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domingo, 5 de março de 2023

Misericórdia, Lídia Jorge

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Misericórdia, Lídia Jorge, 2022


Este é um livro que emociona, que comove profundamente, que nos expõe como humanidade, um daqueles livros sobre que tenho dificuldade e até pudor em escrever, talvez usando pinças para não estragar nada. Comovente, por vezes irónico, crítico, nada piegas. Um hino à dignidade, à resistência, à força de vontade para continuar a viver. Um livro maravilhoso e impossível de esquecer.


Maria Alberta Nunes Amado é uma dos setenta residentes no Hotel Paraíso, onde é conhecida por Dona Alberti. Os seus problemas de mobilidade são ultrapassados por diferentes cuidadoras que a transportam no interior da residência, a lavam e vestem, a enfeitam com o colar e os brincos, a acordam, lhe dão os bons dias, a deitam, a esquecem, lhe fazem a higiene sem a ouvir, sem a ver ou lhe responder, lhe fazem as confidências mais íntimas, lhe cantam, lhe afagam as mãos. Tem um gravador Olympus Note Corder DP-20 para onde dita impressões dos dias, das noites, das visitas, do que gosta e não gosta naquela que não é a sua casa, lugar de exílio, e desenha palavras com um pequeno lápis Viarco, usando a mão esquerda e a sua capacidade de extrair dos dias o que sobressai da rotina da instituição que transforma os utentes em peças iguais e sem identidade. Sente saudades das flores que amava no jardim da que foi a sua casa e guarda na bolsa que traz ao peito aquilo que ainda lhe confere algum poder, pertença e intimidade. Pode ser atormentada durante a noite pelo esquecimento do nome de uma capital de um atlas que conhece tão bem, mas resiste a essa entidade que tem vida própria – a noite – que não lhe dá descanso, trazendo-lhe memórias.


O Hotel Paraíso é feito de muitos mundos. Desde a Doutora Noronha que havia sido a estagiária Anita, o senhor Paiva sempre a querer fugir, a Dona Joaninha eternamente apaixonada e que não queria morrer sem saber ler, Lilimunde do Pará com quem Dona Alberti tanto se identifica, a cheirar a bergamota, sobrevivente das máfias da imigração e a viver o seu primeiro amor, o sargento João Almeida que trouxe do exterior um sopro de vida, o senhor Tó alguém que nunca se quis render, Salomé, a “sólida máquina Bosch”, Ali, o marroquino “strong” e “jolie” que acreditou que aqui em Portugal seria respeitado, as senhoras que se sentiam superiores e os homens que persistiam nos seus tiques marialvas. As cuidadoras, os cuidadores chegam e partem. Partem em levas e chegam em levas. Trabalho imigrante, mal pago, precário, indispensável.


A morte era banal no Hotel Paraíso. Os que partem definitivamente, rapidamente são esquecidos e substituídos por novos utentes. Mesmo quando a vontade é desistir e ir, o final de 2019, antes do espectáculo de fogo-de-artifício a partir do terraço do Hotel Paraíso, dá a Dona Alberti uma força para continuar a viver e os telefonemas que faz são o renovar de votos que o Ano do Carro seja um ano de vida e esperança no futuro. “Sinto um entusiasmo pela vida como não sentia há muitos anos” (pág. 408). Os telefonemas foram aos que lhe eram mais caros: ao senhor Frank, vizinho da casa antes do Hotel Paraíso, a Lilimunde, a menina a quem Edu Horvat não soube que deixou uma semente, à Associação da Boa Vontade que tem um voluntário que a visitou e lhe leu dois textos muito importantes e à filha a quem deseja que realize todos os seus sonhos, mesmo que ela Maria Alberta discorde das escolhas da filha.


Infelizmente, o Ano do Carro foi trágico e mortal para muitos dos utentes do Hotel Paraíso, incluindo Dona Alberti tão segura de que a noite não a iria sufocar. E também para Luís Sepúlveda, o autor das duas histórias de “As Rosas de Atacama” que o voluntário da Associação da Boa Vontade lhe lera: a do professor Galvez, “pedagogo da dignidade” e “Cavatori”, que homenageia os cavatori e os/as marmoristas nunca nomeados nas belas estátuas de Carrara.  


Transcrevo o epílogo de “Misericórdia”:


A Maria dos Remédios, minha mãe muito amada, que me pediu que escrevesse esta história.


E a Luís Sepúlveda, meu bom amigo de longa data.


Eles nunca se conheceram, mas estão unidos no tempo das estrelas e cruzam-se no interior destas páginas”


Lídia Jorge


Boliqueime, 15 de Junho de 2022


 


Almerinda Bento


4 de Março de 2023


 

segunda-feira, 22 de março de 2021

Palavras em Tempos de Crise, Luis Sepúlveda

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“Palavras em Tempos de Crise”, Luis Sepúlveda, 2012


Há um ano tomámos conhecimento de que Luis Sepúlveda, que tinha estado nas Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim, estava infectado com o novo coronavírus. Viria a falecer em meados de Abril com apenas 70 anos e para quem gostava do homem e dos seus livros, foi um choque e uma grande tristeza. Ainda tenho por ler alguns dos seus livros e este ano, quando seleccionei os livros que iria ler, fui buscar um deles e, no “sorteio” dos 27 títulos a ler este ano, tirei o papelinho que dizia “Palavras em Tempos de Crise”.


Não sei se foi o facto de “Rosas de Atacama” ter sido um dos primeiros livros que li de Sepúlveda, esse livro sempre teve um lugar muito especial no meu coração. Mal comecei a ler “Palavras em Tempos de Crise”, percebi que a estrutura era parecida: pequenos artigos, experiências e reflexões pessoais.


Embora abarcando temas muito diversos, o facto de ter sido escrito em 2012, quando Espanha, Portugal e tantos outros países sobreviviam debaixo do garrote do défice e da dívida e os governos se baixavam na vassalagem aos mercados e aos poderes da finança, faz com que muitos dos artigos deste “Palavras em Tempos de Crise” sejam verdadeiros manifestos de um homem de esquerda que não poupa Aznar, Rajoy, Felipe González e outros, que permitiram que as consequências da corrupção, da especulação imobiliária e a miragem de dinheiro fácil com o turismo desabassem sobre os povos, para pagarem os desmandos de desgovernações sucessivas. Sepúlveda, o andarilho que escolheu as Astúrias como segunda pátria, não esquece neste livro os mineiros e as suas greves prolongadas e corajosas, lembrando também os mineiros chilenos e as suas lutas. A sua escrita, vincadamente militante e poderosa, usa expressões como “solidariedade de classe” em contraponto aos eufemismos com que os governantes vassalos tentam adocicar a luta de classes que não morreu. Por isso, Sepúlveda fala do peso do Sul em todos os seus livros, porque como escritor tem um compromisso de dar voz aos que não têm voz, sejam os emigrantes, os oprimidos, os mineiros explorados, lembrando aquela visita que fez ao campo de extermínio de Bergen Belsen onde, junto a um dos fornos crematórios leu a seguinte inscrição: “Eu estive aqui e ninguém contará a minha história.”


Sepúlveda foi um homem de paixões, pelos seus amigos, pelos seus animais, pela família. Numa vida em constante movimento, a lembrar o pássaro de corda de Haruki Murakami, o autor chileno fala da alegria que é juntar a família dispersa pelo mundo em torno de um churrasco e do prazer que sente por os filhos o tratarem por “velho”. E pergunta-se: terei sido um bom pai? Terei estado presente quando eles precisaram? Terei sido um companheiro? Escreve também sobre os amigos e nomeia-os, recorda episódios, alguns hilariantes e marcantes, inesquecíveis, não esquece amigos que já partiram: Tonino Guerra, Gabo, Neruda, Nicanor Parra, Allende e os amigos que com ele faziam a segurança pessoal do presidente assassinado pela ditadura. E entre os animais, a cadela Laika a lembrar-nos Zorbas num dos belos contos de “As Rosas de Atacama”. E ainda a ternura das primeiras paixões de adolescente…


Por fim e porque Sepúlveda fala com carinho e admiração das Correntes d’Escritas, “um dos melhores festivais literários que se fazem na Europa”, referência ao artigo Pilar e José e ao documentário de Miguel Gonçalves Mendes, exibido em 2011 numa noite particularmente fria.


Este ano, já não tivemos Sepúlveda fisicamente presente na Póvoa de Varzim, mas o festival de 2021 foi-lhe dedicado em permanência e ele esteve sempre presente. Bem haja, Luis Sepúlveda, por dar voz a quem não tem voz.


21 de Março de 2021


 


 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Chamei-lhe Sepúlveda

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Não sou capaz de imaginar uma história para este ganso. Mas a curiosidade e as perguntas são muitas: como é que aqui chegou? Veio sozinho? Por que ficou por aqui? 


Imagino que o Luis Sepúlveda se o tivesse conhecido já tinha criado uma história com ele. Como fez com Rebelde, o caracol que queria ter um nome; como fez com o seu querido Zorbas, o gato grande, preto e gordo que um dia ensinou a gaivota Ditosa a voar e que assim nos ensinou que "só voa quem se atreve a fazê-lo". 


Um dia,  Nils Holgersson encavalitou-se num ganso - Akka de Kebnekaise - e fez uma viagem maravilhosa, que tornou Selma Lagerlöf uma escritora famosa. 


Será que este ganso também fez uma grande viagem até chegar aqui? O ganso que encontro todas as manhãs nas minhas caminhadas até ao Seixal, dizem que chegou e está ali há uns 5 anos. Em frente à Arrentela, numa plataforma que adoptou como sua casa, só sai de lá para se aproximar da margem da baía quando vai buscar comida que ali deixam para ele. Este ganso é uma figura da terra, conhecido e acarinhado por todos que diariamente por ali passam. É um solitário, sem nenhum ganso nas redondezas. Apenas algumas gaivotas, embora não partilhem o espaço da plataforma-casa-jangada. Já ouvi pessoas a chamarem-lhe Zé, mas antes disso eu baptizei-o de Sepúlveda.


Para mim, ele é o Sepúlveda. Porque só Luis Sepúlveda conseguia criar uma história em que nos contasse por que motivo um dia este ganso branco e solitário escolheu esta terra para morar sozinho. 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O que andas a ler?

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O que andas a ler?
A UNESCO instituiu em 1995 o Dia Mundial do Livro.
A data foi escolhida por ser um dia importante para a literatura mundial - a 23 de Abril de 1616 faleceu Miguel de Cervantes e a 23 de Abril de 1899 nasceu Vladimir Nabokov. O dia 23 de Abril é também recordado como o dia em que nasceu e morreu William Shakespeare.
Nestes tempos de confinamento temos mais tempo para ler. Teremos? Ou foge-nos a cabeça e o corpo para outros mundos agora que os dias sao feitos de incerteza e de isolamento?
Este ano ainda só vou no sexto livro. Comecei com Autobiografia de JLPeixoto, depois A Mulher que correu atrás do Vento de João Tordo, Beloved de Toni Morrison, A Peste de Albert Camus, A História de um Caracol que descobriu a importância da lentidão de Luis Sepúlveda e agora ando a ler A Terceira Mãe de Julieta Monginho.
E já agora, volto à minha pergunta inicial: o que andas a ler?


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...