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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, Tiago Rodrigues

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“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” -Tiago Rodrigues, 2024

 

O título é suficientemente polémico, para se desejar ver a peça em palco, mas conseguir arranjar bilhetes antes que todas as sessões se esgotem? Li o texto dramatúrgico, li o extraordinário posfácio da autoria de Gonçalo Frota e voltei de novo ao texto, para o ler desta vez com mais atenção aos detalhes  sobre que se debruça o posfácio.

Que grande texto de Tiago Rodrigues, que peça perturbadora e tão polémica esta “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.  Começado a ser construído a partir da ideia de uma família que se reúne anualmente para vingar a morte de Catarina Eufémia, símbolo das mortes de todas as mulheres, ainda com os ecos dos protestos das feministas pelo absurdo do acórdão do juiz Neto Moura que se baseia em citações da Bíblia e no Código Penal de 1886, a eleição do primeiro deputado do Chega em Outubro de 2019 foi o gatilho para o texto cuja apresentação pública estava prevista para meados de 2020. A leitura do posfácio ajuda-nos, leigos, a perceber a complexidade do trabalho de criação de texto e de montagem duma peça teatral, do método de trabalho de Tiago Rodrigues até ao momento da apresentação da peça ao público. Atento ao que se passa no mundo, sensível às ideias e propostas dos actores, rodeando-se de uma equipa que vai de historiadores, a músicos, a estilistas, bailarinos, há todo um trabalho colectivo de criação aberto a alterações e mudanças que podem ser radicalmente diferentes da ideia original. Quando a equipa de actores partiu para a residência artística em Motemor-o-Novo, na primeira semana de Março de 2020, estava longe de imaginar que a pandemia iria alterar definitivamente todo o calendário de trabalho previsto inicialmente. No entanto, em Montemor-o-Novo, o trabalho colectivo, as conversas informais, as ideias individuais, os momentos de lazer, tudo isso foi o combustível que permitiu criar um texto dramatúrgico praticamente finalizado. Com a entrada em cena da pandemia, a interdição de ensaios presenciais trouxe a frustração do trabalho à distância, em tudo contrário à dinâmica criada por Tiago Rodrigues.

Eram muitas as dúvidas que se colocavam quando se fizeram os primeiros ensaios em Junho de 2020. “A pandemia roubou-nos a confiança de imaginarmos o futuro” (p. 181). A peça foi à cena pela primeira vez em Dezembro de 2020 no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, seguindo depois para o Centro Cultural de Belém em Lisboa. A peça situa-se em 2028, no sul de Portugal, com um governo fascista. Em palco, encontra-se reunida a família descendente de uma ceifeira companheira de Catarina Eufémia que há 75 anos deixou uma carta como herança para a família, para que nunca cale a injustiça onde confessa: “Hoje matei um homem. Não o matei pelo mal que me fez, embora estivesse no meu direito. Matei-o pelo bem que não fez” (p. 42). Todas as personagens se chamam Catarina, excepto o fascista também em cena, o ideólogo do partido de extrema direita, raptado para ser morto por uma das mulheres da família.

É uma peça que nos perturba. O que está ali em jogo: justiça ou vingança? Vale a pena continuar a apostar em eleições, em manifestações, em petições, ou a resposta ao ascenso do extremismo fascista tem de se combater com acções radicais? “Deve ou não dar-se a palavra a alguém que discursa contra o edifício democrático? Deve aceitar-se que tenha palco, que use a liberdade para falar sem censura ou, pelo contrário, ser silenciado?” (p. 222)

Se o texto é extremamente forte pelas questões que coloca, pelo carácter quase premonitório de um futuro governo liderado por fascistas, também alerta para os alçapões e fragilidades do sistema democrático que deram azo a que a desconfiança, o ressentimento e a raiva medrassem e dessem espaço ao discurso sedutor, simplista, manipulador e perigoso da extrema-direita.

 

27 de Fevereiro de 2026

 

 

 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Nem Todas as Árvores Morrem de Pé - Luísa Sobral

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“Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” -Luísa Sobral, 2025

No prefácio deste livro, Luísa Sobral revela-nos ser uma escutadora, uma boa ouvinte, que aproveita muito do material de escuta ocasional para as suas criações enquanto autora de canções. Neste caso, para a escrita de “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” o seu primeiro romance. A partir duma “história incrível” lida num jornal de Vila Real, que uma amiga lhe enviou através de uma mensagem de whatsapp, aquela história, não só deu azo a uma canção que ela escreveu logo naquela noite, como lhe ficou a matutar e deu origem a este “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”. Confesso que o Prólogo, que li logo que comprei o livro, é avassalador, muito visual e pus o livro de parte. Mas, na manhã seguinte, voltei a pegar-lhe e li-o em dois dias.

Para já o livro é visualmente muito bonito, para além da escrita poética e bem elaborada, na sua estrutura. Para quem quiser começar pela canção, basta usar o código QR logo a abrir o livro. Depois a capa e as ilustrações de plantas da autoria de Camila Beirão, as quais encimam todos os capítulos da narradora, apaixonada pela natureza e que organiza um herbário com todas as espécies que colhe nas suas saídas para o campo. A narrativa é fragmentária e a história da narradora e das restantes personagens vai-se desvendando aos poucos.  Surgem capítulos com a letra em itálico sendo Emmi a narradora; as cartas de Markus para Emmi e os capítulos também em itálico da Tia da narradora. É da conjugação destes capítulos, interligados com pequenas frases/reflexões/pensamentos, que se constrói este belo livro, muito bem escrito. Detectei que a escolha dos títulos dos capítulos com o nome de plantas, seguido do nome científico e das características das plantas, nomeadamente o seu poder curativo, não foi casual, antes deliberada, o que torna o romance ainda mais interessante.

A história tem como ponto central o Muro de Berlim construído 2 anos antes de M. a narradora ter nascido. O Muro é o regime opressivo, o peso da suspeita e do medo, aquilo que dividiu famílias durante vinte e oito anos. Dividida entre o amor ao pai e o medo de não corresponder ao modelo que ele queria, sente-se rejeitada pela mãe sem ter para isso uma explicação. Tímida, sem vontade própria, foi Mavie a ama que a acompanhou até à entrada na escola e lhe incutiu o amor às plantas e aos seus efeitos curativos. O seu refúgio na natureza e a paixão em fazer um herbário eram os seus momentos de felicidade, ela que “só sabia falar com as plantas” (pág. 22) e para quem “o medo era a minha doença crónica” (pág. 61).

Em contraponto ao Muro, a liberdade protagonizada pelas plantas que a narradora colecciona, o herbário, Mavie, Klaus, Matteo, Francesca, Angelo e a concretização da fuga. Os traumas de infância são de tal forma profundos que é com indiferença que toma conhecimento da queda do Muro. Afinal, os pais são uma cicatriz que continua aberta e aquando do seu casamento com Matteo, “o passado não foi convidado” (pág. 110).  

Emmi, a mãe da narradora, é uma personagem importante nesta história. Os seus sonhos de um amor feliz são brutalmente truncados com uma revelação inesperada. Deprimida, frustrada, encerra-se num mutismo que é ódio primeiro e depois indiferença e numa rejeição da filha recém-nascida que o marido atribui a uma “depressão” o que a ela pareceu “um bom diagnóstico para ser deixada em paz” (pág. 130). O ódio que sempre nutriu pela filha, a quem tratava por miúda, só deixou de existir quando soube que a filha tinha tido a coragem para fugir, a coragem que ela nunca tinha conseguido ter.  Emmi sentia-se cobarde, sentia que estava morta há anos e quando teve conhecimento da fuga “naquele dia comecei a amar a miúda. A minha filha” (pág. 152).

Não revelo mais nada sobre a história, pois vale mesmo a pena ser descoberta.  Quero ainda confessar que este livro me invocou duas amigas. Por causa da capa e das ilustrações botânicas do livro, a Manuela Rosa, professora de desenho e pintura, cujas estimulantes oficinas acompanho mensalmente na Quinta da Fidalga e a Irene Alves, amiga de um clube de leitura, que me ofereceu o “Herbarium” de Emily Dickinson com folhas e flores recolhidas nos campos de Amherst e com “poemas botânicos” traduzidos pela maravilhosa Ana Luísa Amaral.

14 de Fevereiro de 2026

 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Timbuktu, Paul Auster

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Timbuktu, Paul Auster, 1999


Depois de “Um Cão no Meio do Caminho” de Isabela Figueiredo e na sequência da reflexão sobre as relações de puro afecto que se estabelecem entre as pessoas e os animais, a sugestão do próximo livro, aceite pelo grupo do Círculo de Leitura da UNISSEIXAL, foi este livro de Paul Auster. Para mim, o primeiro livro que leio deste autor norte-americano falecido este ano.


Mr. Bones é a personagem principal em “Timbuktu”. Mr. Bones, um vira-lata, “uma completa embrulhada de traços genéticos” (pág. 8) que, ao longo da narrativa vai ser “baptizado” com outros nomes. Há sete anos que Mr. Bones é o companheiro fiel de Willy, um vagabundo e poeta que, embora sabendo ser “uma alma perturbada e que chumbara no exame de aptidão a este mundo”, andava “de cabeça erguida” (pág. 12), pois tinha noção do valor dos manuscritos que escrevera ao longo da vida. Afinal, “era apenas mais uma criatura bizarra na cena americana” (pág. 27), tendo Mr. Bones como seu interlocutor e fiel companheiro de jornada. Logo no início do livro, percebemos, tal como Mr. Bones, que Willy está a chegar ao fim da vida.


O que acontece a um cão que fica sozinho no mundo? Como sobreviver, quando reconhece que o dono não lhe preparou o futuro? O narrador põe-nos na cabeça de Mr. Bones que reflecte sobre si, sobre a sua visão do mundo, moldada pela aprendizagem da sua vagabundagem ao longo de sete anos com Willy. Mr. Bones tem sentimentos - ansiedade, medo, terror, bem-estar, saudades – e sonhos premonitórios que o preparam para o que virá a seguir. É também o resultado dos preconceitos e do estilo de vida errante que o seu dono lhe proporcionou. Treme quando vê polícias e foge a sete pés nas proximidades de um restaurante chinês. Fica humilhado quando ao fazer tudo bem para abocanhar um pombo, ele lhe foge no último segundo. Percepciona quem mais precisa dele e lhe confidencia os seus problemas mais íntimos. Questiona-se sobre se será melhor viver na rua e em liberdade a comer os restos que encontra, ou amarrado e confinado a um espaço limitado, mas com comida e água garantidas. Mr. Bones teve a possibilidade de conhecer o mundo da pobreza e o mundo da opulência, a rua e a “América das garagens para dois carros” (pág, 139).


Desde que Willy morreu, sempre que as suas pernas lhe permitiram, Mr. Bones fugiu. Willy falara-lhe num sítio “onde as pessoas iam depois de morrerem. (…) Nas últimas semanas, Willy não tinha falado de outra coisa, e agora não havia na mente do cão a menor dúvida de que o outro mundo era um sítio real e não uma invenção. Chamava-se Timbuktu” (pág. 45). Por muito carinho que algumas pessoas lhe tenham dado depois da morte de Willy, Mr. Bones sente saudades e sempre que sonha com ele acorda com “a sensação de que Willy continuava com ele. Mesmo que o dono não pudesse estar presente, era como se estivesse a observá-lo. (…) Mr. Bones não era propriamente um especialista em análise de sonhos, visões e outros fenómenos mentais, mas estava certo de que Willy morava agora em Timbuktu, e se há pouco estivera com Willy, talvez isso também quisesse dizer que o sonho o levara a Timbuktu.” (pág. 108).


É um livro de uma grande ternura, triste, mas com momentos hilariantes, com descrições hiper-realistas e muito bem traduzido por José Vieira de Lima. E, ao ter um cão no centro da narrativa, tem a grande qualidade de nos questionar sobre a vida dos humanos e dos animais. Uma leitura que recomendo.


11 de Dezembro de 2024

sábado, 24 de agosto de 2024

A Desobediente, Biografia de Maria Teresa Horta, 2024

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“A Desobediente – Biografia de Maria Teresa Horta”, Patrícia Reis, 2024


Antes de tudo, Patrícia Reis adverte o/a leitor/a que “esta não é uma biografia imparcial” (p. 17) nem é “uma radiografia” (p. 17) e que lhe “foi muito difícil terminar esta biografia” (p. 13). Ligam biografada e biógrafa o facto de serem amigas, jornalistas e a tristeza e a solidão de Maria Teresa Horta, desde a morte do marido, não ter deixado de, até certo ponto, contaminar a feitura deste livro.


Cada uma das cinco partes de que é feito “A Desobediente” tem, a encimar os diferentes capítulos que as constituem, os nomes de cinco das muitas obras de Maria Teresa Horta: “Espelho Inicial”, “Estranhezas”, “Anunciações”, “Jardim de Inverno” e “Poesis”.


A primeira parte – “Espelho Inicial” – que se ocupa da infância, da adolescência, da sua paixão por Luís de Barros e das escolhas de Maria Teresa Horta até ao nascimento do seu único filho, é o período estruturante de todo o resto da sua vida. Fala da mãe, da avó Camila sua grande aliada, do pai, do sentimento de desamor, de solidão e abandono, a percepção dos preconceitos em relação às mulheres e a intrepidez que desde sempre assume na escrita. A sua personalidade nos meios onde se move tem a marca da luta pela liberdade que então não existia em Portugal. Apaixonada pela escrita, pela poesia e também pelo cinema, para além de sócia de um cineclube, faz parte da direcção do cineclube ABC o que era inédito na altura. A censura, as intervenções da PIDE e o ódio visceral de Moreira Baptista secretário da Informação por Maria Teresa Horta são episódios num país que nega direitos básicos, que vicia as eleições e que manda assassinar Humberto Delgado, para além de torturar todos os que se opunham ao regime. No entanto, é também nesta altura que ela começa a entrar em contacto com escritores e a receber apoios e incentivos dos seus pares.


“Minha Senhora de Mim” foi uma pedra no charco na literatura feita até então por mulheres e de tal forma incomodou o poder, que a violenta agressão feita a Maria Teresa Horta por um grupo de legionários, iria motivar a criação de “Novas Cartas Portuguesas”. Jornalistas e também amigas de Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno decidem ao longo de nove meses escrever uma obra ímpar que vai abalar concepções sobre as mulheres, sobre a política e até sobre a própria criação literária. Uma sociedade podre e cheia de contradições não podia ficar indiferente àquela obra que é apreendida ao fim de três dias de ter sido publicada. Natália Correia, Maria Lamas, José Gomes Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues e tantos outros, para além de todos os apoios internacionais com destaque para Simone de Beauvoir e Marguerite Duras vão ser alguns dos nomes que acompanharam a onda de extraordinária solidariedade para com as três escritoras e que ficou conhecido como o processo das Três Marias que terminou com a sua absolvição no dia 7 de Maio de 1974.


A revolução aconteceu, mas as contradições criadas com as reivindicações das mulheres e com as reivindicações feministas não deixaram de existir por uma revolução democrática ter acontecido. Havia no Portugal acabado de chegar à democracia muita incompreensão e insensibilidade sobre as reivindicações específicas das mulheres, nomeadamente a questão do aborto, um tabú, a par de tudo o que tivesse a ver com os corpos das mulheres. Tema tão caro a Maria Teresa Horta, mulher assumidamente feminista, e que está no coração da sua poesia, desde sempre. Aliás, e como a biografia sobre Maria Teresa Horta abundantemente refere, nem o 25 de Abril trouxe maior visibilidade à obra da poetisa, nem lhe granjeou grande popularidade. Ser feminista não traz popularidade nem simpatia, mesmo no seio da esquerda. E então quanto à direita, nem se fala.  


Se a obra de Maria Teresa Horta está largamente divulgada, traduzida e estudada em todo o mundo, nomeadamente “Novas Cartas Portuguesas”, com destaque no Brasil, os prémios e o reconhecimento em Portugal vieram, embora tardiamente. A quarta parte da biografia dá destaque a algumas das suas obras e ao romance “As Luzes de Leonor – A Marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis”, a que dedicou treze anos de intenso trabalho, uma verdadeira “devoção”, em que “Leonor e Teresa se confundem”. (pág. 357) Insubmissa, desobediente, coerente, Maria Teresa Horta recusa receber o prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus das mãos do então primeiro-ministro Passos Coelho (2011).


A última parte da biografia começa com a morte inesperada de Luís de Barros, poucos meses antes da pandemia. A perda e a solidão são imensas, depois de uma vida de paixão intensa pelo marido ao longo de 56 anos. Maria Teresa Horta sabe que a salvação está na poesia e decide dedicar mais um livro ao marido, desta vez com o título “Paixão”. Embora mais limitada ao espaço da casa, continua sempre a escrever e sempre atenta ao mundo e à política. Mesmo a terminar a biografia, transcrevo este período que é significativo sobre esta mulher extraordinária: “O modo como está o mundo também te diz muito sobre o modo como está a vida das mulheres. Imagine-se as mulheres da Ucrânia, as atrocidades que sofrem, os devaneios pelos quais têm passado. As notícias são importantes por isso, para conseguirmos medir a pulsação das coisas”. (pág. 404)


É sempre com muito respeito e humildade que escrevo sobre livros que li e que me merecem consideração para fazer uma apreciação, como registo que gosto de partilhar. Este livro, entre outros, é um deles. Antes do mais pela consideração que me merece uma mulher feminista que toda a vida assumiu a liberdade e que nunca virou costas às dificuldades e às suas convicções mais profundas, numa postura de coragem e de coerência num mundo tão adverso à frontalidade e ao feminismo. E claro, também pela coragem da autora e pelo trabalho de grande fôlego e valor que é o de biografar uma mulher com uma vida tão rica e tão inspiradora. Parabéns. Muito obrigada às duas.


 


22 de Agosto de 2024


 


 


 


 

sábado, 22 de outubro de 2022

Torto Arado. Itamar Vieira Junior

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“Torto Arado”, Itamar Vieira Júnior , 2018

 

Este foi um daqueles livros que não parei de sublinhar, sublinhar, sublinhar. Um livro verdadeiramente excepcional, poético, poderoso, brutal, que me permitiu viver sentimentos muito fortes, como a raiva, respeito pela coragem das personagens e profunda admiração por um escritor que consegue de forma intensa e admirável assumir a pele de mulheres narradoras.

O exemplar que comprei tinha uma cinta com a indicação dos prémios obtidos por este romance do escritor baiano Itamar Vieira Junior: vencedor do Prémio Leya 2018 atribuído por unanimidade pelo júri, vencedor do Prémio Jabuti e finalista do Prémio Oceanos. Independentemente da sinopse motivadora na contracapa, o livro agarra o leitor desde a primeira página e consegue, ao longo das cerca de trezentas páginas, manter o interesse e a expectativa até ao final. Ao lê-lo, revivi “Beloved” de Toni Morrison e foi com satisfação que o encontrei na lista dos livros sugeridos pelo Plano Nacional de Leitura.

Oficialmente, a escravatura no Brasil terminou em 1888. O romance começa por volta dos finais dos anos vinte do século passado, mas os moradores da fazenda de Água Negra não sabem o que é serem livres. Descendentes de escravos vindos de África, as suas histórias têm um traço comum de errância, procurando um pedaço de terra onde pudessem trabalhar, instalar-se e criar família. Trabalham de domingo a domingo, vivem em casas precárias feitas de lama, não recebem salário e são espoliados dos poucos produtos que conseguem plantar nas suas pequenas roças, para além do armazém que o fazendeiro instalou e a que ficam amarrados, o qual os trabalhadores baptizaram de “um roubo” (p. 106). Os anos passam, as crianças crescem e tornam-se adultas, as leis mudam e o progresso vai chegando, mas para os trabalhadores e moradores da fazenda é “a mesma escravidão de antes fantasiada de liberdade” (p. 234).

Num mundo aparentemente imutável, com uma hierarquia de poder na fazenda em que os capatazes e subalternos reproduzem o poder e a ordem coloniais, os trabalhadores vivem submetidos a práticas religiosas de matriz africana, encontrando aí resposta aos seus males e aos seus medos. Mas a exploração não é só dos fazendeiros relativamente aos trabalhadores, invisíveis e sem quaisquer direitos. O padrão do poder patriarcal vive-se nas famílias. Os homens cobiçam as raparigas mal elas começam a tornar-se mulheres “com os olhares invasivos que nos despetalavam como flores” … “Muitas caíam sob o peso da insistência, não resistiam às abordagens, e com as bênçãos dos pais se uniam com seus corpos ainda em formação. Sucumbiam ao domínio do homem, dos capatazes, dos fazendeiros das cercanias.” (p. 55). “Éramos preparadas desde cedo para gerar novos trabalhadores para os senhores, fosse para as nossas terras de morada ou qualquer outro lugar onde precisassem” (p. 135). Mulheres tratadas como criadas, como receptáculos para a satisfação sexual dos homens, vítimas de violência extrema… Mas, para além de os pais de Bibiana e Belonísia terem uma visão diferente e perceberem que era preciso construir uma escola para os filhos dos trabalhadores, Severo, que vai ser sindicalista e lutar pela emancipação do seu povo, será quem, pela primeira vez, irá abrir novos horizontes e uma perspectiva de mudança e uma nova vida a Bibiana. “Nunca havia conhecido ninguém que me dissesse ser possível uma vida além da fazenda. Achava que ali havia nascido e que ali morreria, como acontecia à maioria das pessoas”. “Queria experimentar a vida, para ver o que poderia nos acontecer” (p. 76).

O desejo de liberdade, o direito à terra, o tomar a palavra e exprimir a revolta de séculos, a luta de resistência e emancipação dos quilombolas são os grandes temas deste maravilhosos romance que nos narra as lutas dos povos de uma fazenda no sertão do Brasil, centrado na personalidade e na coragem das mulheres. Bibiana e Belonísia, inesquecíveis personagens deste livro, apesar de as suas personalidades serem tão diferentes, ficarão, após um acidente que lhes mudará a vida para sempre, ligadas como se de siamesas se tratasse.

A uma semana de um resultado eleitoral decisivo para o futuro do Brasil, este romance é um grito de revolta contra a opressão, a força da coragem e da união quando chega o momento de desobedecer e de mudar. Oxalá o povo brasileiro tenha o discernimento para vencer o obscurantismo, a prepotência e a mentira.

22 de Outubro de 2022

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

#8 Anne Frank

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#8 Anne Frank


Anne Frank uma adolescente judia, escondida com mais oito pessoas num anexo, precisava de respirar, de dar vazão à sua necessidade de liberdade. Durante dois anos, confinada entre Junho de 1942 e Agosto de 1944 escreveu um diário, como se escrevesse a uma amiga – Kitty. “Espero que te possa confiar tudo a ti; o que, até agora, nunca pude fazer a ninguém, e espero que venhas a ser um grande amparo para mim.”


Anne Frank foi a minha primeira colagem em confinamento e sem qualquer apoio da Joana. Ela foi uma inspiração, tal como o seu diário. Quantos diários se escreveram no confinamento! Ela confinada por causa dos nazis; nós confinados por causa de um vírus. Por coincidência, andávamos a ler “Diary of a Young Girl” nas aulas de inglês da UNISSEIXAL. Tinha mesmo de tentar retratá-la numa colagem e de trazer o seu Diário para a minha composição.


Ver a rua através da janela. Ver as aves livres e conseguir ouvi-las. Na rua, silêncio e o mundo parado. Houve quem achasse que ia ficar tudo bem. Houve quem achasse que os humanos iriam aprender a respeitar os outros e a natureza.


 


 


 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Paddy, Sara, Muro, Desigualdade Salarial, Lula, Vox

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Paddy, Sara, Muro, Desigualdade Salarial, Lula, Vox…


Numa semana, estes nomes ou estes títulos encheram as páginas dos nossos jornais, foram motivo para peças nos telejornais, deram horas de debate nas redes sociais. Como sempre, a intensidade da notícia é alta, a reflexão frequentemente escassa e a avidez de novidades exige que se passe à notícia seguinte, porque o presente é que conta e se der boas audiências, tanto melhor.


Mas importa parar, reflectir e concluir que os acontecimentos não surgem e passam sem deixar marcas e algumas bem fortes para o futuro.


Paddy e o glamour do mundo digital. Muito empreendedorismo, muita tecnologia, muitos convidados topo de gama, numa cidade preparada para a enchente. Tudo brilha, muito neon como convém, mas no melhor pano cai a nódoa: o que seria da web summit sem 2700 voluntários a trabalhar sem ganhar e sem direitos?


Sara. Há Saras e Saras. Esta é jovem, sem-abrigo, negra e foi crucificada na praça pública porque abandonou o seu filho recém-nascido junto a um contentor. O que será feito do pai da criança? O que será a cabeça desta jovem mãe que deita o seu filho no lixo? Felizmente o bebé sobreviveu, possivelmente encontrará uma família que o vai acolher e amar. O presidente foi deitar um olho para dentro do contentor, possivelmente fez uma selfie. Vamo-nos esquecer da Sara?


Muro. 30 anos depois. Deitou-se aquele abaixo, outros ficaram e mais outros estão a ser construídos: na Palestina, no Sahara Ocidental, na fronteira do México, na Europa… A Europa fortaleza  que ficou mais muralhada contra os refugiados, os que fogem da guerra, olhados como terroristas. Contra os refugiados que não se afogaram no Mediterrâneo.


Desigualdade salarial. A partir de 8 de Novembro, tendo em conta a desigualdade entre os salários dos homens e das mulheres, é como se as mulheres trabalhassem à borla até ao final do ano. Como os/as voluntários da web summit. A velha consigna “para trabalho igual, salário igual” não passa de uma consigna. A desigualdade de género não é uma falácia.


Lula livre!  gritou-se na sexta-feira. A esperança na mobilização dos muitos cidadãos brasileiros na reposição da verdade e na luta contra um presidente corrupto, ignorante, reaccionário, incapaz. O Brasil merece respeito, democracia, liberdade.  Lembrando Chico Buarque “Canta a primavera, pá/Cá estou carente/Manda novamente/Algum cheirinho de alecrim”.


E finalmente, Vox. Não vale a pena ignorar que o Vox foi o grande vencedor da noite de domingo. Desgraçadamente. Mais de 3 mihões de espanhóis acharam que ali estava a solução para as suas vidas! Órban, Salvini, Erdogan, Marine le Pen, Bolsonaro, Trump, Ventura estão a esfregar as mãos de contentes. Nuvens negras no horizonte.


Concluo dizendo que há tanto motivo para lutar. Pela democracia, pela liberdade, pelos direitos para todos e todas. Tantos avanços, tantos recuos. Tanta certeza de que tudo já estava adquirido, mas a constatação de que os pequenos passos mesmo pequenos têm de ser acompanhados e não deixados sem guarda. Os sindicatos, os movimentos sociais, as forças e organizações de esquerda têm um papel insubstituível neste combate que não tem fim. Mãos à obra, que se está a fazer tarde.


(Este texto foi publicado a 12 de Novembro de 2019 no site do SPGL - Notícia do Dia)

quinta-feira, 25 de abril de 2019

A Poesia está na rua

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25 de Abril


Quando me pedem que fale sobre essa data e sobre as impressões que essa data me sugere, invariavelmente trago o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen e o quadro «A Poesia está na Rua» de Vieira da Silva. São as sínteses perfeitas, em palavras e em imagens , daquilo que vivemos nessa altura.


Era uma jovem de 23 anos, trabalhando num escritório de uma fábrica metalomecânica como tradutora, quando ocorreu o 25 de Abril.


As imagens mais fortes que tenho desses dias têm a ver com a rua, as vozes das pessoas que falavam umas com as outras mesmo não se conhecendo, nos transportes públicos, nos cafés, em qualquer sítio. Era a explosão da liberdade, dos sentidos, da alegria. Era o rio a transbordar.


A música e os poemas ligados às músicas são as marcas mais fortes que tenho. O Sérgio Godinho, o José Mário Branco, as músicas que ouvíamos e cantávamos até à exaustão. Mais tarde os poemas do GAC, canções revolucionárias que nos diziam tanto. Foi um tempo pouco dado à leitura, à literatura, era difícil estar muito tempo sentada a ler.


Mas lembro-me que houve um tempo em que devorei os três volumes de "Os Subterrâneos da Liberdade" de Jorge Amado. As viagens de comboio ajudavam a encontrar o tempo para a leitura e para apreender a vivência dura da militância em tempos de ditadura.


Foi um tempo memorável. Foi uma felicidade única poder viver esse tempo.


Viva o 25 de Abril.


Almerinda


25 de Abril de 2019


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"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...