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sexta-feira, 20 de março de 2020

As leituras do momento...

livros, leituras.jpg


Quase, quase a acabar "Beloved". Merecia ter tido da minha parte uma maior concentração, um maior carinho e atenção, mas em tempo de pandemia, muitas vezes saltei para outras coisas, interrompi, voltei atrás, perdi-me. Era o livro que levaria para o nosso Clube de Leitura da Bertrand do Chiado do passado dia 16, mas nessa altura já tudo estava a ser cancelado. Nesse dia já tínhamos 331 infectados e era preciso ficar em casa o mais possível. Hoje, quando escrevo este post e no dia em que fiz esta aguarela já ultrapassámos os 1000. Logo que este surto pandémico começar a abrandar e nós pudermos de novo voltar ao convívio do Clube de Leitura, falaremos das nossas experiências neste interregno no espaço e no tempo, enquanto estivemos em isolamento ou quarentena, mas teremos também oportunidade de falar sobre a obra de Toni Morrison, a norte americana que recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1993.


"A Peste" de Camus será o seguinte. Descobri que o tinha na estante, um dos muitos que ainda não tinha lido, apesar de há muitos anos "O Estrangeiro" ter sido um dos livros que me tocou e marcou decisivamente. Foi a referência ao livro no artigo "O vírus da nossa humanidade" de Álvaro Vasconcelos no Público que me levou a procurar no C de Autores Estrangeiros da minha estante e descobrir que "A Peste" estava lá.


E por fim "Diário de Anne Frank". Recentemente trazido de Mouriscas - era um dos livros da minha irmã Bel - porque queria comparar a edição que é uma tradução de Ilse Losa (só pode ser muito boa) com a versão reduzida "The Diary of a Young Girl" da Pearson English Readers. Aliás, na nossa última aula na turma de Inglês da UNISSEIXAL, lemos em inglês, ouvimos o CD e comparámos com o original. Mas, entretanto, tivemos que suspender as nossas aulas. Uma das minhas alunas até comentou por mensagem que a escolha deste livro para as nossas aulas parecia uma premonição quando comparamos o nosso confinamento forçado ao confinamento de Anne Frank. 


Lendo e escrevendo. Foi o nome que dei a este meu blogue que fez um ano em Fevereiro. Às vezes também desenhando. 

terça-feira, 17 de março de 2020

Lesson 18 - 17 March 2020

No meu sofá.jpg


 


Caras Alunas, Caro Aluno,


Cá estamos por email e espero estar convosco todas as terças feiras enquanto esta quarentena voluntária ou forçada a isso obrigar. 

Quero dizer-vos que desde quinta-feira fui cancelando tudo e percebi que tudo estava a ser cancelado. Foi claro que não havia condições para fazer o que era habitual fazer-se porque tudo estava e está a ser posto em causa. Para quem compra ou tem acesso ao Público, vale bem a pena ler o artigo O Medo do filósofo José Gil. Eu, a propósito desse artigo, escrevi um texto para o SPGL, assim cumprindo a minha tarefa quinzenal de escrever para o sindicato. Se quiserem ler o meu texto, ele aqui está em anexo.

Pois como sabem temos de continuar a viver e ser muito resilientes, pacientes, fortes, esperançosos e optimistas, não negando a adversidade que se abateu a nível planetário. É mesmo, vai ser mesmo um tsunami. Um dia de cada vez, foi sempre a nossa consigna e agora mais do que nunca e com toda a propriedade. 

Quero dar-vos conta de como estou a viver por aqui. Em casa com o Vítor e o Gaspar. Com todos os recursos que tenho (livros, papel, computador que ficou bom mesmo na véspera da quarentena!, comida, medicamentos para a tensão e para o glaucoma, água, electricidade, ar para respirar, janelas para olhar e ver as árvores a dizerem-nos que a Primavera está aí, melros a darem-me os bons dias logo pela manhã, plantas que temos que cuidar, discos, aguarelas....) e temos imensos, se nos compararmos com os sem-abrigo, com os refugiados, com os pobres. Tenho-me lembrado mais e contactado com aquelas pessoas amigas ou familiares com quem estamos menos. É incrível como este estado de guerra nos aproxima daqueles que tantas vezes esquecemos ou descurámos. 

Comecei um diariozinho. Agarrei num caderninho que a Ana Cansado me tinha oferecido do Brasil, quando veio de uma Reunião Internacional da Marcha Mundial das Mulheres e todos os dias escrevo algumas coisas para memória futura. Nem a propósito, andávamos nas nossas aulas a ler "The Diary of a Young Girl" e a acompanhar como uma adolescente conseguia sobreviver enclausurada no Secret Annexe com mais sete pessoas num período de dois anos, para fugir à besta nazi. Anne Frank e o seu testemunho devem ser para nós um ponto de apoio, quando com o passar do tempo e com as mortes que saberemos pelas notícias, nos começarmos a tornar mais fragilizados e vulneráveis. Como cada uma/um de vós tem o livro e o CD, sugiro-vos que leiam e ouçam o CD ao mesmo tempo e, sempre que tenham alguma dúvida, mandem-me um email. Responder-vos-ei, I promise. Penso que na última aula ficámos em Tuesday, 27 April 1943. Certo?

Além do tal diário, estou a ler Toni Morrison "Beloved". Um livro belíssimo, mas confesso que tenho vagueado muito, parado e não tenho dado a este livro a atenção que ele merece. Mas é natural. A minha cabeça anda dispersa e muitas vezes, a atracção pelo telemóvel, pelo facebook retira-me o prazer que sabem tenho pelos livros. Quando acabar "Beloved" que requisitei na Biblioteca Municipal (não sei como o devolverei porque tudo está a fechar) já pus a seguir "A Peste" de Camus porque penso que tem tudo a ver com o nosso momento presente.

Depois desenho. As minhas duas professoras - Joana Verdelho e Manuela Rolão - estão sempre a incentivar-nos a desenhar, porque só com prática se consegue ter à vontade e evoluir. É como com o Inglês, ou qualquer língua estrangeira. Aceitei o desafio de um desenho por dia durante a quarentena, uma espécie de diário gráfico. O meu primeiro foi uma aguarela muito simples "No meu sofá" que postei no facebook e que o Vítor emoldurou. A ideia é todos os dias fazer um desenho. Vamos ver se sou capaz, mas molduras acabaram... 

Ouvir música. Descansar. Não fazer nada. Tentar pelo menos fazer uma saudação ao Sol, agora que não temos aulas de yôga. Ver filmes, aproveitando para ver aqueles que fomos comprando e que nunca arranjámos tempo para os ver. 

Algumas ideias. Já sabem que fico à espera dos vossos emails. em português, in English, as you like.

Beijos e até daqui a uma semana. 

Nota: à medida que vos ia escrevendo, achei que podia alargar este contacto para fora da minha turma de Inglês da UNISSEIXAL e vou publicar este texto no meu blogue. 

Almerinda

 

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