“O Último
Avô” – Afonso Reis Cabral, 2025
De todos os
livros que li de Afonso Reis Cabral, e li todos, este é o mais elaborado e mais
complexo. Há bastante tempo que um livro não me perturbava tanto. É um
verdadeiro puzzle, não só pela sequência de capítulos em tempos diferentes, mas
pelas personagens cujas vidas se ligam, pelo twist no final do livro e
pela extrema atenção que requer por parte do/a leitor/a. Mas, sobretudo, muito
bem escrito. Imagino que para o autor que o imaginou e escreveu, precisou de
muito tempo, muito rigor e atenção, porque se trata de uma tapeçaria com muitos
fios e desenho muito elaborado.
É um livro
sobre os traumas da guerra colonial, não só nos que a viveram enquanto
soldados, mas nos familiares que viveram as consequências do trauma. A figura
central é Campelo, o avô do narrador, a quem deixa como testamento o cuidar da
gestão do seu património intelectual. Engenheiro de formação, escritor famoso, Campelo
é um egocêntrico, possessivo, violento e obcecado por memórias de África, o
tabu de um futuro livro sempre anunciado, mas nunca concretizado. Em torno
dele, além do narrador, múltiplas figuras femininas, personagens complexas que
se vão desvendando ao longo da narrativa, essenciais para a caracterização de
Campelo. A filha, mãe do narrador – a Formiga – “tímida com o coração
selvagem” (pág. 24) que um dia se rebela contra o pai e foge; a avó que se
revela já não como a mulher silenciosa,
quando se separa e decide ir viver para Azeitão, onde “se tornara a versão
mais feliz de si mesma” (pág. 108); Noélia, a criada, para quem Regina, a fazer
um mestrado em Teoria da Literatura envolvendo a obra de Campelo e
envolvendo-se com ele, era uma “cabra” (pág. 57); as tias, manas da
Formiga, praticamente inexistentes; Cecília, a namorada do narrador, o grande
apoio deste ao longo dos vários momentos do romance e, finalmente, Jóia e
Estrela da Piedade, as duas africanas da fotografia encontrada entre as
recordações de Angola. Porquê esta fotografia? Quem serão estas mulheres?
Despojos de guerra?
Quanto aos
homens, além de Campelo e do neto (narrador), apenas uma cena com o pai do
narrador, afinal um pai ausente; o editor Torres, sempre ansioso por notas ou
pelo manuscrito que possa sair à luz para finalmente responder à expectativa do
que seria a obra maior de Campelo, numa crítica clara ao meio literário e à
avidez pelos sucessos editoriais. E claro, Campelo e Augusto o neto, afinal
muito parecidos, por vezes até difíceis de se distinguirem!
O cerne do romance é o manuscrito de Campelo, o mistério em torno do conteúdo do manuscrito que o avô destrói antes de morrer, a ânsia de saber se não haverá outro manuscrito para além do queimado – o manuscrito – eventualmente no quarto fechado que a mãe do narrador ocupou antes de morrer. E também em torno da autoria… Os traumas de guerra que Campelo partilhou com a filha e com o neto, em quem projectou a escrita do seu livro de memórias de África e que o levou um dia a afirmar: “Hoje nasceu um escritor” (pág. 92). A certa altura, o narrador tem a sensação de que o avô quer que seja o neto a escrever o livro por ele e conta-lhe episódios da guerra, fala-lhe de Zacarias, o mulato que salvou das chibatadas, da mãe Jóia e da tia Estrela da Piedade: “Tinha a impressão de que ele se apoderava de mim frase a frase” (pág. 101) “Mas faltava rigor ao imaginário” (pág. 103). É de tal forma intensa esta presença do avô na escrita do neto (até as caligrafias se assemelham), que a certa altura o neto se rebela e não quer continuar a escrever.
O livro vai
sendo construído como num puzzle com capítulos curtos entrecortados, até que
começam a surgir capítulos escritos em itálico, as histórias da guerra, o tão
ansiado manuscrito. Será aquilo um romance, ou antes uma confissão, um romance
autobiográfico? É justo publicar uma confissão que venha manchar a memória de
alguém que já morreu e que desse modo venha contaminar negativamente as
expectativas e uma imagem até então tão positiva? Afinal “qualquer escrito é
um engano” (pág. 217) e “Quantas pessoas não são a ficção que fazemos
delas, e quantas histórias não andam por aí à solta sem verdade excepto a
própria, isto é, a verdade da ficção”. (pág. 269).
Termino com
esta transcrição de “O Último Avô” um livro sobre a guerra colonial, difícil e
corajoso, que li atentamente e cujos últimos capítulos senti necessidade de
reler. “… ocorre-me que este país com a geografia fácil de um rectângulo,
mais a porção das ilhas, não tem os quilómetros quadrados necessários para mistérios
ou descobertas. (…) Todavia, apesar de claustrofóbico, ainda tem dimensão para
segredos: é que Portugal esconde um exército, o exército dos ex-combatentes.
Restam uns
trezentos mil soldados da velha guerra. A estatística manda que os encontremos
na rua, na sucursal do banco ou dos correios, nos cafés. Frequentam os
transportes públicos e sentam-se ao nosso lado na Loja do Cidadão. São eles que
conversam entre si durante horas nos bancos de jardim. Uns falam alto, outros
perderam a voz. Suspeito de que muitos dos que agarramos pelos pulsos e
tornozelos às camas dos hospitais, e que bradam como cercados pelo inimigo,
também sejam antigos combatentes. Alguns escondem-se à paisana de velho e à
paisana de soldado: como ninguém lhes dá mais de setenta anos, não parecem
velhos o suficiente e ninguém desconfia de que combateram em África. Outros
entraram em lares” (pág. 245).
7 de Fevereiro de 2026

Um livro interessante, sem dúvida. Acabei por não ir ouvir o escritor a falar sobre ele e fiquei com pena
ResponderEliminarBoas leituras