“Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024
Na sequência de “Regresso de
Julia Mann a Paraty” que li o ano passado, volto a encontrar uma escritora
profundamente conhecedora da cultura alemã e interessada na figura de Sigmund
Freud que, também surge no livro anteriormente referido. Desta vez, Teolinda
Gersão, não indo fazer um “romance histórico” (pág. 8), como ela própria
refere na Nota Inicial, vai fazer um romance baseado na troca de
correspondência entre Martha Bernays e Sigmund Freud ao longo do noivado de
quatro anos, assim como nas cartas que Freud trocou com amigos, com colegas, com
Minna a cunhada e com Anna a filha. “Autobiografia não escrita de Martha Freud”
foi o romance vencedor por unanimidade da edição de 2025 do Prémio de
Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues (FENPROF/SABSEG), tendo o júri
considerado a «obra em que uma rigorosa investigação documental e a criação
literária se conjugam de forma exímia num processo de escrita estimulante.”
Martha Freud, apesar dos seus mais
de 80 anos, é uma mulher activa a quem a idade não pesa e sente necessidade de
preencher o seu tempo, arrumando ideias, escrevendo memórias mas, ao fim de uma
centena de páginas escritas, tem a noção do peso das palavras e de como aquilo
que tem para escrever enquanto mulher de um homem célebre poderá abalar a
reputação do homem, criar desconforto no seio familiar e mesmo ser adulterado
ou destruído. E por isso, reduz a cinzas o que já escreveu e decide “apagar-se
ou remeter-se ao silêncio” (pág. 18) que foi o que sempre fez enquanto
mulher de Sigmund Freud. No entanto, como “livre pensadora” (pág. 22),
portanto livre, não vai deixar de pensar toda a sua relação, embora não deixe
nada escrito. Antes de ser Martha Freud foi Martha Bernays e, mesmo casada,
nunca deixou de o ser.
As inúmeras cartas que trocaram
ao longo do seu longo noivado e que ela vai reler e analisar, tantos anos
depois, permitem-lhe ver com outros olhos o que lá estava escrito e, mesmo
nunca deixando de ser crítica quando as lera com os olhos de jovem apaixonada,
as palavras usadas e os detalhes levam-na a uma profunda reflexão agora. Foi
ela que teve a iniciativa da primeira carta, mas foi a personalidade dela que
permaneceu sempre na sombra. Se ao longo dos quatro anos de noivado houve
momentos de tensão e quase ruptura, se a tendência obsessiva de Sigmund Freud
de tudo controlar, de desvalorizar sentimentos e só se interessar por factos,
de apenas observar Martha como objecto de análise, ela admira-se por se ter
deixado humilhar tantas vezes, por não ter posto um ponto final a uma relação
obsessiva e doentia que a queria despersonalizar e afastar dos amigos e da
própria família. Freud era afinal uma pessoa insegura, ciumenta, possessiva,
misógina, apenas interessado em si próprio e em conseguir alcançar a fama e fortuna,
utilizando as pessoas para atingir os seus objectivos. O seu casamento
remeteu-a ao papel de esposa e mãe, tendo parido seis filhos ao longo de nove
anos. Mas Martha era também uma personalidade forte que impôs limites claros nomeadamente
de não permitir a sujeição dos filhos a quaisquer devaneios de análises e
experimentações por parte do pai, exceptuando Anna, a filha dilecta e seguidora
de Freud na psicanálise.
Num tempo em que os direitos das
mulheres eram uma miragem e em que os desejos de emancipação do controlo dos
pais raramente eram alcançados com o casamento, Martha Freud foi uma mulher
apagada, silenciada atrás dum homem que ficou para a história. Restava-lhe o
desinteresse e a indiferença por alguém que não a merecia. Tal como Sigmund
Freud estabeleceu ao longo dos seus 83 anos de vida relacionamentos ambíguos,
muitas vezes movidos por interesses pessoais mais tarde descartáveis com
amigos, com colegas e com mestres, só com Anna se manteve fiel, pois foi a
única que ele moldou à sua imagem e segundo os seus interesses.
Um livro cuja leitura é valiosa.
12 de Agosto de 2026

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