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quinta-feira, 28 de março de 2024

Paula Rego - a Luz e a Sombra Uma Forma de Olhar , Cristina Carvalho

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“Paula Rego – A Luz e a Sombra Uma Forma de Olhar”, Cristina Carvalho, 2023


Quando lemos os romances biográficos de Cristina Carvalho, sempre sentimos a estreita ligação afectiva entre a narradora e o biografado ou a biografada e às vezes perguntamo-nos se o que estamos a ler se refere à narradora ou à pessoa que é objecto do romance biográfico. É essa profunda ligação e a liberdade que é dada ao leitor, um dos grandes fascínios da escrita de Cristina Carvalho. Ao longo da leitura deste maravilhoso romance, tantas vezes me acorreu se a narradora era Paula Rego ou Cristina Carvalho, porque sinto que as duas personalidades têm muito em comum. Mas isto sou eu, enquanto leitora e enquanto leitora deste “Paula Rego”. Trago aqui o epílogo, em que Cristina Carvalho faz uma reflexão sobre a memória e avisa: “Este curto livro não pretende revelar a intimidade da artista, nem isso seria possível. Também não pretende analisar a estrutura, o ideal ou a imaginação que esteve presente em toda a sua obra, tudo o que se conhece e tudo o que se não conhece. É, precisamente, o deixar à vontade a imaginação de quem observa, tendo por base algumas circunstâncias vivenciais, relacionais, em suma, existenciais.” (pág. 153)


Quero, antes do mais, dizer como gosto da pintura de Paula Rego e como passei a gostar ainda mais depois da grande série que fez sobre o aborto, apoiando com a sua Arte a luta que se travava cá em Portugal pela dignidade e pela liberdade de escolha. As mulheres – “seres mártires ao longo de tantos séculos” (pág. 30) – as suas vidas de sofrimento e a incompreensão a que têm sido votadas estão sempre presentes nas telas de Paula Rego. “São fortes, musculadas, as mulheres que eu pinto. (…) Às vezes eu própria me assusto! São tão feios, tão brutais, tão violentos, esses corpos, que fico a pensar no que acabei de conceber. (…) Mas chego sempre à mesma conclusão: preciso, tenho obrigação de mostrar a toda a gente um sofrimento mais do que silencioso, este sofrimento das mulheres da minha época, de todas as épocas.” (pág. 69). No inesquecível capítulo “Os Uivos do Mar” Cristina Carvalho transporta-nos para as praias da Ericeira onde os abortos aconteciam “sem disfarces” (pág. 62).


O pai, uma das figuras de referência de Paula Rego, cedo percebeu que a filha tinha qualidades que não se coadunavam com a tacanhez de Portugal de Salazar e, em 1952, envia a filha para Londres para estudar na Slade School of Fine Art: “Vais-te embora, que isto não é um país para mulheres!” (pág. 47). Menina, adolescente, mulher que viveu e conviveu toda a vida com medos, com depressões, fez, através da Arte, a cura e a representação das ideias, das memórias da infância com os avós, das histórias tradicionais contadas pela tia Ludgera, da vida comum das pessoas e sobretudo das mulheres.”Os meus quadros representam e apresentam a vida tal qual é: grotesca, disforme, raras vezes amena ou calma” (pág. 134).


Sendo estruturantes os espaços e os diferentes sítios que marcaram a infância e depois a idade adulta de Paula Rego, não admira que este romance biográfico dedique tanta atenção à descrição desses lugares, com especial carinho pela Quinta da Ericeira onde viveu com os avós e mais tarde já casada com Victor Willing, com quem partilhou a antiga adega, amplo espaço transformado em oficina. Mas Londres, que Victor preferia para trabalhar e a que regressaram definitivamente depois de 1976, Paula Rego sentia-a como sua pátria, nem portuguesa nem inglesa. No entanto, o amor pela Ericeira nunca a deixou e ficou registado em muitas das suas telas.


Depois de se ler “Paula Rego – a Luz e a Sombra Uma Forma de Olhar”, sente-se necessidade de revisitar a obra de Paula Rego, de olhar com mais atenção para “A Dança”, de encontrar alguns detalhes como as lagostas, de observar as mulheres e descobrir em muitas o rosto de Lila ou de ver Anthony Rudolph, modelo e amigo de Paula Rego durante um quarto de século, ou imaginar os bonecos e figuras grotescas que se amontoavam no estúdio de Londres. E rever o filme “Paula Rego – Histórias & Segredos” feito pelo filho Nick Willing.


28 de Março de 2024


Almerinda Bento

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Rebeldia, Cristina Carvalho

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“Rebeldia”, Cristina Carvalho, 2017


 


Acabo de ler “Rebeldia” de Cristina Carvalho e penso: quantas Leninhas existem? Quantas vezes não nos sentimos como a Leninha? Até que ponto não nos revemos também na Leninha, por muito que isso nos custe aceitar?


Tirei poucas notas à medida que fui lendo, mas sublinhei e vivi muito este livro. Só conhecia a escrita de Cristina Carvalho de alguns romances biográficos, diferentes deste romance da vida de uma mulher que desde jovem ambiciona outros horizontes que a afastem da vida sem graça da infância e da Pensão Popular dos seus pais. “Sou uma mulher de repentes e de vontades e de cheiros e de apetites, uns dias mais do que outros, é certo, mas sem nunca abandonar estes repentes que, por vezes, fazem com que eu chegue a cambalear de emoções” (pág. 78) diz/escreve a narradora Leninha a certa altura do romance. A felicidade pode estar naquela vista para o rio lá ao fundo, com os reflexos da luz do sol e os barcos a passar, podem ser aqueles olhos azuis, Blue Eyes, mesmo sabendo que são fugazes e mentirosos.  


É a história de uma mulher que sonha, mas que acaba por ter uma vida sofrida, de violências e de desamor, feita de tentativas, recaídas, ausências, silêncios, fugas, mentiras, culpas, desculpas. É um livro duro, sobre a violência das amarras de um casamento de que tenta fugir, como que enredada numa teia de aranha.


É um livro sobre a(s) violência(s), difícil de esquecer, de tal modo está bem escrito, com tanta subtileza.


 


31 de Agosto de 2023


Almerinda Bento

sábado, 28 de agosto de 2021

Hoje não havia jacarandás em flor...

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Hoje não havia jacarandás em flor…


Hoje não havia jacarandás em flor. Mas eles continuam lá. Muito calor. Muita gente. Livros ao alcance das mãos, a serem folheados, em sacos, livros em promoção, filas para pagar livros, filas para autógrafos. Há quem procure pechinchas, quem tente encontrar aquele livro, quem se socorra da lista de livros a comprar e que vai crescendo… quem queira simplesmente desfrutar da alegria do encontro com os livros a céu aberto.


Este ano já lá passei duas vezes, afinal de contas estava com um ano em atraso, porque em 2020 não ousei visitar a Feira do Livro.


Não sei se foi das máscaras, mas não encontrei ninguém conhecido. Conhecidos mesmo só os/as autores/as dos livros que comprei. A Patti Smith que conheço da música vai ser uma estreia enquanto escritora. Os outros já são meus conhecidos, mas como há sempre tanto neles a descobrir, trouxe mais uns livros que não sei onde vão caber, porque espaço nas estantes já não há.


Até dia 12 de Setembro, não digo que não volte lá. Mesmo sabendo que jacarandás em flor, só para o ano.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Ingmar Bergman: O Caminho contra o Vento

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Ingmar Bergman: O Caminho contra o Vento, Cristina Carvalho, 2019


 


Pertenço a uma geração que viu grande número de filmes realizados por Ingmar Bergman. Filmes de personagens, com grandes diálogos, marcados por uma cultura e uma paisagem muito distintas daquelas a que estávamos habituados. Cristina Carvalho, neste romance biográfico desvenda-nos um Bergman solitário, voluntariamente isolado, a viver os seus últimos anos, na ilha de Farö no mar Báltico.


A ilha que escolheu para viver em 1960 quando ainda jovem e onde filmou alguns dos seus filmes é agreste, pequena, isolada, muito ventosa, um lugar improvável para alguém querer ali estabelecer-se. Para além dos habitantes da ilha que o acolheram e aceitaram como um dos seus, foi o silêncio apenas quebrado pelos sons das aves, a praia, as rochas, as pequenas flores  do tremoceiro e sobretudo a paz que o atraíram para aquele lugar longe da multidão e do resto do mundo. Agora, já velho, quando sai de casa para o seu passeio pelos trilhos até à praia, ao abrir a porta empurrando-a contra o vento, pergunta-se até quando o conseguirá fazer. O vento é uma constante e as forças já lhe faltam. 


O seu estilo de vida metódico, marcado pela pontualidade, pelo rigor e pela perfeição quer na actividade teatral como director de actores, como realizador de cinema ou na escrita de guiões, esse estilo manteve-o na ilha, já afastado de qualquer actividade profissional. As rotinas diárias quase obsessivas do acordar, do passeio pela praia, do ler, do ouvir música ou de ver filmes no celeiro-cinema em Dämba são rituais que ele ama e que vai fazer praticamente até ao final dos seus dias. Ignorando telefonemas, quase sem contactos humanos, tem apenas de conviver a contragosto com Anita que lhe cuida da casa e lhe prepara as refeições.


No seu diário imaginado faz desabafos. Recorda o pai, um tirano, um padre protestante que só era gentil com os seus paroquianos, mas que vivia para infernizar a vida de Ingmar, do irmão, da irmã e da mãe, para os violentar e para lhes pregar sermões. Atribui ao pai as dores de estômago que desde sempre teve e que associa ao pânico que ele lhe infundia. Um homem maléfico que o levou a abandonar a casa paterna muito cedo. Mas, sem dúvida, foram as figuras femininas omnipresentes no romance e na vida de Ingmar Bergman que foram marcantes na vida e na personalidade do cineasta. A mãe, Karin Bergman, que ele vai associar muito à sua quinta e adorada mulher Ingrid, a avó Anna Calwagen que lhe dava toda a liberdade e as várias mulheres com quem casou, com quem teve relacionamentos diversos ou que passaram pela sua vida. Foram muitas. Mulheres fortes, algumas belíssimas, todas elas artistas em diferentes áreas e géneros, a todas ele amou e manteve com elas uma amizade até ao fim da vida. Muito ausente da vida dos nove filhos das suas seis mulheres, deixou-lhes, no entanto, em testamento, o dinheiro resultante do leilão das casas que construiu na ilha de Farö e que actualmente são geridos por uma fundação e constituem um complexo de equipamentos destinados às artes e a residências de artistas e investigadores da obra e do extenso legado de Ingmar Bergman.


Sendo um romance biográfico, não é uma biografia, pelo que a autora usou toda a liberdade literária para, a partir das pesquisas e de toda a informação que recolheu sobre o cineasta, nos fazer um retrato da personalidade e dos traços gerais da vida de um homem comprometido com um trabalho de elevada qualidade. “Lembro-me de tantos filmes modestos que realizei, tão modestos na sua dimensão artística. Sim, porque eu sei a qualidade de tudo o que fiz”. “ Eu sou, eu fui , um artista.” “Toda esta situação de aprendizagem levou-me muito tempo. O compromisso era comigo próprio. Eu estava decidido a ser grande. Eu seria o maior cineasta do meu tempo e durante muito tempo.” Para quem quiser ler a biografia de Bergman poderá ler “A Lanterna Mágica”, uma curta autobiografia do cineasta. Talvez aí não nos surjam as insónias do velho Bergman assaltado por memórias, medos da infância, frustrações, desamores, incompreensões de muitos conterrâneos que não gostavam dos seus filmes – “não gostam de se ver retratados a nu, sem véus e sem mentiras” – ao contrário dos naturais da ilha que o amavam e consideravam um dos seus, um verdadeiro Faröbo.


Este é o segundo romance biográfico de Cristina Carvalho que leio. Tal como em “A Saga de Selma Lagerlöf”, em “Ingmar Bergman – O Caminho contra o Vento” é palpável a paixão que se estabelece entre a escritora e os biografados e que fica vincada no final dos livros quando a despedida é um luto doce, mas doloroso. Fica a vontade de ler “A Lanterna Mágica”. Fica a vontade de revisitar os filmes de Ingmar Bergman e recordar as suas personagens, as paisagens fustigadas pelo vento agreste e a mestria de um cineasta único que pôs na sua arte tudo o que tinha para lhe dar.


 


28 de Dezembro de 2019


Almerinda Bento


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...