terça-feira, 12 de maio de 2026

A Filha Obscura, Elena Ferrante

 


“A Filha Obscura” – Elena Ferrante, 2006

 

Depois de ter lido há alguns anos a famosa tetralogia “A Amiga Genial” e posteriormente “Escombros”, chega agora a vez de “A Filha Obscura”, integrado na colectânea “Crónicas do Mal de Amor” da Relógio D’Água.

Esta leitura insere-se na reflexão iniciada na sequência do curso “Subversão: a maternidade na literatura e na cultura” ministrado por Rosa Azevedo e Joana Neves na livraria Snob. Curso que, sem dúvida, me pôs a pensar sobre um conceito que foi desconstruído, analisado e olhado sob vários ângulos e perspectivas e o qual nunca mais se conseguirá ver duma forma tão plana e singela como a sociedade patriarcal e capitalista quer que seja percepcionado.

Digamos que “A Filha Obscura” me recordou alguns trechos de “A Amiga Genial” e consegue ser bastante perturbador. Até nos nomes que Elena Ferrante escolhe para as suas personagens, é impossível deixarmos de nos lembrar da famosa tetralogia. Leda é a narradora em “A Filha Obscura”. Tem 47 anos, é professora universitária e, pela primeira vez, vive uma sensação de leveza, sente-se “livre e sem culpas por sê-lo” e “milagrosamente desobrigada” (pág. 293) quando as duas filhas decidem ir viver com o pai em Toronto. Aproveita o final do ano lectivo para fazer umas férias diferentes das que fazia em família, carrega os seus livros e prepara-se para uma quebra da rotina que sempre fora a sua enquanto mãe disponível e sempre receosa de ser considerada ausente ou distraída. Agora, na praia, já não tinha “de estar atenta a horários nem de enfrentar pressas. Já ninguém dependia dos meus cuidados e eu própria, finalmente, já não era um peso para mim.” (pág. 297)

Este romance tem poucas personagens. Para além de Giovanni, que guarda o apartamento que Leda alugou na praia, temos Gino, o banheiro e uma numerosa e ruidosa família napolitana, de que se destacam Nina, uma jovem mãe, a sua filha Elena e a boneca Nani, com a qual as duas brincam e interagem. São estas três personagens que verdadeiramente interessam a narradora, que lhe chamam a atenção e que a fazem recordar a sua vida, a sua mãe, as filhas e também a boneca Mina que tivera quando criança. Afinal, querendo sentir-se livre, não consegue deixar de estar permanentemente a recordar o passado, a mãe, as filhas, o marido e as escolhas ou caminhos que fizera ao longo da vida.

As descrições dos locais são minuciosas e muito vívidas e há uma carga dramática que antecipa uma tensão que está presente desde o início do romance. O cesto da fruta tão apetecível a desejar as boas vindas à locatária, é afinal fruta retardada ou podre, incomestível; a luz intermitente do farol que inunda o quarto do apartamento; o pinhal cerrado que há que percorrer até chegar à praia; a menina que se perde na praia; a boneca que desaparece; o ataque com uma pinha no pinhal sem que Leda perceba de onde veio; os miúdos “gang” napolitanos que ela sente como uma ameaça e lhe provocam medo.

Quando chegamos ao final, recuamos ao princípio do romance, ao acidente que a levara ao hospital, sobre cujas causas ela não quis falar. “As coisas mais difíceis de contar são aquelas que nós próprios não conseguimos compreender.” (pág. 292)

No final pergunto-me: quem é afinal a filha obscura? Tanto pode ser Leda, como Nina, como Elena, como Nani a boneca, ou a filha da boneca... É este o enigma que Elena Ferrante nos deixa e nem sequer acho que ela queira que o resolvamos, antes que nos deixe a pensar sobre ele.

6 de Maio de 2026


A Filha Obscura, Elena Ferrante

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