sábado, 28 de fevereiro de 2026

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, Tiago Rodrigues

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“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” -Tiago Rodrigues, 2024

 

O título é suficientemente polémico, para se desejar ver a peça em palco, mas conseguir arranjar bilhetes antes que todas as sessões se esgotem? Li o texto dramatúrgico, li o extraordinário posfácio da autoria de Gonçalo Frota e voltei de novo ao texto, para o ler desta vez com mais atenção aos detalhes  sobre que se debruça o posfácio.

Que grande texto de Tiago Rodrigues, que peça perturbadora e tão polémica esta “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.  Começado a ser construído a partir da ideia de uma família que se reúne anualmente para vingar a morte de Catarina Eufémia, símbolo das mortes de todas as mulheres, ainda com os ecos dos protestos das feministas pelo absurdo do acórdão do juiz Neto Moura que se baseia em citações da Bíblia e no Código Penal de 1886, a eleição do primeiro deputado do Chega em Outubro de 2019 foi o gatilho para o texto cuja apresentação pública estava prevista para meados de 2020. A leitura do posfácio ajuda-nos, leigos, a perceber a complexidade do trabalho de criação de texto e de montagem duma peça teatral, do método de trabalho de Tiago Rodrigues até ao momento da apresentação da peça ao público. Atento ao que se passa no mundo, sensível às ideias e propostas dos actores, rodeando-se de uma equipa que vai de historiadores, a músicos, a estilistas, bailarinos, há todo um trabalho colectivo de criação aberto a alterações e mudanças que podem ser radicalmente diferentes da ideia original. Quando a equipa de actores partiu para a residência artística em Motemor-o-Novo, na primeira semana de Março de 2020, estava longe de imaginar que a pandemia iria alterar definitivamente todo o calendário de trabalho previsto inicialmente. No entanto, em Montemor-o-Novo, o trabalho colectivo, as conversas informais, as ideias individuais, os momentos de lazer, tudo isso foi o combustível que permitiu criar um texto dramatúrgico praticamente finalizado. Com a entrada em cena da pandemia, a interdição de ensaios presenciais trouxe a frustração do trabalho à distância, em tudo contrário à dinâmica criada por Tiago Rodrigues.

Eram muitas as dúvidas que se colocavam quando se fizeram os primeiros ensaios em Junho de 2020. “A pandemia roubou-nos a confiança de imaginarmos o futuro” (p. 181). A peça foi à cena pela primeira vez em Dezembro de 2020 no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, seguindo depois para o Centro Cultural de Belém em Lisboa. A peça situa-se em 2028, no sul de Portugal, com um governo fascista. Em palco, encontra-se reunida a família descendente de uma ceifeira companheira de Catarina Eufémia que há 75 anos deixou uma carta como herança para a família, para que nunca cale a injustiça onde confessa: “Hoje matei um homem. Não o matei pelo mal que me fez, embora estivesse no meu direito. Matei-o pelo bem que não fez” (p. 42). Todas as personagens se chamam Catarina, excepto o fascista também em cena, o ideólogo do partido de extrema direita, raptado para ser morto por uma das mulheres da família.

É uma peça que nos perturba. O que está ali em jogo: justiça ou vingança? Vale a pena continuar a apostar em eleições, em manifestações, em petições, ou a resposta ao ascenso do extremismo fascista tem de se combater com acções radicais? “Deve ou não dar-se a palavra a alguém que discursa contra o edifício democrático? Deve aceitar-se que tenha palco, que use a liberdade para falar sem censura ou, pelo contrário, ser silenciado?” (p. 222)

Se o texto é extremamente forte pelas questões que coloca, pelo carácter quase premonitório de um futuro governo liderado por fascistas, também alerta para os alçapões e fragilidades do sistema democrático que deram azo a que a desconfiança, o ressentimento e a raiva medrassem e dessem espaço ao discurso sedutor, simplista, manipulador e perigoso da extrema-direita.

 

27 de Fevereiro de 2026

 

 

 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Nem Todas as Árvores Morrem de Pé - Luísa Sobral

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“Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” -Luísa Sobral, 2025

No prefácio deste livro, Luísa Sobral revela-nos ser uma escutadora, uma boa ouvinte, que aproveita muito do material de escuta ocasional para as suas criações enquanto autora de canções. Neste caso, para a escrita de “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” o seu primeiro romance. A partir duma “história incrível” lida num jornal de Vila Real, que uma amiga lhe enviou através de uma mensagem de whatsapp, aquela história, não só deu azo a uma canção que ela escreveu logo naquela noite, como lhe ficou a matutar e deu origem a este “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”. Confesso que o Prólogo, que li logo que comprei o livro, é avassalador, muito visual e pus o livro de parte. Mas, na manhã seguinte, voltei a pegar-lhe e li-o em dois dias.

Para já o livro é visualmente muito bonito, para além da escrita poética e bem elaborada, na sua estrutura. Para quem quiser começar pela canção, basta usar o código QR logo a abrir o livro. Depois a capa e as ilustrações de plantas da autoria de Camila Beirão, as quais encimam todos os capítulos da narradora, apaixonada pela natureza e que organiza um herbário com todas as espécies que colhe nas suas saídas para o campo. A narrativa é fragmentária e a história da narradora e das restantes personagens vai-se desvendando aos poucos.  Surgem capítulos com a letra em itálico sendo Emmi a narradora; as cartas de Markus para Emmi e os capítulos também em itálico da Tia da narradora. É da conjugação destes capítulos, interligados com pequenas frases/reflexões/pensamentos, que se constrói este belo livro, muito bem escrito. Detectei que a escolha dos títulos dos capítulos com o nome de plantas, seguido do nome científico e das características das plantas, nomeadamente o seu poder curativo, não foi casual, antes deliberada, o que torna o romance ainda mais interessante.

A história tem como ponto central o Muro de Berlim construído 2 anos antes de M. a narradora ter nascido. O Muro é o regime opressivo, o peso da suspeita e do medo, aquilo que dividiu famílias durante vinte e oito anos. Dividida entre o amor ao pai e o medo de não corresponder ao modelo que ele queria, sente-se rejeitada pela mãe sem ter para isso uma explicação. Tímida, sem vontade própria, foi Mavie a ama que a acompanhou até à entrada na escola e lhe incutiu o amor às plantas e aos seus efeitos curativos. O seu refúgio na natureza e a paixão em fazer um herbário eram os seus momentos de felicidade, ela que “só sabia falar com as plantas” (pág. 22) e para quem “o medo era a minha doença crónica” (pág. 61).

Em contraponto ao Muro, a liberdade protagonizada pelas plantas que a narradora colecciona, o herbário, Mavie, Klaus, Matteo, Francesca, Angelo e a concretização da fuga. Os traumas de infância são de tal forma profundos que é com indiferença que toma conhecimento da queda do Muro. Afinal, os pais são uma cicatriz que continua aberta e aquando do seu casamento com Matteo, “o passado não foi convidado” (pág. 110).  

Emmi, a mãe da narradora, é uma personagem importante nesta história. Os seus sonhos de um amor feliz são brutalmente truncados com uma revelação inesperada. Deprimida, frustrada, encerra-se num mutismo que é ódio primeiro e depois indiferença e numa rejeição da filha recém-nascida que o marido atribui a uma “depressão” o que a ela pareceu “um bom diagnóstico para ser deixada em paz” (pág. 130). O ódio que sempre nutriu pela filha, a quem tratava por miúda, só deixou de existir quando soube que a filha tinha tido a coragem para fugir, a coragem que ela nunca tinha conseguido ter.  Emmi sentia-se cobarde, sentia que estava morta há anos e quando teve conhecimento da fuga “naquele dia comecei a amar a miúda. A minha filha” (pág. 152).

Não revelo mais nada sobre a história, pois vale mesmo a pena ser descoberta.  Quero ainda confessar que este livro me invocou duas amigas. Por causa da capa e das ilustrações botânicas do livro, a Manuela Rosa, professora de desenho e pintura, cujas estimulantes oficinas acompanho mensalmente na Quinta da Fidalga e a Irene Alves, amiga de um clube de leitura, que me ofereceu o “Herbarium” de Emily Dickinson com folhas e flores recolhidas nos campos de Amherst e com “poemas botânicos” traduzidos pela maravilhosa Ana Luísa Amaral.

14 de Fevereiro de 2026

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A Promessa, Silvina Ocampo, 2011

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“A Promessa” -Silvina Ocampo, 2011

“Que livro estranho” foi o que pensei à medida que ia lendo “A Promessa”. Se não desisti e o li até ao fim, deveu-se ao facto de ter sido o livro escolhido para este mês pelo Leia Mulheres e ter interesse em conhecer a opinião das minhas companheiras e companheiros que se juntam uma vez por mês no Museu do Aljube - Resistência e Liberdade, sempre em torno de um livro escrito por uma mulher. Desta vez a argentina Silvina Ocampo.

Também estranho o facto de o livro ter sido revisto, corrigido e concluído entre 1988 e 1989, depois de cerca de três décadas de reescritas constantes. Iniciada a escrita na década de 1960, anunciada a publicação para finais de 1966 e posteriormente para 1975, a revisão e finalização ocorre num período de grande fragilidade de Silvina Ocampo, a par do fim da protagonista, tendo sido publicado postumamente em 2011. A autora caracterizou “A Promessa” como um “romance fantasmagórico” em que autora e narradora estão ligadas por um destino comum.

Devota de Santa Rita, “a padroeira das causas impossíveis” (pág. 11) a narradora faz a promessa de escrever um livro, caso se salve do estúpido desastre que a leva a cair ao mar, sem que ninguém do navio onde seguia, se aperceba da sua queda. Segue-se um desfiar de pessoas que recorda, de histórias que envolvem essas pessoas e que ela não pára de contar, tentando não adormecer, sempre na esperança de poder ser salva, de o navio a poder vir resgatar. Com a perspectiva da morte certa, são muitas as personagens sobretudo ligadas à sua infância que lhe vêm à memória. Nomeia-as, dá-lhes os traços fisionómicos e de carácter que as tornam únicas, mostra os seus defeitos e virtudes, recorda com maior insistência Gabriela (Gabriel), Irene a mãe e Leandro, conta histórias caricatas que algumas protagonizam, sonha, revela o seu amor pelos animais porque são verdadeiros… No fim daquelas pequenas histórias e das personagens que ela traz, o mar está sempre presente, nomeadamente através de uma pequena frase ou período que nos situa a narradora e a sua condição de náufraga que vai resistindo, vai perdendo as forças e a consciência, até ao momento em que em vez de pessoas passa a recordar árvores e animais. “A água está fria, uma araucária ocupa o meu pensamento.” (pág. 98). “Morrerei depressa! Se morrer antes de terminar o que estou a escrever ninguém se lembrará de mim, nem sequer a pessoa que mais amei no mundo.” (pág. 99). “Mal sinto o bater do meu coração. Terei realmente um coração? Ou ter-se-á perdido na água do mar?” (pág. 100).

É sem dúvida um livro pungente, com destaque para os momentos de escrita poética em que a narradora fala do mar em que luta pela sobrevivência. Por que teria Silvana Ocampo levado tanto tempo a escrevê-lo? Por que deixou a parte final para o tempo que sabia que era o fim da sua vida?

 

20 de Fevereiro de 2026

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O último aniversário

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Foram 7 anos por aqui.

O friso de meninas que aqui publiquei há 7 anos, quando pela primeira vez me aventurei no mundo dos blogues, aumentou, como se pode ver nesta imagem. Na altura, agradeci à Helena, à Albertina, à Luísa Bernardo, à Cristina Duarte , à Cristina Delgado e à Chimamanda o incentvo e apoio que me deram para criar um blogue e assim deixar mais arrumados os textos que ia escrevendo. Claro que tenho também que agradecer a todas as pessoas que me foram lendo, comentando e incentivando. Mesmo sabendo que os blogues já não estão na moda nem são muito seguidos, porque deixaram de ter a atractividade das redes sociais  dos nossos dias frenéticos. 

Desde então, foram raros os livros que li sobre os quais não escrevi e por isso, quem me foi seguindo, talvez tenha tido vontade de ler alguns dos belíssimos livros que me têm acompanhado nestes últimos anos. Não posso deixar de dizer que não é com pena que me despeço deste espaço onde me sinto confortável e bem acolhida. Agradeço também a quem já se despediu e foi para outro "condomínio" e me incentivou a não ficar na condição de sem-abrigo.

Sei que o sapo ainda me deixa ficar por aqui algum tempo antes da data do despejo definitivo, mas tenho de me despachar e tomar decisóes. Mais uma vez obrigada e até sempre. 

Almerinda 

19 de Fevereiro de 2026 

 

 

 

 

"O Último Avô", Afonso Reis Cabral

  “O Último Avô” – Afonso Reis Cabral, 2025   De todos os livros que li de Afonso Reis Cabral, e li todos, este é o mais elaborado e mais co...