terça-feira, 1 de setembro de 2026

A Analfabeta . Relato Autobiográfico, Agota Kristof

 


“A Analfabeta. Relato Autobiográfico”, Agota Kristof, 2004

Um livro que é um curto relato autobiográfico, mas cuja leitura nos impele a descobrir mais sobre esta autora húngara, sobretudo avançar na leitura de “A Trilogia da Cidade de K.”, o seu livro mais significativo.

Como se pode ser analfabeta aos 26 anos, quando aos 4 anos se era leitora compulsiva e fluente, é a questão que nos é colocada? Para isso há que conhecer o percurso da criança que aos 4 anos lia  tudo o que lhe chegava às mãos, como se fosse uma doença; que desenvolvia a capacidade de inventar e contar histórias tendo os dois irmãos como destinatários; que, aos 14 anos, separada dos irmãos, do pai e da mãe, a viver num internato que se assemelhava a algo “entre um quartel e um convento, entre um orfanato e um reformatório” (pág. 17), era a escrita de poemas e de um diário com um código secreto, a forma de sobreviver ao silêncio, à disciplina e à ausência de liberdade. Ou então escrever pequenas peças em que imitava os professores da escola ou do internato, que ela chama as “palhaçadas” que faziam a alegria das suas colegas.

A Hungria está sob o domínio da União Soviética e um dos grandes choques, para além do afastamento da família, é a obrigatoriedade de falar uma língua inimiga. Resistir, sabotar é continuar a escrever na língua materna. A sua ligação à resistência e posteriormente à revolta de 1956 obriga-a a fugir com a sua bebé, a atravessar a fronteira da Áustria e depois a da Suíça. Como refugiada, deixou tudo para trás. “Deixei na Hungria o meu diário secreto, assim como os meus primeiros poemas. Também deixei lá os meus irmãos, os meus pais, sem aviso prévio, sem me despedir deles, sem sequer lhes dizer adeus. Porém, acima de tudo, naquele dia, nesse dia de finais de novembro de 1956, perdi para sempre a minha pertença a um povo.” (pág. 42)

Na Suíça, tem casa, trabalho numa fábrica, mas não tem tempo para ir às aulas de línguas. “Como teria sido a minha vida se não tivesse deixado o meu país? Mais dura, mais pobre, penso eu, mas também menos solitária, menos dilacerante; talvez feliz.” (pág. 47) (…)

“Na fábrica, todos são simpáticos connosco. Sorriem-nos, falam-nos, porém, não compreendemos nada.

É aqui onde começa o deserto. Deserto social, deserto cultural. Da exaltação dos dias da revolução e da fuga, segue-se o silêncio, o vazio, a nostalgia dos dias em que tínhamos a sensação de participar em algo importante, quem sabe histórico, as saudades de casa, da família, dos amigos.

Esperávamos por algo quando aqui chegámos. Não sabíamos o que esperávamos, mas certamente não era isto: dias de trabalho, cinzentos, noites silenciosas, esta vida congelada, sem mudanças, sem surpresas, sem esperança.” (pág. 50)

Este pequeno, mas precioso livro, traz-nos à reflexão a realidade da vida de um/a refugiado/a, de um/a emigrante. Ágota viveu aos 26 anos o desafio de uma analfabeta. Sabia falar, mas não conseguia ler nem escrever em francês. Um desafio que superou com as aulas no curso de verão, com a consulta constante do dicionário, mas reconhece que embora tentasse escrever o melhor que podia em francês, nunca conseguiria escrever como os escritores que tiveram o francês como língua materna.  

Agota  Kristof nasceu em 1935 e faleceu com 76 anos. Entre 1981 e 1984 escreveu as suas memórias de infância que são acolhidas pelas Éditions du Seuil sob o título “O Grande Caderno” e que foram traduzidas em 18 línguas.  Na badana de “A Analfabeta”, traduzido por Rui Paiva, pode ler-se: “No final da sua vida, Agota Kristof deixa de escrever em francês e entrega todos os seus manuscritos, a sua máquina de escrever, e o seu dicionário bilingue húngaro-francês, ao Arquivo Literário Suíço. Em março de 2011, é-lhe atribuído o Prémio Kossuth, o mais prestigiado prémio literário da Hungria. Foi, para ela, um sinal de reconhecimento do seu país natal. Agota Kristof morre pouco tempo depois, a 27 de Julho de 2011.”

23 de Julho de 2026



 


domingo, 23 de agosto de 2026

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

 


“Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024

Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passado, volto a encontrar uma escritora profundamente conhecedora da cultura alemã e interessada na figura de Sigmund Freud que, também surge no livro anteriormente referido. Desta vez, Teolinda Gersão, não indo fazer um “romance histórico” (pág. 8), como ela própria refere na Nota Inicial, vai fazer um romance baseado na troca de correspondência entre Martha Bernays e Sigmund Freud ao longo do noivado de quatro anos, assim como nas cartas que Freud trocou com amigos, com colegas, com Minna a cunhada e com Anna a filha. “Autobiografia não escrita de Martha Freud” foi o romance vencedor por unanimidade da edição de 2025 do Prémio de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues (FENPROF/SABSEG), tendo o júri considerado a «obra em que uma rigorosa investigação documental e a criação literária se conjugam de forma exímia num processo de escrita estimulante.”

Martha Freud, apesar dos seus mais de 80 anos, é uma mulher activa a quem a idade não pesa e sente necessidade de preencher o seu tempo, arrumando ideias, escrevendo memórias mas, ao fim de uma centena de páginas escritas, tem a noção do peso das palavras e de como aquilo que tem para escrever enquanto mulher de um homem célebre poderá abalar a reputação do homem, criar desconforto no seio familiar e mesmo ser adulterado ou destruído. E por isso, reduz a cinzas o que já escreveu e decide “apagar-se ou remeter-se ao silêncio” (pág. 18) que foi o que sempre fez enquanto mulher de Sigmund Freud. No entanto, como “livre pensadora” (pág. 22), portanto livre, não vai deixar de pensar toda a sua relação, embora não deixe nada escrito. Antes de ser Martha Freud foi Martha Bernays e, mesmo casada, nunca deixou de o ser.

As inúmeras cartas que trocaram ao longo do seu longo noivado e que ela vai reler e analisar, tantos anos depois, permitem-lhe ver com outros olhos o que lá estava escrito e, mesmo nunca deixando de ser crítica quando as lera com os olhos de jovem apaixonada, as palavras usadas e os detalhes levam-na a uma profunda reflexão agora. Foi ela que teve a iniciativa da primeira carta, mas foi a personalidade dela que permaneceu sempre na sombra. Se ao longo dos quatro anos de noivado houve momentos de tensão e quase ruptura, se a tendência obsessiva de Sigmund Freud de tudo controlar, de desvalorizar sentimentos e só se interessar por factos, de apenas observar Martha como objecto de análise, ela admira-se por se ter deixado humilhar tantas vezes, por não ter posto um ponto final a uma relação obsessiva e doentia que a queria despersonalizar e afastar dos amigos e da própria família. Freud era afinal uma pessoa insegura, ciumenta, possessiva, misógina, apenas interessado em si próprio e em conseguir alcançar a fama e fortuna, utilizando as pessoas para atingir os seus objectivos. O seu casamento remeteu-a ao papel de esposa e mãe, tendo parido seis filhos ao longo de nove anos. Mas Martha era também uma personalidade forte que impôs limites claros nomeadamente de não permitir a sujeição dos filhos a quaisquer devaneios de análises e experimentações por parte do pai, exceptuando Anna, a filha dilecta e seguidora de Freud na psicanálise.

Num tempo em que os direitos das mulheres eram uma miragem e em que os desejos de emancipação do controlo dos pais raramente eram alcançados com o casamento, Martha Freud foi uma mulher apagada, silenciada atrás dum homem que ficou para a história. Restava-lhe o desinteresse e a indiferença por alguém que não a merecia. Tal como Sigmund Freud estabeleceu ao longo dos seus 83 anos de vida relacionamentos ambíguos, muitas vezes movidos por interesses pessoais mais tarde descartáveis com amigos, com colegas e com mestres, só com Anna se manteve fiel, pois foi a única que ele moldou à sua imagem e segundo os seus interesses.

Um livro cuja leitura é valiosa.

12 de Agosto de 2026 


sexta-feira, 31 de julho de 2026

Coração sem Medo, Itamar Vieira Junior



“Coração sem Medo”, Itamar Vieira Junior, 2025

Que difícil é escrever sobre um livro e uma trilogia tão fortes, tão profundos, tão universais. Impossível não ficar com a sensação de que qualquer coisa que se escreva como reflexão depois desta leitura ficará sempre muito aquém e será muito pobre face a um trabalho de grande fôlego como é esta Trilogia da Terra. 

Neste “Coração sem Medo” vamos descobrir a ligação de Rita a Donana e a Carmelita que nos tinham aparecido em “Torto Arado”, tal como em “Salvar o Fogo” descobrimos Maria Cabocla (Mariinha) irmã de Luzia. As histórias entrelaçam-se, os anos passam e os lugares são diferentes, mas há um continuum que vem dum passado remoto, da escravização, da luta pela terra e pela dignidade, numa resistência contra as opressões sem fim que teimam em permanecer.

Em todos os três livros, partimos duma situação inicial dramática, em torno da qual se vai desenvolver a narrativa. Aqui Rita, que podia ser Ritinha, mas que ficou sendo Rita Preta, para o nome não ser confundido com o da patroa, confronta-se com uma situação limite: o desaparecimento de um filho. Numa sociedade profundamente injusta e desigual, violenta, marcada pelo atropelo de direitos, pela precariedade e pelo racismo, Rita Preta mora numa comunidade pobre em que os moradores são, à partida, tratados como bandidos. O pressuposto é que, se Cid, jovem adolescente filho de Rita Preta desapareceu, alguma coisa deve ter feito. Alguém a medo confessa que assistiu à cena da sua captura pela polícia. A aflição, o desespero inicial, o sentimento de culpa, o lutar, o não ficar parada, o resistir às ameaças, o vencer o medo, o cair e levantar-se, por tudo isto passa Rita Preta que tem de gerir o cuidar dos outros filhos e sobreviver com o pouco que tem, sem desistir de descobrir o paradeiro do filho desaparecido. Face às ameaças explícitas “Isso é o que fazemos com mulheres fortes” (pág. 141) só há duas hipóteses: calar ou expor-se. 

Neste mover o mundo para localizar o filho, Rita Preta também descobre solidariedades e outras mulheres a viver o mesmo drama, que se entreajudam, que partilham as suas histórias e fazem disso a sua força. “Quando alguém desaparece, é como se a vida não terminasse. Está faltando alguma coisa. É uma história sem ponto-final.” (pág. 261) E mesmo num mundo desumanizado e corrompido pela desesperança ainda há funcionários dos serviços com coração e humanidade, prisões onde há um espaço para a leitura e para a conversa, associações que dão o seu tempo para lutar contra a arbitrariedade. Sendo este um livro muito duro, ele consegue, no entanto, ser um raio de esperança para um futuro mais justo.

Um dia, no meio dos muitos afazeres, Rita Preta - trabalhadora precária, mãe sozinha com três filhos a cargo - desabafa: “Minha vida daria um livro.” (pág. 272). Mal ela sabia que um dia, Cainho, o filho do meio iria registar a história da mãe, da avó, da bisavó, das e dos que as antecederam, ligando a história da família à história do Brasil, da escravização, como forma de resistência, lutando contra o esquecimento, pelo direito à preservação da memória.

Esta Trilogia da Terra que agora chega ao fim é um registo vivo, não linear, com incursões em múltiplos tempos, espaços e personagens e trazendo diferentes vozes e narradores que irão permanecer vivos na memória por muito tempo.

29 de Julho de 2026

sábado, 18 de julho de 2026

"Salvar o Fogo", Itamar Vieira Junior

 


“Salvar o Fogo”, Itamar Vieira Junior, 2023

Antes de me lançar neste “Salvar o Fogo” e a seguir no “Coração sem Medo”, voltei à leitura de “Torto Arado” que tinha lido há quatro anos. Queria recordar um livro que tinha amado, para melhor me preparar para a abordagem da trilogia de Itamar Vieira Junior. “Salvar o Fogo” é soberbo, uma escrita mágica que nos leva ao Brasil sofrido da Tapera do Paraguaçu.

O centro da narrativa é a história de uma mulher que rejeita a sua maternidade, que decide entregar o fruto da violação às águas do Paraguaçu.  Um parto em noite de lua cheia, assim começa “Salvar o Fogo”.

A Tapera, onde Mundinho e Alzira criaram os seus filhos – Raimundo, Humberto, Joaquim, Zazau, Mariinha e Luzia – é um lugar marcado pela pobreza, sem futuro, de onde os rapazes partem para a cidade em busca do futuro, ou as meninas partem para casar. “O destino das meninas era o de serem levadas de suas famílias para cuidarem de homem e de casa, antes mesmo de se tornarem mulheres.” (pág. 201) Muitas vezes para nunca mais voltarem, ou apenas para a despedida do pai ou da mãe moribundos. Luzia é a única que não parte, a que está marcada com o anátema de ter poderes mágicos, de ser feiticeira e de transportar consigo o Mal.

O povo pobre que trabalha a terra recebida dos seus antepassados é espoliado e desapossado das suas roças por gente sem escrúpulos a mando dos que querem constituir grandes propriedades. “Os pobres não tinham direito sequer à própria cova. A terra jamais seria dos pobres, nem mesmo depois de mortos.” (pág. 230) Para além dos senhores da terra, é a Igreja que manda na Tapera. O símbolo material do seu poder é o Mosteiro, a escola do Mosteiro, o abade Tomás e os cobradores a mando da Igreja, implacáveis a cobrar ao povo um imposto indevido. Além disso, é todo um sistema de opressão, de violação de direitos, de abuso, de apagamento das crenças e da cultura ancestral - “tudo coisa de gente índia e preta” (pág.142) - que faz com que a Igreja tenha as mãos manchadas de sangue, servindo-se da ignorância e do temor do povo para o virar contra si próprio, em vez de se rebelar contra quem o oprime.

As vidas dos “despossuídos” (pág. 239) da Tapera são vidas marcadas pela violência, sofrimento e resistência. Na Tapera há mulheres que morrem de melancolia, mulheres que engolem a raiva e se submetem para dar um futuro melhor aos filhos, mulheres que só têm possibilidade de viajar quando se tornem viúvas, mulheres que tapam a boca porque não têm dinheiro para pôr os dentes que lhes faltam, mulheres que são apedrejadas porque são apontadas como o símbolo do Mal, mulheres que enfrentam os homens que lhes roubam as terras, mulheres solidárias, mulheres que perdem o medo e se libertam. São sobreviventes e guerreiras.

A última parte do romance – A alma selvagem – entrelaça de forma magistral a história do Brasil, a colonização, a escravização, o passado e o presente, o antes e o agora, as narrativas dos diferentes narradores e protagonistas e em tempos diferentes. Ao ler as histórias destas mulheres e destes homens não consegui deixar de recordar a fantástica exposição Complexo Brasil acolhida na Fundação Calouste Gulbenkian neste ano e de recordar o manto de penas com que Luzia se cobre no final do romance, quando se dirige ao local da terra que era do pai: “Seu nome é coragem, e já não teme a morte.” (pág. 334)

17 de Julho de 2026

 

 

 

 

 


sábado, 11 de julho de 2026

"Perdeu-se Relógio de Senhora", Alice Brito

 




“Perdeu-se Relógio de Senhora”, Alice Brito, 2026

 

Este é o mais recente livro de Alice Brito e, para quem já leu os outros livros desta autora, vai reconhecer em pleno o seu estilo, a linguagem, os temas, a personalidade da escrita e também a frescura e novidade que os seus livros sempre trazem. Frases curtas, incisivas, certeiras. Como não podiam faltar, a cidade de Setúbal e José Afonso fazem parte integrante deste quarto romance de Alice Brito. E a voz da narradora, sem papas na língua, a pôr o dedo na ferida num tempo de retrocesso, de negação, de saudosismo é, certamente, uma marca de água da escrita de Alice Brito.

“Perdeu-se Relógio de Senhora” começa assim: “Tinha-se muita sede por esses tempos” (pág. 11). O romance traz-nos as vidas de três mulheres nascidas em tempos diferentes do século passado e em terras diferentes, as quais, por mero acaso, vão partilhar um apartamento na Duque d’Ávila em Lisboa. As múltiplas referências ligadas às suas vivências e percursos ao longo dos anos ajudam-nos a contextualizar aquele(s) tempo(s) e reflectem um cuidadoso trabalho de investigação que nos permite recordar o Portugal da segunda metade do século passado, como também as importantes lutas operárias e as transformações sociais anteriores. Um Portugal com “muita sede” que subalternizou as mulheres, sujeitou o povo a uma feroz repressão, onde o medo e a hipocrisia medraram - “um país trágico” (pág. 132) - mas em que a luta de classes nunca deixou de existir e que acabou por desembocar na “década de espanto” (pág. 221) quando finalmente Beatriz, Benvinda e Bia, tão diferentes, se encontraram e partilharam uma casa em comum.

Finalmente o 25 de Abril. “Há dias e dias. E aquele dia, um dia líquido em que se matou a sede, por muita tropelia e análise variada e avariada que se lhe faça, resgatou do pesadelo todo um povo que só queria ser gente. Gente a sério.” (pág. 315)

Este livro é uma necessidade num tempo em que comemoramos os 50 anos da liberdade e nos confrontamos com a falta de vergonha, com o desaforo da mentira e todos os tiques da subserviência à extrema direita saudosa do fascismo. Mas é também um grito de esperança e de amor a esse “dia de ouro na memória de quem penou o viver antes.” (…) “Falar de Abril, sem lhe juntar a palavra liberdade, ou alegria, ou coragem é o mesmo que trair um amigo pelo esquecimento, pela omissão ou pelo desprezo.” (pág. 316)

Ler este livro é continuar a dialogar com a acutilância e clareza da escrita de Alice Brito. Para quem ainda não conhece a obra desta autora defensora da causa feminista, é o incentivo para a descobrir, começando por “As Mulheres da Fonte Nova”, “Um romance histórico arrebatador sobre a dor e a sobrevivência das mulheres de todos os tempos”, transcrevendo as palavras de Cristina Carvalho num artigo no Jornal de Letras.

27 de Junho de 2026

Almerinda Bento

 

 

 

 

domingo, 28 de junho de 2026

"O Quarto de Giovanni" , James Baldwin

 


“O Quarto de Giovanni”, James Baldwin, 1956

Há muito que tinha o nome de James Baldwin como referência da literatura americana do século passado e voz forte na luta pelos direitos cívicos, contra o racismo e a homofobia. Acontece que foi através de “O Quarto de Giovanni” que me estreei na leitura deste autor negro e homossexual e, embora neste livro as suas personagens não sejam negras, ele versa a homossexualidade e a homofobia. Se nos dias de hoje os direitos da comunidade homossexual já fizeram um grande caminho, em meados do século passado, quando James Baldwin escreveu este livro, a homossexualidade ainda era criminalizada e patologizada em muitos países do mundo, nomeadamente nos Estados Unidos da América.

David, o narrador, teve em jovem uma relação ocasional homossexual que quis esquecer. Vergonha, medo, a impossibilidade de esquecer essa experiência levam-no a decidir deixar os EUA e partir para França, numa tentativa de fugir do seu próprio eu. Tentativa vã. É com desconforto e amargura que vive a sua condição homossexual, incapaz de resistir, numa postura ambivalente de culpa e ódio, sonhando por libertar-se e seguir uma vida heteronormativa, ao mesmo tempo que reconhece que toda a vida não mais fez que mentir a si próprio. Esta condição de homofobia internalizada está muito bem retratada neste narrador contraditório que tenta sobreviver, ajustando-se a uma sociedade hipócrita, preconceituosa, homofóbica e profundamente misógina.

O próprio quarto de Giovanni, com o qual David tem uma relação breve, pode ser considerado uma personagem que ajuda a caracterizar o desconforto homofóbico do narrador - sujo, desarrumado e sem privacidade – mesmo que Giovanni o tente “melhorar”, criando um espaço na parede para arrumar livros…

Não posso deixar de referir o final do livro, a condenação de Giovanni apenas aflorada e não explicitada na primeira parte, episodicamente referida ao longo do livro, que é descrita pelos olhos de David, enquanto faz as malas e se prepara para partir: os últimos momentos de Giovanni prestes a ser executado pela guilhotina. Brutal e magistral. Pensar que a pena de morte pela guilhotina só foi abolida em França em 1981!


“… Talvez não goste muito de mulheres, na verdade. Mas isso não me impediu de fazer amor com muitas e de amar uma ou duas. Mas a maior parte do tempo… a maior parte do tempo fiz amor apenas com o corpo.

- Isto parece-me muito solitário – disse. Não tinha de todo previsto dizer isto.

E ele não esperava ouvi-lo. Olhou para mim, ergueu a mão e acariciou-me o rosto.

- Sim, e não estou a querer ser méchant quando falo de mulheres. Respeito, e muito, as mulheres, pela sua vida interior, que não é como a de um homem.

- As mulheres não parecem gostar dessa ideia.

- Oh, essas mulheres absurdas que andam agora por aí, cheias de ideias e de disparates julgando-se iguais aos homens, quelle rigolade!, precisam se ser copiosamente espancadas para perceberem quem manda no mundo.

Ri.

- As mulheres que conheceste gostavam de ser espancadas?

Ele sorriu.

- Não sei se gostavam. Mas uma sova nunca as fez fugir. – Rimo-nos ambos. “(pág. 94)

 

10 de Junho de 2026

 


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Persépolis, Marjane Satrapi

 


“Persépolis”, Marjane Satrapi, 2007

 

Marjane Satrapi (1969-2026). Falou-se e escreveu-se muito sobre ela há duas semanas, aquando da sua morte, com 56 anos. Avessa que sou a “histórias aos quadradinhos”, foi preciso ser incentivada por um dos clubes de leitura que sigo, que escolhera a leitura da novela gráfica “Persépolis” e ter recebido finalmente o aviso da Biblioteca Municipal de que já tinha o livro disponível para o poder levantar, que finalmente me lancei na leitura da famosa novela gráfica da ilustradora, cineasta e escritora iraniana. E que assombro. O meu preconceito impedira-me de apreciar há mais tempo esta maravilhosa autobiografia que é a “história de uma infância e a história de um regresso.”

Além de a mancha gráfica ser muito forte, expressiva e apelativa, a história é corajosa, muito divertida e dá-nos um retrato de uma sociedade e de um povo sobre o qual a informação que é veiculada é, regra geral, deturpada e enviesada. Na Introdução que é uma breve resenha da história do Irão, sobre o qual geralmente só temos a imagem do xá, da sua queda em 1979, aquando da Revolução Islâmica, escreve-nos a autora: “Desde então, esta antiga e grandiosa civilização tem sido quase sempre associada ao fundamentalismo, ao fanatismo e ao terrorismo. Como iraniana que viveu mais de metade da sua vida no Irão, sei que esta imagem está muito longe da verdade. É por isso que escrever «Persépolis» foi tão importante para mim. Acredito que uma nação inteira não deve ser julgada pelos crimes de uns quantos extremistas. Também não quero que aqueles iranianos que perderam a vida nas prisões defendendo a liberdade, que morreram na guerra contra o Iraque, que sofreram às mãos de vários regimes repressivos ou que foram forçados a abandonar as suas famílias e a fugir da sua pátria sejam esquecidos. Podemos perdoar, mas não devemos nunca esquecer.” (pág. 8)

Como escrevi acima, fiquei rendida a esta novela gráfica. A autora começa por nos falar sobre o momento em que ela e todas as meninas da sua idade foram obrigadas ao absurdo do uso do véu, quando viu a escola que era mista passar a ser segregada por sexo, o encerramento das universidades, a resistência através de manifestações contra o fundamentalismo e a repressão. Marjane teve a sorte de nascer e ser educada numa família com tradições de resistência ao regime opressivo do Xá, do pai que sempre a esclareceu nas suas dúvidas, desmontando as narrativas falsas dos livros escolares e sobretudo tendo a preocupação de que a memória da família não se perdesse, nomeadamente a memória do tio assassinado pelo regime. Numa fase de crescimento, confronta o que lê nos livros com a realidade, inclusivamente a situação de privilégio social da família detentora de um Cadillac e com uma criada que foi trabalhar para casa dos pais, aos 8 anos. O livro consegue ser muito divertido, porque traz a ingenuidade da criança influenciada pela religião e com o sonho de ser profeta…

Com a guerra com o Iraque, todo o ambiente se degrada rapidamente e a repressão intensifica-se. Os jovens mortos na guerra são transformados em mártires pelo regime, a vida do povo iraniano degrada-se profundamente e assiste-se ao apertar da vida social com restrições e proibições que vão fomentar não só as denúncias e a repressão, mas também a corrupção dos guardas da revolução. Os sinais de rebeldia da autora levam à sua expulsão da escola que frequenta e os pais tomam a difícil decisão de enviar a jovem Marjane de 14 anos para a Áustria.

A autora é bastante exaustiva na caracterização do que é a vida de uma jovem numa fase tão delicada do seu crescimento, sendo estrangeira, refugiada, sem suporte familiar, com problemas de afirmação da sua identidade iraniana, num país em que a extrema direita está a crescer e em que a xenofobia é uma realidade.  É a lembrança da avó e os seus ensinamentos que a salvam, nos momentos mais difíceis.

No regresso a Teerão vai confrontar-se com a opressão que a obriga a voltar a pôr o véu, e por toda a parte, na rua, os murais omnipresentes trazem-lhe a culpa e fazem-na sentir-se “rodeada pelas vítimas de uma guerra a que tinha fugido” (pág. 261) quatro anos antes. Mas ela é rebelde, insubmissa e corajosa e consegue ultrapassar o choque e a depressão face a uma sociedade profundamente esquizofrénica que sobrevive dividida entre aquilo que é obrigada a exibir em público e o que vive entre as quatro paredes da casa, nomeadamente no que os guardiões da revolução consideram imoral e decadente do ponto de vista dos costumes e dos relacionamentos entre sexos.

Após um casamento em que não foi feliz nem se sentiu realizada enquanto pessoa, pede o divórcio e, desta vez, é Marjane que decide partir para França. Estava-se em 1994. Era a despedida definitiva do seu amado país que, apesar da sua beleza, das memórias de infância, dos locais ligados à sua família e à sua história pessoal, era uma prisão para as mulheres, retirando-lhes quaisquer direitos.

Fiquei fascinada pelo livro e quero ver o filme que também foi realizado pela autora, o qual foi nomeado na categoria de Melhor Filme de Animação aos Óscares de 2008, tendo também recebido em 2007 o prémio do júri do festival de Cannes.

Uma pena a morte tão prematura duma mulher tão inspiradora e talentosa.

16 de Junho de 2026


A Analfabeta . Relato Autobiográfico, Agota Kristof

  “A Analfabeta. Relato Autobiográfico”, Agota Kristof, 2004 Um livro que é um curto relato autobiográfico, mas cuja leitura nos impele a ...