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domingo, 2 de maio de 2021

Mãe

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“Hoje o dia vai correr bem!” era uma das primeiras frases que lhe ouvia quando lhe telefonava ou ela me telefonava. Praticamente todas as manhãs, não por obrigação, mas como rotina boa, como todas as nossas rotinas sem as quais sentimos que algo está a faltar. Já tinha visto um melro e esse era o sinal de vida que a ajudava a acreditar que era bafejada pela sorte, mesmo com todas as adversidades com que lidava de forma positiva e sem se deixar abater.


No dia em que fiz 70 anos, levantei-me à hora em que sabia iria receber os primeiros parabéns do dia. O prazer que tinha em receber telefonemas no dia do seu aniversário, era também o prazer que tinha na sua relação de amor e amizade generosa com os outros. Eu tinha sido a sua segunda filha e aqueles telefonemas cedo “para acordar a bebé”, faziam-lhe recordar o parto em casa, que não tinha sido fácil, mas para ela mais uma bênção. 70 anos, sem a voz dela, mas sentindo como se ela me estivesse a acompanhar. Fui até à janela sentir o fresco da rua e lá estavam dois melros divertidos sobre a relva, a fazer pela vida. “Hoje o dia vai correr bem!”, não havia dúvidas.


Para além das nossas parecenças físicas, muitas das minhas habilidades herdei-as dela, sem dúvida, excepto o costurar, que detesto. Os gestos dela, seguindo as receitas favoritas ou as antigas dos doces de Natal, estão em mim. O gosto de mimar quem amo aprendi-o com ela. A força para ultrapassar medos, fragilidades, inseguranças, vou buscá-la ao seu sorriso lindo que sempre me inspira quando os dias estão mais cinzentos.


Hoje é o teu dia, Mãe. Foi o meu filho que mo lembrou quando hoje me estendeu um vasinho de alfazema. Ainda não consegui ultrapassar os tempos do 8 de Dezembro, Dia da Mãe. Fazíamos uma festa, então. Fazemos uma festa, hoje. Damos o melhor que temos.


Hoje o dia vai correr bem!


Nota: esta aguarela foi-me oferecida pela Zita e pela Ana no dia dos meus 70 anos, sabendo elas como eu gosto de melros. 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

#9 Mãe

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#9 Mãe


Ela não podia deixar de aqui figurar. A maior referência da minha vida.


A grande inspiradora. Sempre e ainda hoje.


Ficou no coração de muitas pessoas que a conheceram e que continuam a falar do seu sorriso, do optimismo, de nunca achar que havia impossíveis. Aquelas mãos eram mágicas. Na costura, na cozinha, em tudo onde poisasse as mãos. Escolhi o poema de Carlos Drummond de Andrade, porque tudo o que saía daquelas mãos tinha um sabor, um toque especial. Comovente encontrar aquele cartão que acompanhara uma prenda nalgum Natal de família, naquela caligrafia bicuda inesquecível e com um adorável “erro” ortográfico: “Senhor, quida bem da pessoa que está a ler esta mensagem.” Quem melhor do que a Gracinha para ser a pessoa a ler todos os dias aquela mensagem!?


E por fim o melro. “Hoje já vi um melro. O dia vai-me correr bem”.


Colagem feita no Dia da Mãe.

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...