terça-feira, 8 de dezembro de 2020

#20 Florbela Espanca

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#20 Florbela Espanca


“Bela acabou de se matar. De seguida encosta a cabeça à almofada da cama. Os seus cabelos negros movem-se como as asas de um corvo a levantar voo sobre a cinza eterna de uma fotografia. Não sente que se esteja a deitar. Tem a impressão de estar a ser aconchegada pelas mãos acariciadoras de uma outra que, com o seu odor, lhe assenta sobre a alma com um manto de paz.


O gesto do seu braço a descair sobre as cobertas desprende-se de um corpo que apenas se vai perpetuar na eternidade, imobilizando-se em definitivo nos contornos de um mito. A morte veio ter com ela como uma dádiva que a protege da necessidade de ser a primeira para alguém. Agora já não precisa de ser amada nem tão pouco voltar a interpretar a personagem de uma grande poeta, a sua principal invenção. Desiste dessa busca insaciável, da sôfrega procura de uma alma gémea através dos ténues reflexos que a sua poesia deixa no amor.”


Assim começa o romance “Bela” de Ana Cristina Silva. 8 de Dezembro de 1930, no preciso dia em que faria 36 anos. “Sempre soube que a morte teria asas de condor, luzes tricolores de amanhecer, vozes de violino angelical, seios de uma mãe real. Sonhou com ela desde que nasceu e espreita-a imensamente feliz.”


Esta foi a última colagem da série 20 Mulheres em 2020. É a vigésima, mas hoje teria de ser o dia para a publicar aqui. Para além da imagem mais famosa de Florbela Espanca, escolhi 8 poemas do “Livro de Mágoas”(1919), do “Livro de Soror Saudade” (1923) e de “Charneca em Flor” (1930).


Um muito obrigada a Ana Cristina Silva por dar vida a Bela, através deste belíssimo livro.


 


 


 

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