sábado, 27 de dezembro de 2025

Uma pilha incompleta

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Uma pilha incompleta

De facto, a imagem não corresponde aos livros que li ao longo deste ano de 2025. A pilha está incompleta. Estes são os que tenho neste momento em casa. Como li vinte e quatro livros, os dez que faltam aqui, ou estão emprestados, ou requisitei-os na biblioteca municipal e, portanto, não podem fazer parte da fotografia.

Foram seis autores homens e dezassete autoras mulheres, o que geralmente me acontece, e nem é por num dos clubes de leitura que frequento, só lermos mulheres escritoras. Onze autores portugueses e doze estrangeiros e aqui o equilíbrio é maior. A maioria das obras foram escritas já neste século e apenas cinco no século passado.

Ora então aqui os trago de novo, por ordem de leitura entre Janeiro e Dezembro. Um mundo emoções, de descobertas, de grandes leituras.

“Na Terra dos Outros” - Manuel Abrantes, 2024

O que ela se interrogava era como faria para abrandar e imobilizar a bicicleta sem tombar desamparada. Ocorreu-lhe que seria mais prudente conservar-se em movimento, rua após rua, esquina após esquina. Ali estavam já os dois jovens diante do bloco de apartamentos, os seus filhos adolescentes a olharem para ela pasmados, tão pasmados que seriam incapazes de rir ou de protestar.” 

 

“Do Outro Lado do Sonho” - Ursula K. Le Guin, 1971

 “Poderia alguém, mesmo são, viver neste mundo sem dar em doido?” 

 

“Um Dia na Vida de Abed Salama” - Nathan Thrall, 2023 

 “O acidente destruíra todas as famílias, cada uma à sua maneira”. 

 

“El-Rei, Nosso Senhor, Sebastião José” - Ana Cristina Silva, 2024

“Quantas vezes se tem a oportunidade de mudar um país e ao mesmo tempo derrubar os inimigos?”

 

“Corpo Vegetal” - Julieta Monginho, 2024

Vale a pena avançar quando “já ninguém acredita em nada” e já ninguém acredita no #metoo?

 

“Anónimos de Abril” – Vol. 1, José Fialho Gouveia, Rogério Charraz, Joana Alegre, 2005 

 “O medo foi sempre a grande arma da repressão. Todavia, há alturas na vida em que não se pode recuar. Essa era a altura. Tinha de vencer o medo.” 

“Proibida na Normandia” – Rosario Raro, 2024

«Se não acabarmos com a guerra, a guerra acabará connosco». 

 

“O Baile” – Irène Némirovsky, 1930 

É em torno deste mal viver que se desenrola este pequeno conto que tem um desenlace insólito.

 

 “Filho da Pide” – Paulo Jorge Pereira, 2023

passado meio século sobre a queda dos fascismos, foi então possível começar a compreender os fenómenos ocultos (ou silenciados) do consentimento coletivo ou mesmo da colaboração de vastos grupos sociais ou instituições que, de forma conivente, ajudaram e permitiram manter uma violência irrestrita das polícias políticas sobre os seus compatriotas resistentes.”

 

“As Malditas”. Camila Sosa Villada, 2019

“O meu pai e a minha mãe sentiam vergonha de mim. (…) Mas eu também sentia vergonha deles”

 

“As Moscas de Outono” – Irène Némirovsky, 1931

Eles, (os Karine) iam, vinham, de um muro ao outro, silenciosamente, como as moscas de Outono, quando o calor, a luz e o verão aparecem, voam penosamente, exaustas e arreliadas, contra os vidros, arrastando as asas mortas” 

 

“Cartas para minha Avó” – Djamila Ribeiro, 2024 

Minha mãe teve suas asas cortadas por muitas tesouras, e dizer a ela que a compreendíamos foi como fazer um pedaço se colar.” 

 

“Memória de uma Epifania” – Maria João Vaz, 2023

“De uma forma geral, as pessoas sabem pouco sobre o que é ser trans, e o que julgam saber está cheio de equívocos.” 

 

“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” – Teolinda Gersão, 2021

 “A Alemanha regrediu milénios, e mergulhou numa barbárie a que poderíamos chamar pré-histórica. Parecia impossível, mas aconteceu” 

 

“A Outra Filha” – Annie Ernaux, 2011

“Tu só existes através da impressão que deixaste na minha existência. Escrever-te mais não é do que percorrer a tua ausência. Descrever a herança de ausência. És uma forma vazia impossível de preencher com a escrita.” 

 

“Autobiografia de uma Mulher Romântica” – Natália Nunes, 1954 

 “Fui repelida e desprezada por ser uma romântica. Pois não serei eu quem desminta a minha natureza! Se não tenho lugar neste mundo fujo para as penhas nas alturas solitárias e levo a minha alma, que o meu corpo de bicho montês sabe contentar-se com as caricias das fragas e com os beijos dos arbustos!”

 

“As Migalhas de Beirute” – S. Costa Brava, 2019 

O ódio e a violência só geram cada vez mais ódio e violência. Todos perdemos e a democracia fica em risco. Será que temos capacidade de enfrentar a besta que nos quer destruir?

 

“Anos de Brasa” – Luís Farinha, 2025

“Quem nos garantia que os «analfabetos» desejavam ter consciência de si e do mundo em troca de aprender a escrever e ler nomes de coisas?”

 

“Como Animais” – Violaine Bérot, 2021

“Nós

as fadas

vemos

o que alguns homens

por vezes

fazem às mulheres

sem lhes perguntarem

nada.

 

Sem pedirem

às mulheres

o seu consentimento

sem lho pedirem

os homens

antes.”

 

“O Quinto Filho” – Doris Lessing, 1988

Condenação, crítica e incompreensão: Ben parecia causar estas emoções, fazê-las emergir nas pessoas, trazendo-as ao de cima…” 

 

“Notas sobre um Naufrágio” – Davide Enia, 2017 

“De todas as vezes, absolutamente todas, tenho a nítida sensação de me encontrar diante de seres humanos que carregam dentro de si um cemitério inteiro.

 

“Gaza Está em Toda a Parte” – Alexandra Lucas Coelho, 2025

“A Europa disse: nunca mais, e era mentira. Estamos a ver o genocídio ao minuto num campo de concentração”

 

“Regresso a Reims” – Didier Eribon, 2009 

Estamos sempre em equilíbrio instável entre o significado ofensivo da palavra injuriosa e a sua reapropriação orgulhosa. Nunca se é totalmente livre, nunca se está libertado.” 

 

  “Pequenas Coisas como Estas” – Claire Keegan, 2021

a última lavandaria de Madalena só foi encerrada em 1996. Não se sabe quantas raparigas e mulheres foram escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nestas instituições. Dez mil é a estimativa mais moderada; trinta mil seria provavelmente um número mais exato.”

 

27 de Dezembro de 2025

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Pequenas Coisas como Estas, Claire Keegan

 

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“Pequenas Coisas como Estas” – Claire Keegan, 2021

Este é um pequeno livro que retrata uma realidade aterradora, algo que acontecia apenas há três décadas. Por várias vezes, ao longo das linhas que ia lendo, imaginava que estava na Irlanda do início do século passado, ou mesmo antes, mas não, a história passa-se em 1985. Na nota no final do livro esclarece-se que “Este livro é uma obra de ficção que não se baseou em nenhuma personagem real.”

Há anos vi um filme muito impressionante sobre um caso relacionado com a igreja católica na Irlanda e a sua conivência na ocultação da tortura infligida num convento para onde eram enviadas jovens mulheres grávidas que os pais repudiavam. Não me lembro do nome do filme, mas o tema é o mesmo: as chamadas lavandarias de Madalena – Magdalene laundries – instituições dirigidas por freiras católicas, que recebiam mães solteiras, mulheres violadas ou “caídas em desgraça”; estas instituições existiram entre o século XVIII e final do século XX, forçando-as a trabalhos muito penosos, muitas vezes em lavandarias, em péssimas condições de trabalho, sujeitas a todos os abusos e exploração, verdadeiro trabalho escravo com perda total de liberdade. Na referida nota no final do livro lê-se que “a última lavandaria de Madalena só foi encerrada em 1996. Não se sabe quantas raparigas e mulheres foram escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nestas instituições. Dez mil é a estimativa mais moderada; trinta mil seria provavelmente um número mais exato.” E o “Relatório da Comissão de Investigação dos Lares para Mães Solteiras concluiu que nove mil crianças morreram em apenas dezoito das instituições investigadas. Em 2014, a historiadora Catherine Corless divulgou a sua descoberta chocante de que 796 bebés morreram entre 1925 e 1961 no lar de Tuam, no condado de Galway” (pág. 83)

Aparentemente, naquela localidade onde Bill Furlong vive com Eileen e as cinco filhas, tudo corre bem. Vivem-se os preparativos do Natal, a natureza gelada é típica da região e da época natalícia e Furlong afadiga-se em entregar as encomendas de lenha e carvão nas casas de New Ross e no convento local. A região é pobre, o desemprego e a emigração são duras realidades e o álcool é companhia para dissipar o dia-a-dia de muitos homens, já sem falar não haver “falta de mentes desocupadas, nem de mexericos.” (pág. 36) “As irmãs do Bom Pastor tinham a seu cargo o convento, onde funcionava uma escola de formação para raparigas, que aí recebiam uma educação básica. Também geriam uma lavandaria. Pouco se sabia sobre o reformatório, mas a lavandaria tinha uma boa reputação: restaurantes e pensões, o lar e o hospital e todos os padres e casas abastadas mandavam lavar a sua roupa no convento. Dizia-se que tudo o que era enviado, fosse um monte de roupa de cama ou apenas uma dúzia de lenços, regressava como novo”. “Também havia comentários de outro género sobre o lugar.” (…) “… era toda uma indústria que tinham ali” (pág. 36).

Furlong tinha mais em que pensar. Para além do trabalho que nunca abrandava, a sua preocupação era a educação das filhas “Imaginava as filhas a crescerem mais e a terem de enfrentar aquele mundo de homens” (pág. 19). Marcado pelo estigma de nunca ter conhecido o pai e de a palavra “Desconhecido” vir à frente do sítio onde o nome do pai deveria aparecer, tivera, no entanto, a felicidade de a Sra. Wilson o ter acolhido e à mãe sob a sua protecção. Nunca aos trinta e nove anos de idade, Bill pensaria em confrontar-se com uma situação que o remetesse para o seu passado e para os silêncios, indiferença e hipocrisia de uma comunidade controlada pela Igreja. Este livro confronta-nos com a nossa humanidade, com a nossa capacidade de sair da nossa zona de conforto para carregar com um mundo de problemas que tantas vezes evitamos enfrentar.

“Pequenas Coisas como Estas” de Claire Keegan foi finalista do Booker Prize 2022 e vencedor do Prémio Orwell na Categoria de Ficção Política. Mesmo sem estes importantes prémios, um livro precioso.

6 de Dezembro de 2025

 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Regresso a Reims - Didier Eribon

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“Regresso a Reims” – Didier Eribon, 2009

Parece que os clubes de leitura estão a surgir um pouco por todo o lado e isso é bom. Porque, além de podermos partilhar impressões e visões sobre aquilo que lemos e que nos liga periodicamente, estes espaços permitem-nos criar novas amizades e descobrir livros que, possivelmente, nunca teriam feito parte da nossa lista de livros a ler. É o que se passou com “Regresso a Reims” de Didier Eribon, filósofo e sociólogo francês, um ano mais novo do que eu. O não ter nenhuma referência do autor e o facto de a capa do livro ser pouco apelativa, dificilmente me teriam levado a comprar este livro, se não fosse por sugestão do “Ler à Esquerda”.

Sendo uma autoficção sobre o autor e sobre a sociedade francesa em que ele e a família se inserem, o livro permite-nos também olhar para a realidade portuguesa agora, com o crescimento e visibilização agressiva da extrema direita e do conservadorismo, ocorridos há algumas décadas atrás em França com a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen. Desde logo este livro trouxe-me à lembrança Annie Ernaux e o seu característico recurso às fotografias de família para nos situar nos diferentes momentos da(s) história(s).

Após 20 anos de ausência, numa necessidade de fuga do seu meio social e familiar de origem, este regresso a Reims de Didier Eribon após a morte do pai, é uma reconciliação com a mãe e também consigo próprio. Oriundo de uma família muito pobre, para a qual estudar estava fora de questão e que carregava o preconceito para com o intelectual, a descoberta da cultura, a escolha entre resistir ou submeter-se ao determinismo social que o levaria a não sair dos seus limites de classe, assim como decidir assumir a sua orientação sexual, foram processos nada fáceis nem lineares. “É preciso ter passado, como foi o meu caso, de um lado para o outro lado da linha de demarcação para escapar à lógica implacável do óbvio e ter a perceção da terrível injustiça dessa distribuição inigualitária das oportunidades e dos possíveis” (pág. 45). Visto pela família como “excêntrico”, “não-normal”, “estranho”, “bizarro”, por causa das suas leituras, actividades políticas e atitudes (pág. 83), os estudos e a sua sexualidade afastam-no da família e de Reims, “a cidade do insulto” (pág. 187).

Um aspecto muito relevante, analisado na terceira parte do livro, é o fenómeno político que consistiu na mudança de voto de parte significativa da classe operária francesa anteriormente comunista para o voto na direita e na extrema-direita. Didier Eribon analisa a erosão do PCF, a incapacidade de aceitar os movimentos sociais emergentes, a desilusão dos meios operários que se sentiram traídos por um governo com participação dos comunistas, com uma esquerda socialista cada vez mais a virar-se para a direita, assumindo uma linguagem de governantes e já não de governados.  A anterior dicotomia “operários/burgueses” passa a ser substituída por “franceses/estrangeiros”; a “classe operária” e os “operários” desaparecem do discurso político; o “senso comum” aprofunda-se: já não é o/a operário/a ou o homem/mulher de esquerda, substituídos pelo “francês”. O racismo entranhado na classe operária vira-se contra os imigrantes, acusados de “roubarem” os empregos e as prestações sociais devidas aos “nacionais”. De notar a persistência desse discurso anti-imigrantes dos anos 80 em França e que encontramos nos anos 20 do século XXI disseminado na Europa e na boca e nas palavras de ordem da extrema direita portuguesa. Em conversa com o autor, a mãe explica que o seu voto na Frente Nacional foi “para expressar um protesto porque as coisas não estavam bem” (pág. 122), rematando que “A esquerda, a direita, não há nenhuma diferença, são todos iguais e são sempre os mesmos que pagam” (pág. 120). A impotência transforma-se em raiva e faz alterar radicalmente o voto anteriormente de esquerda para a direita e extrema direita.

Didier Eribon cita Sartre e Beauvoir como referências fundamentais no seu percurso e no seu pensamento, assim como Foucault que biografou. Sendo Paris a cidade para onde partiu para viver plenamente a sua homossexualidade e a Sorbonne onde encontrou excelentes professores em contraponto ao “marasmo desmobilizador e desmoralizador”(pág. 173) existente em Reims, foi, no entanto, Reims a cidade onde se “construiu como gay” (pág. 195).

 O orgulho de se assumir é político, “visto que desafia os mecanismos mais profundos da normalidade e da normatividade” (…) “Estamos sempre em equilíbrio instável entre o significado ofensivo da palavra injuriosa e a sua reapropriação orgulhosa. Nunca se é totalmente livre, nunca se está libertado” (pág. 211). “a “subversão” absoluta não existe, tal como não existe a absoluta “emancipação”. E quase a terminar, cita Sartre: “O importante não é o que fazem de nós, mas o que nós próprios fazemos daquilo que fizeram de nós”. (pág. 212). E conclui: “No fundo, estava marcado por dois vereditos sociais: um veredito de classe e um veredito sexual. Nunca é possível escapar às sentenças assim proferidas. E eu trago em mim as marcas desses dois vereditos. Mas uma vez que eles entraram em conflito um com o outro em dado momento da minha vida, tive de me moldar a mim próprio voltando-os um contra o outro.” (pág. 213).

Um livro actualíssimo. Indispensável.

25 de Novembro de 2025

"O Último Avô", Afonso Reis Cabral

  “O Último Avô” – Afonso Reis Cabral, 2025   De todos os livros que li de Afonso Reis Cabral, e li todos, este é o mais elaborado e mais co...