terça-feira, 24 de março de 2026

"O Último Avô", Afonso Reis Cabral

 


“O Último Avô” – Afonso Reis Cabral, 2025

 

De todos os livros que li de Afonso Reis Cabral, e li todos, este é o mais elaborado e mais complexo. Há bastante tempo que um livro não me perturbava tanto. É um verdadeiro puzzle, não só pela sequência de capítulos em tempos diferentes, mas pelas personagens cujas vidas se ligam, pelo twist no final do livro e pela extrema atenção que requer por parte do/a leitor/a. Mas, sobretudo, muito bem escrito. Imagino que para o autor que o imaginou e escreveu, precisou de muito tempo, muito rigor e atenção, porque se trata de uma tapeçaria com muitos fios e desenho muito elaborado.

É um livro sobre os traumas da guerra colonial, não só nos que a viveram enquanto soldados, mas nos familiares que viveram as consequências do trauma. A figura central é Campelo, o avô do narrador, a quem deixa como testamento o cuidar da gestão do seu património intelectual. Engenheiro de formação, escritor famoso, Campelo é um egocêntrico, possessivo, violento e obcecado por memórias de África, o tabu de um futuro livro sempre anunciado, mas nunca concretizado. Em torno dele, além do narrador, múltiplas figuras femininas, personagens complexas que se vão desvendando ao longo da  narrativa, essenciais para a caracterização de Campelo. A filha, mãe do narrador – a Formiga – “tímida com o coração selvagem” (pág. 24) que um dia se rebela contra o pai e foge; a avó que se revela  já não como a mulher silenciosa, quando se separa e decide ir viver para Azeitão, onde “se tornara a versão mais feliz de si mesma” (pág. 108); Noélia, a criada, para quem Regina, a fazer um mestrado em Teoria da Literatura envolvendo a obra de Campelo e envolvendo-se com ele, era uma “cabra” (pág. 57); as tias, manas da Formiga, praticamente inexistentes; Cecília, a namorada do narrador, o grande apoio deste ao longo dos vários momentos do romance e, finalmente, Jóia e Estrela da Piedade, as duas africanas da fotografia encontrada entre as recordações de Angola. Porquê esta fotografia? Quem serão estas mulheres? Despojos de guerra?

Quanto aos homens, além de Campelo e do neto (narrador), apenas uma cena com o pai do narrador, afinal um pai ausente; o editor Torres, sempre ansioso por notas ou pelo manuscrito que possa sair à luz para finalmente responder à expectativa do que seria a obra maior de Campelo, numa crítica clara ao meio literário e à avidez pelos sucessos editoriais. E claro, Campelo e Augusto o neto, afinal muito parecidos, por vezes até difíceis de se distinguirem!

O cerne do romance é o manuscrito de Campelo, o mistério em torno do conteúdo do manuscrito que o avô destrói antes de morrer, a ânsia de saber se não haverá outro manuscrito para além do queimado – o manuscrito – eventualmente no quarto fechado que a mãe do narrador ocupou antes de morrer. E também em torno da autoria… Os traumas de guerra que Campelo partilhou com a filha e com o neto, em quem projectou a escrita do seu livro de memórias de África e que o levou um dia a afirmar: “Hoje nasceu um escritor” (pág. 92). A certa altura, o narrador tem a sensação de que o avô quer que seja o neto a escrever o livro por ele e conta-lhe episódios da guerra, fala-lhe de Zacarias, o mulato que salvou das chibatadas, da mãe Jóia e da tia Estrela da Piedade: “Tinha a impressão de que ele se apoderava de mim frase a frase” (pág. 101) “Mas faltava rigor ao imaginário” (pág. 103). É de tal forma intensa esta presença do avô na escrita do neto (até as caligrafias se assemelham), que a certa altura o neto se rebela e não quer continuar a escrever.

O livro vai sendo construído como num puzzle com capítulos curtos entrecortados, até que começam a surgir capítulos escritos em itálico, as histórias da guerra, o tão ansiado manuscrito. Será aquilo um romance, ou antes uma confissão, um romance autobiográfico? É justo publicar uma confissão que venha manchar a memória de alguém que já morreu e que desse modo venha contaminar negativamente as expectativas e uma imagem até então tão positiva? Afinal “qualquer escrito é um engano” (pág. 217) e “Quantas pessoas não são a ficção que fazemos delas, e quantas histórias não andam por aí à solta sem verdade excepto a própria, isto é, a verdade da ficção”. (pág. 269).

Termino com esta transcrição de “O Último Avô” um livro sobre a guerra colonial, difícil e corajoso, que li atentamente e cujos últimos capítulos senti necessidade de reler. “… ocorre-me que este país com a geografia fácil de um rectângulo, mais a porção das ilhas, não tem os quilómetros quadrados necessários para mistérios ou descobertas. (…) Todavia, apesar de claustrofóbico, ainda tem dimensão para segredos: é que Portugal esconde um exército, o exército dos ex-combatentes.

Restam uns trezentos mil soldados da velha guerra. A estatística manda que os encontremos na rua, na sucursal do banco ou dos correios, nos cafés. Frequentam os transportes públicos e sentam-se ao nosso lado na Loja do Cidadão. São eles que conversam entre si durante horas nos bancos de jardim. Uns falam alto, outros perderam a voz. Suspeito de que muitos dos que agarramos pelos pulsos e tornozelos às camas dos hospitais, e que bradam como cercados pelo inimigo, também sejam antigos combatentes. Alguns escondem-se à paisana de velho e à paisana de soldado: como ninguém lhes dá mais de setenta anos, não parecem velhos o suficiente e ninguém desconfia de que combateram em África. Outros entraram em lares” (pág. 245).

7 de Fevereiro de 2026

terça-feira, 17 de março de 2026

As Pessoas Felizes, Agustina Bessa-Luís, 1975

 


“As Pessoas Felizes” – Agustina Bessa-Luís, , 1975

Há muito que estava para ler Agustina. Aliás, quando li a excelente biografia de Agustina Bessa-Luís “O Poço e a Estrada” escrita por Isabel Rio Novo, prometi a mim mesma que iria tirar da estante “A Sibila” do meio dos muitos livros de Agustina que herdei da minha irmã Isabel. Afinal comecei com “As Pessoas Felizes”, graças à proposta de leitura saída do Leia Mulheres que se reúne mensalmente no Museu do Aljube, Resistência e Liberdade, coincidente com o inesperado e injusto afastamento de Rita Rato da direcção deste excelente espaço de cultura e memória situado em Lisboa. Não me esqueço do momento em que o meu filho, então estudante do 3º ciclo, me apareceu com “Dentes de Rato”, para eu o ajudar na compreensão daquele livrinho de Agustina, num trabalho que tinha de apresentar na aula de Português. Nem os comentários de Mónica Baldaque, filha da autora, sobre a crítica a quem faz os programas de Língua Portuguesa, por escolherem “A Sibila” como obra a ser lida por jovens, que certamente, em vez de ficarem com apetência por ler e, especificamente Agustina Bessa-Luís, certamente irão ficar sem vontade de ler esta autora, no futuro.

Não quero ser injusta e fazer uma generalização abusiva, tanto mais que só li “As Pessoas Felizes” de Agustina. Mas, a partir do que li, considero uma leitura difícil, muitas vezes incompreensiva, que estilhaça o senso comum, a ordem previsível das coisas, repleta de aforismos. Uma leitura para ser feita lentamente, voltando muitas vezes atrás, tentando encontrar o fio à meada e muitas vezes não o encontrando… O facto de o livro fazer constantes referências a Anna Karénina e às suas personagens, livro que não li, e a Lev Tolstói e à sua vida, tornaram muitas vezes difícil de compreender algumas das páginas de “As Pessoas Felizes”. Como Isabel Rio Novo escreve em “O Poço e a Estrada” todos os livros de Agustina são biográficos, sem obedecerem a um plano, nascendo como um rio e, com efeito, descobri em Nel “estrela do paradoxo burguês” (p. 177) em “As Pessoas Felizes” muitas semelhanças com a vida de Agustina. Se não tivesse lido a biografia, teria tido mais dificuldade e menos interesse em chegar ao fim do livro.

“As Pessoas Felizes” foi escrito antes e depois do 25 de Abril e se só nas páginas finais do livro se sente que as personagens estão a viver a revolução e os choques nas relações entre as pessoas se intensificam, a verdade é que a autora quis, quanto a mim, mostrar que a pretensa concórdia e harmonia entre as pessoas é muito frágil e que o conflito e a separação das famílias são a norma. Nel, sendo mulher, não segue o padrão feminino tradicional, nem no matrimónio nem na maternidade, aliás tal como Agustina. A personalidade incomum da autora – “sou o que se chama conservadora”/ “sou uma pessoa tranquila, mas não conformada” – demarcando-se do feminismo, apoiou, contudo, o movimento pelo “Sim” à despenalização do aborto em 2007, aconselhava as jovens mães a não se deixarem prender na teia da maternidade e ela própria fez a escolha do homem com quem esteve casada durante 72 anos, saindo absolutamente dos cânones da época.

Em “As Pessoas Felizes” há uma crítica explícita à Mocidade Portuguesa, a Salazar como um moralista e uma pessoa obscura, uma crítica à educação sexual ou à ausência dela. Ou seja, sendo conservadora e de direita, Agustina era uma mulher insubmissa e com atitudes inusitadas e fora dos padrões da época e, embora haja neste seu livro mulheres sujeitas a “humilhações femininas” (p. 23), outras para além de Nel a personagem central, reflectem esse estilhaçar do senso comum que referi em parágrafo anterior. Nel que vai viver com os tios após a morte da mãe “detestou a gente grande. A gente grande era constituída por certo número de pessoas destinadas a lugares de mando ou dum servilismo prepotente. Gente feia, ocupada em coisas enfadonhas e intermináveis.” (págs. 47 e 48) “Nel tornou-se, na casa dos Carrancas, um autêntico pomo de discórdia” (p. 56). Nel era um problema para a tia Florinda “sobretudo porque ela não tinha, como as outras raparigas, o casamento como objectivo. Interessava-se pelos homens, de maneira apenas turística: frequentava-os, mas não pensava em habitá-los.” (p. 77) E quando, finalmente, Nel se casa, a prima atira-lhe estas palavras: “Casas-te porque é a única maneira de não andarem atrás de ti a fazerem-te perguntas obscenas. É chato. Querem saber que espécie de mulher tu és, se não tens cio, se és pela emancipação sexual, se tens a vagina estreita, se és lésbica, se tens o complexo de Édipo. Isto são palavras tuas, não acrescento nada, mas tens razão. É chato.” (p. 82)

Sendo geralmente vaga a localização temporal dos acontecimentos que não surgem numa ordem cronológica perceptível, há, no entanto, a referência a 1961 “ano em que deflagrou o terrorismo no Ultramar” (p. 151). “A culpa abriu-se no coração dos portugueses, e eles aguardaram que ela se transformasse numa medalha ou numa pensão de sangue ou num luto apenas.” (p. 152). “Essa juventude que vivia a guerra ou era neonaturalista ou contestatária. Uns cumpriam o seu tempo de selva e batiam-se não como mercenários, mas também sem o espírito de invulnerabilidade que estimulou o racismo europeu.(…) Outros emigravam. Indocumentados, mas em grande parte munidos duma protecção familiar que tornava o exílio uma aventura de estação. (p. 153)

Já vai longo este texto, mas gostaria de fazer aqui algumas transcrições de trechos em que é feita referência a “pessoas felizes”.

O que faz as pessoas felizes é não terem vida interior. A vida privada raramente coincide com a vida interior.” (p. 118)

“João Afonso Carranca costumava dizer que a generosidade não é própria dos ricos, mas dos felizes. Eram pois pessoas felizes, moderadas nas paixões e nos pensamentos, capazes de vencer preconceitos, para acudir a necessidades. Pois todo o extremo as desgosta e toda a justiça por demais assídua as acaba por descontentar.” (p. 172)  

E quando em 1971 uma série de calamidades caiu sobre a família dos Carrancas “As pessoas felizes desagregavam-se.” (p. 175)

Termino, repetindo que ler Agustina Bessa-Luís não foi fácil. Houve coisas que não percebi, mas nem por isso não deixei de chegar ao fim do livro que terminou na página 184, como podia ter terminado umas tantas páginas antes, quando o rio tivesse secado.

17 de Março de 2026

sexta-feira, 13 de março de 2026

Mudei de casa

 


Quando mudamos de casa é uma trabalheira. Se acumulámos muita coisa na casa antiga, a dor de cabeça é grande e percebemos que temos que deixar alguma coisa para trás e levar apenas o essencial. Neste caso foram só sete anos, mas com muitos livros!

Para esta mudança. antes do mais, tenho que agradecer à Patrícia. Sem ela, não teria conseguido e hoje, finalmente, acabámos a mudança. Antes de escrever aqui, ainda fui fazer as despedidas à casa antiga e deixei lá um poema da Shahd, para que não nos esqueçamos daquele Povo pássaro lá na Palestina. Obrigada a ambas. 

Vamos ver como me vou dar neste novo condomínio e se não perco o contacto com os meus antigos vizinhos. A filosofia é a mesma. Ler e escrever. 

Até já. 

13 de março de 2026


"O Último Avô", Afonso Reis Cabral

  “O Último Avô” – Afonso Reis Cabral, 2025   De todos os livros que li de Afonso Reis Cabral, e li todos, este é o mais elaborado e mais co...