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sábado, 5 de fevereiro de 2022

Por este Mundo Acima, Patrícia Reis

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Por este Mundo Acima, Patrícia Reis, 2011


Este foi o último livro que li em 2021, terminado exactamente no último dia do ano, mas sobre o qual só agora tenho oportunidade de escrever. Foi com este livro, um fechar de ano em beleza. Um livro extraordinário, o segundo que leio de Patrícia Reis e a certeza de que é uma autora cuja obra quero continuar a descobrir.


O que é viver, como é viver, depois de um desastre nunca antes visto, um acontecimento que dizima grande parte da humanidade, que nunca é revelado o que é, mas que ao longo do livro é designado por “o acidente”? Há o antes e o depois do “acidente”. Eduardo, o narrador, é um editor, arrogante, com a obsessão de fazer listas a propósito de tudo e de nada. Sobrevivente do “acidente”, procura na sua cidade – uma zona bem caracterizada de Lisboa – os amigos de sempre: Sofia, Lourenço e Jaime. Não os vai encontrar, mas vai descobrir segredos que o vão ajudar a compreender Sofia, a “menina-desastre”, a “rapariga-tesoura” afinal e tão-somente uma mulher só. Eduardo sente-se remetido à animalidade, o computador não serve para nada, as pilhagens aos bens que ainda restam são constantes, a cidade está totalmente destruída e irreconhecível. Sem amigos, sem futuro, desesperado, com saudades da música, como é possível sobreviver? Recorda-se da frase de uma escritora que lhe tinha dito que “em situações limite, somos apenas animais”. Ele é um sobrevivente que perdeu os amigos, que lamenta o que lhes poderia ter dito e que não disse e essa ideia de perda definitiva é-lhe insuportável.


Só a amizade poderá restituir-lhe o sentido da vida. “A amizade é a mais transformadora das forças humanas” (pág. 131) foi a convicção mais forte que tivera quando fora ao hospital ver o amigo Lourenço que tentara o suicídio. Este livro é com efeito “uma celebração da amizade” como a autora escreveu na mensagem que autografou no meu exemplar. Agora, depois d’“o acidente” vai ser uma criança que Eduardo encontra a dormir – Pedro – e um manuscrito que ele rejeitara e nunca publicara que lhe vão restituir a vontade de viver.


“Já te contei que encontrei uma criança? Diz coisas espantosas. Não sei como será agora. Tenho um manuscrito e uma criança.


Nunca me senti tão próximo da ideia de felicidade.” (pág. 142)


 


É preciso transmitir a vida, passar o testemunho, ensinar àquela criança tudo o que sabe, trazer de volta uma ideia de humanidade, abolir a palavra “tristeza” do vocabulário. A biblioteca da avó que ele vai reconstituindo, o clube de leitores que se vai criando, a memória, assim vai ganhando expressão um renascer das cinzas duma sociedade e duma humanidade devastadas. Ao ler este “Por este Mundo Acima” de Patrícia Reis não pude deixar de recordar “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, a força daquela comunidade que resistia, guardando a memória dos livros em que cada pessoa era um livro vivo.


5 de Fevereiro de 2022


 

sábado, 28 de agosto de 2021

Hoje não havia jacarandás em flor...

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Hoje não havia jacarandás em flor…


Hoje não havia jacarandás em flor. Mas eles continuam lá. Muito calor. Muita gente. Livros ao alcance das mãos, a serem folheados, em sacos, livros em promoção, filas para pagar livros, filas para autógrafos. Há quem procure pechinchas, quem tente encontrar aquele livro, quem se socorra da lista de livros a comprar e que vai crescendo… quem queira simplesmente desfrutar da alegria do encontro com os livros a céu aberto.


Este ano já lá passei duas vezes, afinal de contas estava com um ano em atraso, porque em 2020 não ousei visitar a Feira do Livro.


Não sei se foi das máscaras, mas não encontrei ninguém conhecido. Conhecidos mesmo só os/as autores/as dos livros que comprei. A Patti Smith que conheço da música vai ser uma estreia enquanto escritora. Os outros já são meus conhecidos, mas como há sempre tanto neles a descobrir, trouxe mais uns livros que não sei onde vão caber, porque espaço nas estantes já não há.


Até dia 12 de Setembro, não digo que não volte lá. Mesmo sabendo que jacarandás em flor, só para o ano.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Da Meia-Noite às Seis, Patrícia Reis

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Da meia-noite às seis, Patrícia Reis, 2021


Patrícia Reis uma revelação e este já é o seu décimo livro. Já tinha lido apreciações sobre “Crianças Invisíveis” e recentemente li no JL, não só a entrevista que lhe foi feita, mas também os textos de Miguel Real e de Valter Hugo Mãe sobre este livro que decidi comprar, aproveitando para fazer uma troca de livro repetido entre os muitos que recebi nos anos. Excelente escolha.


A dedicatória a Maria Teresa Horta, a quem há tempos faleceu o marido, não podia ser mais ajustada. Susana Ribeiro de Andrade, uma das personagens principais deste livro, é confrontada com o fim inexorável e irreversível do amor da sua vida, na sequência de ter sido contaminado com o vírus. Está-se em 2022 e a pandemia continua implacável, a fazer o seu caminho. O choque brutal desta morte deixa-a sem chão, apenas com as memórias do homem que amava, o seu companheiro com quem continuava a conversar de mão dada! A viagem a Roma, as preferências literárias dele por Camus, Agustina ou o “Adriano” de Marguerite Yourcenar que ela não lera (e que ele dizia que era um daqueles livros que não podem deixar de ser lidos), todas essas memórias são aquilo a que se agarra num tempo de luto, em que interrompe momentaneamente a sua actividade profissional numa estação de rádio.


No regresso, aceita o horário das “horas mortas”, aquele que é desvalorizado (“seria aquilo trabalho” pensam até alguns colegas), por ser rotineiro, por ter uma audiência menos interessante, aquele que afinal ninguém quer. Rui Vieira também voltara à rádio na noite de Natal de 2019. Quem quer trabalhar nesses dias? Quando se pensa que já não servimos porque temos uma incapacidade, quando se é descartável, valha-nos uma vaga porque há que cumprir a quota das pessoas com deficiência… De tudo isto nos fala Patrícia Reis: das discriminações, da homofobia, do racismo, da solidão, da precariedade que ficou mais exposta com a pandemia, mas também do verso da medalha: da solidariedade, da revolução que é dar voz às pessoas, de que há que descobrir o lado positivo da vida, de que a felicidade é possível e que muitas vezes está ali mesmo ao nosso lado.


Este livro é também um elogio aos trabalhadores da cultura, ao extraordinário poder da rádio, da voz, do sentido e da força das palavras. Li este livro rapidamente, com uma profunda empatia, não conseguindo deixar de fazer muitos sublinhados, o que não é habitual em mim. O “aquário” de onde Susana Ribeiro de Andrade faz as suas emissões da meia-noite às seis, os emails de Rui Vieira com as notícias que Susana irá ler a cada hora e as conversas que ambos trocam a partir do computador de Rui, os gestos automatizados de higienização por causa da pandemia, em suma, este mundo confinado coloca-nos a eles e a nós, num cenário que não é de ficção, mas da real fragilidade humana para a qual nunca estamos preparados.


Mesmo quando as canções são de uma play list que o computador escolheu, é sempre possível pôr um pauzinho na engrenagem do sistema e introduzir Caetano Veloso a perguntar em “Cajuína” : “Existirmos: a que será que se destina?”


9 de Maio de 2021


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...