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domingo, 16 de novembro de 2025

O Quinto Filho, Doris Lessing

O Quinto Filho.jpg

“O Quinto Filho” – Doris Lessing, 1988 

Este é um livro perturbador, muito duro, que li de forma compulsiva. Já antes havia tido contacto com a escrita peculiar de Doris Lessing, da qual já lera três outros livros, mas este é, sem dúvida, o mais poderoso e mesmo inesquecível. O facto de deixar o final em aberto torna esta obra ainda mais interessante.

Embora o livro parta de um casal inglês conservador com um projecto de vida em torno de constituírem uma família numerosa, em que à pergunta “Querem ter muitos filhos? Quantos?” a resposta dos dois era invariavelmente “Muitos” “Muitos”, a verdade é que vai ser Harriet Lovatt, a mãe, quem vai assumir o papel central no destino de toda a família. A enorme casa vitoriana que adquirem, nos arredores de Londres, que mais se assemelha a um hotel, é também uma personagem central neste romance de Doris Lessing. É o local de encontro de toda a família nas festas de Natal e da Páscoa e nas férias de Verão. Aparentemente, tudo flui, aquela família feliz é um ímã e mesmo quando há algum azedume nas discussões e alguma crítica velada ou quando opiniões divergentes ocorrem, as nuvens escuras são passageiras e a vida continua sem sobressaltos. Quem diria que um dia Harriet quisesse “acabar de vez com aquela casa de infelicidade e com os pensamentos que a acompanhavam.” (pág. 151)

“O Quinto Filho” narra a situação do nascimento de um filho diferente, para daí analisar os comportamentos das pessoas, da família, das instituições, da comunidade relativamente ao que sai fora do expectável. Doris Lessing trata com maestria os mais variados sentimentos vividos por aquela família feliz, quando confrontada com aquele novo ser, o quinto filho tão diferente dos que o tinham antecedido:  surpresa, medo, culpabilização, crueldade, remorso, afastamento, apatia. “Condenação, crítica e incompreensão: Ben parecia causar estas emoções, fazê-las emergir nas pessoas, trazendo-as ao de cima…” (pág. 69) Focando na mulher, na mãe, não só o ónus da estranheza, como a culpa, deixando-a sozinha, completamente só. “Dirigiu-se para a porta e olhou para trás. Na cara da médica viu o que já esperava: um sombrio olhar fixo que reflectia o que a mulher estava a sentir, que era horror pelo desconhecido, rejeição normal daquilo que estava para além dos limites humanos. Horror por Harriet, que trouxera Ben ao mundo.”  (pág. 126)

Em anteriores livros de Doris Lessing que li, tal como aqui, a autora é crítica relativamente ao funcionamento das instituições do estado não poucas vezes insensíveis quando deveriam responder às necessidades dos seus cidadãos: pela forma fria e desumanizada como funcionam sem atender aos indivíduos nas suas especificidades, num sistema padronizado aparentemente “profissional” e “sem falhas” que é cego e desumanizado. O mal-estar social surge logo numa fase inicial da narrativa, no início dos anos 1970: “A cidadezinha onde viviam transformara-se durante os cinco anos que lá tinham morado. Incidentes brutais e crimes que outrora chocariam toda a gente eram agora lugar-comum. Havia bandos de jovens que frequentavam certos cafés e becos e que não tinham respeito por ninguém. A casa ao lado já fora assaltada três vezes; a dos Lovatt ainda não, talvez porque estava sempre lá gente. No fim da rua havia uma cabina telefónica que fora destruída tantas vezes que as autoridades tinham desistido: ficara ali sem préstimo. (…) Esses acontecimentos representavam uma separação horrível: cada vez mais parecia que a Inglaterra era habitada por dois povos em vez de um, dois povos inimigos, que se odiavam um ao outro, que não ouviam o que cada um dizia. Os Lovatt começaram a ler os jornais e a ver os noticiários da televisão, embora não tivessem vontade de fazer nem uma coisa nem outra. Pelo menos deviam saber o que se passava fora da sua fortaleza, do seu reino, no qual três preciosas crianças eram criadas e onde tantas pessoas iam para mergulharem em segurança, conforto, amabilidade.”  (pág. 27)

Este livro que pode ser lido literalmente, pode também ser encarado como uma fábula dos males da sociedade com muitas camadas e muitos pontos de análise e reflexão. Por outro lado é muito actual e até intemporal e a sequência dos acontecimentos é vertiginosa, daí que qualquer pessoa que o comece a ler tenha muita dificuldade de o poisar e interromper a leitura.

Um grande e poderoso livro.

25 de Outubro de 2025

 

domingo, 23 de junho de 2019

I'm a crazy Cat lady

o velho e o gato.jpg


Não consegui resistir a esta capa. Lá dentro uma história de amor entre um casal de velhos suecos e uma gata. Gata e não gato. Um livro de capa dura, com folhas com uma textura agradável ao tacto, desenhos deliciosos de Ane Gustavsson, uma leitura rápida e na qual, quem tem um gato, se revê.


Um dia, sem ser planeado nem desejado, uma gata instala-se na vida deste casal, habituado a viajar e a usufruir de uma reforma confortável. Como se costuma dizer, não foram eles que a escolheram, foi a gata que os escolheu a eles, que os adoptou. De forma subreptícia, impôs-se. Como era possível continuar a deixar aquele pobre gatinho a dormir no cesto das ferramentas no barracão do jardim naquele Inverno tão rigoroso e gélido? Teria fome? De quem seria?


Começa-se a dar ração e água e daí a pouco ela vai-se aproximando até que se empoleira na janela e aparece mal os proprietários da casa e do barracão abrem a janela ou a porta da entrada... Depois é a primeira ida ao veterinário, saber se é gato ou gata, a castração, as mudanças na vida do casal e na casa com a presença da gata, a abertura de uma gateira como solução sobretudo quando as ausências são mais prolongadas, as brincadeiras, a companhia, os hábitos de caçar ratos e de os trazer para casa... A tristeza e a sensação de perda, na primeira vez que ela desaparece, a habituação às rotinas e à personalidade da gata.


O autor e dono da gata é psiquiatra e tenta perceber o que "pensa" a sua gata, como reage e por que reage de certa maneira e,  sabendo que a lógica dos humanos não consegue chegar ao insondável dos felinos domésticos, acaba por se habituar a aceitar as subtilezas e imprevisibilidades de que é feita a vida da sua gata. Nas suas reflexões não deixa de referir autores apaixonados por gatos e a quem dedicaram livros e/ou poemas, como por exemplo Doris Lessing ou T. S. Eliot.


Chama-lhe Bichana, outras vezes Marota ou Dorminhoca e, a propósito do nome que se deve dar a um gato, lembra o poema de T.S.Eliot que refere que um gato deve ter 3 nomes: o primeiro deverá ser aquele por que é chamado habitualmente, o segundo deverá ser um nome único, especial, que mais nenhum gato tenha e que faça jus ao seu orgulho de gato e o terceiro será um nome secreto que só o próprio gato conhece e que nunca nenhum humano alguma vez conseguirá descobrir!


O poema "The naming of Cats" da autoria de T.S.Eliot é delicioso


The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn’t just one of your holiday games;
You may think at first I’m as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there’s the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo, or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey —
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter —
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that’s particular,
A name that’s peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkstrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum —
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there’s still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover —
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.


I am.jpg


A minha paixão por gatos é tardia e comecei a preparar a perspectiva de um gato na família, quando me reformasse. Tal como a perspectiva de que mais tempo para a leitura só seria possível quando me reformasse. E estes dois objectivos estão mesmo ligados. Andava a ler "Gatos e mais Gatos" de Doris Lessing quando a minha amiga Esmeralda me propôs a adopção de um gatinho que veio de Almada para viver connosco. De seu nome Gaspar. Sem segundo nome. Se tem um terceiro nome, nunca saberemos, porque ele nunca o confessará!


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"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...