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domingo, 4 de agosto de 2024

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar, 1951

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Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar, 1951


Este era um livro que há muitos anos aguardava a sua vez de ser lido e nomeado como “livro da vida” por vários amigos. De Yourcenar apenas tinha lido “A Obra ao Negro” e uma interessante biografia da vida e obra desta autora, editada pela ASA. Mas a verdade é que ia adiando a leitura até que chegou a sua vez. Costuma-se dizer que há livros que devem ser lidos na altura certa e eu achei que estava na altura de o fazer, mas confesso que há muito que não demorava tanto tempo a terminar um livro. Julho passou e só em Agosto consegui terminá-lo. É verdade que as condições psicológicas e físicas, quando não são as melhores, nos retiram o interesse por aquilo que adoramos fazer.


Depois deste intróito, que não é nenhuma confissão, só a partir de certa altura comecei a engrenar com o livro e tenho de reconhecer que é uma obra de grande envergadura. Pensar que Marguerite Yourcenar teve um processo de trinta anos de gestação desta obra, que escreveu, deitou fora, abandonou e, por fim, num trabalho frenético a concluiu entre 1947 e 1950, tendo finalmente sido publicada em 1951, é algo de extraordinário. No final, Marguerite Yourcenar brinda-nos com um conjunto de Apontamentos sobre As Memórias de Adriano, que nos ajudam a perceber e a valorizar esta, que terá sido uma das mais significativas das suas muitas obras literárias. Constituído por seis capítulos com títulos em latim, não posso deixar de referir o facto de esta obra ter sido traduzida para a língua portuguesa por Maria Lamas.


O livro é uma longa carta na primeira pessoa do imperador Adriano dirigida a Marco Aurélio, na sequência da sua visita ao médico Hermógenes, para ser observado. Adriano tem 60 anos e como escreve “ começo a avistar o perfil da minha morte”. Enumera algumas das actividades que já não consegue cumprir, sofre de insónias e dores de cabeça e com esta carta propõe-se-lhe “contar a minha vida. (…) Não espero que os teus dezassete anos compreendam alguma coisa disso. Procuro no entanto instruir-te e também chocar-te.” (pág. 23). Começa por falar da sua infância, do avô, do pai, das suas origens, d’”as minhas primeiras pátrias foram os livros” (p. 34), da sua paixão pela língua e cultura gregas, o que lhe causou alguma desconfiança de entre os membros do Senado. A corte que rodeava Trajano, doente e sem sucessor, estava cheia de inimigos, de traidores e o ambiente que se vivia era de intriga e violência. O próprio Trajano que confiara a Adriano a tarefa de compor os seus discursos, não tinha uma atitude de total confiança naquele a quem dera o anel de sucessão no poder.


Quando Adriano sobe ao poder, o seu desejo era ser justo, clemente, escrupuloso e, sobretudo, estabelecer a paz nos territórios conquistados por Trajano. “Humanitas, Felicitas, Libertas” são as palavras que manda cunhar nas moedas do seu reinado. “ O fim que eu me propunha era uma prudente abolição de leis supérfluas, um pequeno grupo de sábias decisões firmemente promulgadas. Parecia ter chegado o momento de, no interesse da humanidade, revalorizar todas as prescrições antigas” (p. 99). Considerei extraordinária esta medida que é de uma actualidade incrível: “Insisti para que nenhuma rapariga casasse sem o seu próprio consentimento: essa violação legal é tão repugnante como qualquer outra” (p. 102). O sentimento de não pertença a qualquer sítio, mas também de não se sentir isolado onde quer que estivesse, leva-o a sentir-se como um deus, o que “obriga, em suma, a mais virtudes que ser imperador.” (p. 125). “Aos 44 anos, sentia-me sem impaciência, seguro de mim, tão perfeito quanto a minha natureza mo permitia, eterno.” (p. 124).


Casado com Sabina, por quem nunca nutriu qualquer tipo de interesse, o capítulo com o título Saeculum Aureum fala-nos da sua relação devotada com o jovem grego Antínoo, a quem chama de “o meu jovem favorito” e frequentemente “criança” que termina abruptamente com o suicídio de Antínoo, no Egipto. O desgosto daí resultante é devastador e Adriano regressa à sua amada Grécia por pouco tempo, tendo tido contacto com um bispo dos cristãos, reflectindo na sua carta sobre as virtudes e defeitos da seita fundada por Jesus.


A morte do jovem amado Antínoo leva Adriano a desinteressar-se pela vida, mas a guerra com a Judeia vem ao arrepio da sua vontade de paz e reconhece que esta guerra que ele não desejou foi um dos seus fracassos. É também nessa altura que o corpo cansado começa a mostrar as suas fragilidades, acrescido do desespero pelas noites de insónia. No regresso a Roma, deseja encontrar o seu sucessor e preparar a sua morte. Tal como acontecera com Trajano, Adriano não tinha filhos, tendo adoptado Lúcio que morre entretanto e Marco Aurélio para lhe suceder.


O último capítulo – Patientia – é o retrato dos últimos anos de Adriano, um imperador notável que morre aos 62 anos. Um homem poderoso que viveu a doença, a decadência, o desespero e o desejo de pôr termo à vida através do suicídio, mas que finalmente tomou conscientemente a decisão de renunciar a precipitar a sua própria morte.


Marguerite Yourcenar, não sendo uma historiadora, mas sim uma escritora, teve no entanto que ter feito um prodigioso trabalho de investigação histórica para fazer um livro desta envergadura. Recebeu o Prix Femina Vacaresco em 1952 e foi a primeira mulher a ser eleita para a Academia Francesa em 1980, com 77 anos.


3 de Agosto de 2024


Almerinda Bento


 

segunda-feira, 11 de julho de 2022

A Força da Idade, Simone de Beauvoir

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A Força da Idade, Simone de Beauvoir, 1960

“A Força da Idade” é dos livros que herdei da minha irmã, talvez o mais importante. Ela tinha-me oferecido “Os Mandarins”, pediu-me que lho emprestasse para o ler e quase chegou ao fim do 2º volume naquelas férias fatídicas. Chegou a minha vez de ler este belíssimo exemplar de “A Força da Idade” editado pela Bertrand e descobri, ao longo da leitura, sublinhados que inevitavelmente me fazem reviver as suas preocupações, os seus interesses e os seus medos. Foi pois um livro cuja leitura me remeteu invariavelmente para ela e para as nossas vivências. Por isso, as palavras que vou escrever sobre este livro que Simone de Beauvoir dedicou a Jean Paul Sartre, dedico-as à memória da minha irmã Isabel.

Tinha lido “Memórias de uma Menina Bem Comportada” há muitos anos e lembro-me que foi durante muito tempo um livro muito vivo na minha memória, mas passados tantos anos, algumas das referências que Simone de Beauvoir faz no início do livro, naturalmente, pessoas importantes e marcantes na sua juventude, mas que entretanto deixei de identificar. “A Força da Idade”, para além de um livro autobiográfico em que a autora detalha momentos marcantes da sua juventude, como viveu pela primeira vez e de forma intensa a sensação de liberdade, é também um documento histórico valioso sobre o período que antecede a 2ª guerra mundial até ao momento da Libertação de Paris em Agosto de 1944.

No Prólogo, Simone de Beauvoir avisa: “Lancei-me numa aventura imprudente, quando comecei a falar de mim. Começa-se e nunca mais se acaba. “ (…) “No entanto, devo preveni-los que não pretendo dizer tudo” (…) “a minha vida foi estreitamente ligada à de Jean Paul Sartre; mas a sua história espera contá-la ele próprio e deixo-lhe essa tarefa.” E, em nota de rodapé: “Neste livro consenti em omitir; nunca em mentir. Mas é provável que a memória me tenha traído em pequenas coisas…”

O livro está dividido em duas grandes partes; a primeira vai de Setembro de 1929 ao Verão de 1938 e a segunda, desde esse Verão quando a ameaça da guerra era já muito presente até 25 de Agosto de 1944, quando os últimos ocupantes nazis abandonaram a cidade de Paris onde Simone de Beauvoir vivia.

Simone de Beauvoir tem 21 anos, vai viver para Paris onde dá umas aulas que lhe permitem a liberdade de ter um quarto seu. “Quando Sartre voltou a Paris, em meados de Outubro, começou verdadeiramente a minha nova vida” (pág.15). O dinheiro era pouco, liam, iam ao teatro, descobriam o cinema sonoro, discutiam as teorias de Sartre, tinham uma visão idílica sobre a paz, considerando a ascensão das ideias de Hitler “um epifenómeno sem gravidade” (pág.16). O seu ideal de vida era escrever e para este jovem casal “a liberdade era a nossa única regra” (pág.40). Viviam longe da realidade, no entanto, Beauvoir refere numa visita a uma pequena fábrica de tomadas para lâmpadas eléctricas que, ao ver a dureza, insalubridade das condições de trabalho e monotonia das tarefas, que o seu “primeiro encontro com o trabalho foi como um soco no estômago” (pág.53).

As caminhadas solitárias e a descoberta sistemática da região de Marselha, onde é colocada durante um ano, são um deslumbramento para Simone de Beauvoir. Segue-se Rouen, sem os encantos de Marselha, onde vai permanecer durante quatro anos, mas com a vantagem de estar mais próxima de Paris e de Sartre que dá aulas no Havre. Em Espanha, vencem as forças republicanas, mas na Alemanha as ideias de Hitler vão fazendo o seu caminho e na Itália os camisas negras estão cada vez mais presentes nas ruas. No entanto, apesar das perseguições aos judeus na Alemanha, os intelectuais nos quais Beauvoir e Sartre se incluíam encaravam isso com relativa serenidade e tinham uma visão distorcida sobre a situação política. Em finais de 1934, início de 1935 a situação económica deteriora-se, crescem os despedimentos e o desemprego. A xenofobia e as tendências nacionalistas de direita aprofundam-se. É interessante perceber a evolução no pensamento de Simone de Beauvoir que nessa altura só tinha interesse, ao nível da política externa, por o que se passava em Espanha em que as direitas estavam no poder, com a repressão selvática aos operários da Catalunha e das Astúrias. “Uma questão que nessa altura fazia correr muita tinta era o voto das mulheres; no momento das eleições municipais; Marie Vérone e Louise Weiss agitaram-se furiosamente; tinham razão; mas como eu era apolítica e não iria usar dos meus direitos, era-me absolutamente indiferente que nos reconhecessem ou não” (pág.183). O que a movia eram as questões da repressão que se fazia sentir, questiona-se sobre a pena de morte, mas do ponto de vista político a sua postura assim como a de Sartre era de meros espectadores (pág.186). A Frente Popular que introduzira grandes transformações sociais e melhoria na qualidade de vida dos operários franceses entra em declínio; os franquistas avançam em Espanha e Guernica é massacrada; a Grécia vive em ditadura e a pobreza do povo é indisfarçável. Só a URSS se mostrava desejosa de barrar o fascismo, mas “Nunca imagináramos a URSS como um paraíso, mas também nunca tínhamos posto seriamente em questão a construção socialista (…) Não haveria mais nenhum lugar no mundo onde se pudesse alojar a esperança?” (pág.245). As perseguições intensificam-se na Alemanha e a Europa vive uma onda de refugiados que se deslocam e que ninguém quer aceitar.

A Primavera de 1939 marca um ponto de viragem em Beauvoir, que faz um balanço dos seus últimos dez anos numa síntese que encerra a 1ª parte desta autobiografia. “Não é possível assinalar um dia, uma semana, nem mesmo um mês, para a conversão que então se deu em mim. Mas é certo que a Primavera de 1939 marca um corte na minha vida. Renunciei ao individualismo e ao anti-humanismo. Aprendi a solidariedade” (…) “É arbitrário cortar a vida aos bocados. No entanto, o ano de 1929, de que datam, ao mesmo tempo, o fim dos meus estudos, a minha emancipação económica, a saída da casa paterna, a ruptura das antigas amizades e o meu encontro com Sartre, abriu evidentemente para mim uma nova era. Em 1939, a minha existência mudou de uma maneira igualmente radical: a História apanhou-me para não mais me largar; por outro lado, dediquei-me a fundo para sempre à literatura. Encerrava-se uma época. Este período que acabo de contar fez-me passar da juventude à maturidade. Dominaram-me duas preocupações: viver e realizar a minha vocação ainda abstracta de escritor; isto é, encontrar o ponto de inserção da literatura na minha vida.” (pág. 302). “Todavia, ao fazer o balanço destes anos, parece-me que me deram muitíssimo: tantos livros, quadros e cidades, tantos rostos, tantas ideias, emoções e sentimentos! Nem tudo era falso.” (pág. 306)

No Verão de 1938, já com a ameaça iminente da guerra, ainda aproveita a natureza na Provença com Sartre, antes de regressar a Paris. A notícia da conclusão do pacto germano-soviético é o fim de toda e qualquer esperança. Os comboios sobrelotados, a mobilização e a angústia das pessoas são o sinal da viragem. No entanto, há ainda a crença de que a guerra não vai ser longa e que os fascismos vão ser liquidados e que a França e toda a Europa caminharão para o socialismo. É muito interessante o retrato que Beauvoir traça do estado de espírito das pessoas: inquietas, dando palpites, tentando adivinhar o futuro. Ela própria “sentia medo. Não receava por mim; nem por um instante pensei em fugir do País. Tinha receio por Sartre.” (…) ”E uma manhã a coisa aconteceu. Então, na minha solidão e angústia, comecei a escrever um diário. Parece-me mais vivo, mais exacto do que a narrativa que eu pudesse tirar dele.” (pág. 321) Vai então escrever um diário que começa a 1 de Setembro e vai até 14 de Julho do ano seguinte, com alguns períodos intermitentes, ou seja, todo o período em que está afastada de Sartre. Este diário é um retrato/documento vivo do quotidiano da França naquela época. A 1 de Setembro é declarada guerra à Polónia, Sartre é mobilizado para Nancy, as pessoas começam a comprar máscaras de gás, as rotinas alteram-se, os cafés fecham cedo e as boîtes não abrem. “O Flore está fechado. Sento-me na esplanada do Deux Magots e leio Journal, de Gide, de 1914; grande analogia com o momento presente” (pág. 326) Alguns dizem que esta guerra é uma brincadeira. “Durará muito tempo?”, pergunta Simone de Beauvoir. Num passeio pelos campos com Camille, “Voltamos através dos campos e aldeias. É um momento muito comovente e recordo-me do que Sartre me disse em Avinhão, e que é tão verdadeiro: que se pode viver numa grande doçura um presente rodeado de ameaças; não esqueço nada da guerra, da separação, da morte, do futuro bloqueado e no entanto nada pode apagar a ternura e a luminosidade da paisagem; como se fosse invadida por um sentimento que se basta a si próprio, que não pertence a nenhuma história, arrancado à sua própria história, de repente, completamente desinteressado.” (pág. 334). Na entrada de 25 de Outubro do diário, escreve Simone de Beauvoir: “Fernand diz que os jornais estão cheios de mentiras e que a guerra vai ser longa. Já não reajo a estas previsões. Trabalho no meu romance, dou aulas e vivo numa espécie de embrutecimento: nenhum futuro tem realidade.” (pág. 348)

Para se deslocarem, os franceses precisam de salvo-condutos, o que não é fácil de conseguir. As cartas que recebe de Sartre, em parte incerta, são abertas pela censura. Mais tarde, em código, ela consegue perceber que ele está na Alsácia. No PCF há demissões por desacordo com o pacto germano-soviético. Em Maio os alemães invadem a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo e a 4 de Junho a região de Paris é bombardeada. A vida muda radicalmente para Simone de Beauvoir que tem de ficar na cidade por causa da sua profissão. Sente-se enclausurada. Mas, com o avanço das tropas ocupantes, os professores são dispensados e os exames adiados. Paris é o caos, sem gasolina, sem comida para os franceses, mas os alemães pavoneiam-se e culpam os ingleses e os judeus pela situação de penúria que vivem os habitantes da cidade. É nessa altura que Simone de Beauvoir aprende a andar de bicicleta, o que lhe vai ser muito útil e para Sartre nas suas muitas deslocações. A repressão e o peso da ideologia nazi entram no quotidiano das pessoas. As notícias são escassas e deturpadas, alguns amigos começam a vacilar. Outros desaparecem.

Quando Sartre que estivera preso é libertado, quer seguir a política e cria um pequeno grupo – “Socialismo e Liberdade “ – à semelhança de muitos que existiam, que ajude à resistência aos ocupantes e colaboracionistas. O “trio” que Simone, Sartre e Olga constituíram antes da guerra, é agora alargado, como se fossem uma “família”. Partilham o pouco que têm, apoiam-se nas dificuldades que são cada vez maiores, a informação é escassa, os avanços das forças inglesas andam a par das execuções, das prisões e dos envios das pessoas para os campos de concentração, embora nessa altura ainda pouco se soubesse sobre os campos de concentração, as resistências organizam-se, mas há que estar atento aos delatores. Em contraponto ao ambiente hostil da ocupação e da guerra, à rudeza do frio e da fome, este grupo de intelectuais – Camus, Dullin, Picasso, Dora Marr, os Leiris, Éluard, Malraux … – fazia do Flore a sua casa e alimentava a sua amizade com a alegria de viver o momento e de aproveitar ao máximo o facto de estarem vivos. Tinham grandes projectos para o futuro e antecipavam o que fariam no pós-guerra. Sartre cria textos para peças de teatro, Simone trabalha no segundo romance e o seu reconhecimento como escritora surge quando finalmente “A Convidada”, o seu primeiro romance é editado e sobre ele são escritas críticas em jornais de referência. Simone de Beauvoir era finalmente reconhecida como escritora, ganha notoriedade e esse reconhecimento dá-lhe grande satisfação pessoal.

Como referi anteriormente, a parte final de “A Força da Idade” é o retrato dos dias que antecederam a vitória sobre o ocupante nazi e que foi sentida antecipadamente pela “família” que há tanto tempo a desejava. A Libertação não foi conseguida sem muito sofrimento e sem que o terror estivesse presente até ao fim. Simone de Beauvoir faz também aqui um balanço, uma reflexão sobre a guerra e o peso que ela irá transportar para a sua vida do pós-guerra e que não mais se apagará. Dos muitos amigos e amigas que vão surgindo ao longo das mais de quinhentas páginas, ela destaca o jovem Bourla cuja morte lhe é insuportável

 Para além da minúcia e detalhe usados ao longo de todo o livro na descrição das paisagens e percursos que fazem ela e Sartre em toda a França, mas também noutros países como a Espanha, a Itália ou a Grécia; Simone de Beauvoir como observadora de tudo o que a rodeia é exaustiva na caracterização daqueles que lhe estão mais próximos e, de forma muito particular, partilha nas suas memórias a importância da literatura na sua vida “a literatura tornou-se-me tão necessária como o ar que respirava” (pág. 509); as dúvidas e inseguranças em todo o processo criativo, os elementos usados na construção de “L’Invitée”, mas também de “Le Sang des Autres” e “Tous les Hommes sont Mortels”, o que acho de grande interesse para quem estudar estas três primeiras obras da autora, na medida em que estão intrinsecamente ligadas à sua vivência e às pessoas que fizeram parte dos seus relacionamentos mais íntimos.

Por fim e assumindo que muitíssimo mais poderia dizer sobre este livro, não posso deixar de aqui transcrever um parágrafo que surge na parte final do livro, que reflecte as preocupações desta professora, filósofa, feminista, fundamental para o pensamento do feminismo e das feministas. A propósito do seu círculo de amigos, intelectuais quase todos oriundos do surrealismo, escreve Beauvoir: “ Tirei ainda um outro proveito dessa intimidade. Conhecia poucas mulheres da minha idade e nenhuma que levasse uma vida clássica de casada; os problemas de Stépha, Camille, Louise Perron, Colette Audry e os meus eram, na minha opinião, individuais e não generalizados. Em muitos pontos, compreendera quanto, antes da guerra, pecara por abstracção: sabia agora que não era indiferente ser judeu ou ariano; mas não me tinha apercebido de que houvesse uma condição feminina. Subitamente, encontrei um grande número de mulheres que tinham ultrapassado os quarenta e que, através da diversidade das suas possibilidades e méritos, haviam tido uma experiência idêntica: tinham vivido como «seres relativos». Como eu escrevia, como a minha situação era diferente da delas, e também, penso eu, como sabia escutar, disseram-me muita coisa; comecei a dar conta das dificuldades, das aparentes facilidades, dos logros e dos obstáculos que a maioria das mulheres encontra pelo caminho; senti também que, naquela medida, eram simultaneamente diminuídas e enriquecidas. Não dava ainda muita importância a um assunto que só indirectamente me dizia respeito, mas a minha atenção foi despertada.” (pág. 481)

10 de Julho de 2022

Almerinda Bento

 

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Três Verões, Julia Glass

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Publico aqui o que escrevi há 8 anos, sobre uma das minhas leituras desse Verão de 2013

 

“Três Verões”, Julia Glass, 2002



O que nos faz gostar de um livro? O que nos faz lê-lo até ao fim?

Várias são as respostas possíveis, para mim neste caso, a escrita fluente, a proximidade e a pertinência de certas situações, a mestria da autora em manter o/a leitor/a ligado/a, mas também as referências às cidades ou locais onde a acção se passa, a presença da natureza, a riqueza e complexidade das diversas personagens deste livro com cerca de cinco centenas de páginas.

Os temas da morte, da “última morada”, da homossexualidade, da eutanásia, dos primeiros anos do surgimento da sida, da fertilidade ou da sua ausência, da inseminação artificial, o dar a vida e também o dar a morte, a solidariedade, a gravidez desejada e o aborto surgem ao longo do romance e colocam às personagens e ao/à leitor/a perplexidades, dúvidas e a necessidade de fazer escolhas. Foi tudo isto que me fez ficar ligada a este livro que uma amiga me havia emprestado há já algum tempo.

A acção desenvolve-se ao longo de três períodos diferentes, nos meses de Junho de 1989, 1995 e 1999. Na primeira parte, Paul McLeod na condição de recém-viúvo, parte numa excursão até à Grécia e às suas famosas ilhas. Mas é sobretudo através dele e das suas memórias, enquanto narrador, que entramos na sua vida na Escócia, casado com uma mulher independente, criadora e treinadora de cães pastores (collies) e pai de três rapazes. Mas a Grécia e sobretudo a ilha de Naxos fascinaram-no de tal modo que passou a ser local de posteriores viagens de férias, tendo acabado por aí falecer num desses verões.

O reencontro dos três filhos – Fenno e os gémeos David e Dennis - na Escócia, na segunda parte do livro, por ocasião da morte e funeral do pai, desvenda as personalidades das personagens e das famílias que entretanto se constituíram e é o ponto de partida para o enredo do livro. Fenno, o mais velho, há anos a residir em Nova York, homossexual, é o narrador e também a personagem central e mais marcante em todo o livro, a quem são colocados os desafios mais difíceis, desde ajudar o seu amigo Mal a morrer, até ser dador de esperma que permita a gravidez da mulher do seu irmão David.

Embora a estrutura do romance seja feita de cenas e capítulos que decorrem em momentos diferentes, em que somos levados a andar para a frente e para trás no tempo, a leitura é um puzzle que encaixa na perfeição. Para além dos temas tão actuais a que me referi anteriormente, a autora consegue transmitir-nos o seu amor pela natureza e ao nomear as flores das paisagens da Escócia – peónias, dedaleiras, íris, lilases, rosas, alfazema, gardénias, jacintos – é toda uma sinfonia de cheiros, de perfumes, de cores, um convite à leitura deste livro com todos os sentidos. Quase no final, o remate perfeito com a referência a “A Pastoral” de Beethoven.

Termino com a indicação de que este livro foi o vencedor do National Book Award.

11 Agosto 2013

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...