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sábado, 22 de outubro de 2022

Torto Arado. Itamar Vieira Junior

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“Torto Arado”, Itamar Vieira Júnior , 2018

 

Este foi um daqueles livros que não parei de sublinhar, sublinhar, sublinhar. Um livro verdadeiramente excepcional, poético, poderoso, brutal, que me permitiu viver sentimentos muito fortes, como a raiva, respeito pela coragem das personagens e profunda admiração por um escritor que consegue de forma intensa e admirável assumir a pele de mulheres narradoras.

O exemplar que comprei tinha uma cinta com a indicação dos prémios obtidos por este romance do escritor baiano Itamar Vieira Junior: vencedor do Prémio Leya 2018 atribuído por unanimidade pelo júri, vencedor do Prémio Jabuti e finalista do Prémio Oceanos. Independentemente da sinopse motivadora na contracapa, o livro agarra o leitor desde a primeira página e consegue, ao longo das cerca de trezentas páginas, manter o interesse e a expectativa até ao final. Ao lê-lo, revivi “Beloved” de Toni Morrison e foi com satisfação que o encontrei na lista dos livros sugeridos pelo Plano Nacional de Leitura.

Oficialmente, a escravatura no Brasil terminou em 1888. O romance começa por volta dos finais dos anos vinte do século passado, mas os moradores da fazenda de Água Negra não sabem o que é serem livres. Descendentes de escravos vindos de África, as suas histórias têm um traço comum de errância, procurando um pedaço de terra onde pudessem trabalhar, instalar-se e criar família. Trabalham de domingo a domingo, vivem em casas precárias feitas de lama, não recebem salário e são espoliados dos poucos produtos que conseguem plantar nas suas pequenas roças, para além do armazém que o fazendeiro instalou e a que ficam amarrados, o qual os trabalhadores baptizaram de “um roubo” (p. 106). Os anos passam, as crianças crescem e tornam-se adultas, as leis mudam e o progresso vai chegando, mas para os trabalhadores e moradores da fazenda é “a mesma escravidão de antes fantasiada de liberdade” (p. 234).

Num mundo aparentemente imutável, com uma hierarquia de poder na fazenda em que os capatazes e subalternos reproduzem o poder e a ordem coloniais, os trabalhadores vivem submetidos a práticas religiosas de matriz africana, encontrando aí resposta aos seus males e aos seus medos. Mas a exploração não é só dos fazendeiros relativamente aos trabalhadores, invisíveis e sem quaisquer direitos. O padrão do poder patriarcal vive-se nas famílias. Os homens cobiçam as raparigas mal elas começam a tornar-se mulheres “com os olhares invasivos que nos despetalavam como flores” … “Muitas caíam sob o peso da insistência, não resistiam às abordagens, e com as bênçãos dos pais se uniam com seus corpos ainda em formação. Sucumbiam ao domínio do homem, dos capatazes, dos fazendeiros das cercanias.” (p. 55). “Éramos preparadas desde cedo para gerar novos trabalhadores para os senhores, fosse para as nossas terras de morada ou qualquer outro lugar onde precisassem” (p. 135). Mulheres tratadas como criadas, como receptáculos para a satisfação sexual dos homens, vítimas de violência extrema… Mas, para além de os pais de Bibiana e Belonísia terem uma visão diferente e perceberem que era preciso construir uma escola para os filhos dos trabalhadores, Severo, que vai ser sindicalista e lutar pela emancipação do seu povo, será quem, pela primeira vez, irá abrir novos horizontes e uma perspectiva de mudança e uma nova vida a Bibiana. “Nunca havia conhecido ninguém que me dissesse ser possível uma vida além da fazenda. Achava que ali havia nascido e que ali morreria, como acontecia à maioria das pessoas”. “Queria experimentar a vida, para ver o que poderia nos acontecer” (p. 76).

O desejo de liberdade, o direito à terra, o tomar a palavra e exprimir a revolta de séculos, a luta de resistência e emancipação dos quilombolas são os grandes temas deste maravilhosos romance que nos narra as lutas dos povos de uma fazenda no sertão do Brasil, centrado na personalidade e na coragem das mulheres. Bibiana e Belonísia, inesquecíveis personagens deste livro, apesar de as suas personalidades serem tão diferentes, ficarão, após um acidente que lhes mudará a vida para sempre, ligadas como se de siamesas se tratasse.

A uma semana de um resultado eleitoral decisivo para o futuro do Brasil, este romance é um grito de revolta contra a opressão, a força da coragem e da união quando chega o momento de desobedecer e de mudar. Oxalá o povo brasileiro tenha o discernimento para vencer o obscurantismo, a prepotência e a mentira.

22 de Outubro de 2022

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 30 de março de 2020

Beloved, Toni Morrison

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“Beloved”, Toni Morrison, 1987


 


“Beloved”, que deu a Toni Morrison o Prémio Pulitzer em 1988, é considerada uma das obras mais significativas da escritora norte-americana e com grande peso na atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1993.


É um livro poético, forte e duro. Precisa de atenção e concentração, pois, sobretudo ao princípio, há elementos que causam estranheza e que me obrigaram a voltar atrás e a reler para tentar perceber certos elementos. Embora só com o desenvolvimento da narrativa alguma dessa estranheza vá sendo superada com o desvendar de detalhes apenas aflorados inicialmente, tenho de reconhecer em mim, como leitora, a dificuldade de concentração na nova situação de confinamento, por motivo da pandemia do vírus global.


É uma história dura que se passa no período pós-escravatura, depois de terminada a Guerra de Secessão, em que as marcas deixadas pela escravatura são tão fortes que não se apagam, antes corroem e destroem. Enlouquecem quem não consegue esquecer que foi escravo, que tenta aprender a liberdade soltando-se das amarras dum passado indizível. Porque o racismo não desaparece por decreto, nem na atitude do opressor nem na cabeça do oprimido.


“Todos lhe ensinaram como era acordar de manhã e poder decidir o que fazer com o dia. Pouco a pouco… juntamente com os outros, afirmara-se. Libertar-se era uma coisa; reclamar a propriedade do próprio corpo era algo bem diferente” (p. 131)


“Ele sabia exactamente o que ela queria dizer: chegar a um lugar onde se podia amar tudo aquilo que se escolhesse – sem precisar da autorização para o desejo –, ora bem, isso era liberdade.” (p. 217)


Muito poucos tinham morrido na cama, como Baby Suggs, e nenhum daqueles que conhecia, incluindo Baby, tinha vivido uma vida sofrível. Até os negros educados: aqueles que tinham andado muito tempo na escola, os médicos, os professores, os que escreviam nos jornais, os que tinham negócios, até esses tiveram um difícil caminho a percorrer. Para além de precisarem de usar a cabeça para avançar, carregavam aos ombros o peso de toda a raça. Os brancos achavam que quaisquer que fossem os modos, sob cada pele escura existia uma selva. Águas rápidas e intransitáveis, babuínos que se baloiçavam aos guinchos, serpentes adormecidas, gengivas vermelhas preparadas para o seu sangue doce e branco. De certo modo, pensou, tinham razão. Quanto mais os negros se desgastavam a tentar convencê-los que eram amistosos, que eram inteligentes e afectuosos, que eram humanos, quanto mais se cansavam a convencer os brancos de algo que achavam que nem devia ser questionado, mais a selva crescia e se adensava.” (págs. 262 e 263)


É, sobretudo, uma história de mulheres. De raparigas que foram violadas sistematicamente, que tiveram vários filhos de pais diferentes, de mulheres que mataram as filhas à nascença para evitar que lhes  acontecesse o mesmo que a elas, de mulheres grávidas que foram amarradas e açoitadas, de mulheres que foram queimadas, de mulheres que se prostituíram para dar de comer aos filhos, de mulheres reprodutoras para darem filhos para serem vendidos, de mulheres que quase enlouquecerem porque não conseguem esquecer. Sethe, que “traz às costas uma árvore”; Baby Suggs, a memória viva da escravatura, cujo filho lhe comprou a liberdade quando já não lhe servia de nada; Denver, a menina triste, solitária, com saudades dos irmãos, que nasce numa canoa, ajudada por Amy, uma rapariga branca que ia para Boston; Beloved, a menina fantasma que se vem vingar por uma vida que lhe foi roubada. Mas é também uma história de solidariedade das mulheres da comunidade que ultrapassam comportamentos e se juntam quando não pode deixar de ser.


Sendo uma história de mulheres, os homens não estão ausentes e o inimaginável que um ser humano possa fazer a outro, só por uma questão de cor da pele, é-nos revelado por Paul D. Nos dezoito anos em que esteve fora, conheceu os trabalhos forçados acorrentado a outros homens, as canções de trabalho, a prisão, as fugas sempre à procura de um lugar melhor para viver, o sol ardente, as chuvas torrenciais, a lama, a terra, a palha e as cascas das árvores como cama. E quando, pela primeira vez, um branco lhe pediu ajuda para descarregar duas arcas de uma carruagem e no final lhe deu uma moeda, ele ficou a olhar para a moeda e perguntou-se o que fazer com ela.


Uma história dolorosa e complexa, com as marcas da culpa e do remorso, mas com a força redentora de que a solidariedade é a salvação. Mesmo a terminar, o diálogo de Paul D com uma Sethe desinteressada da vida:


“ – Sethe – disse –, tu e eu, temos mais ontens que qualquer pessoa. Precisamos de alguns amanhãs.


Inclina-se para a frente e pega-lhe na mão. Com a outra, toca-lhe no rosto.


 – Tu és a tua melhor coisa, Sethe. És tu. – Os dedos dele seguraram os dedos dela.


– Eu? Eu?” (p. 354)


 


22 de Março de 2020


Almerinda Bento


           

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...