“As Pessoas
Felizes” – Agustina Bessa-Luís, , 1975
Há muito que
estava para ler Agustina. Aliás, quando li a excelente biografia de Agustina
Bessa-Luís “O Poço e a Estrada” escrita por Isabel Rio Novo, prometi a mim
mesma que iria tirar da estante “A Sibila” do meio dos muitos livros de
Agustina que herdei da minha irmã Isabel. Afinal comecei com “As Pessoas
Felizes”, graças à proposta de leitura saída do Leia Mulheres que se reúne
mensalmente no Museu do Aljube, Resistência e Liberdade, coincidente com o
inesperado e injusto afastamento de Rita Rato da direcção deste excelente
espaço de cultura e memória situado em Lisboa. Não me esqueço do momento em que
o meu filho, então estudante do 3º ciclo, me apareceu com “Dentes de Rato”,
para eu o ajudar na compreensão daquele livrinho de Agustina, num trabalho que
tinha de apresentar na aula de Português. Nem os comentários de Mónica
Baldaque, filha da autora, sobre a crítica a quem faz os programas de Língua
Portuguesa, por escolherem “A Sibila” como obra a ser lida por jovens, que
certamente, em vez de ficarem com apetência por ler e, especificamente Agustina
Bessa-Luís, certamente irão ficar sem vontade de ler esta autora, no futuro.
Não quero ser
injusta e fazer uma generalização abusiva, tanto mais que só li “As Pessoas
Felizes” de Agustina. Mas, a partir do que li, considero uma leitura difícil, muitas
vezes incompreensiva, que estilhaça o senso comum, a ordem previsível das
coisas, repleta de aforismos. Uma leitura para ser feita lentamente, voltando
muitas vezes atrás, tentando encontrar o fio à meada e muitas vezes não o
encontrando… O facto de o livro fazer constantes referências a Anna Karénina e às
suas personagens, livro que não li, e a Lev Tolstói e à sua vida, tornaram
muitas vezes difícil de compreender algumas das páginas de “As Pessoas Felizes”.
Como Isabel Rio Novo escreve em “O Poço e a Estrada” todos os livros de
Agustina são biográficos, sem obedecerem a um plano, nascendo como um rio e,
com efeito, descobri em Nel “estrela do paradoxo burguês” (p. 177) em “As
Pessoas Felizes” muitas semelhanças com a vida de Agustina. Se não tivesse lido
a biografia, teria tido mais dificuldade e menos interesse em chegar ao fim do
livro.
“As Pessoas
Felizes” foi escrito antes e depois do 25 de Abril e se só nas páginas finais
do livro se sente que as personagens estão a viver a revolução e os choques nas
relações entre as pessoas se intensificam, a verdade é que a autora quis,
quanto a mim, mostrar que a pretensa concórdia e harmonia entre as pessoas é
muito frágil e que o conflito e a separação das famílias são a norma. Nel,
sendo mulher, não segue o padrão feminino tradicional, nem no matrimónio nem na
maternidade, aliás tal como Agustina. A personalidade incomum da autora – “sou
o que se chama conservadora”/ “sou uma pessoa tranquila, mas não conformada”
– demarcando-se do feminismo, apoiou, contudo, o movimento pelo “Sim” à
despenalização do aborto em 2007, aconselhava as jovens mães a não se deixarem
prender na teia da maternidade e ela própria fez a escolha do homem com quem
esteve casada durante 72 anos, saindo absolutamente dos cânones da época.
Em “As Pessoas Felizes”
há uma crítica explícita à Mocidade Portuguesa, a Salazar como um moralista e
uma pessoa obscura, uma crítica à educação sexual ou à ausência dela. Ou seja, sendo
conservadora e de direita, Agustina era uma mulher insubmissa e com atitudes
inusitadas e fora dos padrões da época e, embora haja neste seu livro mulheres
sujeitas a “humilhações femininas” (p. 23), outras para além de Nel a
personagem central, reflectem esse estilhaçar do senso comum que referi em
parágrafo anterior. Nel que vai viver com os tios após a morte da mãe “detestou
a gente grande. A gente grande era constituída por certo número de pessoas
destinadas a lugares de mando ou dum servilismo prepotente. Gente feia, ocupada
em coisas enfadonhas e intermináveis.” (págs. 47 e 48) “Nel tornou-se,
na casa dos Carrancas, um autêntico pomo de discórdia” (p. 56). Nel era um
problema para a tia Florinda “sobretudo porque ela não tinha, como as outras
raparigas, o casamento como objectivo. Interessava-se pelos homens, de maneira
apenas turística: frequentava-os, mas não pensava em habitá-los.” (p. 77) E
quando, finalmente, Nel se casa, a prima atira-lhe estas palavras: “Casas-te
porque é a única maneira de não andarem atrás de ti a fazerem-te perguntas
obscenas. É chato. Querem saber que espécie de mulher tu és, se não tens cio,
se és pela emancipação sexual, se tens a vagina estreita, se és lésbica, se
tens o complexo de Édipo. Isto são palavras tuas, não acrescento nada, mas tens
razão. É chato.” (p. 82)
Sendo
geralmente vaga a localização temporal dos acontecimentos que não surgem numa
ordem cronológica perceptível, há, no entanto, a referência a 1961 “ano em
que deflagrou o terrorismo no Ultramar” (p. 151). “A culpa abriu-se no
coração dos portugueses, e eles aguardaram que ela se transformasse numa
medalha ou numa pensão de sangue ou num luto apenas.” (p. 152). “Essa
juventude que vivia a guerra ou era neonaturalista ou contestatária. Uns
cumpriam o seu tempo de selva e batiam-se não como mercenários, mas também sem
o espírito de invulnerabilidade que estimulou o racismo europeu.(…) Outros
emigravam. Indocumentados, mas em grande parte munidos duma protecção familiar que
tornava o exílio uma aventura de estação. (p. 153)
Já vai longo
este texto, mas gostaria de fazer aqui algumas transcrições de trechos em que é
feita referência a “pessoas felizes”.
“O que faz
as pessoas felizes é não terem vida interior. A vida privada raramente coincide
com a vida interior.” (p. 118)
“João Afonso
Carranca costumava dizer que a generosidade não é própria dos ricos, mas dos
felizes. Eram pois pessoas felizes, moderadas nas paixões e nos pensamentos,
capazes de vencer preconceitos, para acudir a necessidades. Pois todo o extremo
as desgosta e toda a justiça por demais assídua as acaba por descontentar.” (p.
172)
E quando em
1971 uma série de calamidades caiu sobre a família dos Carrancas “As pessoas
felizes desagregavam-se.” (p. 175)
Termino,
repetindo que ler Agustina Bessa-Luís não foi fácil. Houve coisas que não
percebi, mas nem por isso não deixei de chegar ao fim do livro que terminou na
página 184, como podia ter terminado umas tantas páginas antes, quando o rio
tivesse secado.
17 de Março de
2026

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