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quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Timbuktu, Paul Auster

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Timbuktu, Paul Auster, 1999


Depois de “Um Cão no Meio do Caminho” de Isabela Figueiredo e na sequência da reflexão sobre as relações de puro afecto que se estabelecem entre as pessoas e os animais, a sugestão do próximo livro, aceite pelo grupo do Círculo de Leitura da UNISSEIXAL, foi este livro de Paul Auster. Para mim, o primeiro livro que leio deste autor norte-americano falecido este ano.


Mr. Bones é a personagem principal em “Timbuktu”. Mr. Bones, um vira-lata, “uma completa embrulhada de traços genéticos” (pág. 8) que, ao longo da narrativa vai ser “baptizado” com outros nomes. Há sete anos que Mr. Bones é o companheiro fiel de Willy, um vagabundo e poeta que, embora sabendo ser “uma alma perturbada e que chumbara no exame de aptidão a este mundo”, andava “de cabeça erguida” (pág. 12), pois tinha noção do valor dos manuscritos que escrevera ao longo da vida. Afinal, “era apenas mais uma criatura bizarra na cena americana” (pág. 27), tendo Mr. Bones como seu interlocutor e fiel companheiro de jornada. Logo no início do livro, percebemos, tal como Mr. Bones, que Willy está a chegar ao fim da vida.


O que acontece a um cão que fica sozinho no mundo? Como sobreviver, quando reconhece que o dono não lhe preparou o futuro? O narrador põe-nos na cabeça de Mr. Bones que reflecte sobre si, sobre a sua visão do mundo, moldada pela aprendizagem da sua vagabundagem ao longo de sete anos com Willy. Mr. Bones tem sentimentos - ansiedade, medo, terror, bem-estar, saudades – e sonhos premonitórios que o preparam para o que virá a seguir. É também o resultado dos preconceitos e do estilo de vida errante que o seu dono lhe proporcionou. Treme quando vê polícias e foge a sete pés nas proximidades de um restaurante chinês. Fica humilhado quando ao fazer tudo bem para abocanhar um pombo, ele lhe foge no último segundo. Percepciona quem mais precisa dele e lhe confidencia os seus problemas mais íntimos. Questiona-se sobre se será melhor viver na rua e em liberdade a comer os restos que encontra, ou amarrado e confinado a um espaço limitado, mas com comida e água garantidas. Mr. Bones teve a possibilidade de conhecer o mundo da pobreza e o mundo da opulência, a rua e a “América das garagens para dois carros” (pág, 139).


Desde que Willy morreu, sempre que as suas pernas lhe permitiram, Mr. Bones fugiu. Willy falara-lhe num sítio “onde as pessoas iam depois de morrerem. (…) Nas últimas semanas, Willy não tinha falado de outra coisa, e agora não havia na mente do cão a menor dúvida de que o outro mundo era um sítio real e não uma invenção. Chamava-se Timbuktu” (pág. 45). Por muito carinho que algumas pessoas lhe tenham dado depois da morte de Willy, Mr. Bones sente saudades e sempre que sonha com ele acorda com “a sensação de que Willy continuava com ele. Mesmo que o dono não pudesse estar presente, era como se estivesse a observá-lo. (…) Mr. Bones não era propriamente um especialista em análise de sonhos, visões e outros fenómenos mentais, mas estava certo de que Willy morava agora em Timbuktu, e se há pouco estivera com Willy, talvez isso também quisesse dizer que o sonho o levara a Timbuktu.” (pág. 108).


É um livro de uma grande ternura, triste, mas com momentos hilariantes, com descrições hiper-realistas e muito bem traduzido por José Vieira de Lima. E, ao ter um cão no centro da narrativa, tem a grande qualidade de nos questionar sobre a vida dos humanos e dos animais. Uma leitura que recomendo.


11 de Dezembro de 2024

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Se os Gatos desaparecessem do Mundo, Genki Kawamura

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“Se os Gatos desaparecessem do Mundo”, Genki Kawamura, 2012


É sempre com alguma apreensão que começo a ler um livro de um autor japonês… talvez um preconceito desde que li um livro de Murakami há já alguns anos. A minha relação com aquele mundo um bocado estranho em que aparecem poços e pessoas sabe-se lá de onde, leva-me a estar com um pé atrás sempre que leio autores japoneses. Mas, a minha paixão por gatos é por demais conhecida e, de vez em quando, lá me oferecem mais um livro com gatos.


Afinal, um livro despretensioso e simples que é uma alegoria sobre coisas sérias, como o sentido profundo da vida. Um jovem carteiro, confrontado com a iminência da morte a qualquer momento, tenta através de um pacto com o Diabo, adiar o fim, eliminando coisas do seu quotidiano. O que é dispensável? Na verdade, “o mundo está basicamente atulhado de inutilidades” (pág.19) e o romance tem reflexões sobre o valor ou os reflexos nas nossas vidas de objectos como os telemóveis, ou os relógios, ou o cinema… porque, se nos facilitam a vida também nos aprisionaram e retiraram capacidade de dar valor a outros aspectos da vida muito mais importantes. “Quando os seres humanos inventaram o telemóvel, inventaram também a ansiedade de não o termos nas mãos.” (pág. 34)


“Se os gatos desaparecessem do Mundo” é um romance sobre o amor, sobre a família, sobre as perdas, sobre o perdão. O jovem carteiro que vive com o gato Repolho como única companhia, descobre através das suas memórias de infância e das palavras da mãe, que morrera havia quatro anos, “Só percebemos o que são as coisas realmente importantes quando as perdemos” (pág.75) que a família não é algo que exista, mas sim algo que se constrói: “Nós «fazemos» a família” (pág. 111). Perante a proposta de os gatos desaparecerem do mundo, de modo a acrescentar mais um dia à vida do carteiro, rompe-se o pacto com o Diabo. O Repolho, como antes o Alface, tinham sido os elos que davam consistência à sua relação com os pais, a família que em certo momento deixou de existir como tal. De novo, as palavras sábias da mãe: “Para ganharmos alguma coisa, temos de perder alguma coisa” (pág. 32), quando em troca de ganhar mais um dia, vai ter de perder o seu querido gato.


“Se os gatos desaparecessem do Mundo” é uma longa carta, a primeira e a última que o carteiro escreve ao pai de quem se afastara, como se de um testamento se tratasse. Transcrevo aqui este parágrafo, pensando na possível reacção do pai quando receber a carta do filho: “Antigamente, antes dos telemóveis e do correio eletrónico, teria escrito uma carta. As pessoas imaginavam que as suas cartas chegavam ao seu ente querido e perguntavam a si mesmas como ele ou ela reagiria. Depois, ficariam ansiosamente à espera de uma carta com a resposta, verificando a caixa de correio todos os dias. Os presentes também são assim. Não é a coisa em si que conta, mas aquilo que pode significar para a pessoa a quem a damos, e é a expressão dessa pessoa e a felicidade que terá ao receber o presente que temos em mente quando o escolhemos. (pág. 54).


Por fim, para todos os amantes de gatos, todos os que se afeiçoam aos gatos durante o breve tempo das suas vidas quando comparado com as dos humanos, a mãe do carteiro costumava sempre dizer isto sobre os gatos: “Podemos pensar que somos donos de gatos, mas não é assim que as coisas são. Eles permitem-nos simplesmente o prazer da sua companhia.” (pág. 118).


 


13 de Setembro de 2023


 


 


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...