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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Pequenas Coisas como Estas, Claire Keegan

 

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“Pequenas Coisas como Estas” – Claire Keegan, 2021

Este é um pequeno livro que retrata uma realidade aterradora, algo que acontecia apenas há três décadas. Por várias vezes, ao longo das linhas que ia lendo, imaginava que estava na Irlanda do início do século passado, ou mesmo antes, mas não, a história passa-se em 1985. Na nota no final do livro esclarece-se que “Este livro é uma obra de ficção que não se baseou em nenhuma personagem real.”

Há anos vi um filme muito impressionante sobre um caso relacionado com a igreja católica na Irlanda e a sua conivência na ocultação da tortura infligida num convento para onde eram enviadas jovens mulheres grávidas que os pais repudiavam. Não me lembro do nome do filme, mas o tema é o mesmo: as chamadas lavandarias de Madalena – Magdalene laundries – instituições dirigidas por freiras católicas, que recebiam mães solteiras, mulheres violadas ou “caídas em desgraça”; estas instituições existiram entre o século XVIII e final do século XX, forçando-as a trabalhos muito penosos, muitas vezes em lavandarias, em péssimas condições de trabalho, sujeitas a todos os abusos e exploração, verdadeiro trabalho escravo com perda total de liberdade. Na referida nota no final do livro lê-se que “a última lavandaria de Madalena só foi encerrada em 1996. Não se sabe quantas raparigas e mulheres foram escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nestas instituições. Dez mil é a estimativa mais moderada; trinta mil seria provavelmente um número mais exato.” E o “Relatório da Comissão de Investigação dos Lares para Mães Solteiras concluiu que nove mil crianças morreram em apenas dezoito das instituições investigadas. Em 2014, a historiadora Catherine Corless divulgou a sua descoberta chocante de que 796 bebés morreram entre 1925 e 1961 no lar de Tuam, no condado de Galway” (pág. 83)

Aparentemente, naquela localidade onde Bill Furlong vive com Eileen e as cinco filhas, tudo corre bem. Vivem-se os preparativos do Natal, a natureza gelada é típica da região e da época natalícia e Furlong afadiga-se em entregar as encomendas de lenha e carvão nas casas de New Ross e no convento local. A região é pobre, o desemprego e a emigração são duras realidades e o álcool é companhia para dissipar o dia-a-dia de muitos homens, já sem falar não haver “falta de mentes desocupadas, nem de mexericos.” (pág. 36) “As irmãs do Bom Pastor tinham a seu cargo o convento, onde funcionava uma escola de formação para raparigas, que aí recebiam uma educação básica. Também geriam uma lavandaria. Pouco se sabia sobre o reformatório, mas a lavandaria tinha uma boa reputação: restaurantes e pensões, o lar e o hospital e todos os padres e casas abastadas mandavam lavar a sua roupa no convento. Dizia-se que tudo o que era enviado, fosse um monte de roupa de cama ou apenas uma dúzia de lenços, regressava como novo”. “Também havia comentários de outro género sobre o lugar.” (…) “… era toda uma indústria que tinham ali” (pág. 36).

Furlong tinha mais em que pensar. Para além do trabalho que nunca abrandava, a sua preocupação era a educação das filhas “Imaginava as filhas a crescerem mais e a terem de enfrentar aquele mundo de homens” (pág. 19). Marcado pelo estigma de nunca ter conhecido o pai e de a palavra “Desconhecido” vir à frente do sítio onde o nome do pai deveria aparecer, tivera, no entanto, a felicidade de a Sra. Wilson o ter acolhido e à mãe sob a sua protecção. Nunca aos trinta e nove anos de idade, Bill pensaria em confrontar-se com uma situação que o remetesse para o seu passado e para os silêncios, indiferença e hipocrisia de uma comunidade controlada pela Igreja. Este livro confronta-nos com a nossa humanidade, com a nossa capacidade de sair da nossa zona de conforto para carregar com um mundo de problemas que tantas vezes evitamos enfrentar.

“Pequenas Coisas como Estas” de Claire Keegan foi finalista do Booker Prize 2022 e vencedor do Prémio Orwell na Categoria de Ficção Política. Mesmo sem estes importantes prémios, um livro precioso.

6 de Dezembro de 2025

 

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Atos Humanos, Han Kang

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Atos Humanos. Han Kang, 2017


Este livro é sobre uma revolta, que começou por ser uma revolta estudantil, mas que juntou trabalhadores, sobretudo operárias, e que se estendeu por 10 dias. Entre 18 e 27 de Maio de 1980, ocorreu em Gwangju um massacre perpetrado pelo exército sul coreano duma ferocidade e desumanidade extremas, a mando do general Chun Doohwan. Gwangju é uma cidade do sul, por sinal a cidade onde Han Kang nasceu a qual teria 9 anos quando o massacre aconteceu. Na altura, a autora lembra-se que os adultos, quando estavam perto dela ou dos primos, costumavam baixar a voz para falar do acontecimento, como se as crianças fossem espiões. Mais tarde, decidiu que era sua obrigação desenterrar um acontecimento que a ditadura tentou abafar e silenciar e que ficou por muitos anos escondido do mundo. A investigação obsessiva que fez ao longo de meses fê-la mergulhar no horror que matou e torturou um número nunca apurado de pessoas, para além das que ficaram com sequelas para a vida. Só em 1997, o massacre teve pela primeira vez a honra de um memorial.


É um livro duríssimo. Escrito de uma forma tão palpável, que por vezes é preciso parar a leitura, ir apanhar ar e respirar fundo. Ouvem-se os gritos, as palavras de ordem, sente-se o cheiro, quase que se sente a dor e depois o silêncio da morte. Constituído por seis capítulos e por um epílogo, os narradores vão surgindo e contando a história que viveram nesse tempo em que imperava a lei marcial e em que as liberdades individuais foram suprimidas. São vários os e as protagonistas, mas a personagem central é, em minha opinião, o rapaz – Dong-ho – o primeiro narrador. Estudante do liceu, Dong-ho acompanhava o amigo que foi baleado, presenciou o massacre, o ataque a pessoas indefesas sem qualquer ligação à revolta e decidiu que o seu lugar devia ser no ginásio a ordenar e lavar os corpos dos mortos, para poderem ser identificados pelas famílias. Apesar dos avisos dos colegas mais velhos e do pedido da mãe para que regressasse a casa, quando se sabia que o exército ia voltar e que ninguém sairia vivo do ginásio, ele ficou e foi martirizado apesar de se ter rendido. “Os miúdos desta fotografia não estão deitados ao lado uns dos outros por os seus corpos terem sido alinhados assim depois de mortos. É porque iam a andar em fila. Iam a andar em linha reta, com os dois braços no ar, exatamente como nós lhes tínhamos dito para fazer” (pág. 145).


E o que resta para quem sobreviveu? “Há memórias que nunca saram. Em vez de se esbaterem com a passagem do tempo, essas recordações tornam-se a única coisa que sobra quando tudo o resto se corrói” (pág. 145). Sentimentos de vergonha, de culpa, alcoolismo, suicídios, doença mental, os sonos cheios de pesadelos, sequelas “iguais às que sofriam as vítimas de envenenamento radioativo” (pág. 217). “Ser a última sobrevivente teria sido a coisa mais assustadora que poderia acontecer-lhe” (pág. 97) são palavras de Eun-sook. Uma das raparigas da equipa que trabalhou no ginásio a lavar os cadáveres e que nos aparece no capítulo intitulado “A Revisora” é também uma das protagonistas que exige armas, para que as mulheres não fiquem atrás das milícias civis constituídas por homens. Apesar do desequilíbrio de forças, o sentimento que reinava era o de resistir até ao fim mesmo sabendo que era a morte o que os/as esperava. Não tinham medo, como afirma Jin-su, o narrador do capítulo “O Prisioneiro”, chefe da milícia e estudante na universidade para ser professor primário “… eu sentia uma coisa qualquer a correr-me nas veias, uma coisa tão avassaladora como qualquer exército. Consciência. Consciência, a coisa mais assustadora que existe no mundo.” (pág. 125).


O último capítulo “A mãe do rapaz” é profundamente pungente e poético. Passaram 30 anos depois do massacre e o relato da mãe de Dong-ho é o relato das mães e dos pais daquelas crianças e daqueles jovens que morreram ou daqueles cujos corpos nunca foram encontrados. Vivem/sobrevivem das memórias. Resistem. Continuam a resistir e a viver com a culpa.   


Este é daqueles livros que dificilmente se esquecem. Aquela tragédia não é caso único ou isolado, infelizmente. Nem é coisa do passado. Vivemos actualmente tempos de guerra e extrema violência. A ausência de humanidade (o que quer que ”humanidade” signifique!), o uso das torturas mais brutais ou sofisticadas para arrancar depoimentos falsos continuam a existir hoje e a brutalidade são-nos servidos diariamente pelos media, numa banalização e normalização confrangedoras. A certa altura Jin-su pergunta-se/-nos: “Serão os seres humanos fundamentalmente cruéis? Será a experiência da crueldade a única coisa que partilhamos enquanto espécie? (…) Aconteceu em Gwangju, tal como aconteceu na ilha de Jeju, em Kwantung e em Nanjing, na Bósnia e em todo o continente americano quando ainda era conhecido por Novo Mundo, com uma brutalidade tão uniforme que parece estar impressa no nosso código genético.” (págs. 145 e 146)


Um livro duro, mas indispensável.


25 de Novembro de 2024


 

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

O mundo é um campo de batalha...

 


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"O mundo é um campo de batalha onde as flores esperam pelo seu tempo de brilhar e pelo seu tempo de serem arrancadas. As mãos dos homens igualmente esperam, enredam-se, desesperam e brilham."


Julieta Monginho in «Um Muro no Meio do Caminho"


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...