Mostrar mensagens com a etiqueta escolhas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escolhas. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Os Despojos do Dia

Os Despojos do Dia.jpg


Recordando um livro maravilhoso que li há 4 anos.


Os Despojos do Dia, Kazuo Ishiguro,1989


 


“Os Despojos do Dia”, mais conhecido pela versão cinematográfica interpretada pelo grande Anthony Hopkins e pela grande Emma Thompson, é o primeiro livro que li do escritor britânico Kazuo Ishiguro, autor premiado com o Prémio Nobel da Literatura em 2017. Embora tenha adjectivado os dois actores como grandes, por os conhecer de grandes desempenhos e interpretações em vários filmes, no entanto, não vi este filme e apenas repito apreciações positivas de amigos e amigas que os viram a desempenhar os papéisde Mr. Stevens e de Miss Kenton, uma antiga governanta da casa onde o primeiro era mordomo.


Mr. Stevens, o narrador, é o mordomo de uma casa senhorial e responsável pelo pessoal. O actual patrão – Mr. Farraday – faz-lhe uma proposta, para ele impensável e irrealista, de lhe emprestar o seu Ford e aproveitar para percorrer o país, enquanto ele estiver ausente nos Estados Unidos para tratar de assuntos pessoais. A ideia fica-lhe a magicar e acaba por aceitá-la, percebendo-se desde o princípio que o seu destino será a região de Devon/Cornualha, local para onde foi viver Miss Kenton há vinte anos quando se casou.


O narrador dirige-se ao leitor/a conduzindo-o/a na narrativa. Escolhe fazer essa viagem seguindo os caminhos secundários e não as estradas principais o que lhe permite fazer paragens e encontrar pessoas invulgares e paisagens únicas,mas, sobretudo, aquela é uma viagem interior, uma reflexão pelas memórias da vida, da sua profissão e das escolhas que fez. Quando uma vida é exclusivamente pautada por conceitos como lealdade, serviço, sentido do dever, dignidade ou honra, em que nunca se fez escolhas próprias porque se depositou a vida e o destino nas mãos de alguém (neste caso um patrão) e em que os sentimentos e as emoções são reprimidos, apagados ou secundarizados, possivelmente ficar-se-á cego e impossibilitado de seguir outro caminho. Com efeito, ele nunca consegue cortar com o passado e a reflexão que faz sobre o antigo patrão – Lord Darlington – “os seus esforços foram errados, ou mesmo tolos”, ou que a sua vida e trabalho foram “um lamentável desperdício”, Mr. Stevens não consegue fazê-la para si próprio.


Percebe-se que Mr. Stevens quer reencontrar Miss Kenton, actualmente Mrs. Benn por casamento, remediar algo do passado que ficou por encerrar, mas toda a subtileza da escrita e a consistência da personagem e da sua personalidade permitem-nos antever o desfecho daquela viagem.


“Os Despojos do Dia” é um livro maravilhoso. Algumas descrições fizeram-me lembrar “Contos Sublimes” de Hermann Hesse ou“As Velas ardem até ao Fim” de Sándor Márai. Gostei da forma como as personagens – sobretudo o mordomo Stevens – nos são apresentadas com grande subtileza, como a narrativa está repleta de nuances, nos vai desvendando pormenores decisivos e há uma espécie de filtro que faz desta obra um romance de grande qualidade. Grande trabalho de Fernanda Pinto Rodrigues, tradutora falecida em 2013, com uma vida dedicada à tradução de grandes nomes da literatura anglo-saxónica e que foi galardoada em 1995 com o Grande Prémio de Tradução.


18 de Janeiro de 2018

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Três Verões, Julia Glass

Três Verões.jpg



Publico aqui o que escrevi há 8 anos, sobre uma das minhas leituras desse Verão de 2013

 

“Três Verões”, Julia Glass, 2002



O que nos faz gostar de um livro? O que nos faz lê-lo até ao fim?

Várias são as respostas possíveis, para mim neste caso, a escrita fluente, a proximidade e a pertinência de certas situações, a mestria da autora em manter o/a leitor/a ligado/a, mas também as referências às cidades ou locais onde a acção se passa, a presença da natureza, a riqueza e complexidade das diversas personagens deste livro com cerca de cinco centenas de páginas.

Os temas da morte, da “última morada”, da homossexualidade, da eutanásia, dos primeiros anos do surgimento da sida, da fertilidade ou da sua ausência, da inseminação artificial, o dar a vida e também o dar a morte, a solidariedade, a gravidez desejada e o aborto surgem ao longo do romance e colocam às personagens e ao/à leitor/a perplexidades, dúvidas e a necessidade de fazer escolhas. Foi tudo isto que me fez ficar ligada a este livro que uma amiga me havia emprestado há já algum tempo.

A acção desenvolve-se ao longo de três períodos diferentes, nos meses de Junho de 1989, 1995 e 1999. Na primeira parte, Paul McLeod na condição de recém-viúvo, parte numa excursão até à Grécia e às suas famosas ilhas. Mas é sobretudo através dele e das suas memórias, enquanto narrador, que entramos na sua vida na Escócia, casado com uma mulher independente, criadora e treinadora de cães pastores (collies) e pai de três rapazes. Mas a Grécia e sobretudo a ilha de Naxos fascinaram-no de tal modo que passou a ser local de posteriores viagens de férias, tendo acabado por aí falecer num desses verões.

O reencontro dos três filhos – Fenno e os gémeos David e Dennis - na Escócia, na segunda parte do livro, por ocasião da morte e funeral do pai, desvenda as personalidades das personagens e das famílias que entretanto se constituíram e é o ponto de partida para o enredo do livro. Fenno, o mais velho, há anos a residir em Nova York, homossexual, é o narrador e também a personagem central e mais marcante em todo o livro, a quem são colocados os desafios mais difíceis, desde ajudar o seu amigo Mal a morrer, até ser dador de esperma que permita a gravidez da mulher do seu irmão David.

Embora a estrutura do romance seja feita de cenas e capítulos que decorrem em momentos diferentes, em que somos levados a andar para a frente e para trás no tempo, a leitura é um puzzle que encaixa na perfeição. Para além dos temas tão actuais a que me referi anteriormente, a autora consegue transmitir-nos o seu amor pela natureza e ao nomear as flores das paisagens da Escócia – peónias, dedaleiras, íris, lilases, rosas, alfazema, gardénias, jacintos – é toda uma sinfonia de cheiros, de perfumes, de cores, um convite à leitura deste livro com todos os sentidos. Quase no final, o remate perfeito com a referência a “A Pastoral” de Beethoven.

Termino com a indicação de que este livro foi o vencedor do National Book Award.

11 Agosto 2013

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...