segunda-feira, 27 de julho de 2020

Chamei-lhe Sepúlveda

Sepulveda.jpg


Não sou capaz de imaginar uma história para este ganso. Mas a curiosidade e as perguntas são muitas: como é que aqui chegou? Veio sozinho? Por que ficou por aqui? 


Imagino que o Luis Sepúlveda se o tivesse conhecido já tinha criado uma história com ele. Como fez com Rebelde, o caracol que queria ter um nome; como fez com o seu querido Zorbas, o gato grande, preto e gordo que um dia ensinou a gaivota Ditosa a voar e que assim nos ensinou que "só voa quem se atreve a fazê-lo". 


Um dia,  Nils Holgersson encavalitou-se num ganso - Akka de Kebnekaise - e fez uma viagem maravilhosa, que tornou Selma Lagerlöf uma escritora famosa. 


Será que este ganso também fez uma grande viagem até chegar aqui? O ganso que encontro todas as manhãs nas minhas caminhadas até ao Seixal, dizem que chegou e está ali há uns 5 anos. Em frente à Arrentela, numa plataforma que adoptou como sua casa, só sai de lá para se aproximar da margem da baía quando vai buscar comida que ali deixam para ele. Este ganso é uma figura da terra, conhecido e acarinhado por todos que diariamente por ali passam. É um solitário, sem nenhum ganso nas redondezas. Apenas algumas gaivotas, embora não partilhem o espaço da plataforma-casa-jangada. Já ouvi pessoas a chamarem-lhe Zé, mas antes disso eu baptizei-o de Sepúlveda.


Para mim, ele é o Sepúlveda. Porque só Luis Sepúlveda conseguia criar uma história em que nos contasse por que motivo um dia este ganso branco e solitário escolheu esta terra para morar sozinho. 

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