“O Quarto
de Giovanni”, James Baldwin, 1956
Há muito que tinha o nome de James Baldwin como referência da
literatura americana do século passado e voz forte na luta pelos direitos
cívicos, contra o racismo e a homofobia. Acontece que foi através de “O Quarto
de Giovanni” que me estreei na leitura deste autor negro e homossexual e,
embora neste livro as suas personagens não sejam negras, ele versa a
homossexualidade e a homofobia. Se nos dias de hoje os direitos da comunidade
homossexual já fizeram um grande caminho, em meados do século passado, quando
James Baldwin escreveu este livro, a homossexualidade ainda era criminalizada e
patologizada em muitos países do mundo, nomeadamente nos Estados Unidos da
América.
David, o narrador, teve em jovem uma relação ocasional homossexual
que quis esquecer. Vergonha, medo, a impossibilidade de esquecer essa
experiência levam-no a decidir deixar os EUA e partir para França, numa tentativa
de fugir do seu próprio eu. Tentativa vã. É com desconforto e amargura que vive
a sua condição homossexual, incapaz de resistir, numa postura ambivalente de
culpa e ódio, sonhando por libertar-se e seguir uma vida heteronormativa, ao
mesmo tempo que reconhece que toda a vida não mais fez que mentir a si próprio.
Esta condição de homofobia internalizada está muito bem retratada neste
narrador contraditório que tenta sobreviver, ajustando-se a uma sociedade
hipócrita, preconceituosa, homofóbica e profundamente misógina.
O próprio quarto de Giovanni, com o qual David tem uma
relação breve, pode ser considerado uma personagem que ajuda a caracterizar o
desconforto homofóbico do narrador - sujo, desarrumado e sem privacidade –
mesmo que Giovanni o tente “melhorar”, criando um espaço na parede para arrumar
livros…
Não posso deixar de referir o final do livro, a condenação de
Giovanni apenas aflorada e não explicitada na primeira parte, episodicamente
referida ao longo do livro, que é descrita pelos olhos de David, enquanto faz
as malas e se prepara para partir: os últimos momentos de Giovanni prestes a
ser executado pela guilhotina. Brutal e magistral. Pensar que a pena de morte
pela guilhotina só foi abolida em França em 1981!
“… Talvez não goste muito de mulheres, na verdade. Mas isso
não me impediu de fazer amor com muitas e de amar uma ou duas. Mas a maior
parte do tempo… a maior parte do tempo fiz amor apenas com o corpo.
- Isto parece-me muito solitário –
disse. Não tinha de todo previsto dizer isto.
E ele não esperava ouvi-lo. Olhou
para mim, ergueu a mão e acariciou-me o rosto.
- Sim, e não estou a querer ser
méchant quando falo de mulheres. Respeito, e muito, as mulheres, pela sua vida
interior, que não é como a de um homem.
- As mulheres não parecem gostar
dessa ideia.
- Oh, essas mulheres absurdas que
andam agora por aí, cheias de ideias e de disparates julgando-se iguais aos
homens, quelle rigolade!, precisam se ser copiosamente espancadas para
perceberem quem manda no mundo.
Ri.
- As mulheres que conheceste gostavam
de ser espancadas?
Ele sorriu.
- Não sei se gostavam. Mas uma sova
nunca as fez fugir. – Rimo-nos ambos. “(pág. 94)
10 de Junho de 2026

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