terça-feira, 24 de março de 2026

"O Último Avô", Afonso Reis Cabral

 


“O Último Avô” – Afonso Reis Cabral, 2025

 

De todos os livros que li de Afonso Reis Cabral, e li todos, este é o mais elaborado e mais complexo. Há bastante tempo que um livro não me perturbava tanto. É um verdadeiro puzzle, não só pela sequência de capítulos em tempos diferentes, mas pelas personagens cujas vidas se ligam, pelo twist no final do livro e pela extrema atenção que requer por parte do/a leitor/a. Mas, sobretudo, muito bem escrito. Imagino que para o autor que o imaginou e escreveu, precisou de muito tempo, muito rigor e atenção, porque se trata de uma tapeçaria com muitos fios e desenho muito elaborado.

É um livro sobre os traumas da guerra colonial, não só nos que a viveram enquanto soldados, mas nos familiares que viveram as consequências do trauma. A figura central é Campelo, o avô do narrador, a quem deixa como testamento o cuidar da gestão do seu património intelectual. Engenheiro de formação, escritor famoso, Campelo é um egocêntrico, possessivo, violento e obcecado por memórias de África, o tabu de um futuro livro sempre anunciado, mas nunca concretizado. Em torno dele, além do narrador, múltiplas figuras femininas, personagens complexas que se vão desvendando ao longo da  narrativa, essenciais para a caracterização de Campelo. A filha, mãe do narrador – a Formiga – “tímida com o coração selvagem” (pág. 24) que um dia se rebela contra o pai e foge; a avó que se revela  já não como a mulher silenciosa, quando se separa e decide ir viver para Azeitão, onde “se tornara a versão mais feliz de si mesma” (pág. 108); Noélia, a criada, para quem Regina, a fazer um mestrado em Teoria da Literatura envolvendo a obra de Campelo e envolvendo-se com ele, era uma “cabra” (pág. 57); as tias, manas da Formiga, praticamente inexistentes; Cecília, a namorada do narrador, o grande apoio deste ao longo dos vários momentos do romance e, finalmente, Jóia e Estrela da Piedade, as duas africanas da fotografia encontrada entre as recordações de Angola. Porquê esta fotografia? Quem serão estas mulheres? Despojos de guerra?

Quanto aos homens, além de Campelo e do neto (narrador), apenas uma cena com o pai do narrador, afinal um pai ausente; o editor Torres, sempre ansioso por notas ou pelo manuscrito que possa sair à luz para finalmente responder à expectativa do que seria a obra maior de Campelo, numa crítica clara ao meio literário e à avidez pelos sucessos editoriais. E claro, Campelo e Augusto o neto, afinal muito parecidos, por vezes até difíceis de se distinguirem!

O cerne do romance é o manuscrito de Campelo, o mistério em torno do conteúdo do manuscrito que o avô destrói antes de morrer, a ânsia de saber se não haverá outro manuscrito para além do queimado – o manuscrito – eventualmente no quarto fechado que a mãe do narrador ocupou antes de morrer. E também em torno da autoria… Os traumas de guerra que Campelo partilhou com a filha e com o neto, em quem projectou a escrita do seu livro de memórias de África e que o levou um dia a afirmar: “Hoje nasceu um escritor” (pág. 92). A certa altura, o narrador tem a sensação de que o avô quer que seja o neto a escrever o livro por ele e conta-lhe episódios da guerra, fala-lhe de Zacarias, o mulato que salvou das chibatadas, da mãe Jóia e da tia Estrela da Piedade: “Tinha a impressão de que ele se apoderava de mim frase a frase” (pág. 101) “Mas faltava rigor ao imaginário” (pág. 103). É de tal forma intensa esta presença do avô na escrita do neto (até as caligrafias se assemelham), que a certa altura o neto se rebela e não quer continuar a escrever.

O livro vai sendo construído como num puzzle com capítulos curtos entrecortados, até que começam a surgir capítulos escritos em itálico, as histórias da guerra, o tão ansiado manuscrito. Será aquilo um romance, ou antes uma confissão, um romance autobiográfico? É justo publicar uma confissão que venha manchar a memória de alguém que já morreu e que desse modo venha contaminar negativamente as expectativas e uma imagem até então tão positiva? Afinal “qualquer escrito é um engano” (pág. 217) e “Quantas pessoas não são a ficção que fazemos delas, e quantas histórias não andam por aí à solta sem verdade excepto a própria, isto é, a verdade da ficção”. (pág. 269).

Termino com esta transcrição de “O Último Avô” um livro sobre a guerra colonial, difícil e corajoso, que li atentamente e cujos últimos capítulos senti necessidade de reler. “… ocorre-me que este país com a geografia fácil de um rectângulo, mais a porção das ilhas, não tem os quilómetros quadrados necessários para mistérios ou descobertas. (…) Todavia, apesar de claustrofóbico, ainda tem dimensão para segredos: é que Portugal esconde um exército, o exército dos ex-combatentes.

Restam uns trezentos mil soldados da velha guerra. A estatística manda que os encontremos na rua, na sucursal do banco ou dos correios, nos cafés. Frequentam os transportes públicos e sentam-se ao nosso lado na Loja do Cidadão. São eles que conversam entre si durante horas nos bancos de jardim. Uns falam alto, outros perderam a voz. Suspeito de que muitos dos que agarramos pelos pulsos e tornozelos às camas dos hospitais, e que bradam como cercados pelo inimigo, também sejam antigos combatentes. Alguns escondem-se à paisana de velho e à paisana de soldado: como ninguém lhes dá mais de setenta anos, não parecem velhos o suficiente e ninguém desconfia de que combateram em África. Outros entraram em lares” (pág. 245).

7 de Fevereiro de 2026

terça-feira, 17 de março de 2026

As Pessoas Felizes, Agustina Bessa-Luís, 1975

 


“As Pessoas Felizes” – Agustina Bessa-Luís, , 1975

Há muito que estava para ler Agustina. Aliás, quando li a excelente biografia de Agustina Bessa-Luís “O Poço e a Estrada” escrita por Isabel Rio Novo, prometi a mim mesma que iria tirar da estante “A Sibila” do meio dos muitos livros de Agustina que herdei da minha irmã Isabel. Afinal comecei com “As Pessoas Felizes”, graças à proposta de leitura saída do Leia Mulheres que se reúne mensalmente no Museu do Aljube, Resistência e Liberdade, coincidente com o inesperado e injusto afastamento de Rita Rato da direcção deste excelente espaço de cultura e memória situado em Lisboa. Não me esqueço do momento em que o meu filho, então estudante do 3º ciclo, me apareceu com “Dentes de Rato”, para eu o ajudar na compreensão daquele livrinho de Agustina, num trabalho que tinha de apresentar na aula de Português. Nem os comentários de Mónica Baldaque, filha da autora, sobre a crítica a quem faz os programas de Língua Portuguesa, por escolherem “A Sibila” como obra a ser lida por jovens, que certamente, em vez de ficarem com apetência por ler e, especificamente Agustina Bessa-Luís, certamente irão ficar sem vontade de ler esta autora, no futuro.

Não quero ser injusta e fazer uma generalização abusiva, tanto mais que só li “As Pessoas Felizes” de Agustina. Mas, a partir do que li, considero uma leitura difícil, muitas vezes incompreensiva, que estilhaça o senso comum, a ordem previsível das coisas, repleta de aforismos. Uma leitura para ser feita lentamente, voltando muitas vezes atrás, tentando encontrar o fio à meada e muitas vezes não o encontrando… O facto de o livro fazer constantes referências a Anna Karénina e às suas personagens, livro que não li, e a Lev Tolstói e à sua vida, tornaram muitas vezes difícil de compreender algumas das páginas de “As Pessoas Felizes”. Como Isabel Rio Novo escreve em “O Poço e a Estrada” todos os livros de Agustina são biográficos, sem obedecerem a um plano, nascendo como um rio e, com efeito, descobri em Nel “estrela do paradoxo burguês” (p. 177) em “As Pessoas Felizes” muitas semelhanças com a vida de Agustina. Se não tivesse lido a biografia, teria tido mais dificuldade e menos interesse em chegar ao fim do livro.

“As Pessoas Felizes” foi escrito antes e depois do 25 de Abril e se só nas páginas finais do livro se sente que as personagens estão a viver a revolução e os choques nas relações entre as pessoas se intensificam, a verdade é que a autora quis, quanto a mim, mostrar que a pretensa concórdia e harmonia entre as pessoas é muito frágil e que o conflito e a separação das famílias são a norma. Nel, sendo mulher, não segue o padrão feminino tradicional, nem no matrimónio nem na maternidade, aliás tal como Agustina. A personalidade incomum da autora – “sou o que se chama conservadora”/ “sou uma pessoa tranquila, mas não conformada” – demarcando-se do feminismo, apoiou, contudo, o movimento pelo “Sim” à despenalização do aborto em 2007, aconselhava as jovens mães a não se deixarem prender na teia da maternidade e ela própria fez a escolha do homem com quem esteve casada durante 72 anos, saindo absolutamente dos cânones da época.

Em “As Pessoas Felizes” há uma crítica explícita à Mocidade Portuguesa, a Salazar como um moralista e uma pessoa obscura, uma crítica à educação sexual ou à ausência dela. Ou seja, sendo conservadora e de direita, Agustina era uma mulher insubmissa e com atitudes inusitadas e fora dos padrões da época e, embora haja neste seu livro mulheres sujeitas a “humilhações femininas” (p. 23), outras para além de Nel a personagem central, reflectem esse estilhaçar do senso comum que referi em parágrafo anterior. Nel que vai viver com os tios após a morte da mãe “detestou a gente grande. A gente grande era constituída por certo número de pessoas destinadas a lugares de mando ou dum servilismo prepotente. Gente feia, ocupada em coisas enfadonhas e intermináveis.” (págs. 47 e 48) “Nel tornou-se, na casa dos Carrancas, um autêntico pomo de discórdia” (p. 56). Nel era um problema para a tia Florinda “sobretudo porque ela não tinha, como as outras raparigas, o casamento como objectivo. Interessava-se pelos homens, de maneira apenas turística: frequentava-os, mas não pensava em habitá-los.” (p. 77) E quando, finalmente, Nel se casa, a prima atira-lhe estas palavras: “Casas-te porque é a única maneira de não andarem atrás de ti a fazerem-te perguntas obscenas. É chato. Querem saber que espécie de mulher tu és, se não tens cio, se és pela emancipação sexual, se tens a vagina estreita, se és lésbica, se tens o complexo de Édipo. Isto são palavras tuas, não acrescento nada, mas tens razão. É chato.” (p. 82)

Sendo geralmente vaga a localização temporal dos acontecimentos que não surgem numa ordem cronológica perceptível, há, no entanto, a referência a 1961 “ano em que deflagrou o terrorismo no Ultramar” (p. 151). “A culpa abriu-se no coração dos portugueses, e eles aguardaram que ela se transformasse numa medalha ou numa pensão de sangue ou num luto apenas.” (p. 152). “Essa juventude que vivia a guerra ou era neonaturalista ou contestatária. Uns cumpriam o seu tempo de selva e batiam-se não como mercenários, mas também sem o espírito de invulnerabilidade que estimulou o racismo europeu.(…) Outros emigravam. Indocumentados, mas em grande parte munidos duma protecção familiar que tornava o exílio uma aventura de estação. (p. 153)

Já vai longo este texto, mas gostaria de fazer aqui algumas transcrições de trechos em que é feita referência a “pessoas felizes”.

O que faz as pessoas felizes é não terem vida interior. A vida privada raramente coincide com a vida interior.” (p. 118)

“João Afonso Carranca costumava dizer que a generosidade não é própria dos ricos, mas dos felizes. Eram pois pessoas felizes, moderadas nas paixões e nos pensamentos, capazes de vencer preconceitos, para acudir a necessidades. Pois todo o extremo as desgosta e toda a justiça por demais assídua as acaba por descontentar.” (p. 172)  

E quando em 1971 uma série de calamidades caiu sobre a família dos Carrancas “As pessoas felizes desagregavam-se.” (p. 175)

Termino, repetindo que ler Agustina Bessa-Luís não foi fácil. Houve coisas que não percebi, mas nem por isso não deixei de chegar ao fim do livro que terminou na página 184, como podia ter terminado umas tantas páginas antes, quando o rio tivesse secado.

17 de Março de 2026

sexta-feira, 13 de março de 2026

Mudei de casa

 


Quando mudamos de casa é uma trabalheira. Se acumulámos muita coisa na casa antiga, a dor de cabeça é grande e percebemos que temos que deixar alguma coisa para trás e levar apenas o essencial. Neste caso foram só sete anos, mas com muitos livros!

Para esta mudança. antes do mais, tenho que agradecer à Patrícia. Sem ela, não teria conseguido e hoje, finalmente, acabámos a mudança. Antes de escrever aqui, ainda fui fazer as despedidas à casa antiga e deixei lá um poema da Shahd, para que não nos esqueçamos daquele Povo pássaro lá na Palestina. Obrigada a ambas. 

Vamos ver como me vou dar neste novo condomínio e se não perco o contacto com os meus antigos vizinhos. A filosofia é a mesma. Ler e escrever. 

Até já. 

13 de março de 2026


sábado, 28 de fevereiro de 2026

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, Tiago Rodrigues

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“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” -Tiago Rodrigues, 2024

 

O título é suficientemente polémico, para se desejar ver a peça em palco, mas conseguir arranjar bilhetes antes que todas as sessões se esgotem? Li o texto dramatúrgico, li o extraordinário posfácio da autoria de Gonçalo Frota e voltei de novo ao texto, para o ler desta vez com mais atenção aos detalhes  sobre que se debruça o posfácio.

Que grande texto de Tiago Rodrigues, que peça perturbadora e tão polémica esta “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.  Começado a ser construído a partir da ideia de uma família que se reúne anualmente para vingar a morte de Catarina Eufémia, símbolo das mortes de todas as mulheres, ainda com os ecos dos protestos das feministas pelo absurdo do acórdão do juiz Neto Moura que se baseia em citações da Bíblia e no Código Penal de 1886, a eleição do primeiro deputado do Chega em Outubro de 2019 foi o gatilho para o texto cuja apresentação pública estava prevista para meados de 2020. A leitura do posfácio ajuda-nos, leigos, a perceber a complexidade do trabalho de criação de texto e de montagem duma peça teatral, do método de trabalho de Tiago Rodrigues até ao momento da apresentação da peça ao público. Atento ao que se passa no mundo, sensível às ideias e propostas dos actores, rodeando-se de uma equipa que vai de historiadores, a músicos, a estilistas, bailarinos, há todo um trabalho colectivo de criação aberto a alterações e mudanças que podem ser radicalmente diferentes da ideia original. Quando a equipa de actores partiu para a residência artística em Motemor-o-Novo, na primeira semana de Março de 2020, estava longe de imaginar que a pandemia iria alterar definitivamente todo o calendário de trabalho previsto inicialmente. No entanto, em Montemor-o-Novo, o trabalho colectivo, as conversas informais, as ideias individuais, os momentos de lazer, tudo isso foi o combustível que permitiu criar um texto dramatúrgico praticamente finalizado. Com a entrada em cena da pandemia, a interdição de ensaios presenciais trouxe a frustração do trabalho à distância, em tudo contrário à dinâmica criada por Tiago Rodrigues.

Eram muitas as dúvidas que se colocavam quando se fizeram os primeiros ensaios em Junho de 2020. “A pandemia roubou-nos a confiança de imaginarmos o futuro” (p. 181). A peça foi à cena pela primeira vez em Dezembro de 2020 no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, seguindo depois para o Centro Cultural de Belém em Lisboa. A peça situa-se em 2028, no sul de Portugal, com um governo fascista. Em palco, encontra-se reunida a família descendente de uma ceifeira companheira de Catarina Eufémia que há 75 anos deixou uma carta como herança para a família, para que nunca cale a injustiça onde confessa: “Hoje matei um homem. Não o matei pelo mal que me fez, embora estivesse no meu direito. Matei-o pelo bem que não fez” (p. 42). Todas as personagens se chamam Catarina, excepto o fascista também em cena, o ideólogo do partido de extrema direita, raptado para ser morto por uma das mulheres da família.

É uma peça que nos perturba. O que está ali em jogo: justiça ou vingança? Vale a pena continuar a apostar em eleições, em manifestações, em petições, ou a resposta ao ascenso do extremismo fascista tem de se combater com acções radicais? “Deve ou não dar-se a palavra a alguém que discursa contra o edifício democrático? Deve aceitar-se que tenha palco, que use a liberdade para falar sem censura ou, pelo contrário, ser silenciado?” (p. 222)

Se o texto é extremamente forte pelas questões que coloca, pelo carácter quase premonitório de um futuro governo liderado por fascistas, também alerta para os alçapões e fragilidades do sistema democrático que deram azo a que a desconfiança, o ressentimento e a raiva medrassem e dessem espaço ao discurso sedutor, simplista, manipulador e perigoso da extrema-direita.

 

27 de Fevereiro de 2026

 

 

 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Nem Todas as Árvores Morrem de Pé - Luísa Sobral

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“Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” -Luísa Sobral, 2025

No prefácio deste livro, Luísa Sobral revela-nos ser uma escutadora, uma boa ouvinte, que aproveita muito do material de escuta ocasional para as suas criações enquanto autora de canções. Neste caso, para a escrita de “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” o seu primeiro romance. A partir duma “história incrível” lida num jornal de Vila Real, que uma amiga lhe enviou através de uma mensagem de whatsapp, aquela história, não só deu azo a uma canção que ela escreveu logo naquela noite, como lhe ficou a matutar e deu origem a este “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”. Confesso que o Prólogo, que li logo que comprei o livro, é avassalador, muito visual e pus o livro de parte. Mas, na manhã seguinte, voltei a pegar-lhe e li-o em dois dias.

Para já o livro é visualmente muito bonito, para além da escrita poética e bem elaborada, na sua estrutura. Para quem quiser começar pela canção, basta usar o código QR logo a abrir o livro. Depois a capa e as ilustrações de plantas da autoria de Camila Beirão, as quais encimam todos os capítulos da narradora, apaixonada pela natureza e que organiza um herbário com todas as espécies que colhe nas suas saídas para o campo. A narrativa é fragmentária e a história da narradora e das restantes personagens vai-se desvendando aos poucos.  Surgem capítulos com a letra em itálico sendo Emmi a narradora; as cartas de Markus para Emmi e os capítulos também em itálico da Tia da narradora. É da conjugação destes capítulos, interligados com pequenas frases/reflexões/pensamentos, que se constrói este belo livro, muito bem escrito. Detectei que a escolha dos títulos dos capítulos com o nome de plantas, seguido do nome científico e das características das plantas, nomeadamente o seu poder curativo, não foi casual, antes deliberada, o que torna o romance ainda mais interessante.

A história tem como ponto central o Muro de Berlim construído 2 anos antes de M. a narradora ter nascido. O Muro é o regime opressivo, o peso da suspeita e do medo, aquilo que dividiu famílias durante vinte e oito anos. Dividida entre o amor ao pai e o medo de não corresponder ao modelo que ele queria, sente-se rejeitada pela mãe sem ter para isso uma explicação. Tímida, sem vontade própria, foi Mavie a ama que a acompanhou até à entrada na escola e lhe incutiu o amor às plantas e aos seus efeitos curativos. O seu refúgio na natureza e a paixão em fazer um herbário eram os seus momentos de felicidade, ela que “só sabia falar com as plantas” (pág. 22) e para quem “o medo era a minha doença crónica” (pág. 61).

Em contraponto ao Muro, a liberdade protagonizada pelas plantas que a narradora colecciona, o herbário, Mavie, Klaus, Matteo, Francesca, Angelo e a concretização da fuga. Os traumas de infância são de tal forma profundos que é com indiferença que toma conhecimento da queda do Muro. Afinal, os pais são uma cicatriz que continua aberta e aquando do seu casamento com Matteo, “o passado não foi convidado” (pág. 110).  

Emmi, a mãe da narradora, é uma personagem importante nesta história. Os seus sonhos de um amor feliz são brutalmente truncados com uma revelação inesperada. Deprimida, frustrada, encerra-se num mutismo que é ódio primeiro e depois indiferença e numa rejeição da filha recém-nascida que o marido atribui a uma “depressão” o que a ela pareceu “um bom diagnóstico para ser deixada em paz” (pág. 130). O ódio que sempre nutriu pela filha, a quem tratava por miúda, só deixou de existir quando soube que a filha tinha tido a coragem para fugir, a coragem que ela nunca tinha conseguido ter.  Emmi sentia-se cobarde, sentia que estava morta há anos e quando teve conhecimento da fuga “naquele dia comecei a amar a miúda. A minha filha” (pág. 152).

Não revelo mais nada sobre a história, pois vale mesmo a pena ser descoberta.  Quero ainda confessar que este livro me invocou duas amigas. Por causa da capa e das ilustrações botânicas do livro, a Manuela Rosa, professora de desenho e pintura, cujas estimulantes oficinas acompanho mensalmente na Quinta da Fidalga e a Irene Alves, amiga de um clube de leitura, que me ofereceu o “Herbarium” de Emily Dickinson com folhas e flores recolhidas nos campos de Amherst e com “poemas botânicos” traduzidos pela maravilhosa Ana Luísa Amaral.

14 de Fevereiro de 2026

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A Promessa, Silvina Ocampo, 2011

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“A Promessa” -Silvina Ocampo, 2011

“Que livro estranho” foi o que pensei à medida que ia lendo “A Promessa”. Se não desisti e o li até ao fim, deveu-se ao facto de ter sido o livro escolhido para este mês pelo Leia Mulheres e ter interesse em conhecer a opinião das minhas companheiras e companheiros que se juntam uma vez por mês no Museu do Aljube - Resistência e Liberdade, sempre em torno de um livro escrito por uma mulher. Desta vez a argentina Silvina Ocampo.

Também estranho o facto de o livro ter sido revisto, corrigido e concluído entre 1988 e 1989, depois de cerca de três décadas de reescritas constantes. Iniciada a escrita na década de 1960, anunciada a publicação para finais de 1966 e posteriormente para 1975, a revisão e finalização ocorre num período de grande fragilidade de Silvina Ocampo, a par do fim da protagonista, tendo sido publicado postumamente em 2011. A autora caracterizou “A Promessa” como um “romance fantasmagórico” em que autora e narradora estão ligadas por um destino comum.

Devota de Santa Rita, “a padroeira das causas impossíveis” (pág. 11) a narradora faz a promessa de escrever um livro, caso se salve do estúpido desastre que a leva a cair ao mar, sem que ninguém do navio onde seguia, se aperceba da sua queda. Segue-se um desfiar de pessoas que recorda, de histórias que envolvem essas pessoas e que ela não pára de contar, tentando não adormecer, sempre na esperança de poder ser salva, de o navio a poder vir resgatar. Com a perspectiva da morte certa, são muitas as personagens sobretudo ligadas à sua infância que lhe vêm à memória. Nomeia-as, dá-lhes os traços fisionómicos e de carácter que as tornam únicas, mostra os seus defeitos e virtudes, recorda com maior insistência Gabriela (Gabriel), Irene a mãe e Leandro, conta histórias caricatas que algumas protagonizam, sonha, revela o seu amor pelos animais porque são verdadeiros… No fim daquelas pequenas histórias e das personagens que ela traz, o mar está sempre presente, nomeadamente através de uma pequena frase ou período que nos situa a narradora e a sua condição de náufraga que vai resistindo, vai perdendo as forças e a consciência, até ao momento em que em vez de pessoas passa a recordar árvores e animais. “A água está fria, uma araucária ocupa o meu pensamento.” (pág. 98). “Morrerei depressa! Se morrer antes de terminar o que estou a escrever ninguém se lembrará de mim, nem sequer a pessoa que mais amei no mundo.” (pág. 99). “Mal sinto o bater do meu coração. Terei realmente um coração? Ou ter-se-á perdido na água do mar?” (pág. 100).

É sem dúvida um livro pungente, com destaque para os momentos de escrita poética em que a narradora fala do mar em que luta pela sobrevivência. Por que teria Silvana Ocampo levado tanto tempo a escrevê-lo? Por que deixou a parte final para o tempo que sabia que era o fim da sua vida?

 

20 de Fevereiro de 2026

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O último aniversário

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Foram 7 anos por aqui.

O friso de meninas que aqui publiquei há 7 anos, quando pela primeira vez me aventurei no mundo dos blogues, aumentou, como se pode ver nesta imagem. Na altura, agradeci à Helena, à Albertina, à Luísa Bernardo, à Cristina Duarte , à Cristina Delgado e à Chimamanda o incentvo e apoio que me deram para criar um blogue e assim deixar mais arrumados os textos que ia escrevendo. Claro que tenho também que agradecer a todas as pessoas que me foram lendo, comentando e incentivando. Mesmo sabendo que os blogues já não estão na moda nem são muito seguidos, porque deixaram de ter a atractividade das redes sociais  dos nossos dias frenéticos. 

Desde então, foram raros os livros que li sobre os quais não escrevi e por isso, quem me foi seguindo, talvez tenha tido vontade de ler alguns dos belíssimos livros que me têm acompanhado nestes últimos anos. Não posso deixar de dizer que não é com pena que me despeço deste espaço onde me sinto confortável e bem acolhida. Agradeço também a quem já se despediu e foi para outro "condomínio" e me incentivou a não ficar na condição de sem-abrigo.

Sei que o sapo ainda me deixa ficar por aqui algum tempo antes da data do despejo definitivo, mas tenho de me despachar e tomar decisóes. Mais uma vez obrigada e até sempre. 

Almerinda 

19 de Fevereiro de 2026 

 

 

 

 

"O Último Avô", Afonso Reis Cabral

  “O Último Avô” – Afonso Reis Cabral, 2025   De todos os livros que li de Afonso Reis Cabral, e li todos, este é o mais elaborado e mais co...