sábado, 11 de abril de 2026

"Nada", Carmen Laforet

 


“Nada” – Carmen Laforet, 1945

Depois de ter lido este incrível “Nada” de Carmen Laforet, (1921-2004), fiquei com enorme curiosidade de conhecer outras obras desta autora natural de Barcelona. Na badana do livro fica-se a saber que “Nada”, publicado em 1945, foi o seu romance de estreia, vencedor do prémio Nadal e que se tornou rapidamente um sucesso com numerosas edições.  Apesar de apenas serem referidos mais três títulos posteriores a “Nada”, a sua obra literária é vasta, embora se tenha afastado deliberadamente da cena literária a partir da década de 1960.

“Nada” é um livro espantosamente bem escrito e com personagens e situações que dificilmente se esquecerão. Andrea é uma jovem órfã de dezoito anos que abandona a sua aldeia e vai estudar Letras na Universidade de Barcelona, para casa da avó e dos tios. Durante um ano vai mergulhar num ambiente violento, de gente enlouquecida, profundamente instável e doentio, muito longe do sonho que certamente acalentara quando deixara a aldeia para estudar. Se logo no início do romance o viajar sozinha lhe proporciona uma “profunda liberdade” e a chegada à meia-noite “uma aventura agradável e excitante” (pág. 17), o primeiro confronto com o 1º andar da Rua de Aribau onde vai morar durante um ano lhe “pareceu um pesadelo” (pág. 19). Esse ciclo temporal fecha-se na última página do romance: “Desci as escadas, lentamente. Sentia uma viva emoção. Recordava a terrível esperança, o anseio de vida com que as subira pela primeira vez. Agora partia, sem ter conhecido nada daquilo que, confusamente, esperava: a vida na sua plenitude, a alegria, o interesse profundo, o amor. Da casa da Rua de Aribau, não levava nada comigo. Pelo menos, assim o julgava eu, então.” (pág. 275)

Se a tia Angustias queria “moldá-la na obediência” (pág. 30), oprimindo-a e reprimindo-a; se o tio Román lhe transmitia sentimentos ambivalentes de atracção, medo e repulsa; se experimenta a banalização da violência extrema no seio da família “Não te assustes, pequena. Isto acontece todos os dias.” (pág. 34), os sentimentos de insegurança e de abandono, rapidamente a fazem esquecer os seus sonhos, sente-se prisioneira e adoece. “Quantos dias sem importância!” (…) “Quantos dias inúteis” (pág. 46). O passar das estações do ano, primorosamente descritas, ajuda a caracterizar o quotidiano de uma rapariga de dezoito anos, extremamente desamparada, sem recursos e a conviver com a fome extrema, mas que tenta sair dessa prisão, explorando o deslumbramento da cidade, criando amizades fora do meio opressivo em que vive. Descobre o que é ser discriminado porque se é pobre, o paternalismo e a misoginia de alguns rapazes que se acham superiores às raparigas, que “não acreditavam na inteligência feminina” (pág. 136), ou que achavam ter como única função a da procriação “Os cérebros e os corações deles não chegam para mais.” (pág. 138). Mas, no meio de tanta adversidade e sendo ainda tão jovem, ela detém um orgulho e uma dignidade que não a vergam nem a põem vulnerável a aceitar quaisquer esmolas.

Embora sem referir a guerra civil espanhola, é claro que o retrato de violência dentro de casa tão presente neste romance, reflecte o clima de violência social e política que a sociedade espanhola viveu e que se prolongou com o franquismo triunfante. A apatia social na banalização e não condenação da violência doméstica, o desmembramento social e económico resultante duma guerra civil prolongada e profunda, tudo isso se vive neste romance duro que, ao ter sido escrito duma forma tão consistente por uma escritora ainda tão jovem, certamente reflecte vivências que a própria experimentou.  

Um romance duro e inesquecível.

9 de Abril de 2026

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