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domingo, 16 de novembro de 2025

O Quinto Filho, Doris Lessing

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“O Quinto Filho” – Doris Lessing, 1988 

Este é um livro perturbador, muito duro, que li de forma compulsiva. Já antes havia tido contacto com a escrita peculiar de Doris Lessing, da qual já lera três outros livros, mas este é, sem dúvida, o mais poderoso e mesmo inesquecível. O facto de deixar o final em aberto torna esta obra ainda mais interessante.

Embora o livro parta de um casal inglês conservador com um projecto de vida em torno de constituírem uma família numerosa, em que à pergunta “Querem ter muitos filhos? Quantos?” a resposta dos dois era invariavelmente “Muitos” “Muitos”, a verdade é que vai ser Harriet Lovatt, a mãe, quem vai assumir o papel central no destino de toda a família. A enorme casa vitoriana que adquirem, nos arredores de Londres, que mais se assemelha a um hotel, é também uma personagem central neste romance de Doris Lessing. É o local de encontro de toda a família nas festas de Natal e da Páscoa e nas férias de Verão. Aparentemente, tudo flui, aquela família feliz é um ímã e mesmo quando há algum azedume nas discussões e alguma crítica velada ou quando opiniões divergentes ocorrem, as nuvens escuras são passageiras e a vida continua sem sobressaltos. Quem diria que um dia Harriet quisesse “acabar de vez com aquela casa de infelicidade e com os pensamentos que a acompanhavam.” (pág. 151)

“O Quinto Filho” narra a situação do nascimento de um filho diferente, para daí analisar os comportamentos das pessoas, da família, das instituições, da comunidade relativamente ao que sai fora do expectável. Doris Lessing trata com maestria os mais variados sentimentos vividos por aquela família feliz, quando confrontada com aquele novo ser, o quinto filho tão diferente dos que o tinham antecedido:  surpresa, medo, culpabilização, crueldade, remorso, afastamento, apatia. “Condenação, crítica e incompreensão: Ben parecia causar estas emoções, fazê-las emergir nas pessoas, trazendo-as ao de cima…” (pág. 69) Focando na mulher, na mãe, não só o ónus da estranheza, como a culpa, deixando-a sozinha, completamente só. “Dirigiu-se para a porta e olhou para trás. Na cara da médica viu o que já esperava: um sombrio olhar fixo que reflectia o que a mulher estava a sentir, que era horror pelo desconhecido, rejeição normal daquilo que estava para além dos limites humanos. Horror por Harriet, que trouxera Ben ao mundo.”  (pág. 126)

Em anteriores livros de Doris Lessing que li, tal como aqui, a autora é crítica relativamente ao funcionamento das instituições do estado não poucas vezes insensíveis quando deveriam responder às necessidades dos seus cidadãos: pela forma fria e desumanizada como funcionam sem atender aos indivíduos nas suas especificidades, num sistema padronizado aparentemente “profissional” e “sem falhas” que é cego e desumanizado. O mal-estar social surge logo numa fase inicial da narrativa, no início dos anos 1970: “A cidadezinha onde viviam transformara-se durante os cinco anos que lá tinham morado. Incidentes brutais e crimes que outrora chocariam toda a gente eram agora lugar-comum. Havia bandos de jovens que frequentavam certos cafés e becos e que não tinham respeito por ninguém. A casa ao lado já fora assaltada três vezes; a dos Lovatt ainda não, talvez porque estava sempre lá gente. No fim da rua havia uma cabina telefónica que fora destruída tantas vezes que as autoridades tinham desistido: ficara ali sem préstimo. (…) Esses acontecimentos representavam uma separação horrível: cada vez mais parecia que a Inglaterra era habitada por dois povos em vez de um, dois povos inimigos, que se odiavam um ao outro, que não ouviam o que cada um dizia. Os Lovatt começaram a ler os jornais e a ver os noticiários da televisão, embora não tivessem vontade de fazer nem uma coisa nem outra. Pelo menos deviam saber o que se passava fora da sua fortaleza, do seu reino, no qual três preciosas crianças eram criadas e onde tantas pessoas iam para mergulharem em segurança, conforto, amabilidade.”  (pág. 27)

Este livro que pode ser lido literalmente, pode também ser encarado como uma fábula dos males da sociedade com muitas camadas e muitos pontos de análise e reflexão. Por outro lado é muito actual e até intemporal e a sequência dos acontecimentos é vertiginosa, daí que qualquer pessoa que o comece a ler tenha muita dificuldade de o poisar e interromper a leitura.

Um grande e poderoso livro.

25 de Outubro de 2025

 

quinta-feira, 24 de julho de 2025

A Outra Filha, Annie Ernaux

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“A Outra Filha” – Annie Ernaux, 2011


Depois de “Os Anos”, este é o segundo livro que leio de Annie Ernaux. Em todo ele encontro o estilo autobiográfico e certos detalhes que se observam em “Os Anos”, como por exemplo a referência às fotografias, embora aqui as fotografias sejam escassas. A fotografia a sépia que os pais disseram ser dela, afinal era de uma irmã que morreu dois anos antes de a narradora ter nascido. Essa morte e essa outra filha, foi algo sempre silenciado até ao dia em que a narradora ouviu uma conversa entre a mãe e uma cliente. Foi uma descoberta dolorosa para uma menina com dez anos, numas férias de Verão de 1950.


A morte da outra filha, um assunto que foi sempre silenciado pelos pais. Naturalmente, algo que foi muito penoso na vida do jovem casal e que nunca conseguiram revelar à segunda filha, tida como filha única. No entanto, numa idade avançada da mãe, diagnosticada com doença de Alzheimer e numa consulta médica, entre as respostas dadas às perguntas do médico, falou que tinha tido duas filhas.


O livro é uma carta à irmã. E embora a narradora pudesse ter questionado primas, tias e tios sobre essa irmã, a verdade é que houve sempre um pudor, uma incapacidade de transpor esse silêncio que os pais criaram. “… não interroguei… porque eu não queria saber. Preservar-te tal qual te recebi aos dez anos. Morta e pura. Um mito. (…) Antes de começar esta carta, eu sentia uma espécie de tranquilidade em relação a ti, que agora ficou pulverizada. (…) Tenho a impressão de não possuir uma linguagem para ti, para te exprimir, de só saber falar de ti em modo de negação, do constante não-ser. Tu estás fora da linguagem dos sentimentos e das emoções. Tu és a antítese da linguagem. (…) Tu só existes através da impressão que deixaste na minha existência. Escrever-te mais não é do que percorrer a tua ausência. Descrever a herança de ausência. És uma forma vazia impossível de preencher com a escrita.” (págs. 42 e 43)


Este livro tem muito a ver com vida e morte. Com família. Com silêncios. Com fantasmas. Com traumas que ficam para a vida. A autora-narradora, ainda antes de escrever esta carta à irmã sentiu necessidade de voltar à casa de infância, àquela onde ela e a irmã tinham nascido e que há muitas décadas estava na posse de outros proprietários. “Tinha uma espécie de sensação plena, feita de espanto e de contentamento obscuro por me encontrar ali, naquele exato lugar no mundo, entre aquelas paredes, perto daquela janela, por ser o olhar que contempla o quarto onde tudo começou para uma e outra, para uma e depois a outra. Onde tudo se decidiu. O quarto da vida e da morte, que estava banhado de luz naquele fim de tarde. O lugar do enigma do acaso.” (pág. 61)


Annie Ernaux é uma autora a quem apetece voltar. Diz-me tanto e está tão próxima da alma humana. Este livro foi traduzido para a nossa língua por Tânia Ganho.


24 de Junho de 2025


 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

O Baile, Irène Némirovsky

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“O Baile” – Irène Némirovsky, 1930


É um livro que se lê dum fôlego. Nunca tinha lido nada desta autora. Procurei “As Moscas de Outono” na Biblioteca Municipal a que estou ligada, por ser o livro que escolhemos este mês para o Leia Mulheres Lisboa e acabei por trazer “O Baile”, o único de Irène Némirovsky que a biblioteca municipal tinha.


Ao lê-lo, lembrei-me de Stefan Zweig e de “O Morto” de James Joyce em «Dubliners», talvez mais pelas personagens e pelos ambientes, do que propriamente pela história. Trata-se de um livro invulgar, perturbador, muito bem escrito e que fica a remoer, sobretudo pelo insólito.


Tudo se desenrola em torno de um casal de novos-ricos e da filha adolescente. Digamos que nenhum deles está de bem com a vida. Eles – os Kampf – porque querem ostentar um estatuto que não têm, mesmo que o dinheiro lhes sobre. O teste do algodão não engana; são inseguros, falsos, medíocres. Antoinette, a filha com catorze anos já não é uma criança, aspira a ser desejada porque já se sente uma mulher; a mãe, no entanto, trata-a como uma criança e tem uma relação conflituosa com a filha, não conseguindo compreender a filha nem estabelecer com ela uma relação minimamente empática nem maternal. Antoinette sente que ninguém a ama, é profundamente infeliz, sente-se “miserável e só como um cão perdido” (pág. 32). Por outro lado, acha os pais hipócritas. É em torno deste mal viver que se desenrola este pequeno conto que tem um desenlace insólito.


Perfídia? Intencionalidade? Vingança? Penso que sim. O desespero, a solidão e o desamor podem detonar reacções descontroladas protagonizadas por jovens. Temos assistido a isso,  aqui e ali no mundo.


5 de Junho de 2025

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Caderno Proibido, Alba de Céspedes

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Caderno Proibido, Alba de Céspedes, 1952


 


De tantas tão boas leituras que fiz em 2024, tenho muita dificuldade em dizer qual ou quais foram as minhas preferidas, mas “Caderno Proibido”, o último livro que li no passado ano, é certamente dos melhores. Uma verdadeira revelação, um livro com a minha idade, mas que é duma actualidade incrível e no qual me revi, e certamente muitas mulheres que tiverem oportunidade de o ler.


O caderno proibido é uma revolução na vida de Valeria. Mulher italiana de 43 anos, casada há 22, mãe de uma rapariga e um rapaz, empregada num escritório, um dia começa a escrever num caderno de capa preta reflexões sobre si e a sua vida. A escrita no caderno – um diário – vai, pela primeira vez, obrigá-la a questionar tudo: a família, o casamento e, sobretudo, ela própria.


Valeria é uma mulher tradicional, preconceituosa, educada para se apagar nos cuidados com o marido e os filhos, a viver em função dos outros, a gerir um orçamento limitado que a leva a comprar para si só o indispensável, com uma vida social muito limitada, apenas mantém contacto com uma amiga de infância. Invisível, o seu trabalho não é valorizado. Até àquele domingo ameno em que sai para comprar um maço de tabaco para o marido e acaba por ser atraída pela capa preta de um caderno na montra da tabacaria e o compra.


A escrita do diário vai-se prolongar ao longo de seis meses e logo no primeiro dia em que trouxe aquele caderno para casa, nunca mais teve um momento de paz. O romance começa com estas palavras: “Fiz mal em comprar este caderno, mesmo muito mal. Mas agora já é tarde de mais para me lamentar; o mal está feito.” (pág. 7). A viver em função dos outros, descobre que nem consegue encontrar em casa um lugar onde escreva sem a presença da família, nem sequer tem um sítio seguro para esconder o diário “Afinal, não tinha, em toda a casa, uma gaveta, um cantinho que fosse meu” (pág. 8) / “… sonho que gostaria de ter um quarto só para mim.” (pág. 55) / “Repito que precisávamos de mudar de casa porque esta já é muito pequena, mas sinceramente é porque queria ter um quarto para mim.” (pág. 109). E pela primeira vez, deseja estar só, “Agora desejo que saiam para ficar sozinha a escrever” (pág. 9).


Como quando se toma uma decisão difícil, se escolhe um caminho que implique uma mudança corajosa, a pessoa questiona-se, tem dúvidas… Assim é com Valeria que põe em causa o seu direito de escrever o diário; que tem sentimentos de culpa, remorsos por roubar tempo para si sempre que escreve no diário; que se rebela contra o diário e tem vontade de o rasgar. Mas que tem ânsias de verter para o papel as suas inquietações e aquilo que nunca confessou a ninguém nem a si mesma: que se sente escrava da família e da casa; que não sabe o que é o descanso; que nunca teve tempo para ler um livro; que encara a família como um lugar de opressão; que o casamento e o nascimento dos filhos foram os únicos  pontos altos da sua vida e que tudo o resto foi insignificante; que embora ache que na sua idade já é tudo tarde de mais, descubra que ainda é possível amar fora do casamento; que para sobreviver precisa de mentir; que um matrimónio exemplar é feito de um contínuo fingimento.


Não se espere deste romance respostas fáceis, nem um final feliz. Sendo uma narrativa que decorre no início dos anos 50, no pós-guerra e sempre com o receio de uma possível guerra futura, considero que não é um romance datado, antes aborda temas e inquietações intemporais: o envelhecimento, a sexualidade, os preconceitos sociais, a família, os conflitos geracionais, a ânsia de liberdade e de felicidade. Valeria, que sempre se habituara ao silêncio e que tinha pudor em confessar ao marido os seus sentimentos, ousa um dia perguntar-lhe se era feliz. Pergunta tão simples, de resposta tão difícil! “– Que pergunta! Pois naturalmente, porque não havia de ser? Os pequenos são bons, são saudáveis… Ricardo há-de fazer uma bela carreira na Argentina. Mirela já trabalha, depois casará. Que mais poderemos desejar, mamã?” (pág. 77).


O caderno proibido abriu a Valeria um caminho de liberdade e de questionamento de que é impossível livrar-se, apesar das amarras que a prendem.  Termino com uma das últimas frases deste belo livro, inesquecível: “Todas as mulheres escondem um caderno negro, proibido. E todas têm de o destruir.” (pág. 208)


 


30 de Dezembro de 2024


Almerinda Bento


 


 

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Tia Maria do Carmo

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Hoje a Tia Maria do Carmo faria 100 anos.


Era Tia do coração. Quando os meus pais vieram viver para Lisboa, recém- casados e com pouco dinheiro, no final dos anos 40 do século passado, tiveram que repartir a casa com outro casal: o casal Soares. Já nessa altura o dinheiro era pouco para arrendar uma casa e o casal Soares, oriundo do mesmo concelho dos meus pais ofereceu-se para partilhar casa com o jovem casal Bento. Só que a senhoria não aceitava essa situação e a Maria do Carmo explicou que aqueles jovens não eram estranhos, pois a Etelvina era sua mana.


Não se vê logo que somos parecidas! ?


A verdade é que não eram nada parecidas, mas a senhoria fez de conta que acreditava e lá aceitou. Foi assim que elas passaram a ser manas (eram amicíssimas, certamente muito mais amigas do que muitas irmãs) e a minha irmã Isabel, eu e mais tarde a Gracinha passámos a tratá-la por tia Maria do Carmo.


Uma mulher doce, doce, duma generosidade e alegria que manteve ao longo da vida. Nunca teve filhos, mas nós, tal como os sobrinhos, éramos tratados e amados como filhos. Claro que quando deixou de viver em Lisboa e já viúva as nossas visitas eram mais espaçadas, mas eram sempre momentos únicos de imensa alegria quando a visitávamos na sua casa na Chaínça. Mais tarde na Barquinha, já só eu cá estava para a visitar e depois no lar onde faleceu em 2020 com 97 anos.


Adorava contar-nos histórias em que a Bel e eu éramos protagonistas, quando pequeninas e ainda a viver com eles e era com muita saudade que as contava como que a fazer reviver os meus pais e a minha irmã, então já desaparecidos. Não se cansava de as repetir e sentia-se a alegria em reviver esses momentos em que foi tão feliz.


As minhas palavras são pobres para falar de uma pessoa tão querida, que foi tão importante nas nossas vidas e hoje, que completaria 100 anos, quero desta forma tão singela enviar-lhe um abraço, aquele abraço sempre tão apertado com que a saudávamos e nos despedíamos sempre que a visitávamos. 


Se há pessoas boas no mundo, a Tia Maria do Carmo está entre elas. 


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Estas fotografias são do Verão de 2014, quando ela vivia na Barquinha. 


4 de Outubro de 2023 


 

domingo, 3 de outubro de 2021

Seis Ruas, Márcia Lima Soares

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Seis Ruas, Márcia Lima Soares, 2020


Conheci a Márcia na militância política, nos activismos mais difíceis, aqueles que põem toda a coragem de afirmar a sua identidade e os seus desejos, lutando contra a tradição, o politicamente correcto, o status quo. Afirmativa, sem rodeios, invulgar, as suas gargalhadas e postura positiva destacam-na como uma mulher que ama a vida a tempo inteiro.


Na dedicatória que me escreveu no seu “Seis Ruas” pedia-me entre outras coisas que, se quisesse, ilustrasse alguma das passagens do livro e que depois as partilhasse. Não me senti tentada nem habilitada a isso. Preferi escrever um pouco sobre o que o livro deixou em mim.


Os espaços, as ruas, as casas estão povoados de memórias. Neste caso, as seis ruas, todas na margem sul, acompanham a história da narradora e do seu irmão mais velho, aquele que ela tanto desejou quando era a filha única e com o qual teve sempre uma ligação muito próxima. Sendo muitas vezes maternal, aparece sempre como a menina viva, brincalhona e que vai acompanhando o crescimento dos irmãos que entretanto vão nascendo. Ao longo das páginas, com o decorrer dos anos e nas várias ruas onde moram, as brincadeiras, as traquinices, os desastres vão surgindo e em muitos nos revemos. Alguns episódios surgem-nos mais detalhadamente, alguns pormenores são mesmo divertidos e fazem-nos recordar as peripécias das brincadeiras das crianças. A narradora não transforma num relato fofinho o que são as constipações duma criança, nem aquilo que um rabinho limpo e bem cheiroso mostrado em anúncios televisivos apaga da realidade suja e mal cheirosa de uma criança.


Os anos passam. Novos desafios. Casas mais pequenas, sonhos de um sótão cheio de projectos, divórcio dos pais, novas amizades, novas aprendizagens. Mesmo sem querermos e à medida que o livro avança há um adensar de tragédia sempre que as datas são mencionadas com o pormenor do dia, do mês e do ano. O avô que quase se afogou e, mesmo assim, a vida a continuar num concurso televisivo em que o tema eram os pássaros. Irreverentemente, Tiago cumpriu a sua promessa exibindo o “rabo muito branco a imitar a Lua cheia”. E por fim, aquele derradeiro dia quente de Agosto no regresso de um dia bem passado na praia.


Senti este livro como um testemunho de amor ao irmão Tiago. A necessidade de, em livro, a Márcia verter mais umas lágrimas por ele, dar umas gargalhadas para lhe dizer que não o esquece, que ele está sempre com ela, mesmo vivendo agora “além Tejo”. É um testemunho muito belo e sentido, pelo qual só posso dar os parabéns à irmã que ficou para contar.


Sei que a Márcia fará muitos outros livros. Acrescentando novas ruas, novas viagens, novas cidades, novas personagens. Com todos os amores da sua vida, agora que o seu amor maior, a Laurinha, vem acrescentar um novo sentido e uma nova motivação para uma vida com muitos caminhos, muitas causas e muito amor.


3 de Outubro de 2021


Almerinda Bento

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Almoço de Domingo, José Luís Peixoto

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Almoço de Domingo, José Luís Peixoto, 2021 


Um livro especial, que me foi oferecido no dia de anos. Em dose dupla, por gente querida, que sabe como valorizo os almoços de domingo com a família, os quais nos têm sido vedados nestes tempos de pandemia.


O romance, repartido em três dias, é um mosaico de momentos que se entrelaçam, da história do nosso país, de recordações da infância, do Rui menino quando ia levar os avios de carne da salsicharia da mãe. O meu Rui, o seu Rui, o senhor Rui, o senhor comendador. A escola e o amigo mais sincero, a tropa, Alice a companheira de toda uma vida, os vários cargos na Câmara, o convite a Marcelo Caetano para as festas de Campo Maior, a marca Delta, a inauguração da ponte sobre o Tejo, o almoço de cozido de grão oferecido a Mário Soares e Felipe González. Timor e Angola onde vai comprar o café que depois será transformado e comercializado, Inglaterra onde irá para tentar salvar a irmã Clarisse, as travessias clandestinas através da fronteira evitando o encontro com os carabineiros, a detenção em Badajoz.


São retalhos de uma vida que vão surgindo sem ordem cronológica, antes iluminando marcos significativos de nove décadas de existência. Uma vida cheia de peripécias, de muito trabalho, dedicação e engenho. Uma vida em que os alicerces – o tio Joaquim, a mãe, o pai, o irmão António e as irmãs Clarisse e Cremilde – nunca são esquecidos. Eles estão presentes naquele almoço de domingo e perpetuar-se-ão nos filhos, nas noras, nos netos e bisnetos, mesmo quando o senhor Rui já tiver morrido. Porque este romance fala da vida, da morte, das alegrias, dos nascimentos, das perdas, das dores do envelhecimento e também de Campo Maior. Da fronteira entre os vivos e os mortos e da fronteira que separa Portugal de Espanha ou Campo Maior de Badajoz. Dessa linha afinal tão ténue.


Este “Almoço de Domingo”, memória de tantos almoços de domingo, corresponde ao 28 de Março de 2021, dia do 90º aniversário do senhor Rui. Sendo a última parte deste romance biográfico, é antecedido dos dias 26 e 27 de Março, mas aqui não há pandemia nem qualquer referência a ela. Antes a celebração da amizade, do reconhecimento, da gratidão por uma vida plena, em que a família e toda uma comunidade se juntam para saudar um homem generoso, exemplar. A família e Campo Maior constituem uma unidade. São uma e a mesma coisa.


“Quando acumulamos suficiente tempo, os domingos transformam-se num período da vida. Recordamos os domingos como uma unidade, anos inteiros só de domingos, estações inteiras compostas apenas por domingos: os domingos do verão, os domingos do outono, todos os domingos do inverno e, de novo, as promessas feitas pelos domingos da primavera. Foram dias separados por semanas, antecedidos por sábados com ilusões próprias, sucedidos por segundas-feiras com agendas precisas, tarefas fatais que exigiam ser feitas, mas tudo se dissipa até ficar apenas uma amálgama de domingos. Ao serem vividos, transformaram-se nessa amálgama, como um almoço de domingo infinito, a crescer permanentemente a partir do seu interior.


Entra a minha sogra com a sua arte, travessa de bacalhau no forno, prato perfeito para este momento. Logo a seguir, a sua filha, minha mulher, Alice, traz os talheres com que vamos servir-nos. Estamos prontos, habitamos esta hora certa, tentaremos repeti-la muitas vezes ao longo da vida. O nosso contentamento mistura-se sobre a mesa, o meu filho estica o braço para chegar ao pão, a minha filha leva um copo de laranjada aos lábios, a minha mulher organiza-nos, a minha sogra sorri, está submersa neste instante, inspira este ar.


Somos uma imagem parada. Existe a passagem dos segundos, minutos talvez, existem os gestos, mas somos uma imagem parada, enche todo o tempo que possuímos.”(págs. 106 e 107)


3 de Agosto de 2021


 


 


 


 

sábado, 11 de julho de 2020

Pássaros Feridos

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Pássaros Feridos”, Collen McCullough, 1977


 


Certamente por já ter lido alguma apreciação muito favorável sobre este livro, há bastantes anos que ele estava numa “lista de livros a ler um dia” que vai sempre crescendo. A verdade é que ele chegou até mim pelas mãos de uma amiga, como um livro que lera e que a marcara e, finalmente, até porque era volumoso e estava (estou) a viver um período em que muitas das minhas leituras são feitas em casa, chegou a sua vez. Confesso que demorou mais tempo a ler do que esperava, talvez porque tem partes que podiam ter sido suprimidas, sem que o valor da narrativa perdesse.


É uma narrativa que se passa maioritariamente na Austrália, país de onde é natural Collen McCullough, a romancista e neurocientista autora do romance. A decorrer entre 1915 e 1967, o romance está dividido em sete partes, tendo cada uma como título os nomes das personagens femininas da família Cleary e dos homens da vida de Meggie. Podemos dizer que é a saga de uma família, em que a Austrália e a fazenda Drogheda são também personagens do romance. A natureza é exuberante e descrita de forma muito visual: chuvas torrenciais, secas terríveis e prolongadas, tempestades secas, fogos arrasadores, calor, pó e moscas, sem esquecer as rosas ou as buganvílias. Sendo a caracterização das personagens e a complexidade dos seus sentimentos e emoções um ponto alto deste romance, é Meggie desde menina, seguindo o seu desenvolvimento até à velhice solitária na grande fazenda da família, aquela que tem especial centralidade ao longo dos cerca de sessenta anos em que a história se desenrola.


O mundo mudou muito desde as primeiras décadas até perto do último quartel do século passado. A acção passa pela depressão dos anos 30, a fome e o desemprego, as secas, a 2ª grande guerra e o envolvimento da Itália, do Vaticano, da Europa e do mundo, a ditadura dos coronéis da Grécia. Mas para além das mudanças na política no mundo, também as mudanças nos hábitos, nas concepções, nos costumes e atitudes das personagens, na forma como concebem a ideia de família, de amor, de educação das mulheres e dos homens. Desde o início que a autora sublinha aspectos discriminatórios na vida e educação de mulheres e raparigas quando comparadas com homens e rapazes, sendo Justine, a filha de Meggie, personalidade independente e totalmente alheia a convenções, quem corta com as tradições de família e vai seguir o seu destino. Mesmo num meio em que a mulher é educada para ser remetida a um papel subalterno, em que esconder emoções e recalcar sentimentos é o que é expectável, a verdade é que todas as mulheres de Drogheda – Fee, Meggie e Justine – são fortes, intuitivas e lutadoras. Em minha opinião, este é um romance de mulheres, são elas as verdadeiras heroínas.


A terminar, outro aspecto central no romance tem a ver com o poder da Igreja católica, com a questão do dever de castidade que a Igreja impõe aos sacerdotes, recalcando neles o que é da natureza humana, em função de uma obediência exclusiva a um deus. Um aspecto que se mantém nos dias de hoje, atestando a rigidez e conservadorismo da Igreja, embora, de tempos a tempos, vozes isoladas e corajosas ponham em causa a questão do celibato dos sacerdotes como o caminho que mais tarde ou mais cedo será inevitável.   


10 de Julho de 2020


Almerinda Bento

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...