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segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Fahrenheit 451, Ray Bradbury

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“Fahrenheit 451”, Ray Bradbury, 1953


Vi o filme “Fahrenheit 451” duas ou três vezes. Como será o livro? Tão impressionante como foi o filme quando o vi? Estas algumas das perguntas que formulei mal comecei a leitura. Esta edição, com um prefácio de Jaime Nogueira Pinto, abre com um “AVISO: Se tem a sorte de estar a ler Fahrenheit 451 pela primeira vez e ainda não viu o filme, deixe este prefácio para o fim.” Não era o meu caso! Por isso comecei pelo prefácio, onde JNP escreve sobre a importância das leituras na sua vida, para além da valorização desta obra em particular. Anotei algumas frases significativas, entre elas “Esta destruição dos livros é semelhante a um Apocalipse” (p. 14) ou “Os livros são perigosos e levam a pensar e a julgar criticamente”(p. 15).


O livro, com a tradução de Casimiro da Piedade, começa assim: “Era um prazer pôr fogo às coisas” (p. 23). Fahrenheit 451 passa-se num tempo em que “ninguém tem tempo para os outros” (p. 46), onde é fundamental as pessoas não terem tempo para pensar, em que é proibido conduzir devagar ou mesmo andar a pé pela rua, onde quem faz perguntas é considerado anti-social, onde as pessoas não se apercebem de coisas tão simples como a relva ou o orvalho, onde as crianças são um enfado, em que não há memória e nem existe a ideia de felicidade. Aliás, o mundo está em guerra, mas as pessoas estão de tal forma alheadas, que isso lhes é indiferente. As casas são à prova de fogo, têm as paredes revestidas com grandes ecrãs com personagens consideradas “família” e onde não há livros. Se os há, eles serão queimados. Para isso existem os bombeiros, para queimar livros, que ardem à temperatura de 451 graus Fahrenheit.


Guy Montag, bombeiro há dez anos, é um dia confrontado com uma pergunta que Clarisse, a jovem vizinha, lhe faz: “Alguma vez leu os livros que queimou?” (p. 28). Dias mais tarde, numa acção em casa de uma senhora denunciada por ser possuidora de livros, impressiona-o a senhora não querer deixar os livros e imolar-se com eles.


Clarisse percebera que Montag era recuperável, que não era como os outros. Com efeito, sempre que há tirania, há resistência e um dia o bombeiro que queimava livros irá juntar-se a outros homens que tiveram de fugir para sobreviver. Nesta sociedade distópica em que os sentimentos não existem, os focos de resistência são “acampamentos móveis”, pessoas que guardaram livros nas suas cabeças “aonde ninguém consegue aceder facilmente. Somos todos bocados e pedaços de história, literatura e direito internacional” (p. 194). “Vagabundos por fora, bibliotecas por dentro” (p. 195).


Quais fénix renascidas, num mundo arrasado pela guerra, o papel daqueles homens era poder ajudar alguém com a “carga” que transportavam. E usar o tempo que tinham. “Para tudo há um momento. Sim. Tempo para destruir e tempo para edificar. Sim. Tempo para calar e tempo para falar. Sim, tudo isso. Mas que mais? Que mais? “ (p. 208)


Gosto de livros que nos interrogam, que nos fazem reflectir e este, estando o autor longe de imaginar o peso das redes sociais na formação do pensamento, na difusão de (in)verdades nos dias de hoje, é profundamente actual. Não sei se fará parte da lista do Plano Nacional de Leitura, mas seria bom que fizesse, pois reflecte uma preocupação de Ray Bradbury na época (anos 50 do século passado) sobre “o modo como a televisão estava a destruir “o nosso interesse pela leitura e pela literatura e a transformar as pessoas em imbecis” (It is about people being turned into morons by TV”) (p. 15).


1 de Outubro de 2024

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Por este Mundo Acima, Patrícia Reis

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Por este Mundo Acima, Patrícia Reis, 2011


Este foi o último livro que li em 2021, terminado exactamente no último dia do ano, mas sobre o qual só agora tenho oportunidade de escrever. Foi com este livro, um fechar de ano em beleza. Um livro extraordinário, o segundo que leio de Patrícia Reis e a certeza de que é uma autora cuja obra quero continuar a descobrir.


O que é viver, como é viver, depois de um desastre nunca antes visto, um acontecimento que dizima grande parte da humanidade, que nunca é revelado o que é, mas que ao longo do livro é designado por “o acidente”? Há o antes e o depois do “acidente”. Eduardo, o narrador, é um editor, arrogante, com a obsessão de fazer listas a propósito de tudo e de nada. Sobrevivente do “acidente”, procura na sua cidade – uma zona bem caracterizada de Lisboa – os amigos de sempre: Sofia, Lourenço e Jaime. Não os vai encontrar, mas vai descobrir segredos que o vão ajudar a compreender Sofia, a “menina-desastre”, a “rapariga-tesoura” afinal e tão-somente uma mulher só. Eduardo sente-se remetido à animalidade, o computador não serve para nada, as pilhagens aos bens que ainda restam são constantes, a cidade está totalmente destruída e irreconhecível. Sem amigos, sem futuro, desesperado, com saudades da música, como é possível sobreviver? Recorda-se da frase de uma escritora que lhe tinha dito que “em situações limite, somos apenas animais”. Ele é um sobrevivente que perdeu os amigos, que lamenta o que lhes poderia ter dito e que não disse e essa ideia de perda definitiva é-lhe insuportável.


Só a amizade poderá restituir-lhe o sentido da vida. “A amizade é a mais transformadora das forças humanas” (pág. 131) foi a convicção mais forte que tivera quando fora ao hospital ver o amigo Lourenço que tentara o suicídio. Este livro é com efeito “uma celebração da amizade” como a autora escreveu na mensagem que autografou no meu exemplar. Agora, depois d’“o acidente” vai ser uma criança que Eduardo encontra a dormir – Pedro – e um manuscrito que ele rejeitara e nunca publicara que lhe vão restituir a vontade de viver.


“Já te contei que encontrei uma criança? Diz coisas espantosas. Não sei como será agora. Tenho um manuscrito e uma criança.


Nunca me senti tão próximo da ideia de felicidade.” (pág. 142)


 


É preciso transmitir a vida, passar o testemunho, ensinar àquela criança tudo o que sabe, trazer de volta uma ideia de humanidade, abolir a palavra “tristeza” do vocabulário. A biblioteca da avó que ele vai reconstituindo, o clube de leitores que se vai criando, a memória, assim vai ganhando expressão um renascer das cinzas duma sociedade e duma humanidade devastadas. Ao ler este “Por este Mundo Acima” de Patrícia Reis não pude deixar de recordar “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, a força daquela comunidade que resistia, guardando a memória dos livros em que cada pessoa era um livro vivo.


5 de Fevereiro de 2022


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...