terça-feira, 28 de abril de 2026

O País dos Outros, Leila Slimani




“O País dos Outros” – Leïla Slimani, 2021

(tradução de Tânia Ganho)

“O País dos Outros” com o subtítulo “A guerra, a guerra, a guerra” é o primeiro de uma trilogia. A autora nascida em Rabat, oriunda de uma família de expressão francesa, é filha dos filhos da independência de Marrocos. “O País dos Outros” que inicia a saga da família Belhaj, é inspirado na história da avó da autora.  Leïla Slimani, com um percurso no jornalismo e com um interesse particular pelos problemas das jovens marroquinas para quem muitas causas e direitos de igualdade e emancipação estão ainda longe de estar alcançados, busca na sua obra trazer a história, a memória, as causas sociais e políticas. Numa entrevista ao Jornal de Letras de 9 de Agosto de 2022, diz que através da sua obra “quer pôr palavras sobre o silêncio, desafiar a amnésia.”

A história passa-se após a segunda Guerra Mundial e nos anos 50, quando irrompe a luta contra o colonialismo francês em Marrocos. Adime vai combater contra o nazismo, integrado nas fileiras do exército francês. Mathilde é uma jovem alsaciana que lhe serve de guia em França e por quem se apaixona.

Terminada a guerra, o jovem casal vai viver para Marrocos, para uma pequena terra Meknès. À fase do encantamento pelo desconhecido e pela novidade, segue-se a desilusão e a perceção de que aquela é uma viagem sem regresso. Afastada da família, lá longe na Alsácia, rapidamente se vê confrontada com uma cultura profundamente preconceituosa relativamente às mulheres. Desamparo, desespero, solidão, insegurança são os sentimentos vividos pela jovem Mathilde. “– Aqui, é assim. Ela ouviria aquela resposta muitas vezes. Nesse preciso instante, compreendeu que era uma estrangeira, uma mulher, uma esposa, um ser à mercê dos outros.” (pág. 20). Amine, obcecado em transformar o terreno pedregoso e estéril que tinha herdado do pai em terra arável e produtiva, à semelhança dos colonos seus vizinhos, era incapaz de minimamente atender às necessidades e aspirações da jovem mulher. Num período em que Mathilde teve uma profunda crise nervosa, é significativa a pergunta do médico que a vai observar: “- Desculpe a indiscrição, minha cara senhora, mas estou curioso. Como é que aterrou aqui, por deus?” (pág. 133). Só uma vez, quando o pai morre e ela decide voltar à Alsácia, a vontade de ficar e de voltar costas ao marido e aos filhos quase se sobrepõe às obrigações sociais e familiares que havia construído em Marrocos. A resignação vence a momentânea rebeldia e o sonho de um futuro diferente. Mais tarde, num desabafo com uma amiga também estrangeira, Mathilde diz-lhe: “Não tenho alternativa a não ser a solidão. Na minha situação, como é que quer que tenhamos vida social? Não imagina o que é ser casada com um indígena, numa cidade como esta.” “Corinne quase lhe respondera que também nem sempre era fácil ser casada com um judeu, um meteco, um apátrida e ser uma mulher sem filhos.” (págs. 160 e 161). Também a filha, Aïcha, a estudar numa escola católica, é ostracizada pelas colegas que a gozam por causa do cabelo indomável e das roupas usadas.

Os anos 50 trazem o desejo de independência dos marroquinos que não querem mais ser colonizados pelos franceses. Para além da questão política da luta de libertação com revoltas, ataques e mortes, incêndios às plantações e às casas dos colonos, também no seio da sociedade marroquina as jovens aspiram à sua libertação das amarras e dos preconceitos patriarcais que as querem dóceis e submissas. Esses dois mundos em choque são retratados neste livro através de Mouilala, Amine, Omar e Selma, respetivamente a mãe, os dois filhos e a filha e irmã mais nova. Dificilmente se poderá esquecer a violência extrema de Amine contra Mathilde e Selma, que por pouco não termina em femicídio. Crimes de honra, casamentos forçados, conversões…

Também neste livro há registo da solidariedade entre as mulheres como é o caso da viúva Mercier que dá livros a Mathilde ou Corinne, mulher do ginecologista, judeu refugiado e amigo do casal Mathilde/Amine. E mesmo de Mouilala e Mathilde.

Esta primeira parte – guerra, guerra, guerra – termina num momento crítico em que a propriedade de Amine e Mathilde é poupada, mas com o país em convulsão profunda. Fica a vontade de continuar e seguir esta saga da família Belhaj. Os próximos volumes da trilogia serão “Vejam como Dançamos” e finalmente “Levarei o Fogo Comigo.”

1 de Abril de 2026

 

Sem comentários:

Enviar um comentário

O País dos Outros, Leila Slimani

“O País dos Outros” – Leïla Slimani, 2021 (tradução de Tânia Ganho) “O País dos Outros” com o subtítulo “A guerra, a guerra, a guerra” é...