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sábado, 3 de dezembro de 2022

Os Anos, Annie Ernaux

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“Os Anos”, Annie Ernaux, 2008

 

De repente, descobre-se um nome novo, alguém que ganhou o prémio Nobel da Literatura e nem sempre as livrarias estão preparadas. Não foi o caso este ano. Pelo menos encontrei três títulos diferentes de obras de Annie Ernaux, todos traduzidos em português por Maria Etelvina Santos e quando me questionei por qual deveria começar, sugeriram-me que começasse por “Os Anos”. E assim foi. Uma bela descoberta.

Gostaria de começar este meu texto, transcrevendo a frase de José Ortega Y Gasset “A única história que temos é a nossa e ela não nos pertence” que se encontra na epígrafe do livro, assim como parte da citação de Anton Tchekhov também na epígrafe: “- Sim. Seremos esquecidos. É assim a vida, nada a fazer. O que hoje nos parece importante, sério, cheio de consequências, pois bem, um dia vai cair no esquecimento, vai deixar de ter importância…” 

Então, entramos na aventura do livro e a primeira frase, que antecede as frases soltas que o abrem, é “Todas as imagens irão desaparecer”. E, quando volvidas meia dúzia de páginas, chegamos à pág 16 lemos: “Tudo se apagará num segundo. O dicionário acumulado desde o berço até ao leito de morte irá desaparecer. Depois, o silêncio e nenhuma palavra para o dizer. Da boca aberta nada sairá. Nem eu nem mim. A língua continuará a pôr o mundo em palavras. Nas conversas à volta de uma mesa em dia de festa seremos apenas um nome, cada vez mais sem rosto, até desaparecermos na multidão anónima de uma geração distante”.

A ideia da finitude da vida, do esquecimento inevitável que virá com o tempo, leva a narradora, que sempre adiara, desde a juventude, a escrita do livro, à urgência de agarrar nas imagens, nos milhares de notas e dar forma a um tempo, captando “… a duração que constitui a sua passagem pela Terra numa determinada época” (pág. 193), “… para reconstituir um tempo comum… para, ao descobrir numa memória individual a memória da memória coletiva, ser capaz de transmitir a dimensão vivida da História.” (pág. 194). “Portanto, o livro a fazer era um instrumento de luta.” (pág. 195).

É pois um livro de memória, do tempo que medeia entre aquela fotografia sépia de 1941 e uma outra datada de 25 de Dezembro de 2006, em que aparece ao lado da neta. Todos aqueles retratos, com o registo da data e do local no verso, que vão sendo descritos nos seus detalhes ao longo do livro, marcam um dia, uma época, um tempo que foi o dela, que foi também o tempo da sociedade em que ela se inseriu, com a qual nos identificamos, apesar de não termos nascido em França.

E o lugar da mesa, em dias de festa, em que a família se reúne, desde aquele tempo longínquo em que avós e pais contavam histórias da(s) guerra(s) enquanto as crianças despreocupadas corriam e brincavam, alheadas desse mundo dos adultos, até àquele outro tempo em que ela é avó e mãe e observa as reacções e as conversas dos filhos e das namoradas. Sempre o mundo dos adultos e dos pequenos, essa persistência e continuidade, mas também as diferenças, o fosso que torna o olhar de uns sobre os outros, sempre ambivalente, incompreensível e estranho. O desenrolar da História e com ele a evocação do frio, da fome, da destruição, do frenesim a seguir à Libertação, das diferenças na educação dos rapazes e das raparigas, os tabus, o sexo, a Igreja, a esperança no progresso, os grandes projectos, o consumo e a falsa sensação de liberdade, os desânimos… Os namoros, os sustos, o casamento, o cansaço do casamento, os constrangimentos sociais, o divórcio, os namoros, a relação com um homem muito mais jovem…

À medida que vamos seguindo esta leitura entusiasmante, a História passa pelos nossos olhos com inúmeras referências inesquecíveis mas, embora a narradora nunca refira Portugal e a democracia que chegou com o 25 de Abril, ela destaca o Maio de 68 como data marcante para os Franceses, em que se separaram as águas, conforme o lado da barricada em que cada um se situou. Tal como no 11 de Setembro, quando as Torres Gémeas foram derrubadas, ela não esqueceu um outro 11 de Setembro em que Allende foi derrubado por um general de extrema-direita.

A vida das mulheres, nas suas conquistas ao longo do século passado, é algo que marca este livro e que não poderia deixar de aqui realçar. Nos anos 50, a moral sexual era rígida e penalizava sobremaneira as raparigas. “Sonhava-se com a pílula contracetiva que, diziam, se vendia na Alemanha. Ao sábado, em fila, casavam as raparigas de véu branco, que davam à luz seis meses mais tarde uns rapagões considerados prematuros.” “Ninguém se interrogava sobre quanto tempo duraria a proibição do aborto e de se viver junto sem casamento”. (pág. 59). “A vida sexual continuava a ser clandestina e rudimentar, assombrada pelo «acidente». Ninguém a devia ter antes do casamento.” “Era preciso «tirar» de uma maneira – na Suíça, para as que eram ricas – ou de outra – na cozinha de uma desconhecida, sem conhecimentos, que tirava uma sonda fervida de um recipiente que servia para tudo. Ter lido Simone de Beauvoir apenas servia para constatar a maldição de ter um útero.” (pág. 65). “A contraceção intimidava bastante as refeições familiares para poder ser tema de conversa. O aborto era palavra impossível de pronunciar.” (pág. 77). Os anos passam, “deixáramos de acreditar que haveria um novo Maio” “Já ninguém se aborrecia verdadeiramente … A indignação moral já não tinha lugar” (pág. 100), mas “Até nós… mesmo nós fomos tocados pelo voto aos dezoito anos, o divórcio por mútuo consentimento, a lei sobre o aborto em discussão, quase chorámos de raiva por ver Simone Veil a defender-se sozinha na Assembleia contra os homens da sua própria bancada, furiosos, e pusémo-la no nosso panteão ao lado da outra Simone, de Beauvoir – cujo aparecimento pela primeira vez na televisão, numa entrevista, de turbante e unhas pintadas de vermelho, estilo leitora da sina, nos tinha dececionado, pois já era muito tarde, ela não o deveria ter feito –, e já nem nos aborrecíamos quando os alunos confundiam Veil com a filósofa que por vezes era citada nas aulas.” (pág. 100).

 

Já vai longo este meu texto e tanto, tanto ficou por dizer, tantos foram os sublinhados que fiz ao longo deste belo livro. Espero que “Os Anos” de Annie Ernaux seja lido por muita gente da minha idade, que se vai rever nele. Espero que seja também uma leitura interessante para os jovens e as jovens que agora vivem no tempo da tecnologia triunfante, da precariedade endémica, do avanço dos extremismos e das descaradas fake news.

Volto à ideia mestra de “Os Anos”, quando a meio do livro a narradora escreve: “Gostaria de reunir múltiplas imagens dela própria, separadas, sem relação entre si, ligadas por um fio narrativo, o da sua existência, desde o nascimento durante a Segunda Guerra Mundial até aos dias de hoje”. (pág.144) Objectivo plenamente alcançado.

 

1 de Dezembro de 2022

 

 

 

sábado, 10 de abril de 2021

A Casa dos Espíritos, Isabel Allende, 1982

Hoje não consegui deixar de publicar este texto que escrevi há oito anos. Uma situação inesquecível que me traz à memória Mouriscas e a minha irmã Isabel. Mal imaginava que a minha irmã partiria poucos dias depois. Escrevi-o lá, estávamos nas férias da Páscoa, o tempo era de chuva e cinzento e não nos dava grandes oportunidades de sair. Tinha acabado de ler "A Casa dos Espíritos" ela andava a ler "O Segundo Sexo". Pediu-me que lhe lesse o que escrevera e comoveu-a recordar uma leitura que já tinha feito há anos pois a fizera lembrar alguns trechos e personagens do livro. 


Aqui vai o que escrevi então, sobre este maravilhoso livro de Isabel Allende.


“A Casa dos Espíritos”, Isabel Allende, 1982


Este é o primeiro romance de Isabel Allende. Primeiro, grande e magistral romance de Isabel Allende e da literatura da América Latina.


É o primeiro de uma trilogia, embora cronologicamente verse sobre a vida da última geração dos del Valle. Como é típico de Isabel Allende, as personagens são únicas, mágicas e inesquecíveis. Partindo do casal Severo del Valle e Nivea que já conhecíamos de “Retrato a Sépia”, a história da família vai-se-nos desvendando ao longo dos cinquenta anos em que as personagens se movem. As filhas Rosa, a bela e Clara, a clarividente. Clara terá uma filha, Blanca e dois gémeos Nicolau e Jaime, totalmente diferentes e com posicionamentos e personalidades até conflituantes. Outras personagens invulgares surgem na narrativa e vão também ter implicação no seu desenrolar como Pedro Tercero Garcia, Amanda, Miguel, Jean de Satigny, Esteban Garcia, Férula, as três irmãs Mora, Tránsito Soto.


Esteban Trueba figura truculenta, contraditória, brutal, frágil, carrasco e vítima surge como um dos narradores dos acontecimentos e acompanha o desenrolar da acção desde o início até final. Noivo de Rosa, acaba por não conseguir casar com ela devido à morte inesperada da belíssima jovem. Irá casar com Clara, irmã de Rosa, figura com poderes especiais, que consegue fazer mover objectos, muitas vezes alheada do que a rodeia, mas também presente e actuante em momentos dramáticos e que, para além da sua ligação aos espíritos, tem o hábito de escrever nos seus “cadernos de anotar a vida”. Estes cadernos, salvos miraculosamente do fogo, vão ser preciosos e fundamentais como material de trabalho de Alba, neta de Esteban Trueba e de Clara. Alba irá fazer a reconstituição da história desde o bisavô Severo e a bisavó Nívea até à actualidade, ou seja, desde os anos 20 do século passado até ao período imediatamente a seguir ao derrube do Presidente Allende, isto é, a época do terror do general Pinochet. Alba é pois a narradora do livro tal como Esteban Trueba, sendo que é através dos olhos de ambos que este livro da memória nos é aberto.


Também as casas, os espaços onde as personagens se movem são mágicos e neste romance elas são também verdadeiras personagens com períodos de crescimento, apogeu, declínio e morte. Las Tres Marias, a casa do campo, primeiro, um monte de ervas e de casebres habitados por seres a viver em condições infra-humanas transformada numa casa senhorial, arrasada pelo terramoto, de novo erguida com o esforço dos camponeses e trabalhadores sem direitos, depois ocupada no tempo da reforma agrária e novamente incendiada e despojada dos que sempre nela trabalharam. A Casa da Esquina, a casa da cidade, refúgio de Clara depois que decidiu abandonar definitivamente a sua relação matrimonial com Esteban Trueba na sequência da cena de violência de que foi vítima. Aí, para além de manter as suas relações com os espíritos, de acolher as suas amigas e de ir acrescentando espaços, divisões e esconderijos tão úteis futuramente e tão necessários à realização pessoal e social de quantos lá viviam, esta casa tornou-se um verdadeiro labirinto.


Este é um livro que dificilmente se esquece e em que ao(a) leitor(a) é dada a oportunidade de ler/ver cenas e situações de grande realismo e crueza. Desde a cena de violência e brutalidade em que Esteban bate na mulher até a deixar inanimada e sem vários dentes, à indecisão e ao conflito interior de Amanda em lidar com a necessidade de fazer um aborto e a sensibilidade de Jaime na resposta ao problema e vulnerabilidade da jovem namorada do seu irmão Nicolau, até às descrições de puro sadismo dos esbirros e carrascos do regime dos generais.


O livro tem outro aspecto muito interessante que é o de ir dando sinais e pistas para acontecimentos posteriores, assim aguçando o interesse de quem lê e desvendando traços e situações que as previsões já haviam anunciado.


Não posso deixar de mencionar as referências ao Poeta ao longo de todo o livro. Nunca o seu nome é referido, embora desde sempre se saiba que este livro também é um tributo a ele, o poeta Pablo Neruda, cujo falecimento ocorreu poucos dias depois do golpe militar e cujo funeral acompanhado por tão poucas pessoas e vigiado por soldados armados de metralhadoras, aparece aqui como o primeiro grito de resistência do povo à tirania. Antes do primeiro capítulo, Isabel Allende escolhe uma estrofe de Neruda para iniciar o seu romance:


“Quanto vive o homem, por fim?


Vive mil anos ou um só?


Vive uma semana ou vários séculos?


Por quanto tempo morre o homem?


Que quer dizer para sempre?”


 


Os últimos capítulos que se passam no período negro da ditadura são motivo para Isabel Allende nos falar da censura, das palavras proibidas como democracia, companheiro, sindicatos, do encerramento da Faculdade de Filosofia e de “muitas outras que abrem as portas do pensamento…” E também da surpresa que é o confronto com o medo que tolhe as pessoas e as leva a fazer actos insuspeitados, desde a maior maldade à mais genuína solidariedade e coragem.


São muitos os aspectos que podiam ser aqui trazidos, tão fértil em ideias e reflexões é esta “Casa dos Espíritos”, mas neste momento em que vivemos numa Europa e num país em profunda crise e instabilidade e em que se quer assacar as culpas a quem não as tem, trago aqui os temas da justiça e da caridade que por duas vezes são abordados no livro.


“ – Isto serve para nos tranquilizar a consciência, minha filha – explicava a Blanca. – Mas não ajuda os pobres. Eles não necessitam de caridade mas sim de justiça.”


(…)


 


“Alba compreendeu que tinham retrocedido aos tempos antigos, quando a avó Clara ia ao Bairro da Misericórdia substituir a justiça com a caridade. Só que agora a caridade era mal vista.”


Certamente o facto de ser sobrinha de Salvador Allende e de ter vivido no Chile à época do golpe militar não é alheio à intenção que levou Isabel Allende a escrever este romance e a tratar o tema do terror, da impunidade, da barbárie, da ausência de liberdades e direitos vividos pelo povo chileno naquela época. Ela quis registar a memória para que não se esqueça o que é a ditadura, para que não se repitam os mesmos erros! Este é pois um livro da memória.


Almerinda Bento


Mouriscas, 21 de Março de 2013


 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Os Memoráveis, Lídia Jorge

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Os Memoráveis, Lídia Jorge, 2014


É difícil que, quem tenha vivido o 25 de Abril, se identifique com essa data e com o que ela representa, não se emocione com algumas das páginas deste livro de Lídia Jorge. Sendo uma obra de ficção, a autora faz-nos reviver episódios desse dia, servindo-se para isso de personagens que identificamos com alguns dos homens que estiveram ligados a esse dia libertador. Mas dentro da História que identificamos com a história de um povo vai-se entrelaçar a história de Ana Maria a narradora, jornalista da CBS e do pai António Machado, jornalista de referência nos anos da revolução, famoso pelas suas crónicas lúcidas e implacáveis contra o capitalismo e contra o então embaixador americano em Portugal.


Regressando a Portugal ao fim de cinco anos, com a incumbência de recolher material para o argumento para um filme de uma séria intitulada “A História Acordada”, o desafio que foi colocado a Ana Maria é contar a história de uma revolução dos cravos “a única metralha de que se socorreu o povo para derrubar os velhos tipos”. Habituada a missões difíceis em palcos de guerra no Médio Oriente, ela volta à cidade de Lisboa e à casa paterna para construir um argumento em torno de uma revolução pacífica que aconteceu há trinta anos e de que ela própria tem vagas referências ou lembranças.


O pai, como jornalista e protagonista daqueles dias memoráveis, poderia ser uma ajuda preciosa para o seu trabalho, mas a distância que os levou a separarem-se há cinco anos, criou entre eles uma relação baseada em “um não pergunta, para que o outro não pergunte”. Assim, a partir de uma fotografia que o pai guarda no seu escritório, vai abordar os protagonistas presentes num jantar memorável em Agosto de 1975 no “Memories”, para que lhe dêem a sua visão única e pessoal do dia 25 de Abril. Os relatos e o reflexo da passagem do tempo são uma história multifacetada da beleza e da decadência dos que fizeram o 25 de Abril. Se para um tudo aquilo foi um milagre, também há quem não queira dar testemunho para a CBS, ou quem esteja marcado por uma mancha na reputação por uma acusação falsa, quem se queira apagar entre os cinco mil que se puseram em movimento, ou quem tenha enveredado por um mundo de fantasia. De todos os testemunhos, sem dúvida o mais emotivo aquele que é dado pela viúva de Charlie 8 “o rapaz dos tanques e dos chaimites”, aquele que pôs o relógio da história a andar, mas que o regime maltratou, negando-lhe uma pensão que não negou aos torcionários da pide.


Um belo livro evocativo dum momento histórico único e repleto de esperança, não mascarando o apagamento, o desalento, os desencontros, as diferenças e o perigo do esquecimento. Mas que faz ressaltar que os valores da amizade e da solidariedade não se apagam quando os amigos deles mais precisam, quando desistiram da vida.


21 de Setembro de 2020


Almerinda Bento

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...