“Salvar o Fogo”, Itamar Vieira Junior, 2023
Antes de me lançar neste “Salvar o Fogo” e a seguir no “Coração
sem Medo”, voltei à leitura de “Torto Arado” que tinha lido há quatro anos.
Queria recordar um livro que tinha amado, para melhor me preparar para a
abordagem da trilogia de Itamar Vieira Junior. “Salvar o Fogo” é soberbo, uma
escrita mágica que nos leva ao Brasil sofrido da Tapera do Paraguaçu.
O centro da narrativa é a história de uma mulher que rejeita
a sua maternidade, que decide entregar o fruto da violação às águas do
Paraguaçu. Um parto em noite de lua
cheia, assim começa “Salvar o Fogo”.
A Tapera, onde Mundinho e Alzira criaram os seus filhos –
Raimundo, Humberto, Joaquim, Zazau, Mariinha e Luzia – é um lugar marcado pela
pobreza, sem futuro, de onde os rapazes partem para a cidade em busca do futuro,
ou as meninas partem para casar. “O destino das meninas era o de serem
levadas de suas famílias para cuidarem de homem e de casa, antes mesmo de se
tornarem mulheres.” (pág. 201) Muitas vezes para nunca mais
voltarem, ou apenas para a despedida do pai ou da mãe moribundos. Luzia é a
única que não parte, a que está marcada com o anátema de ter poderes mágicos,
de ser feiticeira e de transportar consigo o Mal.
O povo pobre que trabalha a terra recebida dos seus
antepassados é espoliado e desapossado das suas roças por gente sem escrúpulos
a mando dos que querem constituir grandes propriedades. “Os pobres não
tinham direito sequer à própria cova. A terra jamais seria dos pobres, nem
mesmo depois de mortos.” (pág. 230) Para além dos senhores da terra, é a
Igreja que manda na Tapera. O símbolo material do seu poder é o Mosteiro, a
escola do Mosteiro, o abade Tomás e os cobradores a mando da Igreja, implacáveis
a cobrar ao povo um imposto indevido. Além disso, é todo um sistema de
opressão, de violação de direitos, de abuso, de apagamento das crenças e da
cultura ancestral - “tudo coisa de gente índia e preta” (pág.142) - que faz com que a Igreja tenha as mãos manchadas de sangue, servindo-se da ignorância e
do temor do povo para o virar contra si próprio, em vez de se rebelar
contra quem o oprime.
As vidas dos “despossuídos” (pág. 239) da Tapera são
vidas marcadas pela violência, sofrimento e resistência. Na Tapera há mulheres
que morrem de melancolia, mulheres que engolem a raiva e se submetem para dar
um futuro melhor aos filhos, mulheres que só têm possibilidade de viajar quando
se tornem viúvas, mulheres que tapam a boca porque não têm dinheiro para pôr os
dentes que lhes faltam, mulheres que são apedrejadas porque são apontadas como
o símbolo do Mal, mulheres que enfrentam os homens que lhes roubam as terras, mulheres
solidárias, mulheres que perdem o medo e se libertam. São sobreviventes e
guerreiras.
A última parte do romance – A alma selvagem – entrelaça de
forma magistral a história do Brasil, a colonização, a escravização, o passado
e o presente, o antes e o agora, as narrativas dos diferentes narradores e
protagonistas e em tempos diferentes. Ao ler as histórias destas mulheres e
destes homens não consegui deixar de recordar a fantástica exposição Complexo
Brasil acolhida na Fundação Calouste Gulbenkian neste ano e de recordar o manto
de penas com que Luzia se cobre no final do romance, quando se dirige ao local
da terra que era do pai: “Seu nome é coragem, e já não teme a morte.” (pág.
334)
17 de Julho de 2026

Sem comentários:
Enviar um comentário