“Erva”, Keum Suk Gendry-Kim, 2017
Quanto mais se lê, mais se
percebe quão pouco sabemos! É a segunda novela gráfica que leio este ano e esta
é a segunda autora sul coreana que conheço, depois de ter lido há tempos “Atos
Humanos” de Han Kang.
Como se pode ler na nota inicial
de “Erva” “A erva simboliza a resistência, a forte vontade de viver e a
vitalidade das mulheres que nasceram numa época trágica. Muitas das mulheres
que foram vítimas de violência sexual por parte do exército japonês foram
chacinadas, mas, se a vida das mulheres sobreviventes já era difícil antes de
se tornarem “mulheres de conforto”, tornou-se ainda mais depois, tanto mental
como fisicamente.” Este parágrafo
resume o tema desta novela gráfica.
Tal como Han Kang em “Atos
Humanos” denunciou o massacre de Gwangiu em 1980, Keum Suk Gendry-Kim traz-nos
em “Erva” a história de Ok-Sun Lee, uma “mulher de conforto”
sobrevivente de anos de violações por parte de soldados japoneses, esmagada
como a erva, mas que se levantou e deu voz a essas mulheres tratadas como meros
objectos sexuais pelo exército ocupante. Assuntos incómodos, que envergonham a
sociedade que os tenta atirar para debaixo do tapete.
A narradora quis recolher a
história de uma “mulher de conforto” e ouviu-a da boca de Ok-Sun que
agora vive numa Casa da Partilha, onde vivem outras sobreviventes. Nascida duma
família muito pobre, tinha o sonho de ir à escola, como iam os irmãos rapazes.
Como lhe diria o pai no dia em que a vendeu a uma outra família “Se ao menos
tivesses nascido rapaz…” (pág. 88), foi sucessivamente enganada com o
engodo de que iria à escola, tendo feito um caminho sem retorno de escravidão até
que eclodiu a guerra entre a China e o Japão e o ataque a Pearl Harbour. Para
além da mobilização forçada dos coreanos por parte do Japão, assistiu-se ao
apagamento da sua cultura e identidade, forçando-os a um outro culto e à
mudança de nomes e apelidos, o que Ok-Sun nunca permitiu. Não sou de todo
entendida em banda desenhada, mas realço a força das páginas 116 e 117 - a
enorme trança cortada - o sacrifício que fez com a falsa promessa de que tinha
de cortar o cabelo para ir à escola. Aos
15 anos foi raptada com outras raparigas. Total ausência de direitos: fome,
frio, encarceramento. A perda da virgindade (págs. 205 – 209) “Sangrei
tanto!” (pág. 210), o desconhecimento do que era a menstruação, a violência
extrema, as violações, a sífilis, a ausência de esperança, o “amor” como algo
impossível.
Com o fim da guerra, os soldados
fugiram e as raparigas das “casas de conforto” foram abandonadas, não
sabendo que a guerra tinha acabado. Mas não para elas que eram escorraçadas e
ninguém lhes dava de comer, para além das violações por parte de soldados
soviéticos (págs. 371 – 373). Nem no próprio reencontro com a família, muitos
anos depois tiveram consolo, por terem sido “mulheres de conforto”!
A autora e uma activista vão ao
sítio onde Ok-Sun havia sido escravizada sexualmente. Mas nada encontraram,
como se o passado tivesse sido apagado. Mas como erva, Ok-Sun é convidada para
ir à televisão dar depoimentos e testemunho do que viveu e, tal como outras
mulheres, manifesta-se em Seul todas as quartas-feiras desde 1992, insurgindo-se
contra o acordo inaceitável firmado entre o Japão e a Coreia em que nem sequer
as mulheres foram ouvidas.
Traço forte, paisagens desoladas,
violência, frio e solidão são as marcas que uma leiga em banda desenhada
consegue extrair desta novela gráfica que, de uma forma muito expressiva conta
uma história que, tendo acontecido em tempo de guerra na Ásia, certamente
persiste de forma mais camuflada nos nossos tempos e mais perto de nós do que
podemos imaginar.
27 de Agosto de 2026
Almerinda Bento

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