“Viver com Homens: Reflexões
sobre o Caso Pelicot” – Manon Garcia, 2025
“Viver com Homens: Reflexões
sobre o Caso Pelicot” é um importante trabalho etnográfico de extrema
actualidade, num tempo em que impera o ódio às mulheres e a impunidade dos
discursos misóginos ampliada livremente pelas redes sociais. A autora, Manon
Garcia é uma filósofa e pensadora feminista com estudo e reflexão sobre questões
feministas e sobre “submissão” e “consentimento”, que sentiu a urgência de
escrever sobre este caso que abalou a sociedade e que ela acompanhou ao longo
dos cerca de quatro meses que demorou o julgamento de Dominique Pelicot e dos
cinquenta arguidos que violaram Gisele, com a conivência do marido.
Antes do mais, quero referir a
coragem de Gisele Pelicot, ao decidir que o seu caso não seria julgado à porta
fechada, dado o melindre da situação. Foi ela que, depois de visionar os vídeos
que o marido fizera ao longo de anos, organizados metodicamente e que
identificara com o nome “Abusos”, decidiu que o julgamento tinha de ser
público. Claro que a isso não é alheia a existência do movimento #Me Too e dos
movimentos feministas que permitiram uma atitude que seria altamente improvável
num contexto em que a força das organizações e dos movimentos feministas não
existisse. “Desde o início do processo, Gisèle Pelicot é descrita às portas
do tribunal como uma heroína, um ícone, uma mulher de uma rectidão sem igual.” (pág.
119) Se Gisèle Pelicot pode ser considerada “uma boa vítima” – é uma mulher de
idade, educada e sabe falar a linguagem das instituições policial e judicial – a
verdade é que houve momentos em que a justiça a tratou mal, insinuando que ela
teria consentido, para além da “vitimização secundária” a que foi sujeita e que
a levou a fazer esta afirmação: “Tenho a impressão de que a culpada sou eu,
e que atrás de mim estão as cinquenta vítimas.” (pág. 122)
Provavelmente este caso de
violações colectivas não teria sido descoberto, se Dominique Pelicot não
tivesse sido “detido quando filmava por baixo das saias de mulheres no
Intermarché de Carpentras. O vídeo do segurança que o interpelou nesse dia
tornou-se viral: sem ele o caso Mazan não existiria, sem ele Gisèle Pelicot
talvez tivesse acabado por morrer em consequência das enormes doses
medicamentosas que o marido lhe ministrava.” (pág. 105) E isto leva-nos a
pensar no que fica no silêncio, no que nunca se vem a saber, para além do que
nunca é denunciado, do que nunca é punido. Este caso de violação colectiva com
inúmeras provas concretas, que foi julgado e punido, veio ligado à suspeita de
incesto que ficou por apurar relativamente à filha e às noras de Dominique, por
falta de provas.
O caso Pelicot altamente
mediatizado é um problema social e não um mero episódio. O ódio às mulheres
passou a ser explícito e largamente difundido a partir de influenciadores com
milhares de seguidores em várias plataformas e redes sociais. Refutamos a culpabilização das mulheres na
sua luta pela igualdade, na não aceitação da submissão como comportamento
expectável, normalizado e banalizado. No capítulo “Masculinidade(s)”, Manon
Garcia faz referência a um jovem neonazi trumpista que escreveu na plataforma X,
no próprio dia da eleição de Trump, o slogan “Your body, my choice”,
num claro ataque ao direito ao aborto, o qual teve cem milhões de
visualizações. Num artigo de opinião de Luísa Semedo, investigadora, doutorada
em Filosofia Política e Ética, de 14 de Maio no jornal “Público” – O que “eles
fazem entre quatro paredes” (não me) interessa? – a cronista escreve: “É o
caso dos grupos de Whatsapp e Telegram em que homens como Dominique Pelicot
drogam, violam, filmam as companheiras, mas também partilham as imagens. Em
março de 2026, uma investigação da CNN revelou o que ficou conhecido como a «online
rape academy», um espaço em que homens de vários países trocavam conselhos
sobre sedativos e dosagens, partilhavam vídeos de mulheres inconscientes e
vendiam o acesso a esses conteúdos. Em Portugal, o PÚBLICO documentou um grupo
de Telegram, com perto de 70 mil membros, em que circulavam imagens de mulheres
fotografadas sem o seu consentimento, muitas vezes enquanto dormiam, num dos
tópicos mais ativos chamado “Esposas” ou ainda “Família” ou “Espiar em Casa”. Assustadoramente,
confirma-se que o lugar mais inseguro é mesmo dentro de casa e que “saber e
ver-se como violável de um momento para o outro é uma experiência específica da
feminilidade. As raparigas e as mulheres são criadas com a ideia de que a ameaça
está sempre lá, que têm de se adaptar, não podem andar sozinhas na rua, não
podem ser demasiado sexy, têm de andar depressa, baixar os olhos, curvar o
peito, não sorrir. Ter cuidado com o número de copos que bebem quando saem, não
deixar sozinha a amiga alcoolizada, verificar a matrícula do Uber. «Mandas-me
mensagem quando chegares?»” (pág. 139) pode ler-se no capítulo “Violável”.
O livro é perturbador e bastante completo
na caracterização da personalidade perversa, doentia de Dominique Pelicot. Se
na mensagem enviada para angariar violadores “Procuro cúmplice perverso para
abusar da minha mulher adormecida, em violação colectiva, em minha casa. Ela
toma todos os dias um comprimido para dormir, nem sequer te verá. Bela puta pudica
que não quer trios” (pág. 63) Dominique mostra absolutamente ao que vai, colaborando
activamente com os violadores, igualmente se mostra colaborador com a justiça
em todo o processo, referindo-se a Gisèle como “o seu amor, a sua santa, que
não ama outra mulher senão ela, que a deveria ter protegido…” (pág. 132),
mantendo ao longo dos quatro meses do processo sempre o mesmo discurso “Sou
um violador como estes que estão presentes nesta sala.” (pág. 131) e uma
postura firme e destacada qual “rei Pelicot.” (pág. 134)
Termino valorizando o interesse e
importância política da publicação deste livro de Manon Garcia pela Zigurate. Deveria
fazer parte da bibliografia de qualquer pessoa que se interesse pelas questões
do feminismo e do patriarcado. É um livro profundamente honesto em que a
própria autora, com toda a sua formação teórica se mostra frágil, abalada e exausta, enquanto observadora atenta
deste processo, em que sentiu dúvidas, em que por vezes tomou partido contra a
sua própria vontade, movida pela emoção e caindo na armadilha da cultura
machista em que vivemos desde que nascemos.
Um livro que recomendo muitíssimo
e que agradeço à minha amiga insubmissa que mo ofereceu. Obrigada Manu.
18 de Maio de 2026

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