quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Em jeito de balanço (2)

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Em jeito de balanço (2)

Estou a ler o 21º livro este ano, mas como ainda não o acabei, este ano li vinte livros, ligeiramente menos do que em anos anteriores. Talvez se não tivéssemos interrompido as sessões mensais do Clube de Leitura da Bertrand do Chiado tivesse lido um pouco mais. Quem sabe?

A maioria são livros que comprei ou que já tinha, requisitados na Biblioteca Municipal, mas também li livros que me haviam sido emprestados e que devolvi, usando os serviços dos CTT, que nunca me falharam, excepto duma vez, mas isso não vem ao caso. Também não era um livro!

Da análise das leituras de 2020, li livros de oito homens, nove mulheres, dez autores portugueses e sete estrangeiros. Repeti Camus, Lídia Jorge e Vergílio Ferreira, tendo lido dois livros de cada um destes autores. Alguns dos livros que li este ano, já tinha lido há muitos anos e percebo como a memória me falha ou como já era muito ténue.

Fora deste grupo dos 20, “Essa Gente” de Chico Buarque ficou parado porque senti-me descontextualizada e perdida. E depois os que vou lendo: “A Escola dos Contra-Grupos” de Maria Gabriela Llansol, Augusto Joaquim et al,  “Homossexualidade e Resistência no Estado Novo” de Raquel Afonso e “Cuidar de quem Cuida” de José Soeiro, Mafalda Araújo e Sofia Figueiredo.

Como não dou estrelas para classificar os livros que leio, mas prefiro escrever sobre eles, ou não, esses registos bastam-me. Há livros que me ficam a matutar muito tempo na cabeça, outros que gostaria que não acabassem nunca, outros que demorei a ler porque me perdi ou porque quis perder-me, outros em que a urgência de chegar ao fim se tornou imperiosa. Nos livros o meu ritmo é muitas vezes como se estivesse num carro a pôr as mudanças. A princípio é sempre mais demorado, mas sobretudo quando chego ao meio, começo a deslizar como se estivesse numa rampa descendente. Destes nenhum ficou sem ser lido até ao fim.

Foram então assim, pela ordem de leitura:

“Autobiografia”, José Luís Peixoto, 2019

“A Mulher que correu atrás do Vento”, João Tordo, 2019

“Beloved”, Toni Morrison, 1987

“A Peste”, Albert Camus, 1947

“História de um Caracol que descobriu a Importância da Lentidão”, Luis Sepulveda, 2014

“A Terceira Mãe”, Julieta Monginho, 2008

“Leva-me Contigo” Afonso Reis Cabral, 2019

“Nocturnos”, Kazuo Ishiguro, 2009

“Humilhação e Glória”, Helena Vasconcelos, 2011

“Pássaros Feridos”, Colleen McCullough, 1977

“Rimbaud, o Viajante e o seu Inferno”, Ana Cristina Silva, 2020

“Lisboa, Chão Sagrado”, Ana Bárbara Pedrosa, 2019

“O Estrangeiro”, Albert Camus, 1942

“Marquesa de Alorna, Querida Leonor”, Luísa Paiva Boléo, 2017

“Conduz o teu Arado sobre os Ossos dos Mortos”, Olga Tokarczuk, 2009

“Os Memoráveis”, Lídia Jorge, 2014

“O Dia dos Prodígios”, Lídia Jorge, 1980

“A Caixa Negra”, Amos Oz, 1987

“Cartas a Sandra”, Vergílio Ferreira, 1996

“Para Sempre”, Vergílio Ferreira, 1983

 

Destes vinte livros, oito foram escritos no século passado, sendo os mais antigos os dois livros de Camus, tendo o livro de Ana Cristina Silva sido o mais recente, publicado em Janeiro de 2020 e que foi o primeiro livro que comprei quando voltei a entrar numa livraria depois do confinamento. 

Posso dizer que fiz um excelente ano de leituras.

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Em jeito de balanço (1)

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Em Fevereiro, este blog fará 2 anos. Surgiu para, conforme diz o nome Lendo e Escrevendo, anotar as minhas apreciações sobre os livros que vou lendo. Habituei-me a escrever sobre o que li, porque sinto que só assim a leitura fica concluída. É um exercício que me agrada, que me ajuda a pensar e a reflectir sobre a leitura que fiz, que me ajuda a organizar pensamento e que me ajuda a recordar, quando mais tarde quiser voltar a um livro. Mas, os posts que aqui publico, por vezes,  extravasam o tema das minhas leituras e aventuro-me a publicar alguns dos meus desenhos ou pinturas. Conseguem ter mais adeptos para os comentários que os escritos. 

Há uns dias o sapo enviou-me a síntese da interacção que o meu blog teve em 2020. Eu sei que tenho poucos seguidores e mesmo desses geralmente só um número ínfimo  costuma comentar. No entanto, ao comparar os dados deste ano com os do ano passado, tenho de ficar satisfeita, porque nalguns items dupliquei. 

Então cá vão eles: 63 posts, 44 reacções, 227 comentários, 7051 visitas e 11467 visualizações. 

 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Para Sempre, Vergílio Ferreira

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Depois de “Cartas a Sandra”, tinha de reler “Para Sempre”, um livro que comprei e li nos anos 80 do século passado. Logo no primeiro capítulo, Paulo a regressar à aldeia natal, referências a Sandra, à montanha e às tias Luísa e Joana.

“Já vieste, Paulinho?

Sim. Para sempre. Aqui estou.”

Chegado à casa vazia, fechada há muito, Paulo vem “tomar posse do seu destino final”. O calor é abrasador e as memórias vão surgindo como fantasmas, à medida que vai abrindo as janelas, as vidraças, as portadas, para deixar sair o mofo e o bafio. As recordações, podem ser fotografias paradas no tempo ou pedaços de filmes, são entrecortadas pelo andar de Paulo pela casa que há que arejar, pela intenção do que tem de fazer – “tenho de…” – num arrastar ao longo daquela tarde escaldante com “a montanha ao fundo, plácida de eternidade”, uma intenção que fica sempre em suspenso.

Os momentos marcantes de toda uma vida do Paulinho, menino triste que se despede da mãe que vai para o asilo e cujas últimas palavras sussurradas ele não consegue recordar. As tias beatas e castradoras, avessas a qualquer desordem, que ficam a tomar conta dele. As aulas de violino com o padre Parente, os ensaios da tuna e as aflições nos dias da apresentação ao público da Ave-Maria de Schubert. A ida para Penalva para a escola secundária e mais tarde para a Universidade. Sandra e a distância de que sempre foi feita a sua relação. O casamento, o anúncio da gravidez, uma filha que nasce e não um filho, o dia em que ficaram sós no dia em que a filha saiu de casa – “Tu é que tiveste a culpa” – a doença e o fim de Sandra. Neste andar entre o presente e o passado, na estranheza entre a velhice e a juventude, Paulo velho confronta-se com o jovem Paulo acabado de sair do liceu de Penalva e a entrar na Universidade, tal como se confrontara com a filha Xana no dia em que o visitou na Biblioteca Geral, pouco antes de se aposentar “Tu não te sentes uma múmia?”

É um livro triste, de um homem só, chegado ao período final da vida, em que o calor sufocante da tarde de Agosto reforça o peso das memórias tristes, mas onde há páginas e momentos com recordações ácidas e hilariantes como os gases do padre Parente, ou os clisteres da tia Luísa que “quanto a intestinos, tinha os seus engarrafamentos”, ou a cena em que, sem comiserações, Paulo se imagina morto no caixão e ouve Deolinda a falar das suas fragilidades “– Coitadinho, para o fim já nem sustinha as águas. E surdo. Muito surdo.”

Um livro maravilhoso, triste, o diálogo de Paulo narrador com o Paulinho criança, o Paulo apaixonado, o Paulo marido e pai, o Paulo homem que cresce e envelhece, o Paulo no regresso às origens. Uma escrita poderosa como a montanha sempre presente,”densa”, “uma grande pedra ao sol”. E a fechar a tarde de calor tórrido “ Agora há só que fechar a do outro quarto que dá para o vale e uma serra longínqua. Toda a face da serra está já na sombra., breves manchas brancas assinalam aldeias de que não sei o nome.”

28 de Dezembro de 2020

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Feliz Natal

É hora de vos desejar Boas Festas. Aos e às que me lêem , muitas vezes anónimos mas que por aqui vão deixando comentários. Virtualmente, dentro dum envelope com selo e tudo, por telefone, ao vivo e com máscara, esta quadra vai ser única nas nossas vidas. Para os que perderam alguém querido, para os que continuam bem ou menos mal, com estes postais natalícios envio o desejo que aproveitem o melhor da vida e que sejam felizes. Que a amizade perdure. A luta continua. (Postais de Um Coletivo de Duas)

domingo, 20 de dezembro de 2020

#20 Florbela Espanca

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Este post é uma republicação. Foi a vigésima colagem com que terminei o projecto que iniciei em finais de 2019 e que começou a ganhar forma à medida que me fui aventurando na técnica das colagens que agradeço à Joana Verdelho, minha amiga e professora de desenho e pintura. O projecto 20 Mulheres em 2020 ficou assim terminado e não pude deixar de postar a colagem de Florbela Espanca, no dia 8 de Dezembro. Hoje volto a publicá-la e assim termino esta "exposição" das 20 mulheres que escolhi, sabendo que muitas ficaram de fora, mas como a vida continua, elas hão-de ir aparecendo, à medida que me for aventurando em tentar retratá-las. 

 

#20 Florbela Espanca

“Bela acabou de se matar. De seguida encosta a cabeça à almofada da cama. Os seus cabelos negros movem-se como as asas de um corvo a levantar voo sobre a cinza eterna de uma fotografia. Não sente que se esteja a deitar. Tem a impressão de estar a ser aconchegada pelas mãos acariciadoras de uma outra que, com o seu odor, lhe assenta sobre a alma com um manto de paz.

O gesto do seu braço a descair sobre as cobertas desprende-se de um corpo que apenas se vai perpetuar na eternidade, imobilizando-se em definitivo nos contornos de um mito. A morte veio ter com ela como uma dádiva que a protege da necessidade de ser a primeira para alguém. Agora já não precisa de ser amada nem tão pouco voltar a interpretar a personagem de uma grande poeta, a sua principal invenção. Desiste dessa busca insaciável, da sôfrega procura de uma alma gémea através dos ténues reflexos que a sua poesia deixa no amor.”

Assim começa o romance “Bela” de Ana Cristina Silva. 8 de Dezembro de 1930, no preciso dia em que faria 36 anos. “Sempre soube que a morte teria asas de condor, luzes tricolores de amanhecer, vozes de violino angelical, seios de uma mãe real. Sonhou com ela desde que nasceu e espreita-a imensamente feliz.”

Esta foi a última colagem da série 20 Mulheres em 2020. É a vigésima, mas hoje teria de ser o dia para a publicar aqui. Para além da imagem mais famosa de Florbela Espanca, escolhi 8 poemas do “Livro de Mágoas”(1919), do “Livro de Soror Saudade” (1923) e de “Charneca em Flor” (1930).

Um muito obrigada a Ana Cristina Silva por dar vida a Bela, através deste belíssimo livro.

 

#19 As Irmãs Mirabal

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#19 As Irmãs Mirabal

Em 1999, quando li “No Tempo das Borboletas” de Julia Alvarez (Bertrand Editora) estava longe de saber que a história das irmãs Mirabal mortas a 25 de Novembro de 1960 estava na origem do dia que assinala aquilo que é a segunda causa de morte em todo o mundo. Pátria, Minerva e Maria Teresa Mirabal assim se chamavam as três jovens activistas dominicanas na luta contra a ditadura de Trujillo. Os seus corpos foram encontrados junto ao seu jipe no fundo de uma escarpa de 45 metros de altura na costa norte da República Dominicana, em resultado de um atentado a mando da ditadura, mas oficialmente, a imprensa afecta ao regime noticiou o facto como um acidente.

 As irmãs Mirabal eram conhecidas como Las Mariposas – as Borboletas – e mesmo apesar da falsidade que envolveu a sua morte, elas e a sua luta não foram esquecidas e em 1981, durante o I Encontro Feminista da América Latina e do Caribe, realizado em Bogotá, na Colômbia, o dia 25 de Novembro foi designado como Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, em homenagem a elas.

 Em Março de 1999 a ONU reconheceu a data que passou a ser comemorada em todo o mundo como Dia Internacional pela Eliminação da Violência sobre a Mulher.

Nesta colagem com Las Mariposas, utilizei recortes de um jornal português de 2010 em que as 43 mulheres assassinadas nesse ano não mais são um número, anónimas, mas sim nomeadas. Este ano, até ao dia em que fiz a colagem, 30 mulheres, em Portugal, tinham sido assassinadas. Eram mulheres com filhos e filhas e em alguns destes casos, as crianças estavam presentes quando o crime foi cometido. Estas mulheres deixaram 21 crianças órfãs.

Quem quer descobrir a vacina contra esta pandemia?

 

 

 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

#18 Simone de Beauvoir

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#18 Simone de Beauvoir

Este é outro nome incontornável e referência das feministas e dos feminismos.

A partir da reprodução de uma fotografia de Simone na força da idade, usei cópias do prólogo do livro “A Força da Idade” que ela dedica a Jean-Paul Sartre. Começa assim :“Lancei-me numa aventura imprudente, quando comecei a falar de mim: começa-se e nunca mais se acaba.”E termina “ Este relatório apresenta-se, em todo o caso, isento de qualquer preocupação moral. Limito-me a testemunhar o que foi a minha vida. Não me submeti a nenhum preconceito, a não ser de que toda a verdade pode interessar e servir. Para quê e a quem servirá a verdade que tento exprimir nestas páginas? Ignoro-o. Gostaria que o leitor as abordasse com idêntica inocência. “ Primeira nota de rodapé: “Neste livro consenti em omitir; nunca em mentir. Mas é provável que a memória me tenha traído em pequenas coisas; os pequenos erros, que o leitor talvez anote, não comprometerão certamente a verdade do conjunto.”

Gostei tanto de fazer esta colagem. Para o lenço da cabeça de Simone de Beauvoir um pedacinho duma écharpe que ofereci à minha mãe.

 

 

Boas intenções para 2021 - livros

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Ontem, ao ler uma publicação dum blogue que muito aprecio - livros para adiar o fim do mundo - a ideia do frasco com papelinhos com nomes de livros a ler e que se vão tirando à sorte, à medida que se vai lendo, ficou a matutar na minha cabeça e deu frutos. É preciso ler aqueles livros que vão ficando escandalosamente esquecidos nas estantes e preteridos por outros que vão aparecendo nas livrarias.

Parti da minha média de leituras por ano - entre 20 e 25 - e percorri as minhas estantes onde tenho tantos livros ainda não lidos a juntar à pilha de livros emprestados que ainda não devolvi por ainda não ter lido. A essa lista, só acrescentei um livro que comprei hoje e que vai ser a minha prenda de Natal para mim. No fim de fazer a lista percebo que está muito desequilibrada do ponto de vista de género e também do ponto de vista da relação autores portugueses/autores estrangeiros. Mas foi mesmo o que saiu. Daqui a um ano, veremos o que foi lido e o que foi acrescentado.

É uma lista de boas intenções de leituras para 2021. Claro que vai extravasar o 2021, não só porque não sei se os irei ler todos, mas porque duvido que não compre nenhum livro no próximo ano e não vá à Biblioteca municipal requisitar livros. Mas é uma lista com sabor a lista de boas intenções para o ano que aí vem.
Em vez de um frasco, será o meu peace basket que trouxe de Kigali que vou utilizar para pôr os papelinhos dobrados com os nomes dos livros. 

Aqui vai a lista por ordem alfabética de autores:

Abelaira, Augusto – A Cidade das Flores (reler)

Abelaira, Augusto – As Boas Intenções

Abelaira, Augusto –Sem tecto entre Ruínas

Afonso, Raquel – Homossexualidade e Resistência no Estado Novo

Amado, Jorge – O País do Carnaval

Assis, Machado – D. Casmurro

Beauvoir, Simone  de – A Força da Idade

Bulgakov, Mikail – Margarita e o Mestre

Calvino, Italo – O Atalho dos Ninhos de Aranha

Carpinteiro, Margarida – Silêncio na Casa do Barulho

Costa, Daniela – Uma Bomba a iluminar a Noite do Marão

Cunningham, Michael – Ao Cair da Noite

Dean, Michelle – De Língua Afiada Mulheres que fizeram da Opinião uma Arte

Figueiredo, Isabela - Cadernos de Memórias Coloniais

Lawrence, D. H. – Filhos e Amantes

Mãe, Valter Hugo – Homens Imprudentemente Poéticos

Melo, João de – Entre Pássaro e Anjo

Namora, Fernando – Casa da Malta

Pedro, João Ricardo – Um Postal de Detroit

Pepetela – A Geração da Utopia

Pires, José Cardoso – O Hóspede de Job (reler)

Saramago, José – As Pequenas Memórias

Schloss, Eva – A Rapariga de Auschwitz

Sepúlveda, Luis – Palavras em Tempos de Crise

Sepúlveda, Luis – Histórias Daqui e Dali

Tavares, Gonçalo M. – O Torcicologista Excelência

Tordo, João – O Luto de Elias Gro

 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

#17 A República

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#17 A República

Nesta colagem que fiz para celebrar o 5 de Outubro, dia da implantação da República, baseei-me numa maravilhosa estampa do Almanach d’O MUNDO de 1910, assinada por Alberto Souza. É a imagem muito bela e muito forte de mulher, como foram as mulheres republicanas que, não só bordaram a primeira bandeira da República, mas se mobilizaram e acreditaram que a República iria trazer igualdade e justiça para as mulheres portuguesas.

O busto da República simboliza essa força, essa esperança num mundo novo que acabasse com os males da monarquia. Novas leis do casamento e da filiação, alteração do tratamento do crime de adultério, lei do divórcio, direito de as mulheres poderem trabalhar na Função Pública são logo as primeiras medidas após a implantação da República. Para a história, ficaram os nomes de Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Maria Amália Vaz de Carvalho e muitas outras republicanas anónimas que acreditaram genuinamente na República e que estabeleceram como prioridades para as mulheres portuguesas o direito ao voto e o acesso à educação.

Nesta colagem utilizei uma cronologia entre 1868 e 2009 que permite ter uma perspectiva das conquistas nos direitos das mulheres, alguns dos marcos decisivos e as protagonistas. Um caminho com muitos sobressaltos, mas que muito nos deve orgulhar. 

 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

#16 RBG

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#16 RBG

Estas 3 letrinhas e o povo americano sabia que correspondiam ao nome da grande juíza do Supremo dos EUA Ruth Bader Ginsburg. Faleceu a 18 de Setembro. Grande perda, na pior altura. Quem não sabia quem ela era, ficou a saber por a sua morte ter ocorrido em plena campanha eleitoral dos EUA, sendo ela uma voz firme, corajosa e decisiva contra Donald Trump, que a apelidou de bruxa.

Feminista. Progressista. Foi uma das nove mulheres a entrar em Direito em Harvard em 1956 e a melhor aluna da sua turma em Columbia. Em 1993 tornou-se a segunda mulher a integrar o Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América por nomeação do então Presidente Bill Clinton.

Num artigo de Joana Mortágua ela refere que para milhões de norte-americanos RBG era verdadeiramente amada e isso está bem patente quando a juíza convidada no programa Late Night caiu e partiu duas costelas. Stephen Colbert, anfitrião do talk show disse: "Ela é demasiado preciosa. Esqueçam a toga preta, ela devia andar embrulhada em papel com bolhas de ar e ser levada pelas escadas como se fosse um ovo Fabergé”.

Na minha colagem, escolhi quatro citações de RBG

“I was a law school teacher, and that’s how I regard my role here with my colleagues, who haven’t had the experience of growing up female and don’t fully appreciate the arbitrary barriers that have been put in women’s way”

“I would like to be remembered as someone who used whatever talent she had to do her work to the very best of her ability”

“Women belong in all places decisions are being made”

“Fight for the things that you care about, but do it in a way that will lead others to join you”

Entretanto, o grande receio de que Trump fosse reeleito não se concretizou. Joe Biden foi eleito, mas os estragos deixados pelo seu antecessor, irão demorar muitos anos a serem ultrapassados.

 

 

 

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

#15 Marisa Matias

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#15 Marisa Matias

Nem sempre o inicialmente planeado é integralmente cumprido. Há sempre ajustamentos, mudanças, correcções e quando os projectos são a longo prazo – 12 meses – naturalmente que a ideia inicial vai sendo alterada. A lista das 20 mulheres está lá na minha agenda, mas a verdade é que o número 20 era redondo, mas muito limitado. E à medida que o ano se ia aproximando do fim, ficou claro que era preciso acrescentar mais e que iria ultrapassar a barreira inicialmente proposta.

Escolher a Marisa Matias, para mim, era incontornável. Uma mulher de causas. Ela tinha sido a minha candidata a Presidente há cinco anos e voltaria a ser em 2021. Socorri-me das palavras de ordem da campanha de 2016 que tinham como pano de fundo a defesa dos valores da Constituição: Pão, Habitação, Saúde, Educação. Afinal, os valores que precisamos defender cada vez mais, num ano de crise pandémica, socioeconómica e ideológica.

Marisa, Força Maior.

 

 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

# 14 Paula Rego

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#14 Paula Rego

Quando no início do ano comecei a idealizar o projecto a que dei o nome 20 Mulheres em 2020, Paula Rego foi um dos primeiros nomes que me veio à cabeça. É talvez das pintoras portuguesas cuja obra mais amo.

A força das suas telas, os múltiplos sentidos que nos convocam sempre que somos confrontados com o inusitado dos elementos de que são feitas, a perfeição e domínio técnico são parte substancial da admiração pela pintora. A somar a estes aspectos, a força da sua pintura reflecte uma personalidade livre, irreverente, desconcertante.

Quando em Portugal se lutava pela despenalização do aborto, quando grande parte do povo ignorou o seu valor não participando no primeiro referendo, quando a hipocrisia reinante quis impor um silenciamento demasiado ruidoso do aborto clandestino, Paula Rego decidiu pintar “vários tipos de mulheres que estão a sofrer. Jovens de escolas com uniformes – comprei uniformes ingleses – depois uma mulher mais velha, que já tem filhos que cheguem, com uma bata azul. As meninas ricas que escondem dos pais e fazem abortos sozinhas nos quartos. Essas coisas acontecem em toda a parte. No Estoril, em Cascais…”. Era preciso desocultar o tabu do aborto clandestino.

Pelo facto de o referendo de 1998 ter sido perdedor, a sua decisão de pintar o tema do aborto clandestino, tornou-se-lhe um imperativo, uma exigência cívica. Como Paula Rego diz numa entrevista num jornal da época “ Devia ser legalizado o desmanche, legalizado a liberdade de cada mulher decidir por si própria. Não é mandar prender, isso é uma vergonha.”

Visitar a obra multifacetada de Paula Rego é um privilégio que nos é acessível, nomeadamente através da sua Casa das Histórias em Cascais.

 

domingo, 13 de dezembro de 2020

#13 Greta Thunberg

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#13 Greta Thunberg

Quando uma rapariga consegue ganhar notoriedade por se mobilizar por uma causa global – o clima e as alterações climáticas – e sobretudo quando consegue mobilizar milhares de jovens em todo o mundo, transformando um acto isolado num grande movimento, isso enche-nos de esperança.

A sua luta começou quando ainda tinha 15 anos. Todas as sextas-feiras em frente ao parlamento sueco, fazia greve às aulas pelo clima. “Estou a fazer greve à escola para protestar contra a inacção relativamente às alterações climáticas. Vocês também deviam fazer o mesmo.” A estranheza por uma miúda afrontar um gigante trouxe-lhe muitos inimigos, mas também muitos aliados, muitos jovens que a seguiram em manifestações gigantes. Já não era mais possível fazer de conta, ignorar, ou escarnecer.

Sem papas na língua, com um discurso claro e directo, começou a ser convidada para cimeiras, para a Conferência das Nações Unidas pelas Mudanças Climáticas, alertando para os riscos para o futuro da humanidade em virtude das alterações climáticas. Ao mesmo tempo, começou a ser nomeada, tendo sido eleita Personalidade do Ano em Dezembro de 2019  pela revista Time, a revista Forbes incluiu o seu nome na lista das 100 Mulheres mais poderosas de 2019 e já teve duas nomeações consecutivas para a o Prémio Nobel da Paz .

Esta colagem de Julho surgiu na sequência de Greta Thunberg ter vencido o Prémio Gulbenkian para a Humanidade que teve este ano a sua primeira edição.

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 12 de dezembro de 2020

#12 Mafalda

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#12 Mafalda

Mafalda é talvez uma das personagens mais famosas e populares da Argentina.

O seu pai – Quino – falecido a 30 de Setembro deste ano com 88 anos, criou esta menina inconformista, insubmissa, questionadora, que não só deliciou as pessoas da minha geração, mas que continua hoje a ser lida e adorada por milhões de pessoas em todo o mundo.

Atenta ao mundo, as observações e perguntas de Mafalda desmontam a hipocrisia, os jogos e interesses instalados, a propaganda e a mentira, os tabús da sociedade. Com a simplicidade das crianças para quem não há joguinhos, os grandes temas da Paz, da Justiça, da Liberdade, da Igualdade e dos Direitos Humanos são desmontados por ela com perguntas simples mas contundentes.

Esta colagem feita em Maio, em pleno período de calamidade, trouxe à reflexão alguns temas que então eram e continuam a ser tema: a situação de abandono a que está votada a cultura; o direito das crianças a brincar, cada vez mais escasso; a dificuldade de acreditar na seriedade e na fidelidade dos seres humanos nas suas relações uns com os outros, numa frase do Padre António Vieira.

Mafalda lê atentamente o jornal. Ela gosta de política e por isso todas as secções do jornal lhe interessam, sem esquecer as páginas de economia. Para além de deixar habitualmente perplexos os pais, os amigos vão ter de se confrontar com as suas reflexões. Inesquecíveis também o Manelinho, a Susaninha, o Filipe, o Miguelito e a Liberdade.

Um ódio de estimação, inultrapassável: SOPA.

 

 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

#11 Carolina Beatriz Ângelo

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#11 Carolina Beatriz Ângelo


Carolina Beatriz foi a primeira mulher portuguesa a votar nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte após a revolução de 5 de Outubro de 1910, tendo conseguido, ao abrigo da lei eleitoral vigente e após disputa com o poder político, a inclusão do seu nome nos cadernos eleitorais da Comissão de Recenseamento do 2º Bairro de Lisboa.


Médica, viúva e mãe, Carolina Beatriz Ângelo invocou a sua qualidade de chefe de família para exercer o voto a 28 de Maio de 1911, só possível aos cidadãos do sexo masculino. Este acto muito corajoso saiu fora das fronteiras nacionais e publicitado no estrangeiro. Infelizmente, poucos meses depois, a 3 de Outubro, Carolina Beatriz Ângelo morre subitamente de ataque cardíaco.


Em 1913, a lei eleitoral portuguesa é alterada, consagrando o direito de voto a cidadãos portugueses do sexo masculino com algumas pequenas e irrelevantes excepções para mulheres.


Em 1933 e em 1946 foram levantadas algumas restrições, mas só quase no fim de 1968, já durante o marcelismo, é que acabaram por ser removidas quaisquer discriminações. No entanto, só depois do 25 de Abril de 1974, com a lei n.º 621/74 de 15 de Novembro, o direito de voto se tornou universal em Portugal.


Os recortes da imprensa da época que noticiaram o corajoso acto de Carolina Beatriz Ângelo e que utilizei nesta minha colagem fui buscá-los ao álbum de banda desenhada do grande mestre José Ruy, "Carolina Beatriz Ângelo - Pioneira na Cirurgia e no Voto". 

# 10 As Três Marias

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#10 As Três Marias


A 23 de Maio morria Maria Velho da Costa, uma das três Marias.


Singulares, únicas, mas indissociáveis nas “Novas Cartas Portuguesas”. A PIDE e Salazar nunca conseguiram descobrir quem escreveu o quê. Um pacto de silêncio, uma escrita a seis mãos que exasperou/exaspera os ditadores, os conservadores, os castradores. Uma escrita de mulheres, de liberdade, que ajudou este país a quebrar as duras correntes do conservadorismo, denunciando a situação das mulheres, a guerra colonial, a violência, a emigração e o atraso em que vivíamos antes do 25 de Abril.


Maria De Lourdes Pintasilgo, num artigo de opinião na revista Visão, por ocasião do 8 de Março, chamou a este livro “O livro esquecido”. “Além de uma obra literária invulgar, as Novas Cartas Portuguesas foram um acontecimento único.”


Maria Isabel Barreno faleceu em 2016. Maria Velho da Costa morreu este ano, em pleno Maio confinado. Para além de Maria Teresa Horta ainda viva e que continua a surpreender-nos com a sua poesia e com a sua escrita marcadamente feminista, a obra das Três Marias é um marco de resistência e de liberdade num país atrasado e oprimido.


 


 


 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

#9 Mãe

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#9 Mãe


Ela não podia deixar de aqui figurar. A maior referência da minha vida.


A grande inspiradora. Sempre e ainda hoje.


Ficou no coração de muitas pessoas que a conheceram e que continuam a falar do seu sorriso, do optimismo, de nunca achar que havia impossíveis. Aquelas mãos eram mágicas. Na costura, na cozinha, em tudo onde poisasse as mãos. Escolhi o poema de Carlos Drummond de Andrade, porque tudo o que saía daquelas mãos tinha um sabor, um toque especial. Comovente encontrar aquele cartão que acompanhara uma prenda nalgum Natal de família, naquela caligrafia bicuda inesquecível e com um adorável “erro” ortográfico: “Senhor, quida bem da pessoa que está a ler esta mensagem.” Quem melhor do que a Gracinha para ser a pessoa a ler todos os dias aquela mensagem!?


E por fim o melro. “Hoje já vi um melro. O dia vai-me correr bem”.


Colagem feita no Dia da Mãe.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

#8 Anne Frank

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#8 Anne Frank


Anne Frank uma adolescente judia, escondida com mais oito pessoas num anexo, precisava de respirar, de dar vazão à sua necessidade de liberdade. Durante dois anos, confinada entre Junho de 1942 e Agosto de 1944 escreveu um diário, como se escrevesse a uma amiga – Kitty. “Espero que te possa confiar tudo a ti; o que, até agora, nunca pude fazer a ninguém, e espero que venhas a ser um grande amparo para mim.”


Anne Frank foi a minha primeira colagem em confinamento e sem qualquer apoio da Joana. Ela foi uma inspiração, tal como o seu diário. Quantos diários se escreveram no confinamento! Ela confinada por causa dos nazis; nós confinados por causa de um vírus. Por coincidência, andávamos a ler “Diary of a Young Girl” nas aulas de inglês da UNISSEIXAL. Tinha mesmo de tentar retratá-la numa colagem e de trazer o seu Diário para a minha composição.


Ver a rua através da janela. Ver as aves livres e conseguir ouvi-las. Na rua, silêncio e o mundo parado. Houve quem achasse que ia ficar tudo bem. Houve quem achasse que os humanos iriam aprender a respeitar os outros e a natureza.


 


 


 

#20 Florbela Espanca

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#20 Florbela Espanca


“Bela acabou de se matar. De seguida encosta a cabeça à almofada da cama. Os seus cabelos negros movem-se como as asas de um corvo a levantar voo sobre a cinza eterna de uma fotografia. Não sente que se esteja a deitar. Tem a impressão de estar a ser aconchegada pelas mãos acariciadoras de uma outra que, com o seu odor, lhe assenta sobre a alma com um manto de paz.


O gesto do seu braço a descair sobre as cobertas desprende-se de um corpo que apenas se vai perpetuar na eternidade, imobilizando-se em definitivo nos contornos de um mito. A morte veio ter com ela como uma dádiva que a protege da necessidade de ser a primeira para alguém. Agora já não precisa de ser amada nem tão pouco voltar a interpretar a personagem de uma grande poeta, a sua principal invenção. Desiste dessa busca insaciável, da sôfrega procura de uma alma gémea através dos ténues reflexos que a sua poesia deixa no amor.”


Assim começa o romance “Bela” de Ana Cristina Silva. 8 de Dezembro de 1930, no preciso dia em que faria 36 anos. “Sempre soube que a morte teria asas de condor, luzes tricolores de amanhecer, vozes de violino angelical, seios de uma mãe real. Sonhou com ela desde que nasceu e espreita-a imensamente feliz.”


Esta foi a última colagem da série 20 Mulheres em 2020. É a vigésima, mas hoje teria de ser o dia para a publicar aqui. Para além da imagem mais famosa de Florbela Espanca, escolhi 8 poemas do “Livro de Mágoas”(1919), do “Livro de Soror Saudade” (1923) e de “Charneca em Flor” (1930).


Um muito obrigada a Ana Cristina Silva por dar vida a Bela, através deste belíssimo livro.


 


 


 

domingo, 6 de dezembro de 2020

#7 Maria de Lourdes Pintasilgo

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#7 Maria de Lourdes Pintasilgo


Mulher única. Mulher rara.


A única mulher primeira ministra em Portugal. A primeira mulher que ousou candidatar-se à presidência da República, num mundo de homens. Aquele sorriso. Aquela serenidade. Aquela força. Aquela coragem. Uma dimensão que ultrapassava os limites do nosso País pequeno e fechado. Reconhecida e considerada fora do país. Sem honras de Estado no funeral, ela que foi primeira ministra de Portugal.


Tive a honra de a conhecer e de guardar o seu “Cuidar o Futuro” autografado. “Cuidar o Futuro” é o relatório da Comissão Independente População e Qualidade de Vida a que presidiu, uma comissão de peritos e peritas verdadeiramente paritária. “Constituída por dezoito membros com reconhecida experiência política e participação activa nas causas públicas do nosso tempo” tinha igual número de membros oriundos do Norte e do Sul e igual número de mulheres e homens.


Nem podia ser de outra maneira.  Tratando-se de “um programa radical para viver melhor”, Maria de Lourdes Pintasilgo só assim trabalhava, em equipa, rodeando-se de quem, no terreno, conhecia a realidade e queria enfrentar os desafios dum mundo sustentável, harmonioso e humano.


Abrantina como eu, o seu rosto surge numa parede que homenageia 100 personalidades ilustres naturais de Abrantes.


 

#6 Maria Lamas

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#6 Maria Lamas


Muito respeito por esta mulher que, nas difíceis condições de repressão salazarista e numa época em que o conservadorismo dominava, teve uma vida plena, afrontando preconceitos, vivendo livremente e defendendo ideias emancipatórias da condição da mulher. Jornalista, escritora, defensora dos direitos das mulheres, membro e presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, percorreu o país de norte a sul e ilhas tendo feito um trabalho único e de vanguarda de recolha das vivências das mulheres portuguesas. É a sua grande obra As Mulheres do meu País.


Quis que o contorno da  Serra d’Aire de algum modo pudesse figurar nesta colagem onde, de novo usei, ainda com fraco domínio, o acrílico sobre tela. Aparentemente, sem qualquer ligação com a figura de Maria Lamas, um recorte de jornal sobre uma designer de moda francesa – Sonia Rykiel – cujas criações coloridas e com materiais flexíveis e práticos valorizaram sempre e libertaram o corpo das mulheres.


Torres Novas, terra natal de Maria Lamas, o destino desta colagem.

sábado, 5 de dezembro de 2020

#5 Catarina Eufémia

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#5 Catarina Eufémia


Catarina, a ceifeira assassinada. A ditadura não permitia gente que lhe levantasse a voz, que lhe gritasse por Pão, por Democracia, por Justiça, por Dignidade. Os latifundiários não tinham de se preocupar com os assalariados famélicos ao seu serviço. A polícia, a PIDE, a GNR e a Legião eram o garante de que a ordem seria respeitada.


A ceifeira assassinada. Num dia 19 de Maio de 1954. Tinha 26 anos. Mãe de três filhos e com um quarto a caminho, foi assassinada porque ousou reivindicar um aumento da jorna. Afinal ela só queria Trabalho e Pão.


A minha escolha na minha estreia a trabalhar em tela com acrílico foi a simplicidade. Catarina Eufémia, um cravo vermelho, um vestido de flores e o poema “A Morte saiu à Rua” de José Afonso.


Uma alentejana para outra alentejana.


 


 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

#4 Marielle Franco

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#4 Marielle Franco


Dia 14 de Março é Dia de Marielle. Foi nesse dia, em 2018, que ela foi assassinada. Barbaramente! Será que podia haver outro advérbio para falar desse acto bárbaro, quando parece que estamos anestesiados com a violência diária, a nível mundial que se vira maioritariamente contra as mulheres? Por isso, violência de género, assumindo formas e matizes tão diversos, mas dirigida às mulheres, desde as meninas até às mulheres de idade. De todas as classes. De todas as idades. De todas as culturas. De todas as cores.


Marielle assassinada com quatro tiros na cabeça. Ainda não se sabe quem a matou… sabe-se que ela Marielle, como muitas outras Marielles, activistas em todo o mundo contra a injustiça e a desigualdade, contra a pobreza e a exclusão, que dedicaram as suas vidas a lutar por um mundo melhor, são o alvo do poder patriarcal, são o alvo das ditaduras que não toleram democracia, igualdade, justiça social. Marielle sintetizava essa energia transformadora e libertadora do seu povo das favelas, do povo explorado, excluído, discriminado. Orgulhosamente feminista, favelada, lésbica, política.


Na minha colagem escolhi entre outros recortes de jornais, um artigo da Joana Mortágua sobre Marielle. Para a Joana que tão bem sabe falar sobre Marielle e sobre o povo brasileiro.


 


 


 


 


 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

#3 Frida Kahlo

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Frida Kahlo


Esta mulher apaixona-me. É uma inspiração. Apaixonada, livre, o seu sofrimento físico não a limitou, tendo transposto para as telas não só a sua própria imagem, mas a dor física e a angústia das perdas.


A pintura preencheu a minha vida. Perdi três filhos e outra série de coisas que teriam podido ocupar a minha vida horrível. Tudo isso foi ocupado pela pintura. Creio que não há nada melhor que o trabalho.”


A primeira colagem em que deliberadamente procurei notícias em jornais sobre Frida, em que escrevi citações de Frida e também de Franz Kafka. Na minha biblioteca, Kahlo e Kafka estão lado a lado. Descobri esta coincidência maravilhosa, numa citação de Franz Kafka: “Frida tem o mesmo número de letras de F [Franz] e a mesma inicial”.


A colagem final esteve exposta com outras colagens das alunas da Joana Verdelho no auditório da Junta de Freguesia de Amora. Desde o início que percebi que esta colagem iria ficar para mim. Foi também com esta colagem que decidi avançar com um projecto para este ano: retratar 20 mulheres em 2020.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

#2 Rosie, the riveter

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#2 Rosie, the riveter


Rosie, a rebitadeira é o símbolo do esforço de guerra assumido pelas mulheres quando, por escassez de mão-de-obra, por os homens terem sido alistados para o exército, as mulheres ocuparam nas fábricas os postos de trabalho que anteriormente só estavam nas mãos dos homens. Elas mostraram que também eram capazes de fazer o mesmo trabalho -  We can do it!


Estava dado mais um passo na história da emancipação das mulheres, mesmo quando, terminada a 2ª guerra mundial, se pediu que elas voltassem para casa, de regresso à “normalidade”.


Rosie, the riveter tem sido um ícone do feminismo, por aquilo que significa de autonomia, de capacidade, de força. Há muitas histórias ligadas a Rosie, mas confirmou-se que a operária de uma fábrica de aviões que inspirou o icónico cartaz foi Naomi Parker, falecida em 2018 com 96 anos.


Esta minha segunda colagem foi feita num suporte diferente – cartão – e ofereci-a a uma mulher feminista muito especial que me tem inspirado ao longo de décadas.


 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

#1 Hijab

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#1 Hijab


Tudo começou de uma forma simples.


Nas minhas aulas de desenho e pintura, a Joana propôs-nos um desafio diferente. Uma colagem. Primeiro fica-se de pé atrás, pensa-se que não se vai conseguir fazer (o meu lado negativo a funcionar), mas passado o primeiro momento de indecisão, a semente começa a germinar.


Tinha acabado de ler “Um Muro no Meio do Caminho” de Julieta Monginho e as mulheres sírias nos seus hijabs não me saíam da cabeça. Refugiadas/os, vidas suspensas numa “ilha que é uma prisão disfarçada de paraíso” à espera que a Europa sonhada, que os olha de lado e que os cerca de arame farpado, lhes dê um salvo-conduto que lhes permita concretizar os seus sonhos.


Hijab foi pois a minha primeira colagem. As palavras e as imagens que acompanharam o desenho conseguiram de algum modo estar em harmonia com o desenho e com o objectivo da colagem. Quando a acabei já sabia a quem a ia dar.

"O Último Avô", Afonso Reis Cabral

  “O Último Avô” – Afonso Reis Cabral, 2025   De todos os livros que li de Afonso Reis Cabral, e li todos, este é o mais elaborado e mais co...