que eles sentem por ela. Durante o confinamento, eles iam até ao passeio em frente para a visitar e deixar presentes desinfetados à sua porta.
(…)
- Estou bem! Tenho livros e podcasts. Toda a Internet como companhia!
(…)
- Eles ficavam céticos, como se ela estivesse a dourar a pílula. De algum modo, mesmo tendo testemunhado a realidade diária da sua vida, eles não eram capazes de compreender verdadeiramente que ela enfrentara um confinamento muito mais draconiano por mais de quarenta anos. Com a COVID-19 ela podia lidar; esta, pelo menos para ela, seria fácil.” (pág. 274)
Interessou-me neste texto levantar questões e, sobretudo, incentivar as pessoas a lerem o livro. Um problema terrível em todas as sociedades, que atravessa todas as classes sociais e ao qual há que dar combate. “Os Nomes”, não querendo tornar cor-de-rosa aquilo que é medonho, traz-nos um sinal positivo, de esperança, de superação.  Convido-vos a lê-lo como eu fiz, dando atenção aos detalhes, às linhas que ligam aquelas pessoas que surgem nas três histórias do rapaz que o pai queria que se chamasse Gordon, para seguir a tradição da família. E sobretudo, retirarmos deste romance, que cada um/a de nós pode ser um agente de mudança, denunciando situações de violência às vezes ali mesmo ao lado no nosso prédio. A cidadania implica que se quebre o silêncio cúmplice da impunidade.
23 de Agosto de 2026

sábado, 19 de setembro de 2026

Erva, Keum Suk Gendry-Kim

 


“Erva”, Keum Suk Gendry-Kim, 2017

Quanto mais se lê, mais se percebe quão pouco sabemos! É a segunda novela gráfica que leio este ano e esta é a segunda autora sul coreana que conheço, depois de ter lido há tempos “Atos Humanos” de Han Kang.

Como se pode ler na nota inicial de “Erva” “A erva simboliza a resistência, a forte vontade de viver e a vitalidade das mulheres que nasceram numa época trágica. Muitas das mulheres que foram vítimas de violência sexual por parte do exército japonês foram chacinadas, mas, se a vida das mulheres sobreviventes já era difícil antes de se tornarem “mulheres de conforto”, tornou-se ainda mais depois, tanto mental como fisicamente.”  Este parágrafo resume o tema desta novela gráfica.

Tal como Han Kang em “Atos Humanos” denunciou o massacre de Gwangiu em 1980, Keum Suk Gendry-Kim traz-nos em “Erva” a história de Ok-Sun Lee, uma “mulher de conforto” sobrevivente de anos de violações por parte de soldados japoneses, esmagada como a erva, mas que se levantou e deu voz a essas mulheres tratadas como meros objectos sexuais pelo exército ocupante.  Assuntos incómodos, que envergonham a sociedade que os tenta atirar para debaixo do tapete.

A narradora quis recolher a história de uma “mulher de conforto” e ouviu-a da boca de Ok-Sun que agora vive numa Casa da Partilha, onde vivem outras sobreviventes. Nascida duma família muito pobre, tinha o sonho de ir à escola, como iam os irmãos rapazes. Como lhe diria o pai no dia em que a vendeu a uma outra família “Se ao menos tivesses nascido rapaz…” (pág. 88), foi sucessivamente enganada com o engodo de que iria à escola, tendo feito um caminho sem retorno de escravidão até que eclodiu a guerra entre a China e o Japão e o ataque a Pearl Harbour. Para além da mobilização forçada dos coreanos por parte do Japão, assistiu-se ao apagamento da sua cultura e identidade, forçando-os a um outro culto e à mudança de nomes e apelidos, o que Ok-Sun nunca permitiu. Não sou de todo entendida em banda desenhada, mas realço a força das páginas 116 e 117 - a enorme trança cortada - o sacrifício que fez com a falsa promessa de que tinha de cortar o cabelo para ir à escola.  Aos 15 anos foi raptada com outras raparigas. Total ausência de direitos: fome, frio, encarceramento. A perda da virgindade (págs. 205 – 209) “Sangrei tanto!” (pág. 210), o desconhecimento do que era a menstruação, a violência extrema, as violações, a sífilis, a ausência de esperança, o “amor” como algo impossível.

Com o fim da guerra, os soldados fugiram e as raparigas das “casas de conforto” foram abandonadas, não sabendo que a guerra tinha acabado. Mas não para elas que eram escorraçadas e ninguém lhes dava de comer, para além das violações por parte de soldados soviéticos (págs. 371 – 373). Nem no próprio reencontro com a família, muitos anos depois tiveram consolo, por terem sido “mulheres de conforto”!

A autora e uma activista vão ao sítio onde Ok-Sun havia sido escravizada sexualmente. Mas nada encontraram, como se o passado tivesse sido apagado. Mas como erva, Ok-Sun é convidada para ir à televisão dar depoimentos e testemunho do que viveu e, tal como outras mulheres, manifesta-se em Seul todas as quartas-feiras desde 1992, insurgindo-se contra o acordo inaceitável firmado entre o Japão e a Coreia em que nem sequer as mulheres foram ouvidas.

Traço forte, paisagens desoladas, violência, frio e solidão são as marcas que uma leiga em banda desenhada consegue extrair desta novela gráfica que, de uma forma muito expressiva conta uma história que, tendo acontecido em tempo de guerra na Ásia, certamente persiste de forma mais camuflada nos nossos tempos e mais perto de nós do que podemos imaginar.

27 de Agosto de 2026

Almerinda Bento


 


terça-feira, 1 de setembro de 2026

A Analfabeta . Relato Autobiográfico, Agota Kristof

 


“A Analfabeta. Relato Autobiográfico”, Agota Kristof, 2004

Um livro que é um curto relato autobiográfico, mas cuja leitura nos impele a descobrir mais sobre esta autora húngara, sobretudo avançar na leitura de “A Trilogia da Cidade de K.”, o seu livro mais significativo.

Como se pode ser analfabeta aos 26 anos, quando aos 4 anos se era leitora compulsiva e fluente, é a questão que nos é colocada? Para isso há que conhecer o percurso da criança que aos 4 anos lia  tudo o que lhe chegava às mãos, como se fosse uma doença; que desenvolvia a capacidade de inventar e contar histórias tendo os dois irmãos como destinatários; que, aos 14 anos, separada dos irmãos, do pai e da mãe, a viver num internato que se assemelhava a algo “entre um quartel e um convento, entre um orfanato e um reformatório” (pág. 17), era a escrita de poemas e de um diário com um código secreto, a forma de sobreviver ao silêncio, à disciplina e à ausência de liberdade. Ou então escrever pequenas peças em que imitava os professores da escola ou do internato, que ela chama as “palhaçadas” que faziam a alegria das suas colegas.

A Hungria está sob o domínio da União Soviética e um dos grandes choques, para além do afastamento da família, é a obrigatoriedade de falar uma língua inimiga. Resistir, sabotar é continuar a escrever na língua materna. A sua ligação à resistência e posteriormente à revolta de 1956 obriga-a a fugir com a sua bebé, a atravessar a fronteira da Áustria e depois a da Suíça. Como refugiada, deixou tudo para trás. “Deixei na Hungria o meu diário secreto, assim como os meus primeiros poemas. Também deixei lá os meus irmãos, os meus pais, sem aviso prévio, sem me despedir deles, sem sequer lhes dizer adeus. Porém, acima de tudo, naquele dia, nesse dia de finais de novembro de 1956, perdi para sempre a minha pertença a um povo.” (pág. 42)

Na Suíça, tem casa, trabalho numa fábrica, mas não tem tempo para ir às aulas de línguas. “Como teria sido a minha vida se não tivesse deixado o meu país? Mais dura, mais pobre, penso eu, mas também menos solitária, menos dilacerante; talvez feliz.” (pág. 47) (…)

“Na fábrica, todos são simpáticos connosco. Sorriem-nos, falam-nos, porém, não compreendemos nada.

É aqui onde começa o deserto. Deserto social, deserto cultural. Da exaltação dos dias da revolução e da fuga, segue-se o silêncio, o vazio, a nostalgia dos dias em que tínhamos a sensação de participar em algo importante, quem sabe histórico, as saudades de casa, da família, dos amigos.

Esperávamos por algo quando aqui chegámos. Não sabíamos o que esperávamos, mas certamente não era isto: dias de trabalho, cinzentos, noites silenciosas, esta vida congelada, sem mudanças, sem surpresas, sem esperança.” (pág. 50)

Este pequeno, mas precioso livro, traz-nos à reflexão a realidade da vida de um/a refugiado/a, de um/a emigrante. Ágota viveu aos 26 anos o desafio de uma analfabeta. Sabia falar, mas não conseguia ler nem escrever em francês. Um desafio que superou com as aulas no curso de verão, com a consulta constante do dicionário, mas reconhece que embora tentasse escrever o melhor que podia em francês, nunca conseguiria escrever como os escritores que tiveram o francês como língua materna.  

Agota  Kristof nasceu em 1935 e faleceu com 76 anos. Entre 1981 e 1984 escreveu as suas memórias de infância que são acolhidas pelas Éditions du Seuil sob o título “O Grande Caderno” e que foram traduzidas em 18 línguas.  Na badana de “A Analfabeta”, traduzido por Rui Paiva, pode ler-se: “No final da sua vida, Agota Kristof deixa de escrever em francês e entrega todos os seus manuscritos, a sua máquina de escrever, e o seu dicionário bilingue húngaro-francês, ao Arquivo Literário Suíço. Em março de 2011, é-lhe atribuído o Prémio Kossuth, o mais prestigiado prémio literário da Hungria. Foi, para ela, um sinal de reconhecimento do seu país natal. Agota Kristof morre pouco tempo depois, a 27 de Julho de 2011.”

23 de Julho de 2026



 


domingo, 23 de agosto de 2026

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

 


“Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024

Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passado, volto a encontrar uma escritora profundamente conhecedora da cultura alemã e interessada na figura de Sigmund Freud que, também surge no livro anteriormente referido. Desta vez, Teolinda Gersão, não indo fazer um “romance histórico” (pág. 8), como ela própria refere na Nota Inicial, vai fazer um romance baseado na troca de correspondência entre Martha Bernays e Sigmund Freud ao longo do noivado de quatro anos, assim como nas cartas que Freud trocou com amigos, com colegas, com Minna a cunhada e com Anna a filha. “Autobiografia não escrita de Martha Freud” foi o romance vencedor por unanimidade da edição de 2025 do Prémio de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues (FENPROF/SABSEG), tendo o júri considerado a «obra em que uma rigorosa investigação documental e a criação literária se conjugam de forma exímia num processo de escrita estimulante.”

Martha Freud, apesar dos seus mais de 80 anos, é uma mulher activa a quem a idade não pesa e sente necessidade de preencher o seu tempo, arrumando ideias, escrevendo memórias mas, ao fim de uma centena de páginas escritas, tem a noção do peso das palavras e de como aquilo que tem para escrever enquanto mulher de um homem célebre poderá abalar a reputação do homem, criar desconforto no seio familiar e mesmo ser adulterado ou destruído. E por isso, reduz a cinzas o que já escreveu e decide “apagar-se ou remeter-se ao silêncio” (pág. 18) que foi o que sempre fez enquanto mulher de Sigmund Freud. No entanto, como “livre pensadora” (pág. 22), portanto livre, não vai deixar de pensar toda a sua relação, embora não deixe nada escrito. Antes de ser Martha Freud foi Martha Bernays e, mesmo casada, nunca deixou de o ser.

As inúmeras cartas que trocaram ao longo do seu longo noivado e que ela vai reler e analisar, tantos anos depois, permitem-lhe ver com outros olhos o que lá estava escrito e, mesmo nunca deixando de ser crítica quando as lera com os olhos de jovem apaixonada, as palavras usadas e os detalhes levam-na a uma profunda reflexão agora. Foi ela que teve a iniciativa da primeira carta, mas foi a personalidade dela que permaneceu sempre na sombra. Se ao longo dos quatro anos de noivado houve momentos de tensão e quase ruptura, se a tendência obsessiva de Sigmund Freud de tudo controlar, de desvalorizar sentimentos e só se interessar por factos, de apenas observar Martha como objecto de análise, ela admira-se por se ter deixado humilhar tantas vezes, por não ter posto um ponto final a uma relação obsessiva e doentia que a queria despersonalizar e afastar dos amigos e da própria família. Freud era afinal uma pessoa insegura, ciumenta, possessiva, misógina, apenas interessado em si próprio e em conseguir alcançar a fama e fortuna, utilizando as pessoas para atingir os seus objectivos. O seu casamento remeteu-a ao papel de esposa e mãe, tendo parido seis filhos ao longo de nove anos. Mas Martha era também uma personalidade forte que impôs limites claros nomeadamente de não permitir a sujeição dos filhos a quaisquer devaneios de análises e experimentações por parte do pai, exceptuando Anna, a filha dilecta e seguidora de Freud na psicanálise.

Num tempo em que os direitos das mulheres eram uma miragem e em que os desejos de emancipação do controlo dos pais raramente eram alcançados com o casamento, Martha Freud foi uma mulher apagada, silenciada atrás dum homem que ficou para a história. Restava-lhe o desinteresse e a indiferença por alguém que não a merecia. Tal como Sigmund Freud estabeleceu ao longo dos seus 83 anos de vida relacionamentos ambíguos, muitas vezes movidos por interesses pessoais mais tarde descartáveis com amigos, com colegas e com mestres, só com Anna se manteve fiel, pois foi a única que ele moldou à sua imagem e segundo os seus interesses.

Um livro cuja leitura é valiosa.

12 de Agosto de 2026 


sexta-feira, 31 de julho de 2026

Coração sem Medo, Itamar Vieira Junior



“Coração sem Medo”, Itamar Vieira Junior, 2025

Que difícil é escrever sobre um livro e uma trilogia tão fortes, tão profundos, tão universais. Impossível não ficar com a sensação de que qualquer coisa que se escreva como reflexão depois desta leitura ficará sempre muito aquém e será muito pobre face a um trabalho de grande fôlego como é esta Trilogia da Terra. 

Neste “Coração sem Medo” vamos descobrir a ligação de Rita a Donana e a Carmelita que nos tinham aparecido em “Torto Arado”, tal como em “Salvar o Fogo” descobrimos Maria Cabocla (Mariinha) irmã de Luzia. As histórias entrelaçam-se, os anos passam e os lugares são diferentes, mas há um continuum que vem dum passado remoto, da escravização, da luta pela terra e pela dignidade, numa resistência contra as opressões sem fim que teimam em permanecer.

Em todos os três livros, partimos duma situação inicial dramática, em torno da qual se vai desenvolver a narrativa. Aqui Rita, que podia ser Ritinha, mas que ficou sendo Rita Preta, para o nome não ser confundido com o da patroa, confronta-se com uma situação limite: o desaparecimento de um filho. Numa sociedade profundamente injusta e desigual, violenta, marcada pelo atropelo de direitos, pela precariedade e pelo racismo, Rita Preta mora numa comunidade pobre em que os moradores são, à partida, tratados como bandidos. O pressuposto é que, se Cid, jovem adolescente filho de Rita Preta desapareceu, alguma coisa deve ter feito. Alguém a medo confessa que assistiu à cena da sua captura pela polícia. A aflição, o desespero inicial, o sentimento de culpa, o lutar, o não ficar parada, o resistir às ameaças, o vencer o medo, o cair e levantar-se, por tudo isto passa Rita Preta que tem de gerir o cuidar dos outros filhos e sobreviver com o pouco que tem, sem desistir de descobrir o paradeiro do filho desaparecido. Face às ameaças explícitas “Isso é o que fazemos com mulheres fortes” (pág. 141) só há duas hipóteses: calar ou expor-se. 

Neste mover o mundo para localizar o filho, Rita Preta também descobre solidariedades e outras mulheres a viver o mesmo drama, que se entreajudam, que partilham as suas histórias e fazem disso a sua força. “Quando alguém desaparece, é como se a vida não terminasse. Está faltando alguma coisa. É uma história sem ponto-final.” (pág. 261) E mesmo num mundo desumanizado e corrompido pela desesperança ainda há funcionários dos serviços com coração e humanidade, prisões onde há um espaço para a leitura e para a conversa, associações que dão o seu tempo para lutar contra a arbitrariedade. Sendo este um livro muito duro, ele consegue, no entanto, ser um raio de esperança para um futuro mais justo.

Um dia, no meio dos muitos afazeres, Rita Preta - trabalhadora precária, mãe sozinha com três filhos a cargo - desabafa: “Minha vida daria um livro.” (pág. 272). Mal ela sabia que um dia, Cainho, o filho do meio iria registar a história da mãe, da avó, da bisavó, das e dos que as antecederam, ligando a história da família à história do Brasil, da escravização, como forma de resistência, lutando contra o esquecimento, pelo direito à preservação da memória.

Esta Trilogia da Terra que agora chega ao fim é um registo vivo, não linear, com incursões em múltiplos tempos, espaços e personagens e trazendo diferentes vozes e narradores que irão permanecer vivos na memória por muito tempo.

29 de Julho de 2026

sábado, 18 de julho de 2026

"Salvar o Fogo", Itamar Vieira Junior

 


“Salvar o Fogo”, Itamar Vieira Junior, 2023

Antes de me lançar neste “Salvar o Fogo” e a seguir no “Coração sem Medo”, voltei à leitura de “Torto Arado” que tinha lido há quatro anos. Queria recordar um livro que tinha amado, para melhor me preparar para a abordagem da trilogia de Itamar Vieira Junior. “Salvar o Fogo” é soberbo, uma escrita mágica que nos leva ao Brasil sofrido da Tapera do Paraguaçu.

O centro da narrativa é a história de uma mulher que rejeita a sua maternidade, que decide entregar o fruto da violação às águas do Paraguaçu.  Um parto em noite de lua cheia, assim começa “Salvar o Fogo”.

A Tapera, onde Mundinho e Alzira criaram os seus filhos – Raimundo, Humberto, Joaquim, Zazau, Mariinha e Luzia – é um lugar marcado pela pobreza, sem futuro, de onde os rapazes partem para a cidade em busca do futuro, ou as meninas partem para casar. “O destino das meninas era o de serem levadas de suas famílias para cuidarem de homem e de casa, antes mesmo de se tornarem mulheres.” (pág. 201) Muitas vezes para nunca mais voltarem, ou apenas para a despedida do pai ou da mãe moribundos. Luzia é a única que não parte, a que está marcada com o anátema de ter poderes mágicos, de ser feiticeira e de transportar consigo o Mal.

O povo pobre que trabalha a terra recebida dos seus antepassados é espoliado e desapossado das suas roças por gente sem escrúpulos a mando dos que querem constituir grandes propriedades. “Os pobres não tinham direito sequer à própria cova. A terra jamais seria dos pobres, nem mesmo depois de mortos.” (pág. 230) Para além dos senhores da terra, é a Igreja que manda na Tapera. O símbolo material do seu poder é o Mosteiro, a escola do Mosteiro, o abade Tomás e os cobradores a mando da Igreja, implacáveis a cobrar ao povo um imposto indevido. Além disso, é todo um sistema de opressão, de violação de direitos, de abuso, de apagamento das crenças e da cultura ancestral - “tudo coisa de gente índia e preta” (pág.142) - que faz com que a Igreja tenha as mãos manchadas de sangue, servindo-se da ignorância e do temor do povo para o virar contra si próprio, em vez de se rebelar contra quem o oprime.

As vidas dos “despossuídos” (pág. 239) da Tapera são vidas marcadas pela violência, sofrimento e resistência. Na Tapera há mulheres que morrem de melancolia, mulheres que engolem a raiva e se submetem para dar um futuro melhor aos filhos, mulheres que só têm possibilidade de viajar quando se tornem viúvas, mulheres que tapam a boca porque não têm dinheiro para pôr os dentes que lhes faltam, mulheres que são apedrejadas porque são apontadas como o símbolo do Mal, mulheres que enfrentam os homens que lhes roubam as terras, mulheres solidárias, mulheres que perdem o medo e se libertam. São sobreviventes e guerreiras.

A última parte do romance – A alma selvagem – entrelaça de forma magistral a história do Brasil, a colonização, a escravização, o passado e o presente, o antes e o agora, as narrativas dos diferentes narradores e protagonistas e em tempos diferentes. Ao ler as histórias destas mulheres e destes homens não consegui deixar de recordar a fantástica exposição Complexo Brasil acolhida na Fundação Calouste Gulbenkian neste ano e de recordar o manto de penas com que Luzia se cobre no final do romance, quando se dirige ao local da terra que era do pai: “Seu nome é coragem, e já não teme a morte.” (pág. 334)

17 de Julho de 2026

 

 

 

 

 


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