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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Viver com Homens, Manon Garcia



“Viver com Homens: Reflexões sobre o Caso Pelicot” – Manon Garcia, 2025

“Viver com Homens: Reflexões sobre o Caso Pelicot” é um importante trabalho etnográfico de extrema actualidade, num tempo em que impera o ódio às mulheres e a impunidade dos discursos misóginos ampliada livremente pelas redes sociais. A autora, Manon Garcia é uma filósofa e pensadora feminista com estudo e reflexão sobre questões feministas e sobre “submissão” e “consentimento”, que sentiu a urgência de escrever sobre este caso que abalou a sociedade e que ela acompanhou ao longo dos cerca de quatro meses que demorou o julgamento de Dominique Pelicot e dos cinquenta arguidos que violaram Gisele, com a conivência do marido.

Antes do mais, quero referir a coragem de Gisele Pelicot, ao decidir que o seu caso não seria julgado à porta fechada, dado o melindre da situação. Foi ela que, depois de visionar os vídeos que o marido fizera ao longo de anos, organizados metodicamente e que identificara com o nome “Abusos”, decidiu que o julgamento tinha de ser público. Claro que a isso não é alheia a existência do movimento #Me Too e dos movimentos feministas que permitiram uma atitude que seria altamente improvável num contexto em que a força das organizações e dos movimentos feministas não existisse. “Desde o início do processo, Gisèle Pelicot é descrita às portas do tribunal como uma heroína, um ícone, uma mulher de uma rectidão sem igual.” (pág. 119) Se Gisèle Pelicot pode ser considerada “uma boa vítima” – é uma mulher de idade, educada e sabe falar a linguagem das instituições policial e judicial – a verdade é que houve momentos em que a justiça a tratou mal, insinuando que ela teria consentido, para além da “vitimização secundária” a que foi sujeita e que a levou a fazer esta afirmação: “Tenho a impressão de que a culpada sou eu, e que atrás de mim estão as cinquenta vítimas.” (pág. 122)

Provavelmente este caso de violações colectivas não teria sido descoberto, se Dominique Pelicot não tivesse sido “detido quando filmava por baixo das saias de mulheres no Intermarché de Carpentras. O vídeo do segurança que o interpelou nesse dia tornou-se viral: sem ele o caso Mazan não existiria, sem ele Gisèle Pelicot talvez tivesse acabado por morrer em consequência das enormes doses medicamentosas que o marido lhe ministrava.” (pág. 105) E isto leva-nos a pensar no que fica no silêncio, no que nunca se vem a saber, para além do que nunca é denunciado, do que nunca é punido. Este caso de violação colectiva com inúmeras provas concretas, que foi julgado e punido, veio ligado à suspeita de incesto que ficou por apurar relativamente à filha e às noras de Dominique, por falta de provas.

O caso Pelicot altamente mediatizado é um problema social e não um mero episódio. O ódio às mulheres passou a ser explícito e largamente difundido a partir de influenciadores com milhares de seguidores em várias plataformas e redes sociais.  Refutamos a culpabilização das mulheres na sua luta pela igualdade, na não aceitação da submissão como comportamento expectável, normalizado e banalizado. No capítulo “Masculinidade(s)”, Manon Garcia faz referência a um jovem neonazi trumpista que escreveu na plataforma X, no próprio dia da eleição de Trump, o slogan Your body, my choice”, num claro ataque ao direito ao aborto, o qual teve cem milhões de visualizações. Num artigo de opinião de Luísa Semedo, investigadora, doutorada em Filosofia Política e Ética, de 14 de Maio no jornal “Público” – O que “eles fazem entre quatro paredes” (não me) interessa? – a cronista escreve: “É o caso dos grupos de Whatsapp e Telegram em que homens como Dominique Pelicot drogam, violam, filmam as companheiras, mas também partilham as imagens. Em março de 2026, uma investigação da CNN revelou o que ficou conhecido como a «online rape academy», um espaço em que homens de vários países trocavam conselhos sobre sedativos e dosagens, partilhavam vídeos de mulheres inconscientes e vendiam o acesso a esses conteúdos. Em Portugal, o PÚBLICO documentou um grupo de Telegram, com perto de 70 mil membros, em que circulavam imagens de mulheres fotografadas sem o seu consentimento, muitas vezes enquanto dormiam, num dos tópicos mais ativos chamado “Esposas” ou ainda “Família” ou “Espiar em Casa”. Assustadoramente, confirma-se que o lugar mais inseguro é mesmo dentro de casa e que “saber e ver-se como violável de um momento para o outro é uma experiência específica da feminilidade. As raparigas e as mulheres são criadas com a ideia de que a ameaça está sempre lá, que têm de se adaptar, não podem andar sozinhas na rua, não podem ser demasiado sexy, têm de andar depressa, baixar os olhos, curvar o peito, não sorrir. Ter cuidado com o número de copos que bebem quando saem, não deixar sozinha a amiga alcoolizada, verificar a matrícula do Uber. «Mandas-me mensagem quando chegares?»” (pág. 139) pode ler-se no capítulo “Violável”.

O livro é perturbador e bastante completo na caracterização da personalidade perversa, doentia de Dominique Pelicot. Se na mensagem enviada para angariar violadores “Procuro cúmplice perverso para abusar da minha mulher adormecida, em violação colectiva, em minha casa. Ela toma todos os dias um comprimido para dormir, nem sequer te verá. Bela puta pudica que não quer trios” (pág. 63) Dominique mostra absolutamente ao que vai, colaborando activamente com os violadores, igualmente se mostra colaborador com a justiça em todo o processo, referindo-se a Gisèle como “o seu amor, a sua santa, que não ama outra mulher senão ela, que a deveria ter protegido…” (pág. 132), mantendo ao longo dos quatro meses do processo sempre o mesmo discurso “Sou um violador como estes que estão presentes nesta sala.” (pág. 131) e uma postura firme e destacada qual “rei Pelicot.” (pág. 134)

Termino valorizando o interesse e importância política da publicação deste livro de Manon Garcia pela Zigurate. Deveria fazer parte da bibliografia de qualquer pessoa que se interesse pelas questões do feminismo e do patriarcado. É um livro profundamente honesto em que a própria autora, com toda a sua formação teórica se mostra frágil,  abalada e exausta, enquanto observadora atenta deste processo, em que sentiu dúvidas, em que por vezes tomou partido contra a sua própria vontade, movida pela emoção e caindo na armadilha da cultura machista em que vivemos desde que nascemos.

Um livro que recomendo muitíssimo e que agradeço à minha amiga insubmissa que mo ofereceu. Obrigada Manu.

18 de Maio de 2026

 

terça-feira, 28 de abril de 2026

O País dos Outros, Leila Slimani




“O País dos Outros” – Leïla Slimani, 2021

(tradução de Tânia Ganho)

“O País dos Outros” com o subtítulo “A guerra, a guerra, a guerra” é o primeiro de uma trilogia. A autora nascida em Rabat, oriunda de uma família de expressão francesa, é filha dos filhos da independência de Marrocos. “O País dos Outros” que inicia a saga da família Belhaj, é inspirado na história da avó da autora.  Leïla Slimani, com um percurso no jornalismo e com um interesse particular pelos problemas das jovens marroquinas para quem muitas causas e direitos de igualdade e emancipação estão ainda longe de estar alcançados, busca na sua obra trazer a história, a memória, as causas sociais e políticas. Numa entrevista ao Jornal de Letras de 9 de Agosto de 2022, diz que através da sua obra “quer pôr palavras sobre o silêncio, desafiar a amnésia.”

A história passa-se após a segunda Guerra Mundial e nos anos 50, quando irrompe a luta contra o colonialismo francês em Marrocos. Adime vai combater contra o nazismo, integrado nas fileiras do exército francês. Mathilde é uma jovem alsaciana que lhe serve de guia em França e por quem se apaixona.

Terminada a guerra, o jovem casal vai viver para Marrocos, para uma pequena terra Meknès. À fase do encantamento pelo desconhecido e pela novidade, segue-se a desilusão e a perceção de que aquela é uma viagem sem regresso. Afastada da família, lá longe na Alsácia, rapidamente se vê confrontada com uma cultura profundamente preconceituosa relativamente às mulheres. Desamparo, desespero, solidão, insegurança são os sentimentos vividos pela jovem Mathilde. “– Aqui, é assim. Ela ouviria aquela resposta muitas vezes. Nesse preciso instante, compreendeu que era uma estrangeira, uma mulher, uma esposa, um ser à mercê dos outros.” (pág. 20). Amine, obcecado em transformar o terreno pedregoso e estéril que tinha herdado do pai em terra arável e produtiva, à semelhança dos colonos seus vizinhos, era incapaz de minimamente atender às necessidades e aspirações da jovem mulher. Num período em que Mathilde teve uma profunda crise nervosa, é significativa a pergunta do médico que a vai observar: “- Desculpe a indiscrição, minha cara senhora, mas estou curioso. Como é que aterrou aqui, por deus?” (pág. 133). Só uma vez, quando o pai morre e ela decide voltar à Alsácia, a vontade de ficar e de voltar costas ao marido e aos filhos quase se sobrepõe às obrigações sociais e familiares que havia construído em Marrocos. A resignação vence a momentânea rebeldia e o sonho de um futuro diferente. Mais tarde, num desabafo com uma amiga também estrangeira, Mathilde diz-lhe: “Não tenho alternativa a não ser a solidão. Na minha situação, como é que quer que tenhamos vida social? Não imagina o que é ser casada com um indígena, numa cidade como esta.” “Corinne quase lhe respondera que também nem sempre era fácil ser casada com um judeu, um meteco, um apátrida e ser uma mulher sem filhos.” (págs. 160 e 161). Também a filha, Aïcha, a estudar numa escola católica, é ostracizada pelas colegas que a gozam por causa do cabelo indomável e das roupas usadas.

Os anos 50 trazem o desejo de independência dos marroquinos que não querem mais ser colonizados pelos franceses. Para além da questão política da luta de libertação com revoltas, ataques e mortes, incêndios às plantações e às casas dos colonos, também no seio da sociedade marroquina as jovens aspiram à sua libertação das amarras e dos preconceitos patriarcais que as querem dóceis e submissas. Esses dois mundos em choque são retratados neste livro através de Mouilala, Amine, Omar e Selma, respetivamente a mãe, os dois filhos e a filha e irmã mais nova. Dificilmente se poderá esquecer a violência extrema de Amine contra Mathilde e Selma, que por pouco não termina em femicídio. Crimes de honra, casamentos forçados, conversões…

Também neste livro há registo da solidariedade entre as mulheres como é o caso da viúva Mercier que dá livros a Mathilde ou Corinne, mulher do ginecologista, judeu refugiado e amigo do casal Mathilde/Amine. E mesmo de Mouilala e Mathilde.

Esta primeira parte – guerra, guerra, guerra – termina num momento crítico em que a propriedade de Amine e Mathilde é poupada, mas com o país em convulsão profunda. Fica a vontade de continuar e seguir esta saga da família Belhaj. Os próximos volumes da trilogia serão “Vejam como Dançamos” e finalmente “Levarei o Fogo Comigo.”

1 de Abril de 2026

 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...