“A Livraria Perdida” – Evie
Woods, 2023
Hoje são dezenas os livros que
atraem amantes de livros e de gatos com títulos e capas sugestivos, que muitas
vezes acabam por ser meros produtos facilmente vendáveis, mas de fraca
qualidade literária. “A Livraria Perdida” foi-me oferecido por amigas que sabem
desta minha ligação aos livros e à literatura e acho que, também por o romance
se passar na cidade de Dublin e ter referências a James Joyce, autor de que
lemos “Dubliners”, deve ter sido determinante na escolha deste livro que me
ofereceram.
Se houve aspectos muito
interessantes no livro, confesso que com muito menos folhas, o livro não
perderia muito. A parte relacionada com os encontros/desencontros amorosos das
duas personagens me aborreceu bastante; achei mesmo que o livro tem muitas
passagens xaroposas e muitos lugares comuns que me deram vontade de as saltar.
Também as partes relacionadas com o realismo mágico são um bocado
incongruentes, alguns aspectos da narrativa são pouco consistentes e nem todas
as pontas soltas se conjugam, mas mesmo assim gostei de ir até ao fim na
leitura do livro da irlandesa Evie Woods.
São três os narradores do livro,
cujos nomes dão título aos diferentes capítulos. Embora Opaline Carlisle – a
mais interessante – tenha vivido no século passado, há um vínculo (ou múltiplos
vínculos) que os une a todos: a paixão pela literatura e por manuscritos e
livros raros; a violência e o abandono nas relações familiares; a capacidade de
superação. Opaline é uma mulher muito corajosa para a época, alguém que ama a
liberdade mais do que tudo e, portanto, não se sujeita à submissão de um
casamento arranjado
Se o tema da violência doméstica
surge bem retratado, foi, no entanto, a questão do encarceramento da jovem
Opaline Carlisle durante dezoito anos no hospício do distrito de Cornacht na
Irlanda, o que mexeu mais comigo ao longo da leitura deste livro, lembrando-me
a recente leitura do maravilhoso “Pequenas Coisas com Estas” de Claire Keegan. “Eu
tinha ouvido falar de lares para mães e bebés na Irlanda – sítios para onde
mães solteiras eram enviadas pelas famílias para terem os seus bebés em
segredo.” (pág. 238) Mulheres com comportamentos fora da norma, neste caso
a gravidez de Opaline e a recusa de casar com alguém que ela não escolheu, o
que a levou a fugir de casa, eram aprisionadas em hospícios longe da vista de
todos e “diagnosticadas” de loucas, de violentas, de histéricas, enfim “mulheres
problemáticas, com ideias inconvenientes.” (pág. 259). Lucia, a filha de
James Joyce que sofria de esquizofrenia, foi internada numa destas instituições
em 1932 e por lá ficou por cinquenta anos…
Pensar que este tipo de
instituições geridas por freiras e financiadas pela igreja Católica, em
parceria com o estado irlandês, resistiram e persistiram até 1996, é
verdadeiramente chocante. Como diz a nota final no livro de Claire Keegan a que
faço referência “Não se sabe quantas raparigas e mulheres foram escondidas,
aprisionadas e obrigadas a trabalhar nestas instituições. Dez mil é a
estimativa mais moderada; trinta mil seria provavelmente um número mais exato”
23 de Abril de 2026

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