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terça-feira, 24 de junho de 2025

Filho da Pide, Paulo Jorge Pereira

 


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“Filho da Pide” – Paulo Jorge Pereira, 2023


Ao ler este livro, não pude deixar de recordar outras leituras e outras personagens: “As Longas Noites de Caxias” de Ana Cristina Silva e a tenebrosa Leninha; João Balseiro e tantos mortos pela Pide como Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, a quem José Saramago dedica o seu “Levantado do Chão”. E claro, Aurora Rodrigues, a grande mulher que sofreu e resistiu mais tempo à tortura do sono às mãos da única Pide que subiu a chefe de brigada Madalena Oliveira, uma mulher impiedosa, sádica e sem pingo de humanidade.


A obra é prefaciada pelo professor Luís Farinha, que ressalta que “passado meio século sobre a queda dos fascismos, foi então possível começar a compreender os fenómenos ocultos (ou silenciados) do consentimento coletivo ou mesmo da colaboração de vastos grupos sociais ou instituições que, de forma conivente, ajudaram e permitiram manter uma violência irrestrita das polícias políticas sobre os seus compatriotas resistentes.” (pág. 6). Logo a abrir o livro, o autor faz um aviso relativamente ao facto de que se trata de uma obra de ficção e dedica-a a todas as pessoas que lutaram contra a ditadura em Portugal.


Agora, que vivemos, cinquenta anos após Abril, o momento mais perigoso da nossa história recente em que as forças revanchistas e de extrema direita se sentem à vontade para atacar os mais vulneráveis, a leitura deste livro é muito actual e até premonitória, pois avisa para os perigos daqueles que nunca estiveram a dormir. “Voltaremos, nós não desistimos” (pág. 101) diz, a certa altura, o inspector da PIDE ao neto. Também na epígrafe ao livro, na citação de Chico Buarque no discurso de aceitação do Prémio Camões 2019 “A ameaça fascista persiste no Brasil como um pouco por toda a parte” o tema do risco do fascismo que está sempre à espreita, nos alerta para o perigo constante dos saudosistas do passado. Cá os temos, umas vezes vêm “em pezinhos de lã” outras “com botas cardadas”.


A figura central é Carlos, o narrador, em busca de descobrir o seu passado, a sua origem. Ao longo do romance surgem várias personagens, em tempos e lugares distintos; algumas, aparentemente desligadas, mas que convergem para a criação de uma história, de uma época, de um enquadramento. A personagem de Filomena é o retrato de como se cria e cresce um(a) fascista. O amor a Salazar e o ódio aos comunistas precisou de toda uma estrutura que alimentou o ódio, que criou o medo e a desconfiança, que viveu da impunidade e da brutalidade. Lisboa, por muito soalheira que seja, não pode ignorar as sombras que se escondem encostadas a uma esquina, ou atrás de uma porta a escutar o que se passa na casa dos vizinhos. Lisboa brilhou em Abril, mas a justiça foi branda e tolerante e até concedeu pensões a torcionários enquanto a negou ao principal herói da revolução.  Lisboa quis pôr os traços da ditadura para baixo do tapete, modernizou-se, chamou turistas, gentrificou-se, apagou a sede da António Maria Cardoso e transformou-a num condomínio de luxo… Mas afinal é possível um povo, um país libertar-se da carga duma ditadura de 48 anos? “Não sei, filho. Vou vendo as notícias e sigo de longe o que se passa em Portugal, mas há muita coisa que me preocupa... Continua a haver aquele estilo mesquinho de gente que dá graxa ao patrão para ser promovida… Depois, há os que estão sempre à espreita da vida dos outros para poderem contar qualquer coisa que prejudique o parceiro do lado, mesmo que seja mentira. Esses são do mesmo estilo que eram os bufos de outros tempos…” (pág. 232)


Este romance parte da necessidade de “contar aquelas histórias”, para que não se percam na falta de memória, pois há sempre quem esteja “à espera de uma oportunidade para que o mal volte a ganhar poder” (pág. 238). Termino fazendo referência ao documentário “Aqueles Que Ficaram (Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem) de Marianela Valverde e Humberto Candeias, testemunhos de familiares de presos políticos e de opositores que viveram na clandestinidade. Documentos cuja divulgação se afigura cada vez mais urgente.


16 de Junho de 2025


 


 


 


 


 


 


 

sábado, 31 de maio de 2025

Anónimos de Abril - Volume I

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“Anónimos de Abril” – Vol. 1, José Fialho Gouveia, Rogério Charraz, Joana Alegre, 2005


Este é o primeiro volume de um projecto que começou em Janeiro do ano passado com o espectáculo Anónimo de Abril em Lisboa, no Tivoli. O livro reúne histórias de doze mulheres e homens que lutaram pela liberdade, que estiveram entre aqueles muitos milhares que exultaram na rua com a revolução, mas de quem a História não fala.


Transcrevo a dedicatória a abrir o livro


“À Celeste,


à Aurora,


ao Alberto,


à Herculana,


ao Luíz, à Albina,


à Branca,


ao Fernando,


ao João, ao José, ao Fernando,


ao Francisco


e a todos aqueles que, de forma mais ou menos anónima, ousaram lutar contra um regime que durante quarenta e oito anos intimidou, espancou, prendeu, torturou e matou.”


São histórias de vidas simples, de luta, contadas pelas próprias ou pelos seus filhos/as ou netos, quando os pais ou avós já não estão vivos, ou a partir de registos em jornais da época numa pesquisa que, segundo os seus autores, “tem ainda muito caminho para percorrer”. No final de cada uma das histórias uma canção que pode ser ouvida e seguida através de um QR Code.


É um tributo singelo, mas muito bonito a pessoas a quem devemos a enorme gratidão pelo seu gesto, pelo seu heroísmo, pelo seu exemplo.


Celeste Caeiro a quem ficamos a dever o simbolismo dos cravos associados à revolução de Abril e que ainda teve a felicidade de descer a Avenida da Liberdade nos 50 anos do 25 de Abril.


Aurora Rodrigues que aprendeu na sua experiência na prisão da ditadura que “O medo foi sempre a grande arma da repressão. Todavia, há alturas na vida em que não se pode recuar. Essa era a altura. Tinha de vencer o medo.” (p. 25)


O padre Alberto Neto assassinado em 1987, tendo o  seu homicídio nunca sido esclarecido, “Tinha Deus por companheiro/ O Senhor como aliado/ E rezando foi guerreiro/ Contra a guerra e contra o Estado”. (p. 57)


O casal Herculana e Luíz Carvalho, os únicos familiares de um preso político no Tarrafal a visitarem o filho. Mas a sua acção e solidariedade tiveram um alcance muito para além do amor de pais, alargando-se a todos os presos que no Tarrafal estavam com o filho Guilherme.


Albina Fernandes, mulher dedicada ao ideal do partido, foi mãe de Daniela e de Rui Pato. O relato de sofrimento que foi a vida desta mulher e que é contado através dos filhos neste “Anónimos de Abril” é bem o retrato da brutalidade que foi a repressão perpetrada pela ditadura a quem se opunha ao regime. No documentário “Aqueles que Ficaram (Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem)” da autoria de Marianela Valverde e Humberto Candeias, com testemunhos de familiares – mulheres e crianças – de presos políticos e militantes na clandestinidade, temos a perspectiva daqueles que se viram privados do contacto com os maridos e pais e dos traumas daí decorrentes.


Branca Carvalho, uma jovem que viveu praticamente um ano na clandestinidade e que, através de um relato em forma de carta ao filho, lhe explica as privações e imensas dificuldades que acarretava o facto de se abandonar tudo – família, amigos, trabalho – sem saber por quanto tempo, “As vidas que escolhêramos não tinham prazo de validade” (p. 101) Uma das questões que ela realça tem a ver com um aspecto que foi muito silenciado e que ela aborda: a marginalização ainda maior por que passavam as mulheres na clandestinidade, passando por mulheres do “casal”, numa posição de subalternidade - “sentia-me reduzida a tarefas domésticas, (,,,) “Cedo percebi que o Partido aproveitava mal as capacidades de trabalho das “suas” mulheres revolucionárias. Uma atitude algo machista disfarçada e dissimulada em razões de segurança, notaria, com amargura, muitos anos depois.” (p. 100)


Costuma-se dizer que o 25 de Abril foi uma revolução sem sangue, mas a verdade é que no final desse dia, quando Marcelo Caetano já se tinha rendido, a partir da sede da PIDE na António Maria Cardoso, uma rajada assassina acabou com a vida de 4 homens que se juntavam na alegria da vitória sobre a ditadura. São os Mortos de Abril como lhe chamam os autores do livro: Fernando Giesteira, José Barneto. João Arruda e Fernando Reis. “Só houve quatro mortos no 25 de Abril e a justiça foi branda com os elementos da PIDE. Ainda assim, o caminho para chegar à Liberdade interrompeu muitas vidas. Além dos que morreram às mãos da polícia política, convém não esquecer os mais de cem mil mortos na Guerra Colonial. O vermelho dos cravos de Abril também foi feito de sangue”. (p. 136)


O livro termina com um depoimento sobre Francisco de Sousa Mendes, um dos jovens militares que constituiu a coluna militar liderada por Salgueiro Maia que na madrugada do 25 de Abril partiu da Escola Prática de Cavalaria a caminho de Lisboa. Francisco é neto de Aristides de Sousa Mendes, que na sua qualidade de diplomata e desobedecendo às ordens de Salazar, salvou milhares de judeus ao conceder-lhes vistos que lhes permitiram fugir de uma morte certa.


Aguardemos pela continuação deste projecto de memória, agora que, como nunca antes, a memória da ditadura é tão importante para que não se caia de novo noutra.


5 de Maio de 2025

domingo, 8 de outubro de 2023

Levantado do Chão, José Saramago

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Levantado do Chão”, José Saramago, 1980


Este foi dos primeiros livros que li de José Saramago, há bastantes anos e numa altura em que não costumava fazer pequenos textos sobre as minhas leituras. Agora, que estou em vésperas de participar no Roteiro “Levantado do Chão” promovido pela Fundação José Saramago senti necessidade de reler esta obra que, na altura, me provocou uma grande emoção, não só pela forma como o Alentejo é retratado, mas também pelas semelhanças da família Mau-Tempo com a família do meu marido.


Lê-se este livro e é impossível ficar-se indiferente à mestria no manejo da língua, à riqueza vocabular e à análise social e das classes, com o foco no Alentejo ao longo do século passado. Na contracapa da edição (13ª) que tenho, pode ler-se “Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi de poder dizer deste livro, quando o terminasse: «Isto é o Alentejo»”.


A família Mau-Tempo é a protagonista maior. Várias gerações desde Domingos e Sara da Conceição até Maria Adelaide, sem esquecer o avô João Mau-Tempo que viveu a tortura da estátua e o isolamento em Caxias. Todos de olho azul. Da monarquia passou-se à República mas sem mudanças para a vida do povo, até que chegou o 25 de Abril e a Reforma Agrária. A paisagem é o Alentejo, a ceifa das searas, o tirar a cortiça, o trabalho nos arrozais, ou na vinha. Os homens e as mulheres que só dispõem da sua força de trabalho, sujeitos ao poder assente em 3 pilares: o latifúndio (Lamberto, Norberto…) a igreja (o padre Agamedes) e a guarda (sargento Armamento, inspector Paveia…). A luta contra as máquinas, pelos trinta e três escudos, por trabalho, pela jornada das oito horas e quarenta escudos de salário. A luta pela dignidade, contra a fome e prepotência. O povo, as formigas, a canzoada, quando não é tratada como carneirada. E também os milhanos que do céu tudo observam e que, como as formigas, são as testemunhas de tudo o que acontece no latifúndio.


Luta é resistência e sendo este “um livro sobre o Alentejo”, a epígrafe de “Levantado do Chão” dedica-o “À memória de Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, assassinados.” Germano Santos Vidigal “o homem que caiu e foi levantado irá morrer sem dizer uma palavra que seja.”(p. 169)… “Que pálido está este homem, nem parece o mesmo, a cara inchada, os lábios rebentados, e os olhos, coitados dos olhos, nem se vêem entre os papos, tão diferente de quando chegou…” (p. 173) “Está morto José Adelino dos Santos, apanhou com uma bala na cabeça e primeiro nem acreditou, sacudiu a cabeça como se lhe tivesse mordido um bicho, mas depois compreendeu, Ah malandros que me mataram , e caiu de costas, desamparado, não tinha ali a mulher que o ajudasse, fez-lhe o sangue uma almofada vermelha, muito obrigada.” (p. 314).


A narrativa é densa, o narrador escreve, divaga, reflecte, antecipa acontecimentos futuros, dialoga com o leitor, não poupa nas palavras, ironiza. Como escreve na pág. 310 “São exageros no narrador”. “Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.” (p. 59). “Não foi a conversa por diante, nem já interessava, porquanto pôde o narrador dizer quanto queria, é o seu privilégio…” (p. 279). E vai-nos contando o que se passa lá fora e que vai chegando ao Alentejo: a República, a guerra, o atentado a Salazar, a emigração para a França, o general Delgado e a fraude eleitoral, a fuga de Peniche, o Santa Maria, a índia e o fim do império, a guerra colonial, o assalto ao quartel de Beja e finalmente o 25 de Abril e o primeiro 1º de Maio. Para o povo o trabalho quando o havia, duríssimo e mal pago, a resistência, organização e luta. No terreno, os capatazes e a guarda asseguram que o poder do latifúndio e da ditadura não são beliscados. “O feitor é o chicote que mete na ordem a canzoada. É um cão escolhido entre os cães para morder os cães.” … “uma espécie de mula humana, uma aberração, um judas, o que traiu os seus semelhantes a troco de mais poder e de algum pão de sobra.” (p.72).


A escrita de Saramago não esquece o mau viver das mulheres, o come e cala, “De mulheres nem vale a pena falar, tão constante é o seu fado de parideiras e animais de carga.” (p.125), mas os tempos mudam e elas também querem lutar ao lado dos seus companheiros “Gracinda Mau-Tempo também quis vir, já não há quem segure as mulheres, isto pensam os mais velhos e antigos, mas não dizem nada…” (p.310).


Muito mais e melhor se poderá dizer e escrever sobre este romance extraordinário, uma verdadeira lição de história, de resistência duríssima contra um poder ditatorial em que o Latifúndio, a Igreja e o Governo estavam de braço dado, mas contra o qual o povo lutou para se levantar do chão.


 


8 de Outubro de 2023


(25 anos depois do dia em que foi anunciado o prémio Nobel da Literatura de 1998 atribuído a José Saramago)


 


Almerinda Bento  

domingo, 2 de janeiro de 2022

As Boas Intenções, Augusto Abelaira

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As Boas Intenções”, Augusto Abelaira, 1963


 


Este foi o penúltimo livro que li em 2021 e o segundo de Abelaira que leio este ano, depois de “A Cidade das Flores”. Quer “As Boas Intenções” quer “Sem Tecto entre Ruínas” que irei ler no início deste novo ano foram herdados da minha irmã, os quais aguardavam a sua vez há alguns anos.


“As Boas Intenções” foi escrito em 1963 e a sua acção decorre num período revolucionário, na transição entre a monarquia e a república, no início do século XX. O valor deste livro é acrescido com um posfácio escrito por Abelaira em Janeiro de 1978, que é o prefácio à 3ª edição, ou seja, quatro anos depois do 25 de Abril, “num dia de excessivo pessimismo, em plena crise governamental”. Em 1963, quando Abelaira escrevera “As Boas Intenções”, vivia-se um período de desalento, após o fracasso das ilusões suscitadas pela candidatura de Humberto Delgado e posteriormente a frustração que foi o golpe de Beja. O desalento do autor era o desalento dum povo sem esperança face a um ditador que parecia imortal. A literatura, aquele livro era uma espécie de “exorcismo”, “uma tentativa de interferir na História recorrendo a palavras mágicas”. “Só um milagre, portanto” podia deitar abaixo o regime de Salazar que parecia eterno. “Agora” (Janeiro de 1978), “que o nosso país caiu na mediocridade sem esperança, a literatura terá talvez de novo o seu papel. A magia ainda que disfarçada, digo.” Céptico em relação à possibilidade de sucesso de todas as revoluções e também da revolução de Abril, Abelaira considera “ingénuo” o seu texto, quase “um acto de superstição”, quando de novo confere à literatura o papel de enganar a História, de fazer magia, como se de um exorcismo se tratasse.


Como anteriormente referi, “As Boas Intenções” decorre no período pré-implantação da República, marcado por conspirações. Se há a crença de que o derrube da monarquia trará uma vida melhor ao povo, que os que apoiarem a República serão recompensados (com uma casa), os protagonistas mostram-se pessimistas: “As revoluções fazem-se com mentiras”. “A República não vai modificar a sorte destes homens. Para que servirá então? Para substituir clientelas?”pergunta Brenda a Vasco que lhe responde “Para entreabrir a porta por onde hão-de entrar os homens de boa vontade. Os das revoluções a sério” (pág. 234).


Maria Brenda, filha de Alexandre a Maria Carlota, envolvida no movimento conspirativo, debate com outros protagonistas a perspectiva que cada um tem sobre a revolução, sobre a mudança, sobre o presente e o futuro, sobre a realização pessoal versus satisfação do colectivo: “Sim, haverá uma revolução quando cada um de nós estiver disposto a fazê-la, só há revoluções quando somos nós que as fazemos.” A incerteza de que a revolução será vitoriosa é a falta de crença nos homens e nas ideias, a convicção de que “não há homens justos.”


O livro é um mosaico de momentos, de diálogos a acontecer entre diferentes protagonistas – Brenda e Vítor, Alexandre e Maria Carlota – que, embora distintos, têm traços comuns, são um continuum. Os anos passam, mas afinal as coisas não mudam, tudo se repete.


Lembrando a revolução de Abril e o que foi o movimento dos capitães que derrubou a ditadura em 1974, o último parágrafo de “As Boas Intenções” é extraordinariamente premonitório e refere-se à queda do regime monárquico a 5 de Outubro de 1910, com a entrada dos revoltosos no quartel de prevenção há várias noites: “Horas depois, com uma facilidade que tantos anos de sofrimento e de lutas não deixariam prever, quase sem resistência, meia dúzia de tiros ou pouco mais, o regime caía. Definitivamente?” (pág. 255)


Um livro que dá que pensar. Um mestre da literatura, atento, pessimista, para quem escrever foi uma forma de agir.


 


26 de Dezembro de 2021


 


 

sábado, 10 de abril de 2021

A Casa dos Espíritos, Isabel Allende, 1982

Hoje não consegui deixar de publicar este texto que escrevi há oito anos. Uma situação inesquecível que me traz à memória Mouriscas e a minha irmã Isabel. Mal imaginava que a minha irmã partiria poucos dias depois. Escrevi-o lá, estávamos nas férias da Páscoa, o tempo era de chuva e cinzento e não nos dava grandes oportunidades de sair. Tinha acabado de ler "A Casa dos Espíritos" ela andava a ler "O Segundo Sexo". Pediu-me que lhe lesse o que escrevera e comoveu-a recordar uma leitura que já tinha feito há anos pois a fizera lembrar alguns trechos e personagens do livro. 


Aqui vai o que escrevi então, sobre este maravilhoso livro de Isabel Allende.


“A Casa dos Espíritos”, Isabel Allende, 1982


Este é o primeiro romance de Isabel Allende. Primeiro, grande e magistral romance de Isabel Allende e da literatura da América Latina.


É o primeiro de uma trilogia, embora cronologicamente verse sobre a vida da última geração dos del Valle. Como é típico de Isabel Allende, as personagens são únicas, mágicas e inesquecíveis. Partindo do casal Severo del Valle e Nivea que já conhecíamos de “Retrato a Sépia”, a história da família vai-se-nos desvendando ao longo dos cinquenta anos em que as personagens se movem. As filhas Rosa, a bela e Clara, a clarividente. Clara terá uma filha, Blanca e dois gémeos Nicolau e Jaime, totalmente diferentes e com posicionamentos e personalidades até conflituantes. Outras personagens invulgares surgem na narrativa e vão também ter implicação no seu desenrolar como Pedro Tercero Garcia, Amanda, Miguel, Jean de Satigny, Esteban Garcia, Férula, as três irmãs Mora, Tránsito Soto.


Esteban Trueba figura truculenta, contraditória, brutal, frágil, carrasco e vítima surge como um dos narradores dos acontecimentos e acompanha o desenrolar da acção desde o início até final. Noivo de Rosa, acaba por não conseguir casar com ela devido à morte inesperada da belíssima jovem. Irá casar com Clara, irmã de Rosa, figura com poderes especiais, que consegue fazer mover objectos, muitas vezes alheada do que a rodeia, mas também presente e actuante em momentos dramáticos e que, para além da sua ligação aos espíritos, tem o hábito de escrever nos seus “cadernos de anotar a vida”. Estes cadernos, salvos miraculosamente do fogo, vão ser preciosos e fundamentais como material de trabalho de Alba, neta de Esteban Trueba e de Clara. Alba irá fazer a reconstituição da história desde o bisavô Severo e a bisavó Nívea até à actualidade, ou seja, desde os anos 20 do século passado até ao período imediatamente a seguir ao derrube do Presidente Allende, isto é, a época do terror do general Pinochet. Alba é pois a narradora do livro tal como Esteban Trueba, sendo que é através dos olhos de ambos que este livro da memória nos é aberto.


Também as casas, os espaços onde as personagens se movem são mágicos e neste romance elas são também verdadeiras personagens com períodos de crescimento, apogeu, declínio e morte. Las Tres Marias, a casa do campo, primeiro, um monte de ervas e de casebres habitados por seres a viver em condições infra-humanas transformada numa casa senhorial, arrasada pelo terramoto, de novo erguida com o esforço dos camponeses e trabalhadores sem direitos, depois ocupada no tempo da reforma agrária e novamente incendiada e despojada dos que sempre nela trabalharam. A Casa da Esquina, a casa da cidade, refúgio de Clara depois que decidiu abandonar definitivamente a sua relação matrimonial com Esteban Trueba na sequência da cena de violência de que foi vítima. Aí, para além de manter as suas relações com os espíritos, de acolher as suas amigas e de ir acrescentando espaços, divisões e esconderijos tão úteis futuramente e tão necessários à realização pessoal e social de quantos lá viviam, esta casa tornou-se um verdadeiro labirinto.


Este é um livro que dificilmente se esquece e em que ao(a) leitor(a) é dada a oportunidade de ler/ver cenas e situações de grande realismo e crueza. Desde a cena de violência e brutalidade em que Esteban bate na mulher até a deixar inanimada e sem vários dentes, à indecisão e ao conflito interior de Amanda em lidar com a necessidade de fazer um aborto e a sensibilidade de Jaime na resposta ao problema e vulnerabilidade da jovem namorada do seu irmão Nicolau, até às descrições de puro sadismo dos esbirros e carrascos do regime dos generais.


O livro tem outro aspecto muito interessante que é o de ir dando sinais e pistas para acontecimentos posteriores, assim aguçando o interesse de quem lê e desvendando traços e situações que as previsões já haviam anunciado.


Não posso deixar de mencionar as referências ao Poeta ao longo de todo o livro. Nunca o seu nome é referido, embora desde sempre se saiba que este livro também é um tributo a ele, o poeta Pablo Neruda, cujo falecimento ocorreu poucos dias depois do golpe militar e cujo funeral acompanhado por tão poucas pessoas e vigiado por soldados armados de metralhadoras, aparece aqui como o primeiro grito de resistência do povo à tirania. Antes do primeiro capítulo, Isabel Allende escolhe uma estrofe de Neruda para iniciar o seu romance:


“Quanto vive o homem, por fim?


Vive mil anos ou um só?


Vive uma semana ou vários séculos?


Por quanto tempo morre o homem?


Que quer dizer para sempre?”


 


Os últimos capítulos que se passam no período negro da ditadura são motivo para Isabel Allende nos falar da censura, das palavras proibidas como democracia, companheiro, sindicatos, do encerramento da Faculdade de Filosofia e de “muitas outras que abrem as portas do pensamento…” E também da surpresa que é o confronto com o medo que tolhe as pessoas e as leva a fazer actos insuspeitados, desde a maior maldade à mais genuína solidariedade e coragem.


São muitos os aspectos que podiam ser aqui trazidos, tão fértil em ideias e reflexões é esta “Casa dos Espíritos”, mas neste momento em que vivemos numa Europa e num país em profunda crise e instabilidade e em que se quer assacar as culpas a quem não as tem, trago aqui os temas da justiça e da caridade que por duas vezes são abordados no livro.


“ – Isto serve para nos tranquilizar a consciência, minha filha – explicava a Blanca. – Mas não ajuda os pobres. Eles não necessitam de caridade mas sim de justiça.”


(…)


 


“Alba compreendeu que tinham retrocedido aos tempos antigos, quando a avó Clara ia ao Bairro da Misericórdia substituir a justiça com a caridade. Só que agora a caridade era mal vista.”


Certamente o facto de ser sobrinha de Salvador Allende e de ter vivido no Chile à época do golpe militar não é alheio à intenção que levou Isabel Allende a escrever este romance e a tratar o tema do terror, da impunidade, da barbárie, da ausência de liberdades e direitos vividos pelo povo chileno naquela época. Ela quis registar a memória para que não se esqueça o que é a ditadura, para que não se repitam os mesmos erros! Este é pois um livro da memória.


Almerinda Bento


Mouriscas, 21 de Março de 2013


 

domingo, 20 de dezembro de 2020

#19 As Irmãs Mirabal

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#19 As Irmãs Mirabal

Em 1999, quando li “No Tempo das Borboletas” de Julia Alvarez (Bertrand Editora) estava longe de saber que a história das irmãs Mirabal mortas a 25 de Novembro de 1960 estava na origem do dia que assinala aquilo que é a segunda causa de morte em todo o mundo. Pátria, Minerva e Maria Teresa Mirabal assim se chamavam as três jovens activistas dominicanas na luta contra a ditadura de Trujillo. Os seus corpos foram encontrados junto ao seu jipe no fundo de uma escarpa de 45 metros de altura na costa norte da República Dominicana, em resultado de um atentado a mando da ditadura, mas oficialmente, a imprensa afecta ao regime noticiou o facto como um acidente.

 As irmãs Mirabal eram conhecidas como Las Mariposas – as Borboletas – e mesmo apesar da falsidade que envolveu a sua morte, elas e a sua luta não foram esquecidas e em 1981, durante o I Encontro Feminista da América Latina e do Caribe, realizado em Bogotá, na Colômbia, o dia 25 de Novembro foi designado como Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, em homenagem a elas.

 Em Março de 1999 a ONU reconheceu a data que passou a ser comemorada em todo o mundo como Dia Internacional pela Eliminação da Violência sobre a Mulher.

Nesta colagem com Las Mariposas, utilizei recortes de um jornal português de 2010 em que as 43 mulheres assassinadas nesse ano não mais são um número, anónimas, mas sim nomeadas. Este ano, até ao dia em que fiz a colagem, 30 mulheres, em Portugal, tinham sido assassinadas. Eram mulheres com filhos e filhas e em alguns destes casos, as crianças estavam presentes quando o crime foi cometido. Estas mulheres deixaram 21 crianças órfãs.

Quem quer descobrir a vacina contra esta pandemia?

 

 

 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

# 10 As Três Marias

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#10 As Três Marias


A 23 de Maio morria Maria Velho da Costa, uma das três Marias.


Singulares, únicas, mas indissociáveis nas “Novas Cartas Portuguesas”. A PIDE e Salazar nunca conseguiram descobrir quem escreveu o quê. Um pacto de silêncio, uma escrita a seis mãos que exasperou/exaspera os ditadores, os conservadores, os castradores. Uma escrita de mulheres, de liberdade, que ajudou este país a quebrar as duras correntes do conservadorismo, denunciando a situação das mulheres, a guerra colonial, a violência, a emigração e o atraso em que vivíamos antes do 25 de Abril.


Maria De Lourdes Pintasilgo, num artigo de opinião na revista Visão, por ocasião do 8 de Março, chamou a este livro “O livro esquecido”. “Além de uma obra literária invulgar, as Novas Cartas Portuguesas foram um acontecimento único.”


Maria Isabel Barreno faleceu em 2016. Maria Velho da Costa morreu este ano, em pleno Maio confinado. Para além de Maria Teresa Horta ainda viva e que continua a surpreender-nos com a sua poesia e com a sua escrita marcadamente feminista, a obra das Três Marias é um marco de resistência e de liberdade num país atrasado e oprimido.


 


 


 

sábado, 5 de dezembro de 2020

#5 Catarina Eufémia

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#5 Catarina Eufémia


Catarina, a ceifeira assassinada. A ditadura não permitia gente que lhe levantasse a voz, que lhe gritasse por Pão, por Democracia, por Justiça, por Dignidade. Os latifundiários não tinham de se preocupar com os assalariados famélicos ao seu serviço. A polícia, a PIDE, a GNR e a Legião eram o garante de que a ordem seria respeitada.


A ceifeira assassinada. Num dia 19 de Maio de 1954. Tinha 26 anos. Mãe de três filhos e com um quarto a caminho, foi assassinada porque ousou reivindicar um aumento da jorna. Afinal ela só queria Trabalho e Pão.


A minha escolha na minha estreia a trabalhar em tela com acrílico foi a simplicidade. Catarina Eufémia, um cravo vermelho, um vestido de flores e o poema “A Morte saiu à Rua” de José Afonso.


Uma alentejana para outra alentejana.


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...