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sábado, 11 de julho de 2026

"Perdeu-se Relógio de Senhora", Alice Brito

 




“Perdeu-se Relógio de Senhora”, Alice Brito, 2026

 

Este é o mais recente livro de Alice Brito e, para quem já leu os outros livros desta autora, vai reconhecer em pleno o seu estilo, a linguagem, os temas, a personalidade da escrita e também a frescura e novidade que os seus livros sempre trazem. Frases curtas, incisivas, certeiras. Como não podiam faltar, a cidade de Setúbal e José Afonso fazem parte integrante deste quarto romance de Alice Brito. E a voz da narradora, sem papas na língua, a pôr o dedo na ferida num tempo de retrocesso, de negação, de saudosismo é, certamente, uma marca de água da escrita de Alice Brito.

“Perdeu-se Relógio de Senhora” começa assim: “Tinha-se muita sede por esses tempos” (pág. 11). O romance traz-nos as vidas de três mulheres nascidas em tempos diferentes do século passado e em terras diferentes, as quais, por mero acaso, vão partilhar um apartamento na Duque d’Ávila em Lisboa. As múltiplas referências ligadas às suas vivências e percursos ao longo dos anos ajudam-nos a contextualizar aquele(s) tempo(s) e reflectem um cuidadoso trabalho de investigação que nos permite recordar o Portugal da segunda metade do século passado, como também as importantes lutas operárias e as transformações sociais anteriores. Um Portugal com “muita sede” que subalternizou as mulheres, sujeitou o povo a uma feroz repressão, onde o medo e a hipocrisia medraram - “um país trágico” (pág. 132) - mas em que a luta de classes nunca deixou de existir e que acabou por desembocar na “década de espanto” (pág. 221) quando finalmente Beatriz, Benvinda e Bia, tão diferentes, se encontraram e partilharam uma casa em comum.

Finalmente o 25 de Abril. “Há dias e dias. E aquele dia, um dia líquido em que se matou a sede, por muita tropelia e análise variada e avariada que se lhe faça, resgatou do pesadelo todo um povo que só queria ser gente. Gente a sério.” (pág. 315)

Este livro é uma necessidade num tempo em que comemoramos os 50 anos da liberdade e nos confrontamos com a falta de vergonha, com o desaforo da mentira e todos os tiques da subserviência à extrema direita saudosa do fascismo. Mas é também um grito de esperança e de amor a esse “dia de ouro na memória de quem penou o viver antes.” (…) “Falar de Abril, sem lhe juntar a palavra liberdade, ou alegria, ou coragem é o mesmo que trair um amigo pelo esquecimento, pela omissão ou pelo desprezo.” (pág. 316)

Ler este livro é continuar a dialogar com a acutilância e clareza da escrita de Alice Brito. Para quem ainda não conhece a obra desta autora defensora da causa feminista, é o incentivo para a descobrir, começando por “As Mulheres da Fonte Nova”, “Um romance histórico arrebatador sobre a dor e a sobrevivência das mulheres de todos os tempos”, transcrevendo as palavras de Cristina Carvalho num artigo no Jornal de Letras.

27 de Junho de 2026

Almerinda Bento

 

 

 

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, Tiago Rodrigues

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“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” -Tiago Rodrigues, 2024

 

O título é suficientemente polémico, para se desejar ver a peça em palco, mas conseguir arranjar bilhetes antes que todas as sessões se esgotem? Li o texto dramatúrgico, li o extraordinário posfácio da autoria de Gonçalo Frota e voltei de novo ao texto, para o ler desta vez com mais atenção aos detalhes  sobre que se debruça o posfácio.

Que grande texto de Tiago Rodrigues, que peça perturbadora e tão polémica esta “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.  Começado a ser construído a partir da ideia de uma família que se reúne anualmente para vingar a morte de Catarina Eufémia, símbolo das mortes de todas as mulheres, ainda com os ecos dos protestos das feministas pelo absurdo do acórdão do juiz Neto Moura que se baseia em citações da Bíblia e no Código Penal de 1886, a eleição do primeiro deputado do Chega em Outubro de 2019 foi o gatilho para o texto cuja apresentação pública estava prevista para meados de 2020. A leitura do posfácio ajuda-nos, leigos, a perceber a complexidade do trabalho de criação de texto e de montagem duma peça teatral, do método de trabalho de Tiago Rodrigues até ao momento da apresentação da peça ao público. Atento ao que se passa no mundo, sensível às ideias e propostas dos actores, rodeando-se de uma equipa que vai de historiadores, a músicos, a estilistas, bailarinos, há todo um trabalho colectivo de criação aberto a alterações e mudanças que podem ser radicalmente diferentes da ideia original. Quando a equipa de actores partiu para a residência artística em Motemor-o-Novo, na primeira semana de Março de 2020, estava longe de imaginar que a pandemia iria alterar definitivamente todo o calendário de trabalho previsto inicialmente. No entanto, em Montemor-o-Novo, o trabalho colectivo, as conversas informais, as ideias individuais, os momentos de lazer, tudo isso foi o combustível que permitiu criar um texto dramatúrgico praticamente finalizado. Com a entrada em cena da pandemia, a interdição de ensaios presenciais trouxe a frustração do trabalho à distância, em tudo contrário à dinâmica criada por Tiago Rodrigues.

Eram muitas as dúvidas que se colocavam quando se fizeram os primeiros ensaios em Junho de 2020. “A pandemia roubou-nos a confiança de imaginarmos o futuro” (p. 181). A peça foi à cena pela primeira vez em Dezembro de 2020 no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, seguindo depois para o Centro Cultural de Belém em Lisboa. A peça situa-se em 2028, no sul de Portugal, com um governo fascista. Em palco, encontra-se reunida a família descendente de uma ceifeira companheira de Catarina Eufémia que há 75 anos deixou uma carta como herança para a família, para que nunca cale a injustiça onde confessa: “Hoje matei um homem. Não o matei pelo mal que me fez, embora estivesse no meu direito. Matei-o pelo bem que não fez” (p. 42). Todas as personagens se chamam Catarina, excepto o fascista também em cena, o ideólogo do partido de extrema direita, raptado para ser morto por uma das mulheres da família.

É uma peça que nos perturba. O que está ali em jogo: justiça ou vingança? Vale a pena continuar a apostar em eleições, em manifestações, em petições, ou a resposta ao ascenso do extremismo fascista tem de se combater com acções radicais? “Deve ou não dar-se a palavra a alguém que discursa contra o edifício democrático? Deve aceitar-se que tenha palco, que use a liberdade para falar sem censura ou, pelo contrário, ser silenciado?” (p. 222)

Se o texto é extremamente forte pelas questões que coloca, pelo carácter quase premonitório de um futuro governo liderado por fascistas, também alerta para os alçapões e fragilidades do sistema democrático que deram azo a que a desconfiança, o ressentimento e a raiva medrassem e dessem espaço ao discurso sedutor, simplista, manipulador e perigoso da extrema-direita.

 

27 de Fevereiro de 2026

 

 

 

 

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Silêncio na Casa do Barulho, Margarida Carpinteiro

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Silêncio na Casa do Barulho, Margarida Carpinteiro, 1986


Este é um daqueles livros “fininhos” que acabam às vezes por ficar espalmados no meio de outros mais volumosos e demasiado tempo esquecidos sem serem lidos. “Silêncio na Casa do Barulho” é o terceiro livro desta escritora, que é mais conhecida do público pelo seu trabalho como actriz de teatro e de televisão. Para mim, este é o primeiro livro que leio de Margarida Carpinteiro.


Lisboa do início dos anos 50 do século passado, pela referência ao enterro do general Óscar Carmona. A Lisboa operária, um bairro de gente pobre, de gente que trabalha. Sente-se que as pessoas são tristes; são felizes quando sonham (Licas e Sanefa). Para os mais pobres há a “sopa do Sidónio” cujo nome resistiu e se manteve durante o tempo de Salazar. As fábricas que se construíram – a dos Tabacos e a das Armas – atraíram à cidade homens, que até então nunca tinham calçado sapatos. Cheira a pobreza. As mulheres têm muitos filhos, trabalham sem descanso, fazem a comida, abortam, as bofetadas e os sopapos são a linguagem com os filhos quando fazem alguma coisa mal feita. Os miúdos fazem gazeta na escola e sabem que a fábrica é o castigo certo para quem não consegue ter sucesso na escola. “Pensas que és fina como a de cá de baixo?” (pág. 38) E quando o marido da Adelina Padeira é preso depois da greve na fábrica dos Tabacos, “as crianças compreenderam que as pessoas grandes também apanham quando não obedecem” (pág. 57).


Os casamentos e os funerais são os momentos sociais que quebram o cinzento dos dias, para além das histórias que se contam à soleira da porta nas noites quentes de Verão. A PIDE é uma ave negra poisada num carro preto. Como a PIDE, a Igreja também vigia e pune quando o rebanho se tresmalha. A farsa das eleições é montada e o cenário é feito de homens de escuro, tristes, que deitam “um papel branco e dobradinho dentro de uma caixa de madeira” (pág. 90). E “porque não estava lá nenhuma mulher?”… “ficaram a fazer o almoço.” (pág. 91).


Um livro muito bem escrito, muito visual, embora muitas vezes a autora faça uso de uma técnica narrativa não explícita que implica uma maior atenção e reflexão por parte do/a leitora/a. Além disso, é muito marcado pela oralidade; faltam as vírgulas que são dispensáveis.


Tenho de verificar se não terei mais nenhum livro “delgadinho” de Margarida Carpinteiro escondido no meio de dois livros de lombada gorda e anafada.


18 de Julho de 2023


 


 


 

segunda-feira, 11 de julho de 2022

A Força da Idade, Simone de Beauvoir

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A Força da Idade, Simone de Beauvoir, 1960

“A Força da Idade” é dos livros que herdei da minha irmã, talvez o mais importante. Ela tinha-me oferecido “Os Mandarins”, pediu-me que lho emprestasse para o ler e quase chegou ao fim do 2º volume naquelas férias fatídicas. Chegou a minha vez de ler este belíssimo exemplar de “A Força da Idade” editado pela Bertrand e descobri, ao longo da leitura, sublinhados que inevitavelmente me fazem reviver as suas preocupações, os seus interesses e os seus medos. Foi pois um livro cuja leitura me remeteu invariavelmente para ela e para as nossas vivências. Por isso, as palavras que vou escrever sobre este livro que Simone de Beauvoir dedicou a Jean Paul Sartre, dedico-as à memória da minha irmã Isabel.

Tinha lido “Memórias de uma Menina Bem Comportada” há muitos anos e lembro-me que foi durante muito tempo um livro muito vivo na minha memória, mas passados tantos anos, algumas das referências que Simone de Beauvoir faz no início do livro, naturalmente, pessoas importantes e marcantes na sua juventude, mas que entretanto deixei de identificar. “A Força da Idade”, para além de um livro autobiográfico em que a autora detalha momentos marcantes da sua juventude, como viveu pela primeira vez e de forma intensa a sensação de liberdade, é também um documento histórico valioso sobre o período que antecede a 2ª guerra mundial até ao momento da Libertação de Paris em Agosto de 1944.

No Prólogo, Simone de Beauvoir avisa: “Lancei-me numa aventura imprudente, quando comecei a falar de mim. Começa-se e nunca mais se acaba. “ (…) “No entanto, devo preveni-los que não pretendo dizer tudo” (…) “a minha vida foi estreitamente ligada à de Jean Paul Sartre; mas a sua história espera contá-la ele próprio e deixo-lhe essa tarefa.” E, em nota de rodapé: “Neste livro consenti em omitir; nunca em mentir. Mas é provável que a memória me tenha traído em pequenas coisas…”

O livro está dividido em duas grandes partes; a primeira vai de Setembro de 1929 ao Verão de 1938 e a segunda, desde esse Verão quando a ameaça da guerra era já muito presente até 25 de Agosto de 1944, quando os últimos ocupantes nazis abandonaram a cidade de Paris onde Simone de Beauvoir vivia.

Simone de Beauvoir tem 21 anos, vai viver para Paris onde dá umas aulas que lhe permitem a liberdade de ter um quarto seu. “Quando Sartre voltou a Paris, em meados de Outubro, começou verdadeiramente a minha nova vida” (pág.15). O dinheiro era pouco, liam, iam ao teatro, descobriam o cinema sonoro, discutiam as teorias de Sartre, tinham uma visão idílica sobre a paz, considerando a ascensão das ideias de Hitler “um epifenómeno sem gravidade” (pág.16). O seu ideal de vida era escrever e para este jovem casal “a liberdade era a nossa única regra” (pág.40). Viviam longe da realidade, no entanto, Beauvoir refere numa visita a uma pequena fábrica de tomadas para lâmpadas eléctricas que, ao ver a dureza, insalubridade das condições de trabalho e monotonia das tarefas, que o seu “primeiro encontro com o trabalho foi como um soco no estômago” (pág.53).

As caminhadas solitárias e a descoberta sistemática da região de Marselha, onde é colocada durante um ano, são um deslumbramento para Simone de Beauvoir. Segue-se Rouen, sem os encantos de Marselha, onde vai permanecer durante quatro anos, mas com a vantagem de estar mais próxima de Paris e de Sartre que dá aulas no Havre. Em Espanha, vencem as forças republicanas, mas na Alemanha as ideias de Hitler vão fazendo o seu caminho e na Itália os camisas negras estão cada vez mais presentes nas ruas. No entanto, apesar das perseguições aos judeus na Alemanha, os intelectuais nos quais Beauvoir e Sartre se incluíam encaravam isso com relativa serenidade e tinham uma visão distorcida sobre a situação política. Em finais de 1934, início de 1935 a situação económica deteriora-se, crescem os despedimentos e o desemprego. A xenofobia e as tendências nacionalistas de direita aprofundam-se. É interessante perceber a evolução no pensamento de Simone de Beauvoir que nessa altura só tinha interesse, ao nível da política externa, por o que se passava em Espanha em que as direitas estavam no poder, com a repressão selvática aos operários da Catalunha e das Astúrias. “Uma questão que nessa altura fazia correr muita tinta era o voto das mulheres; no momento das eleições municipais; Marie Vérone e Louise Weiss agitaram-se furiosamente; tinham razão; mas como eu era apolítica e não iria usar dos meus direitos, era-me absolutamente indiferente que nos reconhecessem ou não” (pág.183). O que a movia eram as questões da repressão que se fazia sentir, questiona-se sobre a pena de morte, mas do ponto de vista político a sua postura assim como a de Sartre era de meros espectadores (pág.186). A Frente Popular que introduzira grandes transformações sociais e melhoria na qualidade de vida dos operários franceses entra em declínio; os franquistas avançam em Espanha e Guernica é massacrada; a Grécia vive em ditadura e a pobreza do povo é indisfarçável. Só a URSS se mostrava desejosa de barrar o fascismo, mas “Nunca imagináramos a URSS como um paraíso, mas também nunca tínhamos posto seriamente em questão a construção socialista (…) Não haveria mais nenhum lugar no mundo onde se pudesse alojar a esperança?” (pág.245). As perseguições intensificam-se na Alemanha e a Europa vive uma onda de refugiados que se deslocam e que ninguém quer aceitar.

A Primavera de 1939 marca um ponto de viragem em Beauvoir, que faz um balanço dos seus últimos dez anos numa síntese que encerra a 1ª parte desta autobiografia. “Não é possível assinalar um dia, uma semana, nem mesmo um mês, para a conversão que então se deu em mim. Mas é certo que a Primavera de 1939 marca um corte na minha vida. Renunciei ao individualismo e ao anti-humanismo. Aprendi a solidariedade” (…) “É arbitrário cortar a vida aos bocados. No entanto, o ano de 1929, de que datam, ao mesmo tempo, o fim dos meus estudos, a minha emancipação económica, a saída da casa paterna, a ruptura das antigas amizades e o meu encontro com Sartre, abriu evidentemente para mim uma nova era. Em 1939, a minha existência mudou de uma maneira igualmente radical: a História apanhou-me para não mais me largar; por outro lado, dediquei-me a fundo para sempre à literatura. Encerrava-se uma época. Este período que acabo de contar fez-me passar da juventude à maturidade. Dominaram-me duas preocupações: viver e realizar a minha vocação ainda abstracta de escritor; isto é, encontrar o ponto de inserção da literatura na minha vida.” (pág. 302). “Todavia, ao fazer o balanço destes anos, parece-me que me deram muitíssimo: tantos livros, quadros e cidades, tantos rostos, tantas ideias, emoções e sentimentos! Nem tudo era falso.” (pág. 306)

No Verão de 1938, já com a ameaça iminente da guerra, ainda aproveita a natureza na Provença com Sartre, antes de regressar a Paris. A notícia da conclusão do pacto germano-soviético é o fim de toda e qualquer esperança. Os comboios sobrelotados, a mobilização e a angústia das pessoas são o sinal da viragem. No entanto, há ainda a crença de que a guerra não vai ser longa e que os fascismos vão ser liquidados e que a França e toda a Europa caminharão para o socialismo. É muito interessante o retrato que Beauvoir traça do estado de espírito das pessoas: inquietas, dando palpites, tentando adivinhar o futuro. Ela própria “sentia medo. Não receava por mim; nem por um instante pensei em fugir do País. Tinha receio por Sartre.” (…) ”E uma manhã a coisa aconteceu. Então, na minha solidão e angústia, comecei a escrever um diário. Parece-me mais vivo, mais exacto do que a narrativa que eu pudesse tirar dele.” (pág. 321) Vai então escrever um diário que começa a 1 de Setembro e vai até 14 de Julho do ano seguinte, com alguns períodos intermitentes, ou seja, todo o período em que está afastada de Sartre. Este diário é um retrato/documento vivo do quotidiano da França naquela época. A 1 de Setembro é declarada guerra à Polónia, Sartre é mobilizado para Nancy, as pessoas começam a comprar máscaras de gás, as rotinas alteram-se, os cafés fecham cedo e as boîtes não abrem. “O Flore está fechado. Sento-me na esplanada do Deux Magots e leio Journal, de Gide, de 1914; grande analogia com o momento presente” (pág. 326) Alguns dizem que esta guerra é uma brincadeira. “Durará muito tempo?”, pergunta Simone de Beauvoir. Num passeio pelos campos com Camille, “Voltamos através dos campos e aldeias. É um momento muito comovente e recordo-me do que Sartre me disse em Avinhão, e que é tão verdadeiro: que se pode viver numa grande doçura um presente rodeado de ameaças; não esqueço nada da guerra, da separação, da morte, do futuro bloqueado e no entanto nada pode apagar a ternura e a luminosidade da paisagem; como se fosse invadida por um sentimento que se basta a si próprio, que não pertence a nenhuma história, arrancado à sua própria história, de repente, completamente desinteressado.” (pág. 334). Na entrada de 25 de Outubro do diário, escreve Simone de Beauvoir: “Fernand diz que os jornais estão cheios de mentiras e que a guerra vai ser longa. Já não reajo a estas previsões. Trabalho no meu romance, dou aulas e vivo numa espécie de embrutecimento: nenhum futuro tem realidade.” (pág. 348)

Para se deslocarem, os franceses precisam de salvo-condutos, o que não é fácil de conseguir. As cartas que recebe de Sartre, em parte incerta, são abertas pela censura. Mais tarde, em código, ela consegue perceber que ele está na Alsácia. No PCF há demissões por desacordo com o pacto germano-soviético. Em Maio os alemães invadem a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo e a 4 de Junho a região de Paris é bombardeada. A vida muda radicalmente para Simone de Beauvoir que tem de ficar na cidade por causa da sua profissão. Sente-se enclausurada. Mas, com o avanço das tropas ocupantes, os professores são dispensados e os exames adiados. Paris é o caos, sem gasolina, sem comida para os franceses, mas os alemães pavoneiam-se e culpam os ingleses e os judeus pela situação de penúria que vivem os habitantes da cidade. É nessa altura que Simone de Beauvoir aprende a andar de bicicleta, o que lhe vai ser muito útil e para Sartre nas suas muitas deslocações. A repressão e o peso da ideologia nazi entram no quotidiano das pessoas. As notícias são escassas e deturpadas, alguns amigos começam a vacilar. Outros desaparecem.

Quando Sartre que estivera preso é libertado, quer seguir a política e cria um pequeno grupo – “Socialismo e Liberdade “ – à semelhança de muitos que existiam, que ajude à resistência aos ocupantes e colaboracionistas. O “trio” que Simone, Sartre e Olga constituíram antes da guerra, é agora alargado, como se fossem uma “família”. Partilham o pouco que têm, apoiam-se nas dificuldades que são cada vez maiores, a informação é escassa, os avanços das forças inglesas andam a par das execuções, das prisões e dos envios das pessoas para os campos de concentração, embora nessa altura ainda pouco se soubesse sobre os campos de concentração, as resistências organizam-se, mas há que estar atento aos delatores. Em contraponto ao ambiente hostil da ocupação e da guerra, à rudeza do frio e da fome, este grupo de intelectuais – Camus, Dullin, Picasso, Dora Marr, os Leiris, Éluard, Malraux … – fazia do Flore a sua casa e alimentava a sua amizade com a alegria de viver o momento e de aproveitar ao máximo o facto de estarem vivos. Tinham grandes projectos para o futuro e antecipavam o que fariam no pós-guerra. Sartre cria textos para peças de teatro, Simone trabalha no segundo romance e o seu reconhecimento como escritora surge quando finalmente “A Convidada”, o seu primeiro romance é editado e sobre ele são escritas críticas em jornais de referência. Simone de Beauvoir era finalmente reconhecida como escritora, ganha notoriedade e esse reconhecimento dá-lhe grande satisfação pessoal.

Como referi anteriormente, a parte final de “A Força da Idade” é o retrato dos dias que antecederam a vitória sobre o ocupante nazi e que foi sentida antecipadamente pela “família” que há tanto tempo a desejava. A Libertação não foi conseguida sem muito sofrimento e sem que o terror estivesse presente até ao fim. Simone de Beauvoir faz também aqui um balanço, uma reflexão sobre a guerra e o peso que ela irá transportar para a sua vida do pós-guerra e que não mais se apagará. Dos muitos amigos e amigas que vão surgindo ao longo das mais de quinhentas páginas, ela destaca o jovem Bourla cuja morte lhe é insuportável

 Para além da minúcia e detalhe usados ao longo de todo o livro na descrição das paisagens e percursos que fazem ela e Sartre em toda a França, mas também noutros países como a Espanha, a Itália ou a Grécia; Simone de Beauvoir como observadora de tudo o que a rodeia é exaustiva na caracterização daqueles que lhe estão mais próximos e, de forma muito particular, partilha nas suas memórias a importância da literatura na sua vida “a literatura tornou-se-me tão necessária como o ar que respirava” (pág. 509); as dúvidas e inseguranças em todo o processo criativo, os elementos usados na construção de “L’Invitée”, mas também de “Le Sang des Autres” e “Tous les Hommes sont Mortels”, o que acho de grande interesse para quem estudar estas três primeiras obras da autora, na medida em que estão intrinsecamente ligadas à sua vivência e às pessoas que fizeram parte dos seus relacionamentos mais íntimos.

Por fim e assumindo que muitíssimo mais poderia dizer sobre este livro, não posso deixar de aqui transcrever um parágrafo que surge na parte final do livro, que reflecte as preocupações desta professora, filósofa, feminista, fundamental para o pensamento do feminismo e das feministas. A propósito do seu círculo de amigos, intelectuais quase todos oriundos do surrealismo, escreve Beauvoir: “ Tirei ainda um outro proveito dessa intimidade. Conhecia poucas mulheres da minha idade e nenhuma que levasse uma vida clássica de casada; os problemas de Stépha, Camille, Louise Perron, Colette Audry e os meus eram, na minha opinião, individuais e não generalizados. Em muitos pontos, compreendera quanto, antes da guerra, pecara por abstracção: sabia agora que não era indiferente ser judeu ou ariano; mas não me tinha apercebido de que houvesse uma condição feminina. Subitamente, encontrei um grande número de mulheres que tinham ultrapassado os quarenta e que, através da diversidade das suas possibilidades e méritos, haviam tido uma experiência idêntica: tinham vivido como «seres relativos». Como eu escrevia, como a minha situação era diferente da delas, e também, penso eu, como sabia escutar, disseram-me muita coisa; comecei a dar conta das dificuldades, das aparentes facilidades, dos logros e dos obstáculos que a maioria das mulheres encontra pelo caminho; senti também que, naquela medida, eram simultaneamente diminuídas e enriquecidas. Não dava ainda muita importância a um assunto que só indirectamente me dizia respeito, mas a minha atenção foi despertada.” (pág. 481)

10 de Julho de 2022

Almerinda Bento

 

domingo, 6 de março de 2022

O Atalho dos Ninhos de Aranha, Italo Calvino

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O Atalho dos Ninhos de Aranha, Italo Calvino, 1947


Gosto sempre de ler um livro com um prefácio que me ajude a contextualizá-lo nas suas várias facetas. Em 1964 Italo Calvino fez um prefácio para o seu “O Atalho dos Ninhos de Aranha”de 1947. É um longo prefácio em que por várias vezes retoma a frase inicial “Este romance foi o primeiro que escrevi”. Escrito pouco depois da Libertação e da sua experiência como membro da Resistência à ocupação nazi, Calvino reflecte que o livro resulta da energia e da alegria do fim da guerra, da necessidade de verter para o papel a força da oralidade sem limites naquela época, de não querer pôr-se no papel de narrador que escreve as suas memórias de partigiano, pelo que decidiu que enfrentaria o tema “não de caras mas de esguelha. Devia ser tudo visto pelos olhos de uma criança, num ambiente de garotos e vagabundos. Inventei uma história que ficasse à margem da guerra de resistência, dos seus heroísmos e sacrifícios, mas que ao mesmo tempo nos transmitisse a sua cor, o sabor áspero, o ritmo…” Inconformista, avesso às directivas, cartilhas e imagens formatadas e normativas de conduta e militância, escolheu esse garoto – o pequeno Pin – antítese do herói socialista e do romantismo revolucionário, alguém que estilhaçasse os conceitos de herói e de consciência de classe.


O livro é dedicado a Kim – grande amigo e companheiro da Resistência de Italo Calvino – sendo que no capítulo IX a sua personalidade e características de dirigente político rigoroso e analítico são vertidas, dando um tom ideológico que corta, até certo ponto, o fio da narrativa em que Pin e os partigiani são os protagonistas. Pin é a criança que cresce de forma um tanto ou quanto selvagem, sem regras, sem amor, que mascara a sua solidão e desamparo com provocações aos mais velhos, a sua forma de entrar no mundo dos homens e de se sentir um deles. Ele quer ser acolhido pelos grandes, pelos homens da taberna, pelos partigiani, é coscuvilheiro, desvenda os segredos do bairro pobre, canta canções que os homens gostam de ouvir. Para os homens da taberna, Pin é importante porque é irmão da Morena do Beco Comprido. Para Lupo Rosso, Pin é importante porque tem uma arma, escondida num lugar único, mágico, que só ele conhece – o atalho dos ninhos de aranha – a sua única riqueza. Quando é confrontado com a possibilidade de desvendar onde fica esse atalho que leva à arma escondida, Pin hesita porque “o lugar dos ninhos de aranha é um grande segredo e é necessário que seja um verdadeiro amigo, em tudo e para tudo” (pág. 92)


Só há um homem de entre todos aqueles que olha para Pin como uma criança que precisa de carinho, ele também adulto carente. “Primo o grande, doce e cruel Primo” (pág. 211) é o único que “o leva pela mão, aquela grande mão, macia e quente como pão.” (pág. 226).


No prefácio, Italo Calvino escreve a certa altura “A Resistência representou a fusão entre paisagem e pessoas” (pág. 12) . Na minha memória, os bosques, os esconderijos, as casas abandonadas onde homens sujos se amontoam, o vale, os viveiros de cravos, os campos de rododendros, a preocupação dos homens ao encontro da coluna dos alemães: “É um dia azul como os outros, tão azul que quase faz medo, um dia com cantos de passarinhos que quase faz medo ouvir.” (pág. 189).


Um livro lindíssimo.


3 de Março de 2022


 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

"Se isto é um Homem"

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Hoje, no Dia Internacional da Memória das Vítimas do Holocausto, publico um texto que escrevi em 2013, após a leitura deste livro de Primo Levi.


“Se Isto é um Homem”, Primo Levi, 1958


Entre Dezembro de 1945 e Janeiro de 1947, Primo Levi escreveu o seu “Se isto é um Homem”. É o registo, a memória da sua experiência de recluso entre o dia 13 de Dezembro de 1943, então com 24 anos, altura em que foi capturado pela milícia fascista em Itália e depois deportado para Auschwitz onde conseguiu sobreviver até ao dia 27 de Janeiro de 1945, data da chegada das tropas russas ao campo de extermínio nazi.


É pois um registo na 1ª pessoa. Impressionante, brutal, este é o primeiro livro deste escritor italiano, químico de formação. Ao lê-lo, acho que qualquer apreciação que se faça é sempre uma leitura pessoal e limitada daquilo que foi mais relevante ou que mais nos impressionou. Muito haveria para dizer, farei apenas alguns registos, mas tal como Primo Levi sentiu necessidade de deixar para a posteridade uma experiência dramática e terrível da história da humanidade, para que não se esqueça, nem se apague da memória, considero que este é um livro de leitura obrigatória e inesquecível. Não há como lê-lo.


Logo no início, aquando da chegada ao campo de Auschwitz inicia-se o ritual paranóico das contagens, das esperas, da indignidade, do arbítrio, da desumanização. “Wieviel Stücke”? Quantas peças? Porque para os nazis “aquilo” não eram pessoas, homens, mulheres, crianças. Eram peças.


No meio do horror, do sem sentido da vida no campo – o Lager – do nunca se saber se no dia seguinte ainda se se está vivo, de os nazis tudo fazerem para que não haja uma réstia de humanidade entre aqueles cadáveres seminus que se arrastam e agonizam cheios de fome, frio, cansaço, Primo Levi realça alguns presos que se distinguiram porque conseguiram ser diferentes naquela massa humana sem poder, sem voz, cujo nome fora substituído por um número tatuado no braço. Alguns porque lutaram por preservar um mínimo de dignidade, nem que fosse o manter os hábitos de higiene, mesmo quando a água era gélida ou suja. A ausência de privacidade, a falta de espaço físico, o medo do desconhecido, o salve-se quem puder como forma de conseguir sobreviver, os negócios que se faziam para arranjar mais um pedaço de pão cinzento, os sonhos sempre iguais, as traições, as hierarquias mesmo entre os detidos, mas também as amizades inseparáveis (Alberto, Lorenzo, Arthur e Charles),


“… creio que devo justamente a Lorenzo o facto de estar vivo hoje; não tanto pela sua ajuda material, quanto por me ter constantemente lembrado com a sua presença, com a sua maneira tão linear e fácil de ser bom, que ainda existia um mundo justo para além do nosso, algo e alguém ainda puro e incontaminado, não corrupto e não selvagem, alheio ao ódio e ao medo; algo que mal se pode definir, uma remota possibilidade de bem, pela qual, porém, valia a pena conservar-se.


As personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrem. …


Mas Lorenzo era um homem; a sua humanidade era pura e incontaminada, estava fora deste mundo de negação. Graças a Lorenzo, aconteceu-me não esquecer que também eu era um homem.”


O livro é não apenas um registo verídico e desapaixonado duma situação extrema, mas é também uma reflexão sobre a condição humana e um legado que nos é deixado para que a humanidade não volte a repetir os mesmos erros. Entre muitas, realço uma reflexão que o autor faz sobre o diferente significado das palavras quando se é livre ou quando se está privado da liberdade, tais como Inverno, ou fome, ou dor, ou cansaço, ou frio.


O livro é todo ele muito impressionante, adensando-se para o final com as selecções sobre quem vai para o crematório, ou quando se percebe que as tropas soviéticas se estão a aproximar o que pode significar a libertação ou a solução final para todos os prisioneiros, os últimos dias com a debandada dos alemães do campo e os prisioneiros e doentes sem forças e sem recursos para poderem ainda serem resgatados com vida. Um dos últimos capítulos, inesquecível, em vésperas da chegada das tropas russas, é o daquele preso que condenado à forca por ter tentado sublevar-se, grita “Ich bin der Letzte!” (Eu sou o último), num acto de resistência, e o silêncio, o medo e também a vergonha de todos os prisioneiros obrigados a testemunhar a cena do enforcamento de um homem que ousou lutar.


Por fim, dizer quanto a leitura deste livro me lembrou outras leituras: “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago, ou “Os Anagramas de Varsóvia” de Richard Zimler ou “O Rapaz do Pijama às Riscas” de John Boyne.


Fundamental ler este livro!


Setembro de 2013


 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

A Cidade das Flores, Augusto Abelaira

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“A Cidade das Flores”, Augusto Abelaira, 1959


Quando se volta a ler um livro que se leu há mais de quatro décadas, percebemos se ele teve influência nessa altura das nossas vidas, se nos conseguimos identificar com o contexto ou com alguma das personagens, se, apesar da distância, permanece como objecto literário ou, se é de tal forma datado que não consegue despertar interesse para quem hoje o leia, sendo jovem como na altura eu era.


Em 1961, no posfácio à segunda edição de “A Cidade das Flores”, Augusto Abelaira faz uma reflexão e uma série de perguntas que considerei muito relevantes. Começa assim: “ A nova edição de um livro significa que esse livro não morreu”. E mais à frente: “Um livro que se reedita é um livro que se esgotou. Portanto: Quem o esgotou? Quem o leu? E porquê?” (…) “Porque leio eu um romance?” (…) “Independentemente de me ajudar a passar o tempo, a leitura dum romance multiplica em várias direcções a minha pobre vida quotidiana, permitindo-me sonhar.” (…) “Essas histórias… ajudam-me a sair de mim próprio e a descobrir o mundo.” (…) “Os romances preocupam-se com homens vulgares, mais próximos de mim, homens que vivem no meu modesto universo.” (…) “Acontece, porém, que, muitas vezes, buscamos num romance as nossas próprias vidas, as vidas confusas dos nossos irmãos, as nossas preocupações.” (…) “… creio que “A Cidade das Flores” documenta qualquer coisa, a reacção de certos homens a uma praga social – o fascismo; a reacção de certos homens a uma situação social adversa.” (…) “ Homens que não crêem no futuro, ou, melhor: homens que, acreditando no futuro, não têm coragem de viver no presente esse futuro.” (…) “… tenho esperança de que, dentro de cinquenta anos, “A Cidade das Flores” já não seja lida. Significará isso que os problemas deste romance já passaram à história e que os homens deram mais um passo no caminho da justiça social.” (…) “Desejaria que “A Cidade das Flores” fosse entendida como um livro de quem acredita no progresso, na justiça, na paz, na possibilidade real de os homens serem todos iguais.” (…) “E no entanto, nós, cidadãos deste ano da graça de 1961, sabemos que a História, apesar de tudo, não deu razão ao pessimismo de Fazio. Sabemos que o Hitler não dominou por mil anos. Sabemos que nenhum Hitler dominará por mil anos.”


“A Cidade das Flores” decorre na Itália de Mussolini. Os intervenientes são jovens que vivem em Florença, mais ou menos envolvidos na resistência ao fascismo em ascensão. Augusto Abelaira da geração de escritores da oposição a Salazar a escrever no período negro da censura, transpõe neste romance para o meio cultural, social e literário português dos anos 50 uma realidade paralela, usando personagens doutro país e doutro regime ditatorial com preocupações semelhantes e com ânsias de liberdade. Logo no início do romance, Fazio observa um casal de ingleses que tiram fotografias junto à estátua de David. Enquanto se sente escravo, prisioneiro, ele inveja aqueles turistas que para ele representam a liberdade. Fazio, Soldati, Domenico, Rosabianca, Renatta, Vianello e no outro extremo Briganti adepto das ideias de Mussolini. Nas suas conversas, nos seus encontros, os grandes temas que os preocupam. O que é resistir? O que é colaborar? Até onde se consegue resistir? O que é ser incorruptível? O que é ser honesto? Pode-se ser feliz, quando há alguém que está a sofrer, que está a ser torturado, que está preso? As ideias justas triunfarão? Quanto tempo dura o amor? O que é ser livre? É possível ser-se livre?


Achei admirável reler este livro, identificar personagens, diálogos, situações, dúvidas com pessoas, diálogos, situações e dúvidas pessoais e de pessoas que fizeram parte da minha vida e da minha juventude. Senti este romance como intemporal, moderno e actual. No entanto, ao contrário do desejo de Abelaira, de que 50 anos depois daquela 2ª edição do romance ele já não fosse lido, a verdade é que os problemas de que fala o romance não “passaram à história”. A história e o percurso da humanidade estão longe de alcançar a justiça social e os perigos que marcaram o século XX continuam activos e sempre à espera que a democracia baixe as suas bandeiras. Resistir é um imperativo.


12 de Fevereiro de 2021


Almerinda Bento

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

As Longas Noites de Caxias

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As Longas Noites de Caxias, Ana Cristina Silva, 2019


A cada novo livro de Ana Cristina Silva que leio, reforço a ideia que já anteriormente expressei de que “a autora revela a sua mestria em analisar e transmitir-nos estados de alma das personagens que cria”. Desta vez, partindo de factos verídicos, o foco é o que o medo faz às pessoas e até que ponto pode chegar a perversidade de uma pessoa para com outras. Para tal, evoca o instrumento que o Estado Novo utilizou para subjugar um povo – a PIDE –  analisando o uso do poder e do medo por parte dos torturadores e a capacidade de resistência por parte dos que eram presos pela PIDE.


A autora começa “As Longas Noites de Caxias” dedicando-o “A todos os resistentes antifascistas” e é clara a vontade, com este livro, de não deixar esquecer o que foi a polícia política de Salazar, num país e num mundo onde a democracia mostra sempre quão frágil e vulnerável é a todos os populismos e inimigos da liberdade e da democracia.


Antes, referi torturadores e torturados. Mas neste livro, as personagens são femininas, ou seja, torturadora e torturada. Laura Branco, a jovem natural de Mértola que, pelo seu excelente percurso escolar, consegue chegar à universidade graças à obtenção de bolsas de estudo e que acaba por ser presa. No Alentejo tinha convivido com crianças descalças, com crianças que iam para a escola com fome, com crianças que eram tratadas diferentemente consoante o seu estatuto social, mas em Lisboa, na faculdade, a compreensão dessa realidade ganhou outra dimensão no contacto com outros estudantes que falavam de discriminações, da sociedade de classes, da guerra colonial que abominavam, sempre com o risco da prisão ou de serem ouvidos por informadores, um pouco por todo o lado.


Maria Helena, tristemente conhecida por Leninha, é também apresentada, não apenas como a feroz chefe de brigada que se empenhava em torturar as presas nas longas noites de Caxias em que estava de turno durante a tortura do sono, mas que exibe um traço maléfico persistente de ódio à mãe vítima da brutalidade do marido que considerava uma mulher fraca, de maldade para com as colegas da escola e de arrogância e total falta de humanidade ou remorso quando, após o 25 de Abril, foi julgada e confrontada com as presas que tinha torturado. São inesquecíveis as páginas que relatam os métodos usados para com as detidas em Caxias, ou a descrição da forma bárbara como matou um gatinho que se lhe enrolou às pernas e a fez cair, num dia em que ainda menina ia para a escola. Esta mulher nunca mostrou o mais leve assomo de sensibilidade ou humanidade, excepto no seu amor à figura de Salazar e no conceito que tinha de amor à pátria. Tal como o beijo que Salazar lhe deu na testa quando criança a marcou para toda a vida, a morte do ditador foi como que o desabar do mundo e a convicção de que os métodos na tortura deviam ser intensificados, sobretudo nos estudantes que ela considerava inimigos da pátria.  


O livro tem muito interesse do ponto vista histórico e de testemunho do que era a polícia política, dos seus métodos, do medo que paralisava e tolhia um povo, mas também dos que resistiam e que acreditavam que a ditadura iria acabar. Maria Helena/Leninha foi uma figura sinistra e outros nomes de PIDEs temíveis são lembrados como Barbieri Cardoso, Tinoco ou outros. Os presos eram todos os que ousavam lutar contra a injustiça, a pobreza, a guerra, a ditadura, sendo neste caso focado o papel que o movimento estudantil teve no processo do derrube do regime fascista, com uma referência concreta ao assassinato do estudante Ribeiro dos Santos. Os informadores eram uma teia enorme e difusa e os torcionários eram maioritariamente homens, mas também houve mulheres, embora Leninha tenha sido a única mulher que conseguiu ascender a chefe de brigada, exactamente pela sua ambição de subir na hierarquia e pela ferocidade e brutalidade dos seus métodos. No fim do livro, doente, debilitada e sozinha, mas acompanhada pelo busto de Salazar na sala, ela confessa a uma colega da PIDE que a visita que aquele tempo em que torturou em Caxias tinha sido o período mais feliz da sua vida.


Agora que foi criada uma cadeira opcional no 12º ano – História, Culturas e Democracia – este “As Longas Noites de Caxias” poderia ser um excelente livro para constar da bibliografia a ser usada. Ou com toda a pertinência, fazer parte do Plano Nacional de Leitura.


10 de Outubro de 2019


Almerinda Bento

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A Noite Passada

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A Noite Passada, Alice Brito, 2018


A escrita de Alice Brito é única, inimitável, brota com uma autenticidade e naturalidade que nos transporta para os anteriores livros da sua autoria. Alice Brito domina o uso de um vocabulário rico, certeiro, onde o vernáculo não é poupado. De novo a cidade de Setúbal, o recurso aos objectos do dia-a-dia, os ambientes sonoros e visuais dos quotidianos cinzentos do salazarismo embalados e adocicados pelos folhetins. Personagens inesquecíveis. Mulheres subjugadas, submissas, que ainda não são sujeito, mas também mulheres fortes e que crescem quando descobrem a força que têm em si. O sexo que ou é virtude ou é “javardice”. As palavras que ainda não foram descobertas como “sexualidade”. Tanto, mas tanto que aqui podia referir.


Alice Brito faz-nos entrar no universo português dos anos 50, 60 e 70 em dois registos: através do romance propriamente dito e através dos comentários de Luís, Luísa e da filha Mafalda que por vezes medeia as conversas dos pais como se fosse um pombo-correio e, que à medida que a leitura avança, os questiona tentando perceber que papel eles tiveram ou não como protagonistas principais do livro que estão a ler e que estão a partilhar connosco, leitores.


A riqueza do relato das vidas das personagens e dos episódios que se sucedem advém do recurso a detalhes da época que pessoas mais velhas recordarão e que ajudam os mais novos a visualizar o que era então aquele Portugal fechado, atávico e amordaçado. Como comenta Gil, amigo de Luís e Luísa que os acompanha na leitura em primeira mão do romance, “As pequeníssimas minudências do dia-a-dia são os pormenores que dão vida ao quadro, que estão lá atrás, que dão perspectiva. Que ninguém diga que não interessam porque elas são o miolo da História. Sem elas nada fará sentido. Os grandes acontecimentos só são importantes quando se repercutem na vida dos povos. (…) A História não depende só de assinaturas de tratados notáveis. De batalhas heróicas ou consulados divinos. A História faz-se também de pequeníssimos factos por que a gente comum passou. Do dia-a-dia comezinho e sem glória.” Exemplos são muitos: a visita a Portugal da Rainha Isabel de Inglaterra, a morte de Cármen Miranda, os feitos do grande velocista Zatopek nos Jogos Olímpicos de Helsínquia, os folhetins radiofónicos seguidos religiosamente nas casas portuguesas, a chegada da televisão a preto e branco que se via no café, a campanha de Humberto Delgado e a repressão, a PIDE e a tortura. As mudanças sociais da década de 60 – os costumes, a música, a juventude – ao mesmo tempo que começa a guerra colonial que se vai arrastar até 74 e os episódios mediáticos e corajosos de resistência como foi o caso do Santa Maria ou o golpe de Beja. Num país onde as centenas de mortos das grandes inundações de 67 foram objecto de censura, onde a morte saiu à rua e ceifou José Dias Coelho ou Ribeiro dos Santos, programas como o Zip Zip eram o sinal de que a mudança estava a chegar. E ao mesmo tempo em que estes acontecimentos vão surgindo na narrativa, vamos conhecendo as personagens, as suas personalidades, as escolhas que fazem, as suas dúvidas e receios: Amélia, Joaquim, António, Elisabete, Bárbara, Lídia, o Rui Corninho e por fim o pide Amadeu Silveira (vulgo Português Martelão, no Brasil).


 


“Maravilha Maravilha


Venham ver o barco doido


Sem amarras que o segurem


Pela porta entra a maré


Venham ver o barco doido


Água cai pela chaminé.”


 


É com este poema de José Afonso que começa a segunda parte do romance. O cinzentismo salazarista e marcelista é substituído pelo alvoroço e alegria do 25 de Abril. A cidade de Setúbal vai vivê-lo intensamente. Os partidos existentes e os que se formam, as associações culturais, os cidadãos que se organizam, que lutam, que aspiram a uma vida decente, a política que se aprende dum dia para o outro, as discussões intensas, os vira-casacas, toda essa memória histórica nos é avivada.


Em “A Noite Passada” Alice Brito traz-nos a sua visão desse período particular vivido pela cidade de Setúbal e sente-se que ela também está lá neste seu terceiro romance de amor à liberdade, a Setúbal e de ódio visceral ao fascismo.


 


19 de Setembro de 2019


Almerinda Bento


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...