“O País dos Outros” – Leïla
Slimani, 2021
(tradução de Tânia Ganho)
“O País dos Outros” com o
subtítulo “A guerra, a guerra, a guerra” é o primeiro de uma trilogia. A autora
nascida em Rabat, oriunda de uma família de expressão francesa, é filha dos
filhos da independência de Marrocos. “O País dos Outros” que inicia a saga da
família Belhaj, é inspirado na história da avó da autora. Leïla Slimani, com um percurso no jornalismo e
com um interesse particular pelos problemas das jovens marroquinas para quem
muitas causas e direitos de igualdade e emancipação estão ainda longe de estar
alcançados, busca na sua obra trazer a história, a memória, as causas sociais e
políticas. Numa entrevista ao Jornal de Letras de 9 de Agosto de 2022, diz que
através da sua obra “quer pôr palavras sobre o silêncio, desafiar a amnésia.”
A história passa-se após a
segunda Guerra Mundial e nos anos 50, quando irrompe a luta contra o
colonialismo francês em Marrocos. Adime vai combater contra o nazismo,
integrado nas fileiras do exército francês. Mathilde é uma jovem alsaciana que
lhe serve de guia em França e por quem se apaixona.
Terminada a guerra, o jovem casal
vai viver para Marrocos, para uma pequena terra Meknès. À fase do encantamento
pelo desconhecido e pela novidade, segue-se a desilusão e a perceção de que
aquela é uma viagem sem regresso. Afastada da família, lá longe na Alsácia,
rapidamente se vê confrontada com uma cultura profundamente preconceituosa
relativamente às mulheres. Desamparo, desespero, solidão, insegurança são os
sentimentos vividos pela jovem Mathilde. “– Aqui, é assim. Ela ouviria
aquela resposta muitas vezes. Nesse preciso instante, compreendeu que era uma
estrangeira, uma mulher, uma esposa, um ser à mercê dos outros.” (pág. 20).
Amine, obcecado em transformar o terreno pedregoso e estéril que tinha herdado
do pai em terra arável e produtiva, à semelhança dos colonos seus vizinhos, era
incapaz de minimamente atender às necessidades e aspirações da jovem mulher.
Num período em que Mathilde teve uma profunda crise nervosa, é significativa a
pergunta do médico que a vai observar: “- Desculpe a indiscrição, minha cara
senhora, mas estou curioso. Como é que aterrou aqui, por deus?” (pág. 133).
Só uma vez, quando o pai morre e ela decide voltar à Alsácia, a vontade de
ficar e de voltar costas ao marido e aos filhos quase se sobrepõe às obrigações
sociais e familiares que havia construído em Marrocos. A resignação vence a
momentânea rebeldia e o sonho de um futuro diferente. Mais tarde, num desabafo
com uma amiga também estrangeira, Mathilde diz-lhe: “Não tenho alternativa a
não ser a solidão. Na minha situação, como é que quer que tenhamos vida social?
Não imagina o que é ser casada com um indígena, numa cidade como esta.”
“Corinne quase lhe respondera que também nem sempre era fácil ser casada com um
judeu, um meteco, um apátrida e ser uma mulher sem filhos.” (págs. 160 e
161). Também a filha, Aïcha, a estudar numa escola católica, é ostracizada
pelas colegas que a gozam por causa do cabelo indomável e das roupas usadas.
Os anos 50 trazem o desejo de
independência dos marroquinos que não querem mais ser colonizados pelos
franceses. Para além da questão política da luta de libertação com revoltas,
ataques e mortes, incêndios às plantações e às casas dos colonos, também no
seio da sociedade marroquina as jovens aspiram à sua libertação das amarras e
dos preconceitos patriarcais que as querem dóceis e submissas. Esses dois
mundos em choque são retratados neste livro através de Mouilala, Amine, Omar e
Selma, respetivamente a mãe, os dois filhos e a filha e irmã mais nova.
Dificilmente se poderá esquecer a violência extrema de Amine contra Mathilde e
Selma, que por pouco não termina em femicídio. Crimes de honra, casamentos
forçados, conversões…
Também neste livro há registo da solidariedade
entre as mulheres como é o caso da viúva Mercier que dá livros a Mathilde ou
Corinne, mulher do ginecologista, judeu refugiado e amigo do casal
Mathilde/Amine. E mesmo de Mouilala e Mathilde.
Esta primeira parte – guerra,
guerra, guerra – termina num momento crítico em que a propriedade de Amine e
Mathilde é poupada, mas com o país em convulsão profunda. Fica a vontade de
continuar e seguir esta saga da família Belhaj. Os próximos volumes da trilogia
serão “Vejam como Dançamos” e finalmente “Levarei o Fogo Comigo.”
1 de Abril de 2026

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