“A Filha Obscura” – Elena
Ferrante, 2006
Depois
de ter lido há alguns anos a famosa tetralogia “A Amiga Genial” e posteriormente
“Escombros”, chega agora a vez de “A Filha Obscura”, integrado na colectânea
“Crónicas do Mal de Amor” da Relógio D’Água.
Esta
leitura insere-se na reflexão iniciada na sequência do curso “Subversão: a
maternidade na literatura e na cultura” ministrado por Rosa Azevedo e Joana
Neves na livraria Snob. Curso que, sem dúvida, me pôs a pensar sobre um
conceito que foi desconstruído, analisado e olhado sob vários ângulos e
perspectivas e o qual nunca mais se conseguirá ver duma forma tão plana e
singela como a sociedade patriarcal e capitalista quer que seja percepcionado.
Digamos
que “A Filha Obscura” me recordou alguns trechos de “A Amiga Genial” e consegue
ser bastante perturbador. Até nos nomes que Elena Ferrante escolhe para as suas
personagens, é impossível deixarmos de nos lembrar da famosa tetralogia. Leda é
a narradora em “A Filha Obscura”. Tem 47 anos, é professora universitária e,
pela primeira vez, vive uma sensação de leveza, sente-se “livre e sem culpas
por sê-lo” e “milagrosamente desobrigada” (pág. 293) quando as duas
filhas decidem ir viver com o pai em Toronto. Aproveita o final do ano lectivo
para fazer umas férias diferentes das que fazia em família, carrega os seus
livros e prepara-se para uma quebra da rotina que sempre fora a sua enquanto
mãe disponível e sempre receosa de ser considerada ausente ou distraída. Agora,
na praia, já não tinha “de estar atenta a horários nem de enfrentar pressas.
Já ninguém dependia dos meus cuidados e eu própria, finalmente, já não era um
peso para mim.” (pág. 297)
Este
romance tem poucas personagens. Para além de Giovanni, que guarda o apartamento
que Leda alugou na praia, temos Gino, o banheiro e uma numerosa e ruidosa
família napolitana, de que se destacam Nina, uma jovem mãe, a sua filha Elena e
a boneca Nani, com a qual as duas brincam e interagem. São estas três
personagens que verdadeiramente interessam a narradora, que lhe chamam a
atenção e que a fazem recordar a sua vida, a sua mãe, as filhas e também a boneca
Mina que tivera quando criança. Afinal, querendo sentir-se livre, não consegue
deixar de estar permanentemente a recordar o passado, a mãe, as filhas, o
marido e as escolhas ou caminhos que fizera ao longo da vida.
As
descrições dos locais são minuciosas e muito vívidas e há uma carga dramática
que antecipa uma tensão que está presente desde o início do romance. O cesto da
fruta tão apetecível a desejar as boas vindas à locatária, é afinal fruta retardada
ou podre, incomestível; a luz intermitente do farol que inunda o quarto do
apartamento; o pinhal cerrado que há que percorrer até chegar à praia; a menina
que se perde na praia; a boneca que desaparece; o ataque com uma pinha no
pinhal sem que Leda perceba de onde veio; os miúdos “gang” napolitanos que
ela sente como uma ameaça e lhe provocam medo.
Quando
chegamos ao final, recuamos ao princípio do romance, ao acidente que a levara
ao hospital, sobre cujas causas ela não quis falar. “As coisas mais difíceis
de contar são aquelas que nós próprios não conseguimos compreender.” (pág.
292)
No
final pergunto-me: quem é afinal a filha obscura? Tanto pode ser Leda, como Nina,
como Elena, como Nani a boneca, ou a filha da boneca... É este o enigma que
Elena Ferrante nos deixa e nem sequer acho que ela queira que o resolvamos,
antes que nos deixe a pensar sobre ele.
6 de
Maio de 2026
