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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

O Estrangeiro, Albert Camus

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O Estrangeiro”, Albert Camus, 1942


 


Começa-se a ler “O Estrangeiro”, para mim uma releitura, e há uma estranheza, enquanto leitora, que se vai adensando, longe de se vislumbrar o desfecho final. Há um mal-estar nas atitudes e reacções de Meursault, o herói deste romance de Camus, de tal modo que frequentemente me senti como se estivesse a ler Kafka, pelo absurdo, pelo inesperado, pelo imprevisto. Na longa introdução ao livro feita por Jean-Paul Sartre, este chama a Meursault um “herói ambíguo”. Meursault passa pelas coisas indiferente, parece que não tem opinião ou, pelo menos, não a expressa e o patrão acha que ele é um homem sem ambição, pelo menos para o negócio!


Estrangeiro o herói; estrangeiro o leitor. Com uma escrita muito visual, diria mesmo cinematográfica, com frases muito curtas e sincopadas, sem floreados, Camus leva-nos a acompanhar o dia-a-dia de Meursault. Toda a semana, desde que se levanta, vai para o trabalho, almoça no Celeste, regressa ao trabalho, sai do trabalho e volta a casa. Os fins de semana que poderão ser uma ida à praia ou um dia inteiro em casa sem fazer nada. Os barulhos no prédio com os vizinhos. Maria, a namorada, talvez a pessoa mais “normal”, aquela que tem as reacções mais previsíveis do ponto de vista social.


Mas essa rotina só a conhecemos depois, porque o romance começa com a notícia da morte da mãe de Meursault, a viver há três anos num asilo. O enterro da mãe é um momento de quebra da rotina, como será o assassinato involuntário de um árabe, num domingo de praia e de convívio com amigos.


A segunda parte do romance tem a ver com Meursault na cadeia e com todo o processo de preparação do julgamento. Ele não tem medo do que possa ser a sentença. Ele não se sente réu, antes posiciona-se de fora, como espectador do seu próprio julgamento. Ele não se sente como criminoso, sente aborrecimento e não arrependimento. Ele sente-se intruso na sala da audiência, tanto mais que as suas respostas são “inconvenientes”. Ele não se acha culpado, mas tem a sensação de que todos os que estavam no dia do julgamento o detestavam. Ele não percebe o que se está a passar, porque o processo centra-se não no assassinato, mas na sua vida a partir do dia do enterro da mãe. É notória a ironia relativamente à Justiça e à Igreja. Ele não encaixa nem no esquema da investigação enviesada montada pela justiça para o condenar, nem nas tentativas do juiz e do capelão para o converterem.


É sempre bom voltar aos “clássicos”, redescobri-los. Foi o que fiz. Reler um livro, lido há muitos anos, descobrir por que me marcou na altura em que o li.


Termino transcrevendo breves frases da introdução de Jean-Paul Sartre “Explication de L’Étranger” da edição da Unibolso:


Mal saíra dos prelos, O Estrangeiro de Camus obteve a maior aceitação. Toda a gente dizia que «era o melhor livro desde o armistício». No meio da produção literária desse tempo, este romance era, ele próprio, um estrangeiro.”


“E nós próprios que, abrindo o livro, ainda não estamos familiarizados com o sentimento do absurdo, procuraríamos em vão julgá-lo segundo as nossas normas habituais: ele é um estrangeiro também para nós.”


“O encontro do leitor com o absurdo.”


 


Mouriscas, 11 de Agosto de 2020


Almerinda Bento


 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Luanda, Lisboa, Paraíso, Djamilia Pereira de Almeida

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Luanda, Lisboa, Paraíso, Djamilia Pereira de Almeida, 2018


A belíssima capa deste livro, o título e uma sessão em qua Djaimilia Pereira de Almeida falou sobre a sua obra foram os “ingredientes” que me atraíram para comprar “Luanda Lisboa Paraíso”.  A doçura da voz e a riqueza do discurso da jovem autora angolana nesta sessão moderada por Anabela Mota Ribeiro fui encontrá-las ao longo das pouco mais de duzentas páginas do livro.


Um livro muito belo, cheio de subtilezas, de figuras de estilo na sua prosa poética. Uma história com vidas tristes, sofridas, com muitos silêncios ou com palavras que não são ditas, onde a esperança e o sonho persistem, mesmo quando a pobreza, a solidão e o desenraizamento são a marca de que é feita a vida das personagens.


Cartola e Aquiles partem de Luanda a caminho de Lisboa para um tratamento a um defeito de nascença no calcanhar de Aquiles. Lisboa é a terra com que o pai Cartola sonha, imaginada em livros, mapas e postais; para Aquiles, o filho, é terra de salvação de um defeito que carregava, colado ao nome e com o qual era alcunhado de “o coxo” ou o “Botinha” entre os colegas da escola. Desde o início que tudo aponta que será uma viagem só de ida o que é percepcionado por Glória, a mãe, paralisada e esquecida numa cama, lembrando Samsa, o insecto de “A Metamorfose” de Kafka. “Glória fechou os olhos, apertou a camisa de noite contra o peito e disse em voz alta «até amanhã, Papá» sem se permitir soltar uma lágrima, mas pressentindo também que vira o marido pela última vez.”


Lisboa é afinal uma terra onde pai e filho andam à deriva, sentindo-se estrangeiros, perdidos. A fragilidade de Cartola “caminhava sem referências”  é sentida pelo filho que o acha mais pequeno, menos firme, mais envelhecido. Pai e filho pouco comunicam, cada um encerrado no seu mundo, frustrados os seus sonhos de um futuro melhor. Para Cartola, perdido numa Lisboa estranha que o enjeitava, era no cemitério dos Prazeres que encontrava o sítio onde se sentia entre iguais. Nas cartas e nos telefonemas a Glória, Cartola fantasia em palavras os sonhos que não consegue concretizar, são a idealização de um sonho impossível. Em Luanda, a escassez, a pobreza e a guerra civil são mascarados com palavras doces e pedidos simples que Glória faz ao marido, projectando num futuro risonho as memórias de tempos felizes quando eram jovens.


A Quinta do Paraíso, a caminho de Caneças é a saída possível depois de uma história de pagamentos em atraso e dívidas na pensão Covilhã. As viagens diárias do bairro para a obra são as rotinas de Cartola para quem a dureza do trabalho o faz sentir cada vez mais velho e onde Aquiles é “o coxo da obra” ou “o preto coxo”. Paraíso, mas podia ser a Jamaica, é o lugar onde diariamente se descansa o corpo depois da jornada de trabalho dura na obra. As dores do corpo são mitigadas por uma refeição melhorada quando ainda há dinheiro, ou por uma conversa à volta duma fogueira, pautada por umas anedotas e lembranças da terra longínqua, ou pela rifa do cabaz de Natal que saiu a Cartola. O vizinho Pepe, o taberneiro galego vai ser a amizade que vai nascer na relação entre duas solidões. E que se vai reforçar quando ambos constróem a barraca que ardeu numa noite. A construção da “nossa casinha”, como lhe chamam,  passa a ser o objectivo que vai dar sentido às suas vidas e motivar os mais novos – Aquiles, Amândio e Iuri.


Achei este livro tão lindo, tão dramático, tão sentido, para nos dar a entender melhor a vida de tantos cidadãos imigrantes que um dia acreditaram num paraíso em Portugal ou na Europa, que foram obrigados a fugir da fome ou duma guerra civil sem sentido, que aqui vieram procurar respostas para uma saúde que não dispõem nos seus países.


Com a força das palavras que Djaimilia consegue manejar com tanta mestria e sensibilidade.


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...