sábado, 19 de setembro de 2026

Erva, Keum Suk Gendry-Kim

 


“Erva”, Keum Suk Gendry-Kim, 2017

Quanto mais se lê, mais se percebe quão pouco sabemos! É a segunda novela gráfica que leio este ano e esta é a segunda autora sul coreana que conheço, depois de ter lido há tempos “Atos Humanos” de Han Kang.

Como se pode ler na nota inicial de “Erva” “A erva simboliza a resistência, a forte vontade de viver e a vitalidade das mulheres que nasceram numa época trágica. Muitas das mulheres que foram vítimas de violência sexual por parte do exército japonês foram chacinadas, mas, se a vida das mulheres sobreviventes já era difícil antes de se tornarem “mulheres de conforto”, tornou-se ainda mais depois, tanto mental como fisicamente.”  Este parágrafo resume o tema desta novela gráfica.

Tal como Han Kang em “Atos Humanos” denunciou o massacre de Gwangiu em 1980, Keum Suk Gendry-Kim traz-nos em “Erva” a história de Ok-Sun Lee, uma “mulher de conforto” sobrevivente de anos de violações por parte de soldados japoneses, esmagada como a erva, mas que se levantou e deu voz a essas mulheres tratadas como meros objectos sexuais pelo exército ocupante.  Assuntos incómodos, que envergonham a sociedade que os tenta atirar para debaixo do tapete.

A narradora quis recolher a história de uma “mulher de conforto” e ouviu-a da boca de Ok-Sun que agora vive numa Casa da Partilha, onde vivem outras sobreviventes. Nascida duma família muito pobre, tinha o sonho de ir à escola, como iam os irmãos rapazes. Como lhe diria o pai no dia em que a vendeu a uma outra família “Se ao menos tivesses nascido rapaz…” (pág. 88), foi sucessivamente enganada com o engodo de que iria à escola, tendo feito um caminho sem retorno de escravidão até que eclodiu a guerra entre a China e o Japão e o ataque a Pearl Harbour. Para além da mobilização forçada dos coreanos por parte do Japão, assistiu-se ao apagamento da sua cultura e identidade, forçando-os a um outro culto e à mudança de nomes e apelidos, o que Ok-Sun nunca permitiu. Não sou de todo entendida em banda desenhada, mas realço a força das páginas 116 e 117 - a enorme trança cortada - o sacrifício que fez com a falsa promessa de que tinha de cortar o cabelo para ir à escola.  Aos 15 anos foi raptada com outras raparigas. Total ausência de direitos: fome, frio, encarceramento. A perda da virgindade (págs. 205 – 209) “Sangrei tanto!” (pág. 210), o desconhecimento do que era a menstruação, a violência extrema, as violações, a sífilis, a ausência de esperança, o “amor” como algo impossível.

Com o fim da guerra, os soldados fugiram e as raparigas das “casas de conforto” foram abandonadas, não sabendo que a guerra tinha acabado. Mas não para elas que eram escorraçadas e ninguém lhes dava de comer, para além das violações por parte de soldados soviéticos (págs. 371 – 373). Nem no próprio reencontro com a família, muitos anos depois tiveram consolo, por terem sido “mulheres de conforto”!

A autora e uma activista vão ao sítio onde Ok-Sun havia sido escravizada sexualmente. Mas nada encontraram, como se o passado tivesse sido apagado. Mas como erva, Ok-Sun é convidada para ir à televisão dar depoimentos e testemunho do que viveu e, tal como outras mulheres, manifesta-se em Seul todas as quartas-feiras desde 1992, insurgindo-se contra o acordo inaceitável firmado entre o Japão e a Coreia em que nem sequer as mulheres foram ouvidas.

Traço forte, paisagens desoladas, violência, frio e solidão são as marcas que uma leiga em banda desenhada consegue extrair desta novela gráfica que, de uma forma muito expressiva conta uma história que, tendo acontecido em tempo de guerra na Ásia, certamente persiste de forma mais camuflada nos nossos tempos e mais perto de nós do que podemos imaginar.

27 de Agosto de 2026

Almerinda Bento


 


Sem comentários:

Enviar um comentário

Os Nomes, Florence Knapp

  “Os Nomes”, Florence Knapp, 2025 Um livro excelente que apetece ler com calma, pelo cuidado e profundidade da escrita, pela singularidade ...