“Os Nomes”, Florence Knapp,
2025
Um livro excelente que apetece ler com calma, pelo cuidado e profundidade da escrita, pela singularidade da estrutura, pela atenção dada aos detalhes e pela relevância dos temas que aborda. É um livro consistente, sério, quando podia ser mais um que aborda de forma superficial e ligeira um problema social de enorme relevância. Foi o segundo livro que li neste mês de Agosto e penso que a sua memória vai permanecer pelo impacto que causou em mim.
São três histórias autónomas com alguns traços comuns, mas com desenvolvimentos diferentes. Decorrendo entre 1987 e 2022, com saltos temporais de sete anos, a questão colocada é até que ponto o nome com que somos registados nos pode conduzir a percursos diferentes de vida? Esta ideia é sugerida pela capa do livro a partir de um acrílico da artista espanhola Eva Navarro, a que a autora faz referência na nota final. Bear, Julian e Gordon três nomes, três vidas.
O tema central de “Os Nomes” é a violência doméstica e o impacto que tem nas vítimas, nomeadamente nas mulheres e nos filhos e filhas que acabam por viver diariamente o ambiente de violência e agressão dentro de casa. Que marcas ficam? Conseguem ser superadas? Que impactos deixam em relacionamentos futuros? Como lida a sociedade com uma situação que nem sempre é perceptível ou que sendo, é frequentemente ignorada porque incómoda? Sobretudo se o agressor for uma pessoa bem vista na sociedade, alguém com uma actividade social relevante que, à partida, a sociedade não vai imaginar como é em casa. Qual o papel dos vizinhos, dos familiares mais próximos, quando a solidariedade e a sensibilidade são determinantes para as vítimas não ficarem à mercê dos agressores? Estão as instituições de apoio – polícia, saúde, educação, assistência social – suficientemente preparadas para responder, para acompanhar, para cuidar, quando aqui não basta ser-se um bom profissional, cumprindo os protocolos que já estão perfeitamente definidos e interiorizados. Quando se chegou a um ponto de perda de autonomia, de despersonalização, de incapacidade de resposta, de medo permanente, de ausência de defesas, como aconteceu com Cora, se não há um apoio efectivo por parte do Estado e uma penalização de quem humilha, maltrata, agride, mata, a sociedade vai continuar a banalizar uma chaga social que é um crime público.
Durante muito tempo só as mulheres eram percepcionadas como vítimas, apesar de as casas de abrigo terem sempre mais crianças que mulheres. “Havia tantas outras famílias, mulheres e crianças, amontoadas. Tínhamos algumas coisas em comum com algumas delas. Para além daquilo, quer dizer. Mas com outras tentávamos apenas coexistir. Não eram necessariamente quem teríamos escolhido para partilhar uma cozinha. E as pessoas nem sempre estavam no seu melhor. Todos tinham passado por maus bocados. A minha mãe tinha alguém com quem falar sobre as coisas enquanto lá estivemos, uma assistente social ou algo do género, mas connosco ela era apenas mãe. No entanto, acho que ela também devia estar apavorada.” (pág. 104) As crianças também são vítimas, vivem num terror contínuo, na vergonha de falar, auto censuram-se, são manipuladas, adaptam-se a um ambiente que as não deixa respirar nem crescer e irão carregar ao longo da vida um passado de que dificilmente se conseguem libertar. “Porque, sempre que pensa na mãe, todo o seu ser se enche de culpa. Por não ser suficiente. Por não ser uma filha com quem Cora desabafa. Por não desafiar o pai agora que é adulta, porque, quando está na presença dele, volta a ter 9 anos, a estar oca e assustada, o vento a soprar diretamente através dela. A Medicina é a única coisa que têm em comum, o único tema seguro entre eles, o que ela sente como um alívio, mas também como uma traição.” (pág. 222)
A última parte do livro passa-se no período dos confinamentos devidos à pandemia global de 2020. Como anteriormente escrevi, são três histórias diferentes, mas trago aqui um excerto interessante de como Cora, mãe de Gordon, divorciada e a viver sozinha, enfrentou o confinamento. “Ela ainda se assusta quando a porta de um carro bate lá fora ou se baterem inesperadamente à porta. Ainda carrega as cicatrizes e rangidos de um corpo que não foi bem cuidado. Tenta atenuá-los com ioga e pilates, mas não há como escapar à artrite que se instalou em ossos partidos que nunca sararam corretamente. Cora sente o peso da preocupação dos seus filhos e da responsabilidade que eles sentem por ela. Durante o confinamento, eles iam até ao passeio em frente para a visitar e deixar presentes desinfetados à sua porta.
(…)
- Estou bem! Tenho livros e podcasts. Toda a Internet como companhia!
(…)
- Eles ficavam céticos, como se ela estivesse a dourar a pílula. De algum modo, mesmo tendo testemunhado a realidade diária da sua vida, eles não eram capazes de compreender verdadeiramente que ela enfrentara um confinamento muito mais draconiano por mais de quarenta anos. Com a COVID-19 ela podia lidar; esta, pelo menos para ela, seria fácil.” (pág. 274)
Interessou-me neste texto levantar questões e, sobretudo, incentivar as pessoas a lerem o livro. Um problema terrível em todas as sociedades, que atravessa todas as classes sociais e ao qual há que dar combate. “Os Nomes”, não querendo tornar cor-de-rosa aquilo que é medonho, traz-nos um sinal positivo, de esperança, de superação. Convido-vos a lê-lo como eu fiz, dando atenção aos detalhes, às linhas que ligam aquelas pessoas que surgem nas três histórias do rapaz que o pai queria que se chamasse Gordon, para seguir a tradição da família. E sobretudo, retirarmos deste romance, que cada um/a de nós pode ser um agente de mudança, denunciando situações de violência às vezes ali mesmo ao lado no nosso prédio. A cidadania implica que se quebre o silêncio cúmplice da impunidade.
23 de Agosto de 2026
Um livro excelente que apetece ler com calma, pelo cuidado e profundidade da escrita, pela singularidade da estrutura, pela atenção dada aos detalhes e pela relevância dos temas que aborda. É um livro consistente, sério, quando podia ser mais um que aborda de forma superficial e ligeira um problema social de enorme relevância. Foi o segundo livro que li neste mês de Agosto e penso que a sua memória vai permanecer pelo impacto que causou em mim.
São três histórias autónomas com alguns traços comuns, mas com desenvolvimentos diferentes. Decorrendo entre 1987 e 2022, com saltos temporais de sete anos, a questão colocada é até que ponto o nome com que somos registados nos pode conduzir a percursos diferentes de vida? Esta ideia é sugerida pela capa do livro a partir de um acrílico da artista espanhola Eva Navarro, a que a autora faz referência na nota final. Bear, Julian e Gordon três nomes, três vidas.
O tema central de “Os Nomes” é a violência doméstica e o impacto que tem nas vítimas, nomeadamente nas mulheres e nos filhos e filhas que acabam por viver diariamente o ambiente de violência e agressão dentro de casa. Que marcas ficam? Conseguem ser superadas? Que impactos deixam em relacionamentos futuros? Como lida a sociedade com uma situação que nem sempre é perceptível ou que sendo, é frequentemente ignorada porque incómoda? Sobretudo se o agressor for uma pessoa bem vista na sociedade, alguém com uma actividade social relevante que, à partida, a sociedade não vai imaginar como é em casa. Qual o papel dos vizinhos, dos familiares mais próximos, quando a solidariedade e a sensibilidade são determinantes para as vítimas não ficarem à mercê dos agressores? Estão as instituições de apoio – polícia, saúde, educação, assistência social – suficientemente preparadas para responder, para acompanhar, para cuidar, quando aqui não basta ser-se um bom profissional, cumprindo os protocolos que já estão perfeitamente definidos e interiorizados. Quando se chegou a um ponto de perda de autonomia, de despersonalização, de incapacidade de resposta, de medo permanente, de ausência de defesas, como aconteceu com Cora, se não há um apoio efectivo por parte do Estado e uma penalização de quem humilha, maltrata, agride, mata, a sociedade vai continuar a banalizar uma chaga social que é um crime público.
Durante muito tempo só as mulheres eram percepcionadas como vítimas, apesar de as casas de abrigo terem sempre mais crianças que mulheres. “Havia tantas outras famílias, mulheres e crianças, amontoadas. Tínhamos algumas coisas em comum com algumas delas. Para além daquilo, quer dizer. Mas com outras tentávamos apenas coexistir. Não eram necessariamente quem teríamos escolhido para partilhar uma cozinha. E as pessoas nem sempre estavam no seu melhor. Todos tinham passado por maus bocados. A minha mãe tinha alguém com quem falar sobre as coisas enquanto lá estivemos, uma assistente social ou algo do género, mas connosco ela era apenas mãe. No entanto, acho que ela também devia estar apavorada.” (pág. 104) As crianças também são vítimas, vivem num terror contínuo, na vergonha de falar, auto censuram-se, são manipuladas, adaptam-se a um ambiente que as não deixa respirar nem crescer e irão carregar ao longo da vida um passado de que dificilmente se conseguem libertar. “Porque, sempre que pensa na mãe, todo o seu ser se enche de culpa. Por não ser suficiente. Por não ser uma filha com quem Cora desabafa. Por não desafiar o pai agora que é adulta, porque, quando está na presença dele, volta a ter 9 anos, a estar oca e assustada, o vento a soprar diretamente através dela. A Medicina é a única coisa que têm em comum, o único tema seguro entre eles, o que ela sente como um alívio, mas também como uma traição.” (pág. 222)
A última parte do livro passa-se no período dos confinamentos devidos à pandemia global de 2020. Como anteriormente escrevi, são três histórias diferentes, mas trago aqui um excerto interessante de como Cora, mãe de Gordon, divorciada e a viver sozinha, enfrentou o confinamento. “Ela ainda se assusta quando a porta de um carro bate lá fora ou se baterem inesperadamente à porta. Ainda carrega as cicatrizes e rangidos de um corpo que não foi bem cuidado. Tenta atenuá-los com ioga e pilates, mas não há como escapar à artrite que se instalou em ossos partidos que nunca sararam corretamente. Cora sente o peso da preocupação dos seus filhos e da responsabilidade que eles sentem por ela. Durante o confinamento, eles iam até ao passeio em frente para a visitar e deixar presentes desinfetados à sua porta.
- Estou bem! Tenho livros e podcasts. Toda a Internet como companhia!
(…)
- Eles ficavam céticos, como se ela estivesse a dourar a pílula. De algum modo, mesmo tendo testemunhado a realidade diária da sua vida, eles não eram capazes de compreender verdadeiramente que ela enfrentara um confinamento muito mais draconiano por mais de quarenta anos. Com a COVID-19 ela podia lidar; esta, pelo menos para ela, seria fácil.” (pág. 274)
Interessou-me neste texto levantar questões e, sobretudo, incentivar as pessoas a lerem o livro. Um problema terrível em todas as sociedades, que atravessa todas as classes sociais e ao qual há que dar combate. “Os Nomes”, não querendo tornar cor-de-rosa aquilo que é medonho, traz-nos um sinal positivo, de esperança, de superação. Convido-vos a lê-lo como eu fiz, dando atenção aos detalhes, às linhas que ligam aquelas pessoas que surgem nas três histórias do rapaz que o pai queria que se chamasse Gordon, para seguir a tradição da família. E sobretudo, retirarmos deste romance, que cada um/a de nós pode ser um agente de mudança, denunciando situações de violência às vezes ali mesmo ao lado no nosso prédio. A cidadania implica que se quebre o silêncio cúmplice da impunidade.
23 de Agosto de 2026

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