segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Cartas a Sandra, Vergílio Ferreira

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Cartas a Sandra, Vergílio Ferreira, 1996


Este foi o último livro escrito por Vergílio Ferreira. Abruptamente interrompido. Dez cartas dirigidas à mulher amada, já morta, tendo a última ficado incompleta, porque o autor faleceu no momento em que a escrevia.


A publicação de “Cartas a Sandra” é da inteira responsabilidade da filha que escreve uma apresentação a anteceder o romance. Entre várias pastas com escritos do pai, as dez cartas – “um projecto mutilado” – que constituem este romance estavam dactilografadas, pelo que ela considerou que teriam o objectivo de serem publicadas, possivelmente até para fazerem parte de um romance de que não deixou qualquer plano ou projecto. Para além da emoção que estas cartas provocam a Xana e também da dor por atitudes da juventude, elas reflectem o amor que os pais nutriam um pelo outro sendo tão diferentes entre si. A mãe tinha um temperamento frio, austero, pouco dado a exteriorizar sentimentos, como se poderá ler nas cartas, com referências quando ela o repreendia “que tolice” ou “não cresceu desde a adolescência”. (I carta)


Através dessas cartas, no isolamento da aldeia, uma escolha para estar consigo mesmo, perto da serra que amava, ele recorda a mulher para continuar a viver esse amor, para “dizer-te tudo o que não deixaste que te dissesse e devia ser a insensatez que tu dizias”. (I carta) Interpela-a “Alguma vez soubeste que eu me reprimia contigo? Um certo medo de te desagradar e de te perder?” (VII carta)


Nas cartas, são raras as referências a outras pessoas para além das breves visitas ou telefonemas da filha Xana. Para além de Deolinda que garante a rotina da manutenção da casa e das refeições de Paulo (narrador/autor) e do amigo o doutor Mário, os poucos contactos com pessoas da aldeia ou da vila mais próxima não merecem destaque. Numa das breves visitas de Xana à aldeia, por ocasião do Natal, ele refere na IV carta que durante a Ceia ele sentiu que eram quatro à mesa: ele, a filha, o neto e Sandra.


São densas estas cartas. Ternas, tristes, amorosas, plenas de recordações, Paulo penaliza-se por aquilo que não fez quando Sandra ainda era viva. “Havia o quotidiano da nossa vida e eu estava tão distraído” (V carta). Coloca-a num patamar superior porque para ele, Sandra não era “da ordem finita de se ser” (VII carta) e ao escrever-lhe, almeja “transpor a enorme distância que ia da minha condição terrestre à tua sacralidade e para lá dela ao teu corpo.” (IX carta), pois “como uma deusa que estivesse de passagem, jamais te falei assim porque tu ignoravas o que havia em ti de transcendência e querias que não houvesse e eu fosse mais quotidiano e talvez te magoasse.”… “desespero de relembrar quanto te amei para além de ti e quanto tu querias que não. Decerto a tua divindade perdeu-se no nosso uso mútuo dos dias e para sempre se manteve.” (IX carta). “O amor e a morte inserem-se um no outro, deves saber. Mas eu sobrevivi e isso é uma condenação.” (VII carta)


Para além da aldeia natal com vista para a serra, aldeia de que Sandra não gostava, são as recordações de Coimbra, das suas ruas, das baladas coimbrãs em dia da Queima das Fitas quando jovens universitários as referências que nos são dadas ver nestas cartas. O céu em dias de sol abrasador ou a escurecer com a chegada da noite, as noites frias e solitárias de Inverno, a grande figueira à porta de casa são o pano de fundo dos pensamentos saudosos de Paulo na “luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo.” (V carta)


Um livro belíssimo, poético, para ser lido devagar. Como o amor, sem pressas.


Com a urgência de reler “Para Sempre”.


29 de Novembro de 2020


 

terça-feira, 17 de novembro de 2020

A Caixa Negra, Amos Oz

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A Caixa Negra, Amos Oz, 1987


Amos Oz era um escritor desconhecido para mim e foi o impulso de este livro estar a um preço muito simpático que me levou a comprá-lo. O título, a capa e a sinopse ajudaram também.


Não é a primeira vez que leio livros com uma estrutura epistolar, como acontece com “A Caixa Negra” e esse facto também me agradou, mal comecei a lê-lo. As personagens vão surgindo e densificando-se à medida que as cartas trocadas entre eles nos vão sendo reveladas. A partir da primeira carta que vai quebrar um longo silêncio de seis anos após o divórcio entre Llana e Alexander Gideon, vai tecer-se toda uma trama de situações que, ultrapassando o aspecto superficial do drama familiar provocado pelos problemas que o filho de ambos Boaz está a criar, traz um conjunto de aspectos políticos, sociais, religiosos da sociedade israelita, os quais surgem em camadas muito para além do que espoletou a carta inicial.


Cartas, telegramas, longas, breves, as de Boaz cheias de erros ortográficos que nos fazem sorrir, é desta matéria que “A Caixa Negra” é construída. Aquilo que muitas vezes não se consegue verbalizar nem transmitir numa conversa face a face, a escrita e, neste caso, a escrita de cartas permite aprofundar ou tornar visíveis sentimentos e estados de alma das personagens. Elas esmiúçam sentimentos, recordam episódios íntimos e analisam-nos como antes os protagonistas nunca tinham conseguido fazer cara a cara  Apesar da separação, houve algo que nunca foi destruído e esse fio que permaneceu é-nos revelado à medida que a correspondência é trocada entre LLana e Alexander. Como numa investigação a partir duma caixa negra de um avião, estas cartas vão-nos revelando aos poucos as histórias daquelas pessoas, deixando-nos adivinhar ou supor o que levou à separação, ao ódio, ao fim de uma relação. Confesso que a certa altura desejei chegar rapidamente ao fim do livro. As cartas de Michel Sommo o segundo marido de Llana, alguém que se revela ambicioso e muito oportunista, sabendo ser melífluo para levar a água ao seu moinho, passaram a ser-me fastidiosas, cheias de citações bíblicas e de sermões para Boaz. O livro perdeu ritmo e tornou-se cansativo.


Confesso os meus poucos conhecimentos sobre a realidade da sociedade israelita: os conflitos entre judeus e árabes, as divisões de classe que se pressentem entre Alexander e Michel Sommo, as diferenças que existem entre judeus relacionadas com as suas origens e proveniências e daí crer que não consegui retirar do livro todo o sentido que um israelita consegue captar deste livro escrito por um escritor israelita com uma postura política de defesa da paz e de simpatia pela causa palestiniana.


16 de Novembro de 2020


Almerinda Bento

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O Dia dos Prodígios, Lídia Jorge

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O Dia dos Prodígios, Lídia Jorge, 1980


Já li vários livros de Lídia Jorge mas, embora tivesse adquirido “O Dia dos Prodígios” em 1984 (!), estranhamente ainda não tinha lido este seu primeiro livro. O facto de ter sido este ano nomeado várias vezes, por comemorar 40 anos da sua primeira edição e por ter lido no prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins a “Os Memoráveis” “Lídia Jorge tem, por outro lado, razão quando coloca Os Memoráveis ao lado do seu primeiro romance – O Dia dos Prodígios – tendo a sensação correta de o estar a atualizar”, levou-me a decidir ler “O Dia dos Prodígios” logo a seguir a “Os Memoráveis”.


Não posso deixar de dizer que me causou alguma estranheza, mal iniciei a leitura. Nem foi fácil entrar no espírito da narrativa. A utilização da pontuação muito sincopada com pontos finais constante no meio de frases cuja utilização não corresponde ao que é habitual e gramaticalmente correcto, os diálogos encadeados das personagens pondo o/a leitor/a como testemunha no meio daquelas conversas sobrepostas num registo de oralidade pura, a linguagem que faz sobressair o vocabulário da região algarvia, tudo isso foram traços da escrita que não identificava com a obra de Lídia Jorge já lida.


“O Dia dos Prodígios” decorre em Vilamaninhos, uma aldeia fechada sobre si mesma, atrasada, rural, cujos habitantes mais não têm para além do seu próprio mundo que o mundo dos vizinhos. O progresso para eles está lá longe, em Lisboa. Para além da camioneta da empresa EVA que os leva a Faro, pouco usada porque os deixava amarelos e enjoados preferindo as deslocações em mulas, a telefonia que um dia José Pássaro Volante trouxe para casa são os raros sinais de alguma abertura ao mundo exterior.


E quem são as personagens deste romance? José Jorge Júnior e a mulher Esperancinha são os primeiros habitantes de Vilamaninhos. Já são velhos e estão sozinhos. Dos doze filhos, para além do que morreu, todos partiram para terras distantes.


Carminha, filha de pai incógnito, embora todos soubessem que era filha do padre, sonha que um dia irá casar com um forasteiro, vive com a mãe, longe da maledicência e da coscuvilhice dos vizinhos que espiam os movimentos das duas.


Jesuína Palha é a coscuviheira-mor, alvoroça toda a aldeia com a ficção da cobra que depois de morta cria asas e voa e que é preciso que se descubra onde se escondeu.


José Pássaro Volante e Branca são talvez as personagens mais perturbadoras. Branca teve a noção clara de que aquele homem com quem iria casar lhe iria dar má vida, tal como dava às mulas e às bestas. A brutalidade da relação para quem a mulher e os animais são seres que Pássaro Volante quer amestrar, amesquinhar, domar, quer através da vara, dos estalos, dos pontapés, ou através de uma colcha onde Branca borda um dragão alado com escamas feitas de missangas. A colcha era a prisão de Branca; aquilo de que não era capaz de se libertar. Como dizia o cantoneiro, o único homem que sabia ser amável para com ela, “Ninguém se liberta se não quiser libertar-se.”


Manuel Gertrudes e Macário são outras das personagens que quero nomear. O primeiro, sempre a recordar a sua experiência na guerra de 14-18 e Macário, uma personagem estranha, talvez bipolar, que fala em verso e que tem uma paixão não escondida por Carminha.


Até que um dia, aqueles homens e mulheres ouvem a notícia de que houve uma revolução sem sangue em Lisboa. E com ela a esperança da mudança, da chegada da electricidade, da água canalizada, do saneamento a todo o país e também a Vilamaninhos. De concreto, um dia a chegada de “um carro celestial” nas palavras de Jesuína Palha carregado de soldados, daqueles que se dizia iriam correr o país de norte a sul para ouvir as queixas das pessoas. Só que falaram e mal ouviram os problemas dos Vilamaninhenses, logo de partida para outras terras. No ar, a dúvida, a dificuldade de acreditar na mudança.


“O Dia dos Prodígios” é, quanto a mim o retrato de um Portugal esquecido, analfabeto, um Portugal que o 25 de Abril encontrou e que quis libertar.


Outubro 2020


Almerinda Bento


 


 


 

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