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segunda-feira, 17 de julho de 2023

Diário de um Médico no Combate à Pandemia, Gustavo Carona

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Diário de um Médico no Combate à Pandemia, Gustavo Carona, 2021


Passados que são 3 anos que nos vimos confrontados com uma pandemia terrível, achei interessante ler este livro da autoria de um jovem médico que ficámos a conhecer da televisão e da rádio e cujo discurso saía um pouco do registo rotineiro. O livro tem um subtítulo – A missão mais difícil da minha vida – que atesta bem a gravidade do período que vivemos enquanto não havia medicamentos nem vacina, embora este médico intensivista revele na introdução que antes da pandemia já tinha feito 13 missões humanitárias em países onde ninguém quer ir, tratados como “esgotos da humanidade” (pág. 50), tal é a adversidade da vida daqueles povos.


O livro tem dois tempos. O primeiro tem a ver com o período da 1ª vaga, 2º e 3º vagas e é um diário, como tantas pessoas fizeram nessa altura sobretudo no período em que estiveram confinadas, mas este é o diário de um médico a trabalhar em UCI, ou seja, alguém que esteve bem no olho do furacão; e depois um segundo tempo escrito no primeiro trimestre de 2021, sendo uma reflexão sobre os textos escritos ao longo da pandemia.


Gosto de ler estes livros-testemunho, que nos põem em relação com situações muito específicas e que não correspondem ao comum das nossas vidas “normais” ou “padrão”, o que quer que isso seja! Neste caso, um jovem médico que totalmente se revela, expondo os seus sentimentos, os seus medos, as suas dores espirituais e físicas. Forte e frágil, crítico e abnegado, consegue com o seu exemplo dar-nos um retrato muito fiel da dureza e muitas vezes da solidão e incompreensão de quantos aguentaram o Serviço Nacional de Saúde, como a única âncora a que nos podíamos agarrar num período de incerteza, medo, confusão e cansaço extremos.


O livro começa justamente com a intervenção que Gustavo Carona fez no dia 26 de Janeiro de 2020 numa sessão no palácio de Belém, no âmbito do Grupo de Reflexão sobre o Futuro de Portugal, quatro dias antes de a OMS ter declarado “o surto pelo coronavírus uma emergência de saúde pública de preocupação internacional, o mais alto nível de alarme”. Na sua intervenção de quatro minutos, frente a frente com o presidente da República, com o título “ A minha visão da saúde em Portugal”, referia a sua profissão como aquela “onde há mais burnout” (pág. 27) e referia “A perversão dos privados. Onde se deixa de ser doente e se passa a ser cliente.” (pág. 28). Poucos dias depois, a OMS anunciava que a doença causada pelo SARS-CoV2 seria designada por covid-19. Gustavo Carona, médico intensivista num hospital público do Norte, onde a pandemia teve um grande impacto logo na fase inicial da doença, estava longe de imaginar como os meses que se iam seguir iriam comprovar com toda a justeza aquilo que já se sentia entre os profissionais do SNS.


Ao lermos este diário relembramos o que foram aqueles meses, o que sabíamos através da comunicação social, como estava a evoluir a pandemia no nosso país e lá fora, quando ficámos todos vulneráveis a um vírus, que inicialmente desvalorizámos porque achávamos que era uma coisa lá longe na China, que não iria cá chegar. Na sua reflexão crítica sobre um ano de pandemia, Gustavo Carona escreve “As pessoas esquecem-se rápido” (pág. 268) e é bem verdade. Mas as fronteiras fecharam, as máscaras e o gel que inicialmente foram um negócio rapidamente passaram a ser rotinas, as charlatanices naturalistas e os falsos profetas pulularam, os negacionistas e os relativistas abundaram nas redes sociais e, ao mesmo tempo que se investia na ciência para a descoberta de um tratamento e uma vacina, nunca como então a ciência foi posta em causa. Sendo ele um de muitos e muitas que no SNS fizeram os impossíveis, a estranheza que era chegar ao hospital sem ninguém nas urgências, porque tudo estava focado no combate à covid, leva-o ao longo do livro a afligir-se pelas outras intervenções médicas que se adiaram, pelas cirurgias que não se fizeram e por todas as outras patologias que se “esqueceram”, ao mesmo tempo que pensava no desemprego, na saúde mental, e naqueles outros tantos países onde fizera missões humanitárias e que estavam completamente desprotegidos.).


Ao mesmo tempo que relata casos que o marcaram para a vida nas suas missões no Sudão do Sul, no Iémen e noutros países, transmite-nos o que foi esta sua experiência em Portugal, no hospital, nos primeiros contactos com doentes covid, a primeira pessoa que teve alta na sua UCI, a ternura de uma colega enfermeira a falar com uma doente de 21 anos, os telefonemas para os familiares com boas ou más notícias, as videochamadas – “As primeiras de que me lembro sabiam a Euromilhões, porque correspondiam ao ponto em que o doente já estava melhor e capaz de interagir em frente ao telefone e comunicar com o seu familiar.” (pág. 77) – os números com que éramos diariamente bombardeados em contraponto às caras, aos nomes e às histórias de vida dos doentes que trataram. Ao longo do livro, Gustavo usa repetidamente o adjectivo “bonito”, para falar do SNS, do espírito de equipa, da abnegação dos colegas que puseram os outros à frente de si e das suas famílias, dos gestos de gratidão que receberam … Quero aqui lembrar uma entrada do diário de Novembro de 2020, com o título “Ricardo Quaresma”, em que lhe agradece por ter usado tão sabiamente a sua posição de grande desportista para ajudar o esforço que o SNS e os seus profissionais estavam a usar no combate à pandemia. E com o passar do tempo veio o cansaço das pessoas, o baixar a guarda, a 2ª vaga, a primeira pessoa vacinada e a extraordinária experiência da vacinação em massa e a terrível 3ª vaga que pôs Portugal no topo do ranking dos piores.


Quem não se lembra da desumanidade que foi a morte de George Floyd? Ou o desastre imenso no porto de Beirute no Líbano, em Agosto de 2020 e o espectáculo da notícia, com consequências dramáticas para um país a necessitar de uma ajuda gigantesca. Mas passada a notícia e decorridos alguns dias, não mais se irá falar disso, porque já não é espectacular! Esta reflexão percorre todo o livro, feito por alguém que precisou de parar, de pedir ajuda psicológica, mesmo confessando que o fez tardiamente porque tinha vergonha, que sofreu burnout, dores físicas intensas que só passavam quando deitado…


Um livro em que o autor tem a humildade de confessar a sua ignorância e arrogância em certos momentos, mas em que se descobre um ser humano muito bonito, com uma dedicação inexcedível aos outros e uma paixão pela sua profissão e pelo SNS.


Longa vida, com saúde para Gustavo Carona.


6 de Julho de 2023


 


 

quinta-feira, 17 de março de 2022

11 -12 -13

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11-12-13


Ano 2020


11 de Março – acabaram-se os beijinhos. Portugal registava 60 pessoas infectadas com covid 19 e eu desmarcava tudo a partir dessa data. Segundo a OMS, tinha-se entrado em pandemia e a doença já tinha atingido 114 países. O funeral da Conceição foi o último acto público a que fui antes de me fechar em casa.


12 de Março – o 1º dia em que fico em casa.


13 de Março – Portugal entra em estado de alerta até dia 9 de Abril; já se registaram 112 pessoas infectadas. A viagem programada a Berlim no final do mês fica sem efeito.


Ano de 2022


11 de Março – Bilbau é o destino que escolhemos para gastar algum do dinheiro da viagem a Berlim que não se realizou. O peso da guerra que deflagrou na Ucrânia desde 24 de Fevereiro não nos deixam pingo de motivação, mas lá vamos bem cedo a caminho do aeroporto. A covid continua, mas a guerra é avassaladora e parece que a pandemia deixou de existir. Só as máscaras e os controlos sanitários no aeroporto de Bilbau nos ajudam a lembrar aquilo que a comunicação social esqueceu. Será que o fim-de-semana em Bilbau nos ajudará a esquecer o que se passa no leste do continente europeu?


Da cidade de que só conhecia o aeroporto muito pequeno, ficara-me a imagem fugidia e longínqua daquela vez em que tinha ido a Irun, para uma reunião da MMM há vários anos com a Isabel Bento. Na preparação para esta vez, tinha pesquisado o tempo e alguns locais com interesse para visitar.


O primeiro dia foi mesmo para sentir o pulsar da cidade. Calma, acolhedora, num vale, com uma arquitectura equilibrada e harmoniosa, percorrer as margens do rio Nervión e perceber que aquela é uma cidade com muitos cães, com muitas pessoas em cadeiras de rodas, com corredores para bicicletas e onde nunca vimos dejectos de animais, raramente pontas de cigarros e só num sítio duas ou três máscaras atiradas no chão! Tudo tão distinto das nossas cidades, tão agradável e respeitador. Mau mesmo, o rio muito poluído, de um verde acastanhado baço e triste. Era preciso experimentar os primeiros pintxos e o Mercado da Ribeira foi a melhor escolha, com um painel logo na entrada a celebrar grandes mulheres e certamente a lembrar que naquela como em muitas outras cidades do estado espanhol, o 8 de Março é mesmo para ser celebrado. Depois foram as 7 calles que são o osso da Cidade Velha. Andar a pé, desfrutar do piso plano, mas perceber que muitas escadarias e subidas seriam preciso escalar, se queríamos conhecer a cidade para além da zona do rio Nervión.


À noite, seguimos para o lado oposto ao que tínhamos feito de manhã, para ver o edifício Guggenheim e a famosa Ponte Zubizuri da autoria de Santiago Calatrava. Fiquei fascinada e rendida quando me aproximei do Puppy de Jeff Koons. As flores eram mesmo flores a sério e o cheiro era real. Claro que a aranha Maman de Louise Bourgeois se impõe também pelo tamanho, mas o cachorro florido é uma verdadeira beleza. A chuva que não estava prevista obrigou-nos a mais uma entrada num bar, para mais uma bebida e mais um pintxo! Mas da molha não nos livrámos!


12 de Março – a excelente impressão sobre o hotel – Barceló Bilbao Nervion – ficou confirmada com o duche e o pequeno-almoço. Tudo muito bom, mas agora era preciso atravessar a ponte de Calatrava e conhecer o Guggenheim lá por dentro, ver o Puppy e a Aranha, mas de dia. Era sábado e o movimento na rua não se comparava com a calma da cidade que tínhamos desfrutado no dia anterior. Mas antes, subimos no Funicular Artxanda para conhecer o parque com esse nome e observar a cidade de Bilbau do alto. Muita sorte com o tempo que estava agradável e com óptima visibilidade. Muita gente no parque, muitas crianças e muitas pessoas da minha idade, ou seja, gente que já não é nova. Em Portugal, cada vez se vêem menos carrinhos de bebé a serem empurrados por jovens casais, mas aqui não. Há muitas crianças na rua, muitas crianças a brincar nos parques, muitas crianças a brincar livremente enquanto os pais e mães confraternizam ruidosamente nos cafés, nas esplanadas, na Plaza Nueva, que visitámos à noite e que é um verdadeiro festival de convívio e de animação. E os velhos não ficam em casa. Também mantêm o gosto por sair, por ir beber um copo, por passear ao longo do rio, por aproveitar a vida palpitante da rua.


Foi um dia esplêndido e muito intenso. Pela primeira vez vi um Rothko ao vivo no Museu Guggenheim, para além de muitos pintores de que já tinha visto obras noutros museus, como Robert Delaunay, Fernand Léger, Matisse, Modigliani e outros. Mas Rothko foi mesmo uma estreia absoluta! No piso térreo do museu, uma impressionante obra em aço de Richard Serra intitulada The Matter of Time. O fim da tarde foi para andar de barco, partindo do cais mesmo em frente ao hotel, seguindo por debaixo da ponte Zubizuri, olhando para o fantástico edifício de Frank Gehry, o Monumento do Sagrado Coração, a Universidade, o Estádio de San Mamés e depois toda a zona industrial com muitos edifícios há muito sem préstimo, com fábricas encerradas, lembrando uma época passada como acontece em Portugal. Foi também nesta parte do percurso de barco que mais se viam bandeiras lilás nas janelas, muitas mesmo, lembrando-me as companheiras feministas bascas, galegas e catalãs que conheci ao longo da vida.


13 de Março – a manhã tinha mesmo de ser para conhecer o Parque de El Arenal famoso por ser o local de exposição e venda de flores, para além de velharias, livros, moedas, ou seja, o sonho dos coleccionadores e dos amantes de flores. Os dois grandes telheiros que víramos nos dias anteriores vazios, estavam agora ocupados por vendedores com os seus produtos. Mas faltava-nos o grande Parque Etxebarria e a famosa Basílica de Begoña. Por ignorância, acabámos por lá chegar pelo caminho mais difícil, que parte da Praça Miguel Unamuno. Uma escadaria sem fim, embora ao lado houvesse um caminho paralelo sem escadas, mas igualmente difícil. Mas, chegar ao parque e entrar a basílica valeram bem a pena. Foi neste parque que vi mais gente de idade a passear, muitos casais com crianças, muitas pessoas a passear os seus cães e sempre o cuidado de apanhar os cocós que os animais naturalmente precisam de fazer…


A despedida para o almoço, antes do regresso ao aeroporto, foi de novo no Mercado da Ribera. Foram três dias muito agradáveis numa cidade que me surpreendeu pela arquitectura, pelas pessoas, pelo ambiente amigável, pela acessibilidade para todas as pessoas, pela vitalidade e onde me senti muito bem. Em três dias pode-se fazer muito, ver muita coisa e aproveitar o mais possível, desde que se esteja disponível para tal.


Foi uma pausa de que já tinha saudades.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Da Meia-Noite às Seis, Patrícia Reis

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Da meia-noite às seis, Patrícia Reis, 2021


Patrícia Reis uma revelação e este já é o seu décimo livro. Já tinha lido apreciações sobre “Crianças Invisíveis” e recentemente li no JL, não só a entrevista que lhe foi feita, mas também os textos de Miguel Real e de Valter Hugo Mãe sobre este livro que decidi comprar, aproveitando para fazer uma troca de livro repetido entre os muitos que recebi nos anos. Excelente escolha.


A dedicatória a Maria Teresa Horta, a quem há tempos faleceu o marido, não podia ser mais ajustada. Susana Ribeiro de Andrade, uma das personagens principais deste livro, é confrontada com o fim inexorável e irreversível do amor da sua vida, na sequência de ter sido contaminado com o vírus. Está-se em 2022 e a pandemia continua implacável, a fazer o seu caminho. O choque brutal desta morte deixa-a sem chão, apenas com as memórias do homem que amava, o seu companheiro com quem continuava a conversar de mão dada! A viagem a Roma, as preferências literárias dele por Camus, Agustina ou o “Adriano” de Marguerite Yourcenar que ela não lera (e que ele dizia que era um daqueles livros que não podem deixar de ser lidos), todas essas memórias são aquilo a que se agarra num tempo de luto, em que interrompe momentaneamente a sua actividade profissional numa estação de rádio.


No regresso, aceita o horário das “horas mortas”, aquele que é desvalorizado (“seria aquilo trabalho” pensam até alguns colegas), por ser rotineiro, por ter uma audiência menos interessante, aquele que afinal ninguém quer. Rui Vieira também voltara à rádio na noite de Natal de 2019. Quem quer trabalhar nesses dias? Quando se pensa que já não servimos porque temos uma incapacidade, quando se é descartável, valha-nos uma vaga porque há que cumprir a quota das pessoas com deficiência… De tudo isto nos fala Patrícia Reis: das discriminações, da homofobia, do racismo, da solidão, da precariedade que ficou mais exposta com a pandemia, mas também do verso da medalha: da solidariedade, da revolução que é dar voz às pessoas, de que há que descobrir o lado positivo da vida, de que a felicidade é possível e que muitas vezes está ali mesmo ao nosso lado.


Este livro é também um elogio aos trabalhadores da cultura, ao extraordinário poder da rádio, da voz, do sentido e da força das palavras. Li este livro rapidamente, com uma profunda empatia, não conseguindo deixar de fazer muitos sublinhados, o que não é habitual em mim. O “aquário” de onde Susana Ribeiro de Andrade faz as suas emissões da meia-noite às seis, os emails de Rui Vieira com as notícias que Susana irá ler a cada hora e as conversas que ambos trocam a partir do computador de Rui, os gestos automatizados de higienização por causa da pandemia, em suma, este mundo confinado coloca-nos a eles e a nós, num cenário que não é de ficção, mas da real fragilidade humana para a qual nunca estamos preparados.


Mesmo quando as canções são de uma play list que o computador escolheu, é sempre possível pôr um pauzinho na engrenagem do sistema e introduzir Caetano Veloso a perguntar em “Cajuína” : “Existirmos: a que será que se destina?”


9 de Maio de 2021


 


 

segunda-feira, 8 de março de 2021

8 de Março

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O 8 de Março em tempo de pandemia.


Estamos a breves dias do 8 de Março. Há um ano estivemos na rua, juntas, sem máscaras, nem com cuidados de distanciamentos e abraços. Festejámos com alegria, com a alegria de estarmos juntas a lutar pela igualdade, pelos direitos, pela dignidade das nossa vidas, sem constrangimentos e com a certeza de que há tanto por fazer, sem nunca ignorar nem desprezar o legado de avanços das nossas irmãs lutadoras do século passado e as conquistas decorrentes da democracia alcançada no 25 de Abril de que também nos sabemos sujeito político colectivo.


Este ano, reinventámo-nos. Online, nas redes sociais e também nas ruas. Com a consciência clara de que houve muitas mulheres no nosso país e no mundo que ficaram para trás. Que o desemprego bateu mais forte nelas. Que as violências se exacerbaram e que o confinamento trouxe perigos acrescidos quando a presença física de agressor e vítima se tornou inevitável. Que as mulheres mais vulneráveis e precárias tiveram de se deslocar em transportes públicos onde o distanciamento não existia. Que a luta se tornou mais difícil, porque a nossa força colectiva ficou mais atomizada, dispersa e sem a visibilidade das ruas.


Neste breve texto, gostaria de trazer aqui um estudo do Gabinete de Estudos Sociais da CGTP recentemente divulgado e que atesta o desequilíbrio de género, nomeadamente no que aos rendimentos diz respeito. Segundo esse estudo, no quarto trimestre de 2020, constata-se que as mulheres ganharam menos 14% do que os homens. Quando se comparam os rendimentos mensais e não apenas os salários, o diferencial global foi de 17,8%. Na Administração Pública, as mulheres são apenas 41% do total de dirigentes superiores, embora sejam 61% dos trabalhadores do sector. Em Abril de 2019, cerca de 31% das mulheres recebiam o salário mínimo face a 21% dos homens.  


Segundo a OIT, a actual crise pandémica “está a ter consequências mais negativas em Portugal em termos salariais, do que em outros países da Europa e, particularmente, entre as mulheres trabalhadoras.” De entre os 28 países da Europa que foram analisados, Portugal foi o país onde houve maiores perdas salariais entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020, de forma mais agravada entre as mulheres. A média da perda salarial para homens no 2º trimestre de 2020 foi de 11,4%, enquanto a média para mulheres foi de 16%, ainda segundo esse estudo da OIT que envolveu 28 países europeus.


As denúncias destas desigualdades sociais são geralmente o foco do movimento sindical. No entanto, o sistema de opressão que decorre do sistema capitalista tem múltiplas facetas que se expressam no sexismo, no racismo, na homofobia, na transfobia, na marginalização de pessoas com deficiência e idosas. Desta multiplicidade e complexidade de áreas e de campos de acção se ocupam outros movimentos sociais, mas o movimento sindical, pela sua dimensão e abrangência não se poderá alhear destas causas, antes, deve integrá-las, fazendo com que a população se possa rever cada vez mais num sindicalismo de classe, plural, solidário e socialmente interventivo.


Este ano, em plena pandemia, de novo os movimentos sociais e o movimento sindical encontrarão os instrumentos para reivindicar o direito à igualdade, à não discriminação e a determinação de não deixar que a pandemia seja utilizada como instrumento de retrocesso nos direitos das mulheres. Não esquecer que elas são metade da humanidade e que se elas param, o mundo pára.


Viva o 8 de Março.


Almerinda Bento


 


Nota: Este texto foi publicado no Escola Informação nº 30, Fevereiro 2021, do SPGL

domingo, 31 de janeiro de 2021

Anestesiados

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Agora que entrámos em Fevereiro e que prevemos um aumento de novos casos e de mortes pela doença covid até meados do mês, pergunto-me se os paranóicos iluminados/as e sábios/as nas redes sociais irão aumentar a sua actividade ainda mais, ou pelo contrário, começarão a ter humildade e pudor para se calarem. Errático é o adjectivo do momento. Todos os dias se cria um caso novo que é martelado até à náusea. Os números criaram uma anestesia e apatia tais, que nem mesmo os apelos dramáticos de médicos/as e enfermeiros/as conseguem comover. Eu sei que está tudo muito cansado! Eu sei que é difícil manter o equilíbrio e a sanidade mental. Eu sei que a ansiedade é muita. Mas, por favor, organizem-se. Calem-se. Não se armem em deuses omnipotentes e omniscientes. Respeitem quem há 11 meses passa o tempo de máscara a cuidar das pessoas e a tudo fazer para que elas não morram. Fiquem em casa. Leiam. Desenhem. Ouçam música. Arrumem gavetas. Organizem papéis. Rasguem papéis. Organizem fotografias. Telefonem a amigos/as e familiares. Cozinhem. E se saírem de casa, usem a máscara a tapar a boca e o nariz. Afinal, queremos ou não voltar a uma vida normal?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Mensagens revolucionárias

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Há 9 anos postei esta imagem no meu facebook. O que me levou a tal? Eram os tempos da troika e o mal-estar era geral. O povo estava a ser mal tratado, o primeiro-ministro dizia que tínhamos andado a viver acima das possibilidades, que tínhamos sido laxistas, as carreiras estavam congeladas, tiravam-nos dias feriados, obrigavam os nossos filhos e filhas a emigrar depois de terem feito a sua formação cá mas sem conseguirem arranjar trabalho… Eram tantos os motivos para andar acabrunhados, eram tantos os motivos para lutar, com as armas que tínhamos na mão… A alegria era talvez uma e bem difícil quando o sentimento de depressão era imenso. Parece tão fácil de dizer: ALEGRIA. Mas para a conseguir é preciso estar na disposição e ser capaz. Hoje senti que esta mensagem numa parede, algures num país da América Latina ou aqui ao lado, que possivelmente já desapareceu ou foi apagada ou mal se consegue ler, é duma força extraordinária. É verdadeiramente uma mensagem revolucionária. Ser capaz de experimentar alegria, agora que estamos a viver uma pandemia que nos sufoca e mata é mesmo muito poderoso e revolucionário. Escrevo estas palavras, quando ainda há bem pouco tempo num artigo que escrevi para o Escola Informação do SPGL, sublinhava a palavra Esperança. Haja confiança. Haja Esperança. Haja Alegria. Façamos cada um/a a nossa obrigação. Ficar em casa. Cuidar da saúde de todos/as nós. Respeitar quem no SNS está a viver o impensável.

domingo, 20 de dezembro de 2020

#19 As Irmãs Mirabal

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#19 As Irmãs Mirabal

Em 1999, quando li “No Tempo das Borboletas” de Julia Alvarez (Bertrand Editora) estava longe de saber que a história das irmãs Mirabal mortas a 25 de Novembro de 1960 estava na origem do dia que assinala aquilo que é a segunda causa de morte em todo o mundo. Pátria, Minerva e Maria Teresa Mirabal assim se chamavam as três jovens activistas dominicanas na luta contra a ditadura de Trujillo. Os seus corpos foram encontrados junto ao seu jipe no fundo de uma escarpa de 45 metros de altura na costa norte da República Dominicana, em resultado de um atentado a mando da ditadura, mas oficialmente, a imprensa afecta ao regime noticiou o facto como um acidente.

 As irmãs Mirabal eram conhecidas como Las Mariposas – as Borboletas – e mesmo apesar da falsidade que envolveu a sua morte, elas e a sua luta não foram esquecidas e em 1981, durante o I Encontro Feminista da América Latina e do Caribe, realizado em Bogotá, na Colômbia, o dia 25 de Novembro foi designado como Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, em homenagem a elas.

 Em Março de 1999 a ONU reconheceu a data que passou a ser comemorada em todo o mundo como Dia Internacional pela Eliminação da Violência sobre a Mulher.

Nesta colagem com Las Mariposas, utilizei recortes de um jornal português de 2010 em que as 43 mulheres assassinadas nesse ano não mais são um número, anónimas, mas sim nomeadas. Este ano, até ao dia em que fiz a colagem, 30 mulheres, em Portugal, tinham sido assassinadas. Eram mulheres com filhos e filhas e em alguns destes casos, as crianças estavam presentes quando o crime foi cometido. Estas mulheres deixaram 21 crianças órfãs.

Quem quer descobrir a vacina contra esta pandemia?

 

 

 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

An Unending Story

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Estamos a viver tempos muito perigosos


Talvez esta frase por muitas vezes a ter repetido, por muitas vezes a ter lido se tenha tornado irrelevante, sem qualquer peso ou força. Mas acho que ela é actual e real.


Esses tempos perigosos não começaram agora com a pandemia, são anteriores a ela, mas tornaram-se mais perigosos nestes tempos de covid, nesta primeira metade de 2020.


O confinamento das pessoas encerrou-as num espaço e num tempo estranhos. Levou-as a olhar para dentro, a desenterrar os seus medos e a estar expostas às mensagens mais díspares, falsas, oportunistas e desconexas. A vida ficou para muitos de pernas para o ar. Desempregados, apanhados pela doença, ansiosos por não terem perspectivas de futuro, expectantes face às notícias do país e do mundo, estarrecidos com lideranças inenarráveis, assentaram os pés na terra percebendo que ficaram sem chão.


Uma guerra. Um tsunami. O desconhecido. Cada um chamou à pandemia o nome que melhor achou ajustar-se à situação. Cada um fez e fará deste período a sua leitura pessoal. Nos diários da quarentena que floresceram, espelham-se os dias vividos por milhões de pessoas em todo o mundo. As crianças que deixaram de ir à creche e à escola. Os velhos que ficaram em casa à espera que lhes levassem as compras e os medicamentos. As mulheres que passaram a estar sempre na presença dos agressores. Os casais que tiveram de gerir o cansaço, os tiques e o temperamento do outro, sabendo à partida que dificilmente serão confrontados com o novo. Os que continuaram a trabalhar, como se o hoje fosse igual ao ontem. Os que salvaram vidas.


Também fiz o meu diário. Comecei-o a 12 de Março e acabei-o a 14 de Maio. Duas quintas- feiras. Sinto que esta é uma “unending story”. Parei porque estava a ficar saturada, já não me interessava estar a anotar o número de infectados, mais o número de mortos, mais o número de recuperados. Chovia nesse dia e sentia uma vontade imensa de agarrar na roupa que me acompanhou nestas semanas, incluindo toda a roupa interior e deitar tudo aquilo para o lixo, embora sabendo que o tempo da covid ainda está para durar. No dia 13 de Maio não resisti e pus no lixo os chinelos de inverno. Já não conseguia ouvir o som arrastado que faziam quando me deslocava pela casa. A higienização paranóica, a presença constante da lavagem das mãos, mais o álcool gel, sem que se perceba como iremos ganhar anti-corpos é algo que me assusta. Se calhar uma ida a um psicólogo no futuro poderá ajudar a ganhar os anti-corpos que tanta higienização não permite.


Tenho ideia que muitos mais de nós vamos apanhar a covid. Até agora não tenho conhecimento de nenhuma pessoa amiga que a tenha apanhado, o que é estranho, mas com o tempo, ela há-de bater-nos à porta e alguns de nós vamos ter maior capacidade para lhe resistir ou não. Tudo depende de vários factores, como se sabe. Novembro e Dezembro vão ser os dias de pânico, acho eu. Entretanto vamos desconfinando com mais ou menos ousadia.


O meu desconfinamento tem sido no sentido de suprir o que me faltou dos 50 dias em que estive em casa. Exercício físico, marcha todas as manhãs de casa até ao Seixal e regresso. São 6 quilómetros que se fazem em pouco mais de uma hora e 15 minutos. Faz bem ao coração, aos músculos das pernas e à cabeça. Ganhei peso, subiu o colesterol, foi talvez o pior desta quarentena. Li, escrevi, desenhei, pintei, fiz colagens, sudokus, telefonei, passei demasiado tempo no facebook e no whatsapp, continuei a contactar os meus alunos/as da UNISSEIXAL, acabámos de ler The Diary of a Young Girl, dormi algumas sestas, acordei muito cedo, acreditei que a humanidade ia ser mais inteligente, o meu respeito pelo meu filho cresceu, fiquei com menos tolerância e pachorra para algumas pessoas e práticas.


Limpei algumas coisas, mas continuei ainda a não limpar tudo o que precisa de ser limpo.


Sinto que estou uma pessoa diferente. Talvez mais velha e preguiçosa e isso, sem dramas. O grande abanão que tive nos primeiros anos da década de 10 com a morte dos meus queridos mais próximos, foi reavivado com esta doença a que muitos chamam bicho, por terem medo de o apanhar. A pandemia veio para nos lembrar da precariedade da vida e para nos situar na nossa fragilidade.


Olho à volta, eu sei que o meu horizonte é muito curto!, e acho que os humanos se esquecem depressa. Volta tudo à estaca zero. À estaca abaixo de zero.


Almerinda Bento


Domingo, 7 de junho de 20


 


 


 

quinta-feira, 12 de março de 2020

Estou de volta

Um mês sem computador! Custa mesmo, porque estamos tão dependentes dele como ferramenta de trabalho, de informação. Ontem, finalmente fui buscá-lo, depois de um percalço que o obrigou a voltar ao "hospital" para descobrir o mal profundo que o afectava. Velhinho, mas tem sido um companheiro fiel e sempre presente. 


No dia em que foi anunciado pela OMS que havia uma pandemia, lá me foi entregue são e salvo. 


Olho para a agenda e tanta coisa aconteceu entretanto, mas o mais terrivel mesmo foi a perda de três amigos no espaço de um mês: Zuraida, Saraiva e Conceição. Esses, infelizmente, não irei voltar a tê-los. 


A vida continua, mas o pânico começa a instalar-se. Se não houver um estancar da desinformação, se não houver medidas claras, se a responsabilidade e a calma não comandarem, receio que a premonição da cegueira de Saramago se instale. 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...