“Coração sem Medo”, Itamar Vieira Junior, 2025
Que difícil é escrever sobre um livro e uma trilogia tão
fortes, tão profundos, tão universais. Impossível não ficar com a sensação de
que qualquer coisa que se escreva como reflexão depois desta leitura ficará
sempre muito aquém e será muito pobre face a um trabalho de grande fôlego como
é esta Trilogia da Terra.
Neste “Coração sem Medo” vamos descobrir a ligação de Rita a
Donana e a Carmelita que nos tinham aparecido em “Torto Arado”, tal como em
“Salvar o Fogo” descobrimos Maria Cabocla (Mariinha) irmã de Luzia. As
histórias entrelaçam-se, os anos passam e os lugares são diferentes, mas há um
continuum que vem dum passado remoto, da escravização, da luta pela terra e
pela dignidade, numa resistência contra as opressões sem fim que teimam em
permanecer.
Em todos os três livros, partimos duma situação inicial
dramática, em torno da qual se vai desenvolver a narrativa. Aqui Rita, que
podia ser Ritinha, mas que ficou sendo Rita Preta, para o nome não ser
confundido com o da patroa, confronta-se com uma situação limite: o
desaparecimento de um filho. Numa sociedade profundamente injusta e desigual,
violenta, marcada pelo atropelo de direitos, pela precariedade e pelo racismo,
Rita Preta mora numa comunidade pobre em que os moradores são, à partida,
tratados como bandidos. O pressuposto é que, se Cid, jovem adolescente filho de
Rita Preta desapareceu, alguma coisa deve ter feito. Alguém a medo confessa que
assistiu à cena da sua captura pela polícia. A aflição, o desespero inicial, o
sentimento de culpa, o lutar, o não ficar parada, o resistir às ameaças, o
vencer o medo, o cair e levantar-se, por tudo isto passa Rita Preta que tem de
gerir o cuidar dos outros filhos e sobreviver com o pouco que tem, sem desistir
de descobrir o paradeiro do filho desaparecido. Face às ameaças explícitas “Isso
é o que fazemos com mulheres fortes” (pág. 141) só há duas hipóteses: calar
ou expor-se.
Neste mover o mundo para localizar o filho, Rita Preta também
descobre solidariedades e outras mulheres a viver o mesmo drama, que se
entreajudam, que partilham as suas histórias e fazem disso a sua força. “Quando
alguém desaparece, é como se a vida não terminasse. Está faltando alguma coisa.
É uma história sem ponto-final.” (pág. 261) E mesmo num mundo
desumanizado e corrompido pela desesperança ainda há funcionários dos serviços
com coração e humanidade, prisões onde há um espaço para a leitura e para a
conversa, associações que dão o seu tempo para lutar contra a arbitrariedade.
Sendo este um livro muito duro, ele consegue, no entanto, ser um raio de
esperança para um futuro mais justo.
Um dia, no meio dos muitos afazeres, Rita Preta -
trabalhadora precária, mãe sozinha com três filhos a cargo - desabafa: “Minha
vida daria um livro.” (pág. 272). Mal ela sabia que um dia, Cainho, o filho
do meio iria registar a história da mãe, da avó, da bisavó, das e dos que as
antecederam, ligando a história da família à história do Brasil, da
escravização, como forma de resistência, lutando contra o esquecimento, pelo
direito à preservação da memória.
Esta Trilogia da Terra que agora chega ao fim é um registo
vivo, não linear, com incursões em múltiplos tempos, espaços e personagens e
trazendo diferentes vozes e narradores que irão permanecer vivos na memória por
muito tempo.
29 de Julho de 2026

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