domingo, 28 de junho de 2026

"O Quarto de Giovanni" , James Baldwin

 


“O Quarto de Giovanni”, James Baldwin, 1956

Há muito que tinha o nome de James Baldwin como referência da literatura americana do século passado e voz forte na luta pelos direitos cívicos, contra o racismo e a homofobia. Acontece que foi através de “O Quarto de Giovanni” que me estreei na leitura deste autor negro e homossexual e, embora neste livro as suas personagens não sejam negras, ele versa a homossexualidade e a homofobia. Se nos dias de hoje os direitos da comunidade homossexual já fizeram um grande caminho, em meados do século passado, quando James Baldwin escreveu este livro, a homossexualidade ainda era criminalizada e patologizada em muitos países do mundo, nomeadamente nos Estados Unidos da América.

David, o narrador, teve em jovem uma relação ocasional homossexual que quis esquecer. Vergonha, medo, a impossibilidade de esquecer essa experiência levam-no a decidir deixar os EUA e partir para França, numa tentativa de fugir do seu próprio eu. Tentativa vã. É com desconforto e amargura que vive a sua condição homossexual, incapaz de resistir, numa postura ambivalente de culpa e ódio, sonhando por libertar-se e seguir uma vida heteronormativa, ao mesmo tempo que reconhece que toda a vida não mais fez que mentir a si próprio. Esta condição de homofobia internalizada está muito bem retratada neste narrador contraditório que tenta sobreviver, ajustando-se a uma sociedade hipócrita, preconceituosa, homofóbica e profundamente misógina.

O próprio quarto de Giovanni, com o qual David tem uma relação breve, pode ser considerado uma personagem que ajuda a caracterizar o desconforto homofóbico do narrador - sujo, desarrumado e sem privacidade – mesmo que Giovanni o tente “melhorar”, criando um espaço na parede para arrumar livros…

Não posso deixar de referir o final do livro, a condenação de Giovanni apenas aflorada e não explicitada na primeira parte, episodicamente referida ao longo do livro, que é descrita pelos olhos de David, enquanto faz as malas e se prepara para partir: os últimos momentos de Giovanni prestes a ser executado pela guilhotina. Brutal e magistral. Pensar que a pena de morte pela guilhotina só foi abolida em França em 1981!


“… Talvez não goste muito de mulheres, na verdade. Mas isso não me impediu de fazer amor com muitas e de amar uma ou duas. Mas a maior parte do tempo… a maior parte do tempo fiz amor apenas com o corpo.

- Isto parece-me muito solitário – disse. Não tinha de todo previsto dizer isto.

E ele não esperava ouvi-lo. Olhou para mim, ergueu a mão e acariciou-me o rosto.

- Sim, e não estou a querer ser méchant quando falo de mulheres. Respeito, e muito, as mulheres, pela sua vida interior, que não é como a de um homem.

- As mulheres não parecem gostar dessa ideia.

- Oh, essas mulheres absurdas que andam agora por aí, cheias de ideias e de disparates julgando-se iguais aos homens, quelle rigolade!, precisam se ser copiosamente espancadas para perceberem quem manda no mundo.

Ri.

- As mulheres que conheceste gostavam de ser espancadas?

Ele sorriu.

- Não sei se gostavam. Mas uma sova nunca as fez fugir. – Rimo-nos ambos. “(pág. 94)

 

10 de Junho de 2026

 


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