“Persépolis”, Marjane Satrapi, 2007
Marjane Satrapi (1969-2026). Falou-se e escreveu-se muito
sobre ela há duas semanas, aquando da sua morte, com 56 anos. Avessa que sou a
“histórias aos quadradinhos”, foi preciso ser incentivada por um dos clubes de
leitura que sigo, que escolhera a leitura da novela gráfica “Persépolis” e ter
recebido finalmente o aviso da Biblioteca Municipal de que já tinha o livro
disponível para o poder levantar, que finalmente me lancei na leitura da famosa
novela gráfica da ilustradora, cineasta e escritora iraniana. E que assombro. O
meu preconceito impedira-me de apreciar há mais tempo esta maravilhosa
autobiografia que é a “história de uma infância e a história de um
regresso.”
Além de a mancha gráfica ser muito forte, expressiva e
apelativa, a história é corajosa, muito divertida e dá-nos um retrato de uma
sociedade e de um povo sobre o qual a informação que é veiculada é, regra
geral, deturpada e enviesada. Na Introdução que é uma breve resenha da história
do Irão, sobre o qual geralmente só temos a imagem do xá, da sua queda em 1979,
aquando da Revolução Islâmica, escreve-nos a autora: “Desde então, esta
antiga e grandiosa civilização tem sido quase sempre associada ao fundamentalismo,
ao fanatismo e ao terrorismo. Como iraniana que viveu mais de metade da sua
vida no Irão, sei que esta imagem está muito longe da verdade. É por isso que
escrever «Persépolis» foi tão importante para mim. Acredito que uma nação
inteira não deve ser julgada pelos crimes de uns quantos extremistas. Também
não quero que aqueles iranianos que perderam a vida nas prisões defendendo a
liberdade, que morreram na guerra contra o Iraque, que sofreram às mãos de
vários regimes repressivos ou que foram forçados a abandonar as suas famílias e
a fugir da sua pátria sejam esquecidos. Podemos perdoar, mas não devemos nunca
esquecer.” (pág. 8)
Como escrevi acima, fiquei rendida a esta novela gráfica. A
autora começa por nos falar sobre o momento em que ela e todas as meninas da
sua idade foram obrigadas ao absurdo do uso do véu, quando viu a escola que era
mista passar a ser segregada por sexo, o encerramento das universidades, a
resistência através de manifestações contra o fundamentalismo e a repressão. Marjane
teve a sorte de nascer e ser educada numa família com tradições de resistência
ao regime opressivo do Xá, do pai que sempre a esclareceu nas suas dúvidas,
desmontando as narrativas falsas dos livros escolares e sobretudo tendo a
preocupação de que a memória da família não se perdesse, nomeadamente a memória
do tio assassinado pelo regime. Numa fase de crescimento, confronta o que lê
nos livros com a realidade, inclusivamente a situação de privilégio social da
família detentora de um Cadillac e com uma criada que foi trabalhar para casa
dos pais, aos 8 anos. O livro consegue ser muito divertido, porque traz a
ingenuidade da criança influenciada pela religião e com o sonho de ser profeta…
Com a guerra com o Iraque, todo o ambiente se degrada
rapidamente e a repressão intensifica-se. Os jovens mortos na guerra são
transformados em mártires pelo regime, a vida do povo iraniano degrada-se
profundamente e assiste-se ao apertar da vida social com restrições e
proibições que vão fomentar não só as denúncias e a repressão, mas também a
corrupção dos guardas da revolução. Os sinais de rebeldia da autora levam à sua
expulsão da escola que frequenta e os pais tomam a difícil decisão de enviar a
jovem Marjane de 14 anos para a Áustria.
A autora é bastante exaustiva na caracterização do que é a
vida de uma jovem numa fase tão delicada do seu crescimento, sendo estrangeira,
refugiada, sem suporte familiar, com problemas de afirmação da sua identidade
iraniana, num país em que a extrema direita está a crescer e em que a xenofobia
é uma realidade. É a lembrança da avó e
os seus ensinamentos que a salvam, nos momentos mais difíceis.
No regresso a Teerão vai confrontar-se com a opressão que a
obriga a voltar a pôr o véu, e por toda a parte, na rua, os murais
omnipresentes trazem-lhe a culpa e fazem-na sentir-se “rodeada pelas vítimas
de uma guerra a que tinha fugido” (pág. 261) quatro anos antes. Mas ela é
rebelde, insubmissa e corajosa e consegue ultrapassar o choque e a depressão face
a uma sociedade profundamente esquizofrénica que sobrevive dividida entre
aquilo que é obrigada a exibir em público e o que vive entre as quatro paredes
da casa, nomeadamente no que os guardiões da revolução consideram imoral e
decadente do ponto de vista dos costumes e dos relacionamentos entre sexos.
Após um casamento em que não foi feliz nem se sentiu
realizada enquanto pessoa, pede o divórcio e, desta vez, é Marjane que decide
partir para França. Estava-se em 1994. Era a despedida definitiva do seu amado
país que, apesar da sua beleza, das memórias de infância, dos locais ligados à
sua família e à sua história pessoal, era uma prisão para as mulheres,
retirando-lhes quaisquer direitos.
Fiquei fascinada pelo livro e quero ver o filme que também foi
realizado pela autora, o qual foi nomeado na categoria de Melhor Filme de
Animação aos Óscares de 2008, tendo também recebido em 2007 o prémio do júri do
festival de Cannes.
Uma pena a morte tão prematura duma mulher tão inspiradora e
talentosa.
16 de Junho de 2026

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